Espertocratas
A palavra não é minha, li-a num jornal francês (“expertocrates”) e veio à baila por causa destas questões da crise da banca, do euro e do resto. No meio da confusão geral, erguem-se as figuras de espertos que navegam pela confusão geral, safando-se para já muito bem. O primeiro-ministro britânico vota contra, em nome do alegado interesse do seu país, a alemã bate o pé pelo euro que não está disposta a deixar desvalorizar mesmo que isso signifique a bancarrota dos países mais frágeis e menos poderosos; o francês, sempre à espera duma boa colheita de vinho que paga tudo no seu país, vai empatando até que as eleições lhe caiam no papo, afastado que está o seu grande rival, apanhado num negócio de saias no mínimo muito estranho. Entre nós, o medo do medo fez com que o governo de pseudo direita, entretanto eleito no meio e por causa da dita confusão, estique as unhas, não para reduzir o deficite como era sua estrita obrigação pois foi com isso que conseguiu derrotar os socialistas do Primeiro-ministro José Sócrates, desata num aumento perigoso e irracional de impostos disfarçados não se sabe bem de quê, e a aumentar o horário de trabalho, quando os portugueses já são dos que mais trabalham na Europa, por mais incrível que isso possa parecer, tudo parecendo um 25 de Abril ao contrário, num aproveitamento histérico das fraquezas gerais, sem medir as consequências perigosas para as empresas, para os trabalhadores e para todo o país. Já que os Açores, apesar das contas em dia e certas, não são tidos nem havidos para nada, pois têm que pagar como os outros. Se não roubaram, tivessem roubado. Quase que vale a pena ser como eles. Um tal Ramos, da Madeira proclama que nós estamos tão atrasados que até lavamos ainda a roupa nas ribeiras! Será que eles a lavam na pia onde chafurdam? Espertos, não?
Carlos Melo Bento
2011-12-13
O Testamento
É de estadista o último discurso de César. “Chegam-nos males que não causámos nem procurámos, que podem destruir em escassos meses o que levou anos a construir” ... “Levar os Açores para a frente, com o País a andar para trás, tem sido, (como) andar em sentido contrário numa passadeira rolante”. “Governar é um desafio para vencer nos tempos de abundância como nos tempos de contrariedade”. Mas “Não duvidemos das nossas capacidades, nem tomemos a realidade sempre pela pior das notícias”.”Ninguém merece “o quanto pior melhor”, muito menos os açorianos”. “Não me iludo com os progressos, mas não desanimo com as contrariedades”. Aos outros partidos (e que pena a desnecessária falta de contenção contra o maior) alerta:” Não basta a nenhum partido, por mais modesta que seja a sua representatividade eleitoral, ser o partido que diz mais vezes não”…”Falam para dizer, candidamente, sobre tudo, um pouco de nada. E acreditam que repetindo uma mentira, ela dita muitas vezes pode vir a ser tomada como uma verdade”. É que ”Nesta época de crise o poder central arranja sempre novas justificações para fomentar e praticar o centralismo”…”é preciso que os partidos açorianos estejam, no que mais interessa aos Açores, do mesmo lado do combate. Do lado dos nossos direitos. Do lado dos nossos interesses”. Indica o caminho: “Deve ser claro para todos nós que, quem nas próximas décadas controlar o Mar dos Açores, controlará uma imensa riqueza. Por isso, devemos ser prevenidos. Para isso, devemos estar unidos”…”o Mar dos Açores é o maior desafio estratégico que se coloca à nossa e às próximas gerações”…”O Mar vale todas as batalhas porque o principal do nosso futuro não se prescinde de nenhuma maneira!”. Bom testamento político com um conceito renovado: “a nossa condição açoriana”. Ninguém antes o disse melhor nem com maior autoridade política.
Carlos Melo Bento
2011-12-06
Finesse
A Casa dos Açores do Quebeque convidou-me para falar no povoamento dos Açores. Discorri sobre algumas das primeiras famílias e dos lugares donde vieram. Foi uma tentativa que me parece fascinante de nos situar no verdadeiro espaço de proveniência, pois é um mito termos vindo do Alentejo e do Algarve quando viemos principalmente dos senhorios do Infante e de muitos outros lugares incluindo aqueles dois. Debate animado até às tantas. No dia anterior, falara o Professor Doutor José António de Moraes, jovem catedrático de medicina numa das mais prestigiadas Universidades canadenses, natural da Ribeira Grande e ali desde criança. Soube bem observar o carinho e o respeito com que foi ouvido e tratado e a forma muito hábil como usou o português de adolescente para transmitir conceitos complexos que a assistência demonstrou compreender inteiramente. No dia seguinte, Carlos Botelho fez, com inteligência e tacto, o milagre da transmutação da plateia hostil numa comunidade com esperança em um dos seus. É a comunidade açoriana da diáspora mais sofisticada e empenhada que conheço. Assisti a um desfile de moda da terceira idade (fruto do estímulo que o Prof. Moraes transmite a este grupo etário para auto estima, ocupação do tempo e o envolvimento activo que tudo transformou na vida de tantos). Guilherme Álvares Cabral e Alfredo Bicudo serviram-me de empenhados cicerones na cidade de Luís XIV, o meu anfitrião Manuel António Pereira que as saudades do Liceu não deixam esquecer e uma amizade do tamanho do mundo faz irmão e cozinha o melhor bife de Montreal, incansável e presente. Benjamim Moniz presidiu com dignidade à instituição e ao cerimonial, até quando homenageou o herói da Terceira, comandante Pichet, foi digno de louvor. Tudo se conjugou para transformar a Semana Cultural num êxito total. Parabéns e obrigado por me darem lugar entre vós.
Carlos Melo Bento2011.x.31
Hélas!
O assassinato de Kadafi com o beneplácito de países como a França é uma página vergonhosa na história do ocidente europeu. Andaram com ele ao colo, vendendo-se por petróleo e gás natural para depois o derrubarem sem qualquer pinga de respeito pelo direito internacional. Acusaram-no de fomentar o terrorismo que fez explodir cobardemente um avião cheio de vítimas inocentes. Engoliram a afronta a troco de dinheiro e devolveram-lhe de bandeja um dos criminosos responsáveis pela catástrofe, a pretexto duma manhosa doença em que todos fingiram acreditar. Receberam-no em palácios reais de braços abertos ou deram-lhe jardins faustosos para que se instalasse em luxuosa tenda. Por razões ainda encobertas e mal disfarçadas, invadiram-lhe o país, bombardearam vilas e cidades, dizimaram inocentes e soldados mandados, criaram o caos, acabando por o matar de forma cobarde e ignóbil. Para taparem o sol com peneira rota, lançaram aos ventos que esse velho decrépito e bizarro octogenário tinha 69 anos, curioso número que sempre servia para desviar as atenções às fiúzas duma implicação sexual pecaminosa capaz de distrair os menos atentos mas encobrindo a vergonhosa selvajaria como o executaram. Triste espectáculo! Que falta de dignidade e de escrúpulos. Dizem-se cristãos mas têm apenas a dignidade hipócrita dos fariseus, conspurcando a memória do manso e humilde galileu. Triste exemplo damos nós aos mais novos, calando cobardemente uma indignação que nos daria pelo menos alguma autoridade moral. Honra ao guineense que parece ser o único português à antiga, à face da terra. Desde a revolução francesa que se entende que todos são inocentes até condenação em contrário. Irónico que franceses agora permitam tão bárbaro retrocesso, indigno da civilização que ajudaram a criar e colocaram em tão alto patamar. Hélas!
