domingo, 30 de dezembro de 2007

A Ribeira Chã Freguesia Museu

Apresentação do livro por Carlos Melo Bento
Ribeira Chã 13.07.2007

Desafiado para apresentar A Ribeira Chã Freguesia Museu, bem iluminado livro de indisfarçáveis intuitos turísticos, não pude recusar, embora saiba que os meus dotes de divulgador da nossa História estão longe da perfeição. E isto porque me fascina encontrar cada um dos lugares que Frutuoso descreveu na sua geografia física e humana dos princípios do século XV ao XVI em que viveu e morreu. E estes convites, apesar de me atrasarem a vontade de publicar o 4º volume da minha romântica História dos Açores, obra pouco científica dum apaixonado pela aventura açoriana que, com um ou outro defeito, lá vai cumprindo a obrigação que em boa verdade deveria ser desempenhada por outrem com mais saber e obrigação que este sexagenário advogado, que labuta há mais de 40 anos por cumprir a justiça humana, “sem pervertimento, nem paixão guardar e fazer que a todos igualmente o direito, e justiça se guarde”[1].

Já que me pedem para dizer alguma coisa da história da Ribeira Chã, vou começar com Frutuoso e com as suas poucas mas preciosas informações sobre este museu vivo e são que teima em manter-se no mapa micaelense pela melhor das razões: a cultural.

A Ribeira Chã ou das Lagens ficava a um tiro de Falcão da Ribeira do Pisão e o caminho entre as duas fazia pelas rochas algumas voltas; era ela o termo poente de “Vila Franca do Campo / que de nobre precedia/ na ilha de S. Miguel/ a quantas vilas havia”[2]. A primeira pessoa que o nosso maior cronista regista como tendo escolhido esta freguesia (que ele diz situada junto de Água de Pau[3]) para residir, chamou-se Melchior Dias[4] que casou com uma filha de Isabel Nunes Velha, chamada Briolanja Cabral, sobrinha bisneta do nosso descobridor e povoador e primeiro capitão, Frei Gonçalo Velho Cabral, comendador de Almourol e senhor de Pias, valente guerreiro e corajoso homem do mar da casa do alto infante D. Henrique.

Melchior Dias era assim genro de Isabel Nunes Velha e de seu marido Fernão Vaz Pacheco um dos nossos primeiros povoadores, que, por sua vez era genro de Nuno Velho aquele sobrinho que Gonçalo Velho trouxe menino quando veio povoar Santa Maria e que depois passou a esta de S. Miguel cuja capitania o comendador pediu ao Infante lhe desse; mas o príncipe dos mares preferiu o outro sobrinho, João Soares de Albergaria que vivia perto dele. Se Nuno Velho veio para cá à volta de 1444, sua filha terá vivido cerca de 1466, e o genro desta, o nosso Melchior Dias, aí por 1486, poderemos pensar, enquanto não aparecerem outras provas que a Ribeira Chã já era povoada nesta altura.

Sabemos também que uma filha de Melchior e Briolanja, chamada Mécia Cabral casou com o licenciado Sebastião Pimentel, homem de muitas letras e virtudes de quem teve filhos. Este dr. Sebastião Pimentel era por sua vez filho do almoxarife de toda a ilha de S. Miguel, de seu nome Domingos Afonso Pimentel[5]. Certamente que esta gente esteve, residiu ou conviveu na Ribeira Chã.

Melchior Dias foi também pai de Fernão Vaz Pacheco que pelo menos o nome herdou de seu avô materno e que casou com Leonor Medeiros, neta de Lopo Anes de Araújo, o velho, rico e abastado, natural de Viana do Castelo onde era um dos principais e que chegou a S. Miguel à volta de 1506[6].

Leonor Medeiros era filha de António Furtado de Sousa, descendia dos nobres Correias, Sousas e Furtados da ilha da Madeira e era bisneto duma flamenga daquela ilha chamada Solanda Lopes.