Carlos Melo Bento
24.X.2011
Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012
Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011
E nós?
A vitória de Jardim faz pensar. Nunca um líder insular tinha tido tanto unanimismo contrário a partir do resto do País. Jornais, revistas, rádios, televisões, todos juntos tentaram tirá-lo do poder. Insuspeitas instâncias ameaçaram-no com processos criminais. O próprio partido dele fora da Madeira lavou as mãos como o romano do Credo. Sozinho, ele ameaçou com a independência: se não querem pagar, então que nos dêem a independência, vociferou ele pelo menos duas vezes. Ninguém tugiu nem mugiu. Também é verdade que ninguém disse que não pagava…e estamos nisto, a ver agora se é mais forte a devoção ou a obrigação. Os madeirenses mantiveram-no. Pelos vistos porque concordam com ele. E o futuro será o tempo de todas as decisões por mais próximas do abismo que ambas pareçam. Isto na Madeira. Por cá, as coisas complicaram-se também. Dizer que as eleições da Madeira não são nada connosco, é errado. Se não fossem, Carlos César não tinha posto fim às dúvidas sobre a sua recandidatura, no último dia da campanha deles. A oposição laranja parecia ter a sua vitória futura dependente disso, numa confissão um tanto disparatada de falta de confiança em si própria. Mas César deu-lhes a volta designando um delfim, embora com uma não candidatura a meia haste porque criou uma situação inédita: mantém o poderoso secretariado e consegue unanimidade sobre o sucessor dentro do PS. Mas o PS não é o eleitorado e não é certo que na passagem da fasquia, a equipa mantenha a mesma velocidade e o mesmo apoio que o prestigiado Presidente teve, dentro e fora do partido. Ávila e Contente foram dois esteios arquipelágicos de peso, eixos sobre os quais girou a indispensável união açoriana e o próprio poder interno no Governo. Com Vasco Cordeiro as coisas nunca serão iguais, caso vença. É o nosso destino que está em jogo, e nas próximas eleições, mais que nunca, não nos podemos enganar.
Carlos Melo Bento
2011-10-11
Carlos Melo Bento
2011-10-11
Sexta-feira, 7 de Outubro de 2011
Quatro Vultos da História do Santa Clara
Discurso proferido no Centro Cultural de Santa Clara no dia 6 de Outubro de 2011.
O meu inimigo de estimação, antigo e brilhante aluno de História, João Pacheco de Melo, hoje um muito escrupuloso investigador da nossa vida desportiva, e um açoriano saudavelmente radical, desafiou-me a falar sobre quatro dirigentes do Clube Desportivo Santa Clara que ajudaram a conduzir as direcções desta mundialmente conhecida instituição, entre 1927 e 1946.
Não me compete, porque não sei, historiar o glorioso e popular clube a que meu Tio e Padrinho, Cristóvão da Estrela Augusto da Silva, presidiu com tanta paixão e alegria. O único clube açoriano a militar, até hoje, na primeira divisão, primeira Liga ou Liga qualquer coisa, (que a imaginação desportiva não tem limites conhecidos), e que vem merecendo especial atenção dos que, entre nós, vivenciam o desporto rei.
Em 1927, a ditadura militar instaurada pela Revolução Nacional de 28 de Maio, governava com mão de ferro desde o ano anterior, o império português a partir de Lisboa, extinguira o Parlamento ou Congresso, nascido com a Constituição de 1911, proibira os partidos e instaurara a censura prévia à imprensa. Parecia presidir ao Estado o General Gomes da Costa que em breve seria exilado para esta ilha, depois dum golpe de estado palaciano atribuído ao General Carmona.
Aqui, governava o distrito autónomo de Ponta Delgada, o Major Abel de Abreu Sottomayor, e, enquanto os deportados da contra revolução democrática desse ano iam sendo encaminhados para os Açores, o terceirense, capitão Eduardo Reis Rebelo, dirigia-se à Assembleia Geral constituinte do Santa Clara, vindo em passo cadenciado da Lombinha dos Cães, ali ao Jardim António Borges, onde morava, para o lugar em que os entusiastas do que viria a ser o desporto rei se reuniram, à Rua do Brum, para criar o agora nosso mais importante clube desportivo. Saiu o nosso bondoso capitão da reunião, eleito por aclamação como presidente da direcção interina que se encarregou de formalizar a nova instituição, dando-lhe o impulso que a elevaria ao trono que hoje ocupa.
A aclamação era uma forma de eleição unanimista muito em moda depois, e durante o Estado Novo quando quase ninguém se atrevia a contrariar as orientações superiores. Em 1927, era porém uma forma espontânea de manifestar o acordo de todos.
O brilhante advogado e professor e escritor Agnelo Casimiro e o sempre devotado Solicitador Inácio de Sousa foram encarregados de elaborar os estatutos.
Longe vinham os tempos em que, com 27 anos, viera Reis Rebelo da sua Angra natal para a maior cidade açoriana. Aqui encontrou o venerando Deão da Sé de Angra, o Dr. Reis Fisher que fora deportado para S. Miguel, no auge da luta anti religiosa dirigida ferozmente por Afonso Costa.
Da Lombinha dos Cães mudaria a sua residência para a 2.ª Rua do Conde, hoje, denominada João Jacinto de Sousa, o militar que governou o nosso Distrito e que haveria de morrer em África, em combate, no início da primeira guerra mundial, para consternação do nosso Distrito.
Nesta rua, Eduardo Reis, em 1952, nos alvores da radiosa primavera micaelense, acabaria os seus dias, rodeado de imponente cerimónia militar, em que as suas condecorações e espada de aparato, depois de expostas em bandeja de prata, sobre almofada de brocado de seda, foram solenemente entregues ao afilhado e parente mais chegado Jorge Reis que nos deu a honra da sua presença aqui, hoje. Pelo meio, além da intensa dedicação ao Santa Clara, ficavam os verões na sua reconfortante casa das Furnas, que só não foi solitária porque além da mulher e fiel companheira, este afilhado e praticamente filho adotivo, a preencheu com o calor humano, agindo quase mais que um avô, o nascimento da filha daquele. Jorge Reis foi desde muito novo a mascote do clube a que o padrinho emprestou dignidade e ordem.
Seria Eduardo Reis Rebelo durante 8 anos, a máxima autoridade do clube, função que abandonou, acabada que foram as obras de adaptação da actual sede do Clube, em 1935.
Nesse ano trocou a presidência da Direcção pela da Assembleia-geral durante um mandato anual, e depois transitou para o Conselho Fiscal até rebentar a segunda guerra mundial. Nos anos da guerra ou seja de 1939 a 1945, fica afastado das lides desportivas, regressando ao órgão de fiscalização do Clube em 46 e 47, aqui terminando a sua acção como responsável no Santa Clara.
A sua gestão não foi isenta de conflitos porque nenhuma é. Afastou-se em 1939 já que o gasto de 20 contos, o equivalente a 100 euros de hoje mas valor muito elevado para a época, foi considerado por alguns como excessivo. Ele porém, entendia que o Santa Clara merecia o melhor.
Coincidentemente com o seu afastamento provisório, rebentou, como disse, a segunda Grande Guerra. Durante esta pavorosa catástrofe humana, Reis Rebelo, por razões que desconhecemos, não estaria em Angola no Corpo Expedicionário Açoriano, sob o alto comando de Moniz da Ponte, ali defendendo a soberania portuguesa. Ao mesmo tempo que Salazar afastava os militares açorianos dos Açores, outros tantos 20.000 continentais nos impediam aqui do que ele suspeitava (aliás sem razão) de veleidades emancipalistas pró americanas.
Mas se Reis Rebelo não foi em missão bélica para África, na 2.ª Guerra, tinha estado vinte anos antes como tenente na 1.ª, ligado à Administração Militar, onde recebeu lisonjeiro louvor pela “grande actividade e são critério” com que desempenhou essas complexas funções, na horrorosa e fatal frente da Flandres. Foi homem integérrimo e sem medo, não vacilou em denunciar a situação ilegal em que se mantinha o então poderoso Comandante da Polícia, Magro Romão, que cumulava o vencimento desse comando com o de oficial de exército que também era. Daí à transferência do rigoroso colega foi um passo.
Como presidente do Clube Desportivo do nosso Bairro operário, pois em Santa Clara sempre teve as suas mais robustas raízes, presidiu Reis Rebelo ao início da mudança do equipamento e do símbolo do leão para uma mestiçagem benfiquista que se haveria de transformar na imitação desnecessária do grande clube português.
Como disse, na ausência duma história do desporto açoriano, não é fácil ainda perceber as razões porque tantos militares se juntam à volta duma iniciativa desportiva deste género mas a verdade é que os políticos sempre as rondaram para, através destas associações, angariarem votos ou simpatia popular. E a existência anterior de outros clubes de futebol sob a invocação da franciscana Santa Clara, a que pertenciam altas figuras do proibido e extinto Partido Democrático, faz pensar que a ditadura militar que dominava agora o País, não se quis deixar de fora do processo desportivo, pelo que, alguns militares disciplinadamente avançaram para os postos desportivos determinados talvez por eventuais ordens superiores.
É ainda interessante lembrar que o Major Reis, posto em que terminou a carreira, pertencia à Maçonaria, mais precisamente à Loja Companheiros da Paz que funcionava em Ponta Delgada, e o nosso homem adoptou ali o pseudónimo de irmão Modesto (famoso pintor de origem espanhola), e nessa organização quase secreta tinha um modesto e mediano grau 14, com a função de “orador”. Maçons da mesma loja eram Dinis José da Silva, o irmão Guerra Junqueiro, e João Joaquim Vicente Jr, o Irmão António José de Almeida, de que falarei a seguir, mas este só três anos depois da inauguração da nova sede seria iniciado nos segredos da irmandade do triângulo do esquadro e do avental. Tratava-se portanto de pessoas que se interessavam pelo bem comum e pelos seus semelhantes.
A outra personalidade que homenageamos hoje, é também militar, o Major João Joaquim Vicente Jr. Fica na nossa história porque preside à Assembleia-geral que decide fundar o clube, e acompanha o Major Reis durante dois anos como seu vice-presidente. O então jovem militar, tem 33 anos, pois nascera em plena campanha para a primeira Autonomia, no seio duma família muito culta e respeitada desta cidade. O seu desporto favorito era precisamente o futebol mas não desdenhava nem a equitação nem a caça.
Como militar foram-lhe conferidas missões delicadas que cumpriu com lisura e eficiência. Em Angola, como alferes, posto em que o colocaram quando ainda frequentava a Escola de Guerra, e, em plena missão expedicionária guerreira, desempenhou-se de tal maneira durante dois longos anos das suas tarefas que, mais tarde, durante o complicado período da 2.ª Grande Guerra, foi o responsável pela então gigantesca Administração Militar nos Açores onde certamente conheceu o Major Reis Rebelo.
Havia mais tarde de frequentar os Altos Estudos Militares mas a morte levou-o quando esperava a justa promoção a Coronel, posto que, por isso, não chegaria a atingir, partindo até sem saber que tinha sido aprovado com distinção no concurso.
A sua cidade natal, ficar-lhe-ia a dever a entrega voluntária ao Asilo de Infância Desvalida que tão assinaláveis serviços prestou a esta terra com quase nenhuns apoios do Estado. Também a Cruz Vermelha de Ponta Delgada beneficiou do seu valioso contributo para o bem-estar dos seus concidadãos, numa época em que a iniciativa particular sustentava praticamente sozinha a obra da assistência social.
Pessoa muito prudente, ficou célebre a forma como se desempenhou na intervenção militar que comandou aquando dos distúrbios na Povoação, ao tempo ainda o celeiro da ilha que, aparentemente estaria vazio, pois casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. Mostrou autoridade e ao mesmo tempo compreensão, debelando os distúrbios sem ter que usar a força, fenómeno raro numa época de autoritarismo exacerbado que neste país à beira mar plantado raramente se fazem as coisas com equilíbrio.
A sua vida familiar correspondeu aos padrões duma família modelar e feliz da sua época. Tiveram três filhos cuja descendência hoje constitui a melhor sociedade desta terra.
Quando Eduardo Reis abandonou a presidência do Santa Clara, já iam longe os distúrbios que tinham levado à demissão e prisão do Governador Civil, Dr. Jaime do Couto cuja simpatia e prestígio levava à cadeia da Boa Nova a elite social e política da terra, pois o medo a Salazar não foi tanto que impedisse a amizade e admiração por um dos maiores baluartes açorianos contra o centralismo.
Vai então assumir a presidência do nosso melhor Clube uma figura de relevo na advocacia micaelense, Alberto Paula de Oliveira o grande orador forense e político. Magro, elegante, sempre vestido a rigor (que diria ele se me visse aqui hoje sem gravata!), voz sonora, olhar penetrante, jurista de eleição e litigante perfeito. Sempre admirei este vizinho simpático e educado, cuja casa frequentei desde tenra idade e não sei mesmo se também não foi por sua causa que enveredei pela profissão que tenho. Mas, se o imitei na oratória, mal de mim que nunca lhe ganhei uma única causa...Era o primeiro civil que dirigia o Santa Clara fundado e dirigido por militares no activo. Comissário Provincial da Mocidade portuguesa, onde o seu colega de curso, Marcello Caetano, era o mais alto dirigente nacional, digamos que não lhe foi difícil adaptar-se à disciplina reinante no popular clube. Mas durou muito pouco o seu reinado, pois a saída de Reis, criticado por ter ambicionado uma sede luxuosa para o clube que ajudara a criar, não deve ter deixado no espírito sensível de Alberto de Oliveira, uma situação cómoda, que a tumultuosa actividade forense desta cidade não facilitava.
No mesmo ano, retira-se para a presidência da Assembleia-geral do Santa Clara para, 3 anos depois, no início da guerra, dirigir o Conselho Fiscal, retomando a presidência do clube durante 1940 e 1941 de cujo primeiro elenco faz parte.
Depois de ter exercido o cargo de vereador, foi presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada no tempo em que Salazar, em plena 2.ª Grande Guerra Mundial, mandava celebrar os dois centenários mais importantes da história de Portugal, em 1940, o da restauração da independência nacional e em 1943, o da fundação do País. Alberto de Oliveira cumpriu o seu consulado presidencial rodeado de simpatia popular, temperando a dureza policial da época com uma gentileza natural, com convites à população que substituíam os decretos, os despachos e as ordens de serviço tão em voga nesses tempos de autoritarismo institucional.