Frutuoso, que como disse, morreu ainda no século XVI, fala ainda de Gaspar Dias da Ribeira Chã que pode ser parente do dito Melchior, genro de Luís Mendes Potas também conhecido por Luís Vaz de Lordêlo, o Potas. Aqueles tiveram três filhos, dois homens que foram para as Índias de Castela e uma filha chamada Crisóstoma de Lordêlo casada com Gonçalo Coelho filho de Gabriel Coelho que foi dono dum engenho de açúcar na Ribeira Seca de Vila Franca que lhe transmitiu o aludido Lopo Anes de Araújo. Daqui se pode concluir que no início do nosso povoamento todos se conheciam e estavam todos relacionados por sangue, pelos negócios ou por outras actividades menos nobres.

Mas há uma história passada com dois cunhados deste Gaspar Dias que não resisto a contar: estes jovens tinham sido injuriados por um Belchior Manuel, homem honrado, e, para se vingarem, fizeram-lhe uma espera na serra de Água de Pau, acabando, depois de forte luta por amarrá-lo. Queriam eles cortar-lhes as partes pudendas porque o acusavam de os ter injuriado por outro tanto. Este outro tanto o cronista não revela o que seja e eu nem me atrevo a tentar desvendá-lo para não ferir as vossas susceptibilidades. Mas se o pensaram não o conseguiram fazer pois foram impedidos de o fazer pela oportuna intervenção dum nobre amigo, que a história registou sob o nome de guerra de João Roiz Panelas de Pólvora e de quem se tinham feito acompanhar talvez para que servisse de testemunha qualificada das suas honras feridas; pelo que se limitaram a cortar-lhe as orelhas. O Belchior, porém, libertando-se das cordas que o amarravam, clamou até à cidade em altos berros por el-rei e conseguiu que o corregedor de sua Alteza, Francisco Toscano, fosse logo naquele dia à Ribeira Grande para os prender. Não se sabe o que aconteceu aos Potas, mas o Panelas de Pólvora, aproveitando o rebuliço das festas do Corpo de Deus que nesse dia ocorriam em Ponta Delgada, fugiu disfarçado de marinheiro para a Índia onde foi um grande herói e lá morreu com fama e proveito de muito necessário para o serviço real. E numa das naus em que este tentou resistir ao primeiro cerco de Diu, que o sultão nos impôs em 1537, estava um Belchior Mendes Potas, quem sabe, um dos atacantes da serra de Água de Pau[7].

Sabe-se que este Luís Mendes Potas era fidalgo, homem principal e da governança da Ribeira Grande e era casado com Clara Gregória filha de Gregório Roiz Teixeira que veio para S. Miguel poucos anos antes do Terramoto de Vila Franca que como é conhecido ocorreu em 1522, e sabe-se ainda que este Teixeira era parente de Tristão Vaz Teixeira, capitão de Machico na Madeira que ajudou a descobrir[8], gente honrada e de brasão[9].


Sabe-se também que no dia do dilúvio de Vila Franca, 22 de Outubro de 1522, morreram na Ribeira Chã ou das Lagens, 4 pessoas sepultadas nos escombros duma casa que ruiu[10].

Vizinho destes primeiros povoadores da freguesia museu foi um Pêro Vieira dos Vieiras da Ribeira Grande, amigos do Capitão Manuel da Câmara que limparam com engenhocas por si inventadas, as terras cobertas pelo cinzeiro de 1563. Este Pêro Vieira morava arriba do Pisão entre fresco arvoredo. O Pisão era um engenho de pisar o pastel que como se sabe foi uma das nossas primeiras e maiores riquezas trazidas da Flandres talvez por Guilherme da Silveira ou Jos Dutra do Faial. Os pisões eram movidos por água e geralmente encontravam-se junto de ribeiras muito inclinadas como acontece ao de Angra junto à Memória.