Teve uma acção administrativa muito afectada pelo plano de urbanização do arquiteto Aguiar que pretendia destruir meia cidade para implantar no burgo quinhentista megalómanas avenidas que obviamente não tiveram futuro mas ainda assim deixaram cicatrizes em Ponta Delgada, para além das demoras que impôs às obras projectadas pelos particulares durante décadas. Soube também dar notável apoio ao Bairro Económico de Santa Clara, de tanta qualidade que hoje alberga uma bem estabelecida classe média.
Politicamente, era defensor do centralismo, por isso suportou com vigor uma pública polémica com o grande defensor da autonomia, José Bruno Carreiro. Alberto de Oliveira era natural do Algarve onde seu pai fora Chefe de Finanças, e nasceu dois meses depois de matarem o Rei e o seu filho primogénito sendo dos poucos políticos açorianos do seu tempo que percebeu a importância do governador do Distrito Autónomo de Ponta Delgada, o capitão Sérgio Vieira, continental a quem Ponta Delgada tanto deve, promovendo a concessão do prestigiado galardão de cidadão honorário da nossa cidade, título que lhe iria ser também concedido pela nossa respeitada edilidade.
A Alberto de Oliveira se ficou a dever a salvação do vetusto edifício da Câmara Municipal, arrebatando-o da sanha demolidora que se instalara aquando da construção da discutida Avenida Marginal, tudo na sequência do alerta levantado pelo grande jornalista Manuel Ferreira.
Íntegro chefe de família, Alberto de Oliveira, sem nunca deixar de advogar, chefiou a Secretaria da Junta Geral do Distrito Autónomo de Ponta Delgada. Isso porém não o impedia de pontificar na famosa tertúlia do Café Nacional na Rua Açoriano Oriental onde se reuniam desde há muito os salazaristas mais notórios da cidade, rodeados por pinturas de Luís Bernardo e João Rebelo, filho do grande Mestre Domingos Rebelo.
Faleceria Alberto de Oliveira aos 74 anos, já em plena democracia em cujo funcionamento perfeito nunca acreditou. Sempre elegante e sempre educado, sem nunca deixar o cigarro que o havia de vitimar quando tanto ainda podia ter dado à advocacia que tanto honrou nesta terra. Deixou larga descendência que honra a cidade em todos os ramos de actividade a que zelosamente se dedica.
Vejamos agora a última personalidade que nos vai ocupar hoje. Político da primeira república, convertido aos novos ventos do Estado Novo, precisamente aquele que vitimado pelos sobreditos distúrbios iria provocar, em 1933, uma repressão duríssima dos militares com o triste saldo de três mortos, enterrados à pressa e dissimuladamente, para fugir aos confrontos que doutra forma seriam inevitáveis. Trata-se de Diniz José da Silva.
Este activo cidadão nasceu no Nordeste já no reinado de D. Carlos e aos 38 anos, viria a substituir o advogado ilustre que conduziu o Clube Desportivo Santa Clara alguns meses depois dos decisivos primeiros anos de Reis Rebelo, o qual como vimos, lhe deixara como herança uma sede social condigna. A melhor sede desportiva de que a ilha do Arcanjo dispunha e, parece-me, ainda hoje dispõe.
Diniz da Silva começa a sua vida profissional como empregado de comércio. A república apanha-o aos 21 anos e a sua aproximação da Maçonaria ir-lhe-ia permitir largos voos. De simples funcionário administrativo e guarda amanuense, parte para Administrador do Concelho da Povoação, Ribeira Grande, culminando a sua carreira política e administrativa como Presidente da Câmara do Nordeste. Ficaria na história do concelho (que nos nossos dias vai despontar para a ilha que sempre o considerou outra ilha), como aquela personalidade que mais se bateu para elevar a velha Fazenda, a primeira que houve em S. Miguel, a freguesia, berço de tanta gente ilustre, de que me permito destacar, o Reitor da Universidade de Matemática da Califórnia!
Jaime Hintze, Governador Civil afonsista e Democrático do distrito oriental fá-lo-ia, nos anos 20, seu secretário.
De Relator Fiscal, no último ano em que o Major Reis Rebelo serviu, ele é erguido, depois da saída de Alberto de Oliveira, ao cargo máximo, embora por apenas um ano. Depois, durante 9 anos presidirá à Assembleia-geral.
Claro que foi durante a sua gestão que o Santa Clara se abriu a outras actividades que não apenas o desporto: música com aulas de dança, teatro onde o grande José Barbosa deu grande impulso, palestras, serões dançantes que tanto encantariam os mais novos das classes menos favorecidas com meios de fortuna mas milionários na alegria e na falta de preconceitos que dominavam como lepra social a fechada e classista sociedade micaelense dos meados do século XX.
Mas iria ser como jornalista que Diniz José da Silva haveria de celebrizar-se, em campanhas contundentes de defesa dos interesses locais. Ficou célebre a sua luta antimurina, sensibilizando gregos e troianos, contra o pequeno roedor que tantos e tão graves prejuízos provoca nas nossas culturas agrícolas. Se o tivessem ouvido, muitos açorianos não teriam sucumbido à leptoespirose e podiam ainda estar vivos.
Foi um dos que teve a honra especial de dirigir o mais antigo jornal português em publicação contínua, O Açoriano Oriental, rodavam os movimentados anos sessenta de dolorosa memória e havia falecido o denodado Ferreira de Almeida que o manteve contra ventos e marés como coisa sua, tudo arriscando para manter vivo, o que afinal era património cultural de todos nós.
Dinis da Silva não era pessoa de meias tintas, tornando-se com o tempo, ainda mais radical na defesa dos seus pontos de vista.
A nossa história vai registar a sua adesão radical ao salazarismo e à igreja tradicionalista. Ficou célebre a polémica que suportou com o Padre Dr. Hermínio Pontes sobre a pessoa e as teorias de Teilhard de Chardin, um dos ícones mundiais do progressismo católico que os mais conservadores consideravam peixinhos vermelhos em pias de água benta.
Dinis da Silva iria tornar-se radical contra a Oposição ao Estado Novo mas isso não impediria que as excursões do Clube Desportivo Santa Clara do seu tempo parassem sempre na Gorreana onde o seu antigo chefe, o Democrático Jaime Hintze, residia.
Embalado o Santa Clara com vitórias que o tornaram campeão de S. Miguel durante sete anos seguidos, o clube mantém a invencibilidade durante o mandato de Dinis José da Silva, no ano desportivo de 1936/1937, quando a Espanha entrava para a mais sangrenta guerra civil da sua conturbada história que haveria de vitimar mais dum milhão de pessoas oriundas de todo o mundo.
Conheci-lhe três filhos. Um foi presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada e dirigiu o Instituto Geográfico Cadastral, com obra científica de alto valor publicada. O outro, açoriano radical a quem esta terra e a presente autonomia tanto devem. Sua filha, casada com um médico ilustre desta terra, também tem descendência que exerce a mesma arte, depois de servir a Pátria em longes e quase esquecidas terras.
Dinis José da Silva viria a falecer a 4 de Maio de 1973, com 84 anos incompletos, em Santa Clara onde morava à Rua José Bensaúde, o cientista micaelense que fundou o Instituto Superior Técnico.
Não sei se consegui, nesta breve aguarela dar uma ideia ainda que pálida destes homens a quem o Santa Clara encarregou de dirigir os seus destinos em tempos tão especiais da nossa história. Foi o que pude recolher no pouco tempo que tive para isso. Falta uma história do desporto açoriano e é bom que alguém lance ombros a tão meritória tarefa para que se não perca o rasto daqueles que tão apaixonadamente vivem o mais encantador dos entretenimentos humanos e um dos pilares da união entre os homens de boa vontade.
Ponta Delgada, 6 de Outubro de 2011
Carlos Melo Bento
Não me compete, porque não sei, historiar o glorioso e popular clube a que meu Tio e Padrinho, Cristóvão da Estrela Augusto da Silva, presidiu com tanta paixão e alegria. O único clube açoriano a militar, até hoje, na primeira divisão, primeira Liga ou Liga qualquer coisa, (que a imaginação desportiva não tem limites conhecidos), e que vem merecendo especial atenção dos que, entre nós, vivenciam o desporto rei.
Em 1927, a ditadura militar instaurada pela Revolução Nacional de 28 de Maio, governava com mão de ferro desde o ano anterior, o império português a partir de Lisboa, extinguira o Parlamento ou Congresso, nascido com a Constituição de 1911, proibira os partidos e instaurara a censura prévia à imprensa. Parecia presidir ao Estado o General Gomes da Costa que em breve seria exilado para esta ilha, depois dum golpe de estado palaciano atribuído ao General Carmona.
Aqui, governava o distrito autónomo de Ponta Delgada, o Major Abel de Abreu Sottomayor, e, enquanto os deportados da contra revolução democrática desse ano iam sendo encaminhados para os Açores, o terceirense, capitão Eduardo Reis Rebelo, dirigia-se à Assembleia Geral constituinte do Santa Clara, vindo em passo cadenciado da Lombinha dos Cães, ali ao Jardim António Borges, onde morava, para o lugar em que os entusiastas do que viria a ser o desporto rei se reuniram, à Rua do Brum, para criar o agora nosso mais importante clube desportivo. Saiu o nosso bondoso capitão da reunião, eleito por aclamação como presidente da direcção interina que se encarregou de formalizar a nova instituição, dando-lhe o impulso que a elevaria ao trono que hoje ocupa.
A aclamação era uma forma de eleição unanimista muito em moda depois, e durante o Estado Novo quando quase ninguém se atrevia a contrariar as orientações superiores. Em 1927, era porém uma forma espontânea de manifestar o acordo de todos.
O brilhante advogado e professor e escritor Agnelo Casimiro e o sempre devotado Solicitador Inácio de Sousa foram encarregados de elaborar os estatutos.
Longe vinham os tempos em que, com 27 anos, viera Reis Rebelo da sua Angra natal para a maior cidade açoriana. Aqui encontrou o venerando Deão da Sé de Angra, o Dr. Reis Fisher que fora deportado para S. Miguel, no auge da luta anti religiosa dirigida ferozmente por Afonso Costa.
Da Lombinha dos Cães mudaria a sua residência para a 2.ª Rua do Conde, hoje, denominada João Jacinto de Sousa, o militar que governou o nosso Distrito e que haveria de morrer em África, em combate, no início da primeira guerra mundial, para consternação do nosso Distrito.
Nesta rua, Eduardo Reis, em 1952, nos alvores da radiosa primavera micaelense, acabaria os seus dias, rodeado de imponente cerimónia militar, em que as suas condecorações e espada de aparato, depois de expostas em bandeja de prata, sobre almofada de brocado de seda, foram solenemente entregues ao afilhado e parente mais chegado Jorge Reis que nos deu a honra da sua presença aqui, hoje. Pelo meio, além da intensa dedicação ao Santa Clara, ficavam os verões na sua reconfortante casa das Furnas, que só não foi solitária porque além da mulher e fiel companheira, este afilhado e praticamente filho adotivo, a preencheu com o calor humano, agindo quase mais que um avô, o nascimento da filha daquele. Jorge Reis foi desde muito novo a mascote do clube a que o padrinho emprestou dignidade e ordem.
Seria Eduardo Reis Rebelo durante 8 anos, a máxima autoridade do clube, função que abandonou, acabada que foram as obras de adaptação da actual sede do Clube, em 1935.
Nesse ano trocou a presidência da Direcção pela da Assembleia-geral durante um mandato anual, e depois transitou para o Conselho Fiscal até rebentar a segunda guerra mundial. Nos anos da guerra ou seja de 1939 a 1945, fica afastado das lides desportivas, regressando ao órgão de fiscalização do Clube em 46 e 47, aqui terminando a sua acção como responsável no Santa Clara.
A sua gestão não foi isenta de conflitos porque nenhuma é. Afastou-se em 1939 já que o gasto de 20 contos, o equivalente a 100 euros de hoje mas valor muito elevado para a época, foi considerado por alguns como excessivo. Ele porém, entendia que o Santa Clara merecia o melhor.
Coincidentemente com o seu afastamento provisório, rebentou, como disse, a segunda Grande Guerra. Durante esta pavorosa catástrofe humana, Reis Rebelo, por razões que desconhecemos, não estaria em Angola no Corpo Expedicionário Açoriano, sob o alto comando de Moniz da Ponte, ali defendendo a soberania portuguesa. Ao mesmo tempo que Salazar afastava os militares açorianos dos Açores, outros tantos 20.000 continentais nos impediam aqui do que ele suspeitava (aliás sem razão) de veleidades emancipalistas pró americanas.
Mas se Reis Rebelo não foi em missão bélica para África, na 2.ª Guerra, tinha estado vinte anos antes como tenente na 1.ª, ligado à Administração Militar, onde recebeu lisonjeiro louvor pela “grande actividade e são critério” com que desempenhou essas complexas funções, na horrorosa e fatal frente da Flandres. Foi homem integérrimo e sem medo, não vacilou em denunciar a situação ilegal em que se mantinha o então poderoso Comandante da Polícia, Magro Romão, que cumulava o vencimento desse comando com o de oficial de exército que também era. Daí à transferência do rigoroso colega foi um passo.
Como presidente do Clube Desportivo do nosso Bairro operário, pois em Santa Clara sempre teve as suas mais robustas raízes, presidiu Reis Rebelo ao início da mudança do equipamento e do símbolo do leão para uma mestiçagem benfiquista que se haveria de transformar na imitação desnecessária do grande clube português.
Como disse, na ausência duma história do desporto açoriano, não é fácil ainda perceber as razões porque tantos militares se juntam à volta duma iniciativa desportiva deste género mas a verdade é que os políticos sempre as rondaram para, através destas associações, angariarem votos ou simpatia popular. E a existência anterior de outros clubes de futebol sob a invocação da franciscana Santa Clara, a que pertenciam altas figuras do proibido e extinto Partido Democrático, faz pensar que a ditadura militar que dominava agora o País, não se quis deixar de fora do processo desportivo, pelo que, alguns militares disciplinadamente avançaram para os postos desportivos determinados talvez por eventuais ordens superiores.
É ainda interessante lembrar que o Major Reis, posto em que terminou a carreira, pertencia à Maçonaria, mais precisamente à Loja Companheiros da Paz que funcionava em Ponta Delgada, e o nosso homem adoptou ali o pseudónimo de irmão Modesto (famoso pintor de origem espanhola), e nessa organização quase secreta tinha um modesto e mediano grau 14, com a função de “orador”. Maçons da mesma loja eram Dinis José da Silva, o irmão Guerra Junqueiro, e João Joaquim Vicente Jr, o Irmão António José de Almeida, de que falarei a seguir, mas este só três anos depois da inauguração da nova sede seria iniciado nos segredos da irmandade do triângulo do esquadro e do avental. Tratava-se portanto de pessoas que se interessavam pelo bem comum e pelos seus semelhantes.