O livro que hoje é lançado, é como disse muito bem iluminado por fotos que se devem a Roberto de Medeiros e Paulino Oliveira de Foto Belarte e, se é certo que uma imagem vale mil palavras, temos que elas descrevem significativamente as belezas estonteantes desta parte da nossa ilha, o arrumo dos lugares públicos de lazer, a moldura do belo casario em presépio preguiçosamente estendido no formoso vale de frescas árvores, a história congelada em momentos roubados pela câmara escura à vida real. Os cultos religiosos que sobreviveram aos séculos da nossa ocupação, o aparecimento da pintura mural do século vinte nos Açores pela mão rigorosa, hábil e sábia de Tomás Borba Vieira, o pintor que soube sobrepor a beleza serena e calma, ao burburinho da turbulenta técnica dos ismos anárquicos que se instalou nas escolas de pintura europeias. A cada dia que passa a sua obra torna-se mais compreensível e encantadora, absorvendo consensos onde antes não os havia. O seu trabalho de serena beleza desliza pelas bem assombradas paredes da nova igreja e serve de símbolo à freguesia modelo que em tempos bem conservadores conseguiu dar um salto para a modernidade
sem perder identidade.

Mas o livro que anuncio tem mais. Guiando o leitor pelos endemismos e pelas indústrias agrícolas do passado vai ensinando os caminhos do espaço paroquial reservado aos visitantes. O rico artesanato micaelense tem aqui o digno pedestal, dele ressaltando a famosa gastronomia lagense. E tudo se acaba com a reconstituição dum espaço íntimo no interior duma casa típica cuja composição faz sonhar com mulheres rendeiras e bordadeiras e artistas de luxo na marcenaria de mistura com comércios da estranja com música de fundo arrancado duma viola da terra que o tocador ali deixou para lembrar que nós de tristes só temos o nome e a saudade. O ponto final é colocado habilmente com uma visão parcelar da estátua do Padre João Caetano Flores da autoria de Mestre Álvaro França, o maior escultor açoriano vivo que ali conseguiu gravar no bronze a destemida e imparável bondade do grande impulsionador da Ribeira Chã moderna. Miranda Amaral e Cristina Decq Mota fizeram o texto sintético e de fácil leitura. Rui Goulart concebeu e conduziu o design. O livro é um bom motor de arranque para uma campanha de dinamização turística que se quer vencedora na arte de mostrar, preservando, tudo aquilo que temos de bom, ganhando alguma coisa com isso, claro está. Por tudo isto está de parabéns esta dinâmica freguesia cuja presidente é justo salientar como responsável pela obra hoje lançada ao grande público e, como todo o ser gerado, irá ter vida própria rodeado de elogios e críticas e, quem sabe, em futuras edições sujeito aos aperfeiçoamentos que o tempo for aconselhando. Senhora Presidente, o seu currículo fala por si e explica que uma vida dedicada ao bem público e prenhe de estudos e obras em favor dos semelhantes que com coragem tomou a seu cargo, permita coordenar e compor uma obra que muito ajudará o viandante a compreender a nossa maneira de ser e o nosso melhor. E num tempo em que tão facilmente se desmerece naqueles que se dedicam como a senhora de alma e coração à coisa pública, sabe bem felicitá-la publicamente pela obra produzida de que este livro serve de símbolo. Bem haja por tudo isso e obrigado a todos pela paciência com que me escutaram.
Carlos Melo Bento
2007-07-13
[1] Ordenações Manuelinas, Livro I, p.1 da ed da F.C.G. de 1984.
[2] Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra, livº. IV, vol. II p.148, ed.1926.
[3] Saudades da Terra, livº. IV, vol. I p.28 ed.1926.
[4] Frutuoso também o coloca com morada no Porto Formoso, id.ib.30.
[5] Id. P.151.
[6] Id. P.195.
[7] Id. Vol. II, p.195
[8] Id. Vol. I, p. 217.
[9] Id. P. 236.
[10] Id. Vol. II, p. 138.

1 comentário:

Marcos Raposo disse...

Parabéns, nobre colega, li apenas a apresentação que está na rede, mas aceite os cumprimentos deste igualmente advogado aqui do Rio de Janeiro que se orgulha de seus ancestrais micaelenses.
Atenciosamente,
Marcos Arruda Raposo,
Rio de Janeiro, Brasil.