A outra personalidade que homenageamos hoje, é também militar, o Major João Joaquim Vicente Jr. Fica na nossa história porque preside à Assembleia-geral que decide fundar o clube, e acompanha o Major Reis durante dois anos como seu vice-presidente. O então jovem militar, tem 33 anos, pois nascera em plena campanha para a primeira Autonomia, no seio duma família muito culta e respeitada desta cidade. O seu desporto favorito era precisamente o futebol mas não desdenhava nem a equitação nem a caça.
Como militar foram-lhe conferidas missões delicadas que cumpriu com lisura e eficiência. Em Angola, como alferes, posto em que o colocaram quando ainda frequentava a Escola de Guerra, e, em plena missão expedicionária guerreira, desempenhou-se de tal maneira durante dois longos anos das suas tarefas que, mais tarde, durante o complicado período da 2.ª Grande Guerra, foi o responsável pela então gigantesca Administração Militar nos Açores onde certamente conheceu o Major Reis Rebelo.
Havia mais tarde de frequentar os Altos Estudos Militares mas a morte levou-o quando esperava a justa promoção a Coronel, posto que, por isso, não chegaria a atingir, partindo até sem saber que tinha sido aprovado com distinção no concurso.
A sua cidade natal, ficar-lhe-ia a dever a entrega voluntária ao Asilo de Infância Desvalida que tão assinaláveis serviços prestou a esta terra com quase nenhuns apoios do Estado. Também a Cruz Vermelha de Ponta Delgada beneficiou do seu valioso contributo para o bem-estar dos seus concidadãos, numa época em que a iniciativa particular sustentava praticamente sozinha a obra da assistência social.
Pessoa muito prudente, ficou célebre a forma como se desempenhou na intervenção militar que comandou aquando dos distúrbios na Povoação, ao tempo ainda o celeiro da ilha que, aparentemente estaria vazio, pois casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. Mostrou autoridade e ao mesmo tempo compreensão, debelando os distúrbios sem ter que usar a força, fenómeno raro numa época de autoritarismo exacerbado que neste país à beira mar plantado raramente se fazem as coisas com equilíbrio.
A sua vida familiar correspondeu aos padrões duma família modelar e feliz da sua época. Tiveram três filhos cuja descendência hoje constitui a melhor sociedade desta terra.
Quando Eduardo Reis abandonou a presidência do Santa Clara, já iam longe os distúrbios que tinham levado à demissão e prisão do Governador Civil, Dr. Jaime do Couto cuja simpatia e prestígio levava à cadeia da Boa Nova a elite social e política da terra, pois o medo a Salazar não foi tanto que impedisse a amizade e admiração por um dos maiores baluartes açorianos contra o centralismo.
Vai então assumir a presidência do nosso melhor Clube uma figura de relevo na advocacia micaelense, Alberto Paula de Oliveira o grande orador forense e político. Magro, elegante, sempre vestido a rigor (que diria ele se me visse aqui hoje sem gravata!), voz sonora, olhar penetrante, jurista de eleição e litigante perfeito. Sempre admirei este vizinho simpático e educado, cuja casa frequentei desde tenra idade e não sei mesmo se também não foi por sua causa que enveredei pela profissão que tenho. Mas, se o imitei na oratória, mal de mim que nunca lhe ganhei uma única causa...Era o primeiro civil que dirigia o Santa Clara fundado e dirigido por militares no activo. Comissário Provincial da Mocidade portuguesa, onde o seu colega de curso, Marcello Caetano, era o mais alto dirigente nacional, digamos que não lhe foi difícil adaptar-se à disciplina reinante no popular clube. Mas durou muito pouco o seu reinado, pois a saída de Reis, criticado por ter ambicionado uma sede luxuosa para o clube que ajudara a criar, não deve ter deixado no espírito sensível de Alberto de Oliveira, uma situação cómoda, que a tumultuosa actividade forense desta cidade não facilitava.
No mesmo ano, retira-se para a presidência da Assembleia-geral do Santa Clara para, 3 anos depois, no início da guerra, dirigir o Conselho Fiscal, retomando a presidência do clube durante 1940 e 1941 de cujo primeiro elenco faz parte.
Depois de ter exercido o cargo de vereador, foi presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada no tempo em que Salazar, em plena 2.ª Grande Guerra Mundial, mandava celebrar os dois centenários mais importantes da história de Portugal, em 1940, o da restauração da independência nacional e em 1943, o da fundação do País. Alberto de Oliveira cumpriu o seu consulado presidencial rodeado de simpatia popular, temperando a dureza policial da época com uma gentileza natural, com convites à população que substituíam os decretos, os despachos e as ordens de serviço tão em voga nesses tempos de autoritarismo institucional.
Teve uma acção administrativa muito afectada pelo plano de urbanização do arquiteto Aguiar que pretendia destruir meia cidade para implantar no burgo quinhentista megalómanas avenidas que obviamente não tiveram futuro mas ainda assim deixaram cicatrizes em Ponta Delgada, para além das demoras que impôs às obras projectadas pelos particulares durante décadas. Soube também dar notável apoio ao Bairro Económico de Santa Clara, de tanta qualidade que hoje alberga uma bem estabelecida classe média.
Politicamente, era defensor do centralismo, por isso suportou com vigor uma pública polémica com o grande defensor da autonomia, José Bruno Carreiro. Alberto de Oliveira era natural do Algarve onde seu pai fora Chefe de Finanças, e nasceu dois meses depois de matarem o Rei e o seu filho primogénito sendo dos poucos políticos açorianos do seu tempo que percebeu a importância do governador do Distrito Autónomo de Ponta Delgada, o capitão Sérgio Vieira, continental a quem Ponta Delgada tanto deve, promovendo a concessão do prestigiado galardão de cidadão honorário da nossa cidade, título que lhe iria ser também concedido pela nossa respeitada edilidade.
A Alberto de Oliveira se ficou a dever a salvação do vetusto edifício da Câmara Municipal, arrebatando-o da sanha demolidora que se instalara aquando da construção da discutida Avenida Marginal, tudo na sequência do alerta levantado pelo grande jornalista Manuel Ferreira.
Íntegro chefe de família, Alberto de Oliveira, sem nunca deixar de advogar, chefiou a Secretaria da Junta Geral do Distrito Autónomo de Ponta Delgada. Isso porém não o impedia de pontificar na famosa tertúlia do Café Nacional na Rua Açoriano Oriental onde se reuniam desde há muito os salazaristas mais notórios da cidade, rodeados por pinturas de Luís Bernardo e João Rebelo, filho do grande Mestre Domingos Rebelo.
Faleceria Alberto de Oliveira aos 74 anos, já em plena democracia em cujo funcionamento perfeito nunca acreditou. Sempre elegante e sempre educado, sem nunca deixar o cigarro que o havia de vitimar quando tanto ainda podia ter dado à advocacia que tanto honrou nesta terra. Deixou larga descendência que honra a cidade em todos os ramos de actividade a que zelosamente se dedica.
Vejamos agora a última personalidade que nos vai ocupar hoje. Político da primeira república, convertido aos novos ventos do Estado Novo, precisamente aquele que vitimado pelos sobreditos distúrbios iria provocar, em 1933, uma repressão duríssima dos militares com o triste saldo de três mortos, enterrados à pressa e dissimuladamente, para fugir aos confrontos que doutra forma seriam inevitáveis. Trata-se de Diniz José da Silva.
Este activo cidadão nasceu no Nordeste já no reinado de D. Carlos e aos 38 anos, viria a substituir o advogado ilustre que conduziu o Clube Desportivo Santa Clara alguns meses depois dos decisivos primeiros anos de Reis Rebelo, o qual como vimos, lhe deixara como herança uma sede social condigna. A melhor sede desportiva de que a ilha do Arcanjo dispunha e, parece-me, ainda hoje dispõe.
Diniz da Silva começa a sua vida profissional como empregado de comércio. A república apanha-o aos 21 anos e a sua aproximação da Maçonaria ir-lhe-ia permitir largos voos. De simples funcionário administrativo e guarda amanuense, parte para Administrador do Concelho da Povoação, Ribeira Grande, culminando a sua carreira política e administrativa como Presidente da Câmara do Nordeste. Ficaria na história do concelho (que nos nossos dias vai despontar para a ilha que sempre o considerou outra ilha), como aquela personalidade que mais se bateu para elevar a velha Fazenda, a primeira que houve em S. Miguel, a freguesia, berço de tanta gente ilustre, de que me permito destacar, o Reitor da Universidade de Matemática da Califórnia!
Jaime Hintze, Governador Civil afonsista e Democrático do distrito oriental fá-lo-ia, nos anos 20, seu secretário.
De Relator Fiscal, no último ano em que o Major Reis Rebelo serviu, ele é erguido, depois da saída de Alberto de Oliveira, ao cargo máximo, embora por apenas um ano. Depois, durante 9 anos presidirá à Assembleia-geral.
Claro que foi durante a sua gestão que o Santa Clara se abriu a outras actividades que não apenas o desporto: música com aulas de dança, teatro onde o grande José Barbosa deu grande impulso, palestras, serões dançantes que tanto encantariam os mais novos das classes menos favorecidas com meios de fortuna mas milionários na alegria e na falta de preconceitos que dominavam como lepra social a fechada e classista sociedade micaelense dos meados do século XX.
Mas iria ser como jornalista que Diniz José da Silva haveria de celebrizar-se, em campanhas contundentes de defesa dos interesses locais. Ficou célebre a sua luta antimurina, sensibilizando gregos e troianos, contra o pequeno roedor que tantos e tão graves prejuízos provoca nas nossas culturas agrícolas. Se o tivessem ouvido, muitos açorianos não teriam sucumbido à leptoespirose e podiam ainda estar vivos.
Foi um dos que teve a honra especial de dirigir o mais antigo jornal português em publicação contínua, O Açoriano Oriental, rodavam os movimentados anos sessenta de dolorosa memória e havia falecido o denodado Ferreira de Almeida que o manteve contra ventos e marés como coisa sua, tudo arriscando para manter vivo, o que afinal era património cultural de todos nós.
Dinis da Silva não era pessoa de meias tintas, tornando-se com o tempo, ainda mais radical na defesa dos seus pontos de vista.
A nossa história vai registar a sua adesão radical ao salazarismo e à igreja tradicionalista. Ficou célebre a polémica que suportou com o Padre Dr. Hermínio Pontes sobre a pessoa e as teorias de Teilhard de Chardin, um dos ícones mundiais do progressismo católico que os mais conservadores consideravam peixinhos vermelhos em pias de água benta.
Dinis da Silva iria tornar-se radical contra a Oposição ao Estado Novo mas isso não impediria que as excursões do Clube Desportivo Santa Clara do seu tempo parassem sempre na Gorreana onde o seu antigo chefe, o Democrático Jaime Hintze, residia.
Embalado o Santa Clara com vitórias que o tornaram campeão de S. Miguel durante sete anos seguidos, o clube mantém a invencibilidade durante o mandato de Dinis José da Silva, no ano desportivo de 1936/1937, quando a Espanha entrava para a mais sangrenta guerra civil da sua conturbada história que haveria de vitimar mais dum milhão de pessoas oriundas de todo o mundo.
Conheci-lhe três filhos. Um foi presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada e dirigiu o Instituto Geográfico Cadastral, com obra científica de alto valor publicada. O outro, açoriano radical a quem esta terra e a presente autonomia tanto devem. Sua filha, casada com um médico ilustre desta terra, também tem descendência que exerce a mesma arte, depois de servir a Pátria em longes e quase esquecidas terras.
Dinis José da Silva viria a falecer a 4 de Maio de 1973, com 84 anos incompletos, em Santa Clara onde morava à Rua José Bensaúde, o cientista micaelense que fundou o Instituto Superior Técnico.
Não sei se consegui, nesta breve aguarela dar uma ideia ainda que pálida destes homens a quem o Santa Clara encarregou de dirigir os seus destinos em tempos tão especiais da nossa história. Foi o que pude recolher no pouco tempo que tive para isso. Falta uma história do desporto açoriano e é bom que alguém lance ombros a tão meritória tarefa para que se não perca o rasto daqueles que tão apaixonadamente vivem o mais encantador dos entretenimentos humanos e um dos pilares da união entre os homens de boa vontade.
Ponta Delgada, 6 de Outubro de 2011
Carlos Melo Bento
Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011
Oxalá
Esta questão da Madeira está a ficar preocupante porque nos prejudica. Com a mania, dos políticos portugueses confundirem os dois arquipélagos, tendência que a maior parte da população compartilha porque para eles, é tudo “a ilha”, há que ter cuidado. Nem tudo é justificável em política partidária. Já não falo nos insultos ou insinuações ou exageros ou até mentiras. Porque na luta pelo poder temos visto os eleitores engolirem de tudo e gostarem. Como o destino das eleições é para o comum das gentes, escolher o próximo de que se irá falar mal, não vai nisso nenhum mal ao mundo e o povo que se desenrasque que cada um tem o governo que merece. O problema agudiza-se quando, por falta de escrúpulos, se ofende o principal. Num daqueles exageros que cometi no tempo da luta pela independência, proclamei que “acima dos Açores, só Deus”. Em certa medida, queria significar que os Açores (e dentro deles os açorianos) são um valor absoluto, pelo menos para nós. Tudo o que bulir com isso, deve ser inadmissível. Caso contrário, é a mesma coisa que vermos bater num filho e não fazer nada. É contra natura. A dívida da Madeira é muito grande e terá sido contraída à revelia do governo central (como se este nunca tivesse feito nada à nossa revelia!) mas há que não esquecer que os madeirenses beneficiados com ele são mais dum milhão e nós vemos dívidas de empresas públicas portuguesas muito mais elevadas e servindo muito menos gente. Penso que um governo de mais de 30 anos, como o da Madeira, não é saudável porque os governos muito longos baseados numa só pessoa geram distorções perigosas para uma democracia que se quer sã. Mas a campanha miserável e unânime que do continente é movida contra Jardim, se fosse nos Açores, provavelmente teria o efeito contrário ao pretendido. E, aqui para a gente, oxalá que sim.
Carlos Melo Bento
2011-10-03
Carlos Melo Bento
2011-10-03
Sábado, 24 de Setembro de 2011
A quem e em quê?
Nesta tormenta financeira que nos envolveu e que tantas arrelias nos vem trazendo, há duas perguntas que parecem legítimas sobre as dívidas que nos são reveladas em catadupa todos os dias. Gastaram 500 toneladas de ouro da pesada herança salazarista das 800 que ele deixou aferrolhadas. Da Europa, em ajudas, caíram para aí qualquer coisa como 200.000 milhões de euros. A dívida pública parece que anda também a rondar os mesmos 200.000 milhões. Desculpar-me-ão os leitores se não dou números mais precisos mas acho que ninguém sabe a quantas andam, ou sabem e não querem dizer. Estamos pois a falar duma coisa parecida com meio bilião de euros, número que dá vertigens só de pensar. Dinheiro que juntamente com os milhares de milhões dos impostos entrou nos cofres do estado e que, aparentemente, saiu deles. A primeira pergunta que parece legítima é saber a quem é que se deve tanto dinheiro? Quem é o felizardo a quem teremos de pagar essas dívidas? Depois, e é a segunda pergunta, em que é que foi gasto tanto dinheiro? É que é muita pasta! Somadas as auto estradas, as escolas, hospitais e respectiva manutenção, bairros sociais e subsídios de toda a sorte, parece-me que não chegamos a tanta massa. Mesmo juntando os mistérios que para aí andam como almas penadas, ou sejam, os bancos fantasmas e outras “legalidades” tais como ordenados milionários (refiro-me a milhões e não aos miseráveis centenas de milhares de “€”), continua a ser muita massa. Outro fantasma monetário é o chamado offshore que ainda ninguém explicou com clareza do que se trata. Seja lá como for, há aí muita marosca inexplicada de que nenhum responsável do governo central pode ser absolvido, a não ser como ensinava Jorge Amado na D. Flor, no colectivo ninguém tem culpa…Duma maneira ou doutra, será que Jardim não teve razão? Haja moralidade ou comem todos…
Carlos Melo Bento
2011-09-20
Carlos Melo Bento
2011-09-20
Sábado, 10 de Setembro de 2011
E o Banco?
A maioria das pessoas não se apercebeu mas a tempestade económica está aí a cair com o cortejo de dificuldades de que sempre se rodeia. Produzir e poupar, dizia-se nos anos trinta. Agora não se sabe se isso é bom. Há sábios dizendo que austeridade não é progresso. O tamanho do estado e o consumo como fonte de produção criaram nova lógica. Isso não significa que deixemos de arrecadar aquilo a que temos direito e que deixemos roubar o que nos pertence. Veja-se o muito que sai destas ilhas no jogo. No tempo do jogo do bicho que se fazia à socapa, mudavam de mãos 250.000 contos por semana, uma coisa parecida com um pouco mais de um milhão de euros. Sem impostos mas com sustos. Sempre defendi um jogo nosso e foi com alegria que vi o raspa abrir caminho. Mesmo assim, a miragem dos euromihões, do totoloto e das lotarias tradicionais continua a drenar para fora, milhões, todas as semanas, sem qualquer contrapartida pois as probabilidades são ínfimas para nós. Claro que o cidadão comum não o entende e, com as propagandas encurtando criminosamente distâncias incontornáveis, ei-lo fazendo bichas à porta dos postos de venda quando há jackpot que continua tão distante como o resto. Tudo bem que cada um faz do seu os disparates que quiser. O pior é quando surge o crime organizado. Agora parece que os postos de venda dos totolotos e milhões foram proibidos de vender os raspas. Se vendes os raspas, não nos vendes a nós. Mais ou menos como as cervejeiras que compram ilegalmente monopólios de vendas de certas marcas, emprestando dinheiro para durante anos só poder vender a marca do credor. Sempre há uns espertos que abrem falência e não pagam mas o resultado é a nossa fábrica que tem a melhor e mais barata cerveja do planeta estar às moscas e não é só porque os terceirenses se recusam (vai lá saber-se porquê) a consumir produtos nossos. E o banco?
Caros Meo Bento
8.8.2011
Caros Meo Bento
8.8.2011
Apátridas
Da Vinci dizia que o emigrante é-o em dois lugares: na terra para onde emigra e na de onde emigrou. Infeliz verdade que atormenta gerações de gente desta terra, obrigadas pela necessidade ou aventura a partir. A América, terra estranha e de estranhos, fria e pouco própria para os nossos costumes, foi a escolhida dos açorianos, pela caça à baleia, pela febre do ouro ou pelo trabalho mais bem pago. Depois, as cartas de chamada tornaram-na no lugar de residência da maioria da nossa população. Recebem-nos bem mas sem grandes preocupações de legalização, pois os ilegais são mais domesticáveis, baratos e descartáveis. Já é a segunda vez (que saiba) que o governo daquela grande e poderosa Nação repatria açorianos. A primeira, foi no tempo do presidente Roosevelt e da grande depressão e agora. Temos aí mais dum milhar de pessoas inadaptadas à nossa pacatez de vida e sem familiares próximos, arrancados aos seus por uma política economicista que ignora os mais elementares sentimentos familiares, no respeito dos quais, aliás, a América é pioneira. Desintegrados, os repatriados estão a transformar-se num problema muito grave em terra muito pequena e sem meios. A nossa política nesse sentido tem tido, em relação a alguns casos mais chocantes, resultados frustrantes. Eles traficam, eles agridem, eles consomem, eles assaltam, eles ocupam casas semi abandonadas. Enfim, não têm medo e causam medo. Já não vivemos como vivíamos antes deles e não é melhor agora. Juntá-los em casas no centro da cidade foi um erro de palmatória e subsidiá-los cegamente foi outro. Assinalei a seu tempo a necessidade de os defender nos tribunais americanos e de os reencaminhar para países de língua e costumes ingleses. Não concordaram mas a situação está a ficar insustentável e alguma coisa de muito urgente tem de ser feita.
Carlos Melo Bento
23.8.2011
Da Vinci dizia que o emigrante é-o em dois lugares: na terra para onde emigra e na de onde emigrou. Infeliz verdade que atormenta gerações de gente desta terra, obrigadas pela necessidade ou aventura a partir. A América, terra estranha e de estranhos, fria e pouco própria para os nossos costumes, foi a escolhida dos açorianos, pela caça à baleia, pela febre do ouro ou pelo trabalho mais bem pago. Depois, as cartas de chamada tornaram-na no lugar de residência da maioria da nossa população. Recebem-nos bem mas sem grandes preocupações de legalização, pois os ilegais são mais domesticáveis, baratos e descartáveis. Já é a segunda vez (que saiba) que o governo daquela grande e poderosa Nação repatria açorianos. A primeira, foi no tempo do presidente Roosevelt e da grande depressão e agora. Temos aí mais dum milhar de pessoas inadaptadas à nossa pacatez de vida e sem familiares próximos, arrancados aos seus por uma política economicista que ignora os mais elementares sentimentos familiares, no respeito dos quais, aliás, a América é pioneira. Desintegrados, os repatriados estão a transformar-se num problema muito grave em terra muito pequena e sem meios. A nossa política nesse sentido tem tido, em relação a alguns casos mais chocantes, resultados frustrantes. Eles traficam, eles agridem, eles consomem, eles assaltam, eles ocupam casas semi abandonadas. Enfim, não têm medo e causam medo. Já não vivemos como vivíamos antes deles e não é melhor agora. Juntá-los em casas no centro da cidade foi um erro de palmatória e subsidiá-los cegamente foi outro. Assinalei a seu tempo a necessidade de os defender nos tribunais americanos e de os reencaminhar para países de língua e costumes ingleses. Não concordaram mas a situação está a ficar insustentável e alguma coisa de muito urgente tem de ser feita.
Carlos Melo Bento
23.8.2011
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