terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Dez mais de 2010, segunda parte


Vejamos agora no campo da ciência quem se destacou este ano. Muitos são os ecos que nos chegaram da excelência do trabalho efectuado no Departamento de Oceanografia e Pescas da nossa Universidade, pólo da Horta que Frederico Machado ajudou a fundar. E, de facto, o seu mais alto responsável, Ricardo Serrão dos Santos, em razão do trabalho desse departamento universitário que dirige, foi convidado para integrar o prestigiado Conselho Científico do Instituto Oceanográfico de Paris juntamente com os outros nove cientistas europeus que o compõem. Justa consagração para quem elevou bem alto o nome dos Açores em terreno de tanta complexidade e debate. Na pessoa de Serrão dos Santos (lembrando os seus notáveis colaboradores), é justo colocar o título de cientista do ano. Como contista sublime, escolho Daniel de Sá, cuja escrita atingiu a perfeição da simplicidade (o seu último conto de Natal é uma obra prima), a beleza dum estilo inimitável e a medida universal do açorianismo, esse sim, património da Humanidade. Para político do ano, a escolha não é fácil porque Carlos César apenas cumpriu, corajosamente é certo, mas o que era a obrigação do seu alto cargo. Sérgio Ávila, porém, ergueu-se, sem descurar a sua postura como terceirense, a um patamar de mentor do ritmo seguro da política açoriana, que fundamentou (sempre que teve de falar no Parlamento) com lógica e equilíbrio, uma opção divergente porque indispensável à defesa dos nossos legítimos interesses colectivos. É para ele, portanto, a palma de melhor político de 2010. O acontecimento do ano não pode deixar de ser a deliberação dos grupos parlamentares do PS, CDS/PP, BE (cuja líder continua a marcar pontos) e do PCP, pela confirmação (não obstante as pressões políticas em contrário) do vetado Orçamento de 2011. Bom Ano.
Carlos Melo Bento
2010-12-28

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Dez mais de 2010

Há sempre entre nós pessoas que se distinguem de forma a deverem ser apontados como exemplo a seguir, se quisermos melhorar o nosso viver. Vislumbrá-los entre o dilúvio de críticas que todos os anos chovem contra nós, não é fácil mas não é impossível. O melhor jornalista de opinião, de belo estilo, contundência, coragem e verdade no amor à Terra dos nossos pais foi sem dúvida Jorge do Nascimento Cabral cuja morte em plena idade da sabedoria ainda o elevou mais pelo tremendo vazio que deixou. Dos artistas, saliento o fotógrafo José António Rodrigues por trabalhos como as Sete Maravilhas, de Almeida Mello e Dos Vulcões dos Açores, de Victor Hugo Forjaz e Zilda França. Empresário apontaremos os Euromotas como exemplo de dinamismo e profissionalismo, traduzido num grande investimento na Ribeira Grande em plena época de recessão, exemplo de coragem e confiança no futuro de todos nós. O livro mais belo que se publicou este ano foi o Minha Ilha, Minha Casa, do florentino Alfredo Luís 1902-1977, (traduzido do inglês Home is an Island, publicado na América, em 1951, como Alfred Lewis), grito de alma dum açoriano genial, forjado na Ilha das Flores, romancista, contista e dramaturgo. Patrícia Carreiro, Emanuel Botelho e Álamo de Oliveira, também produziram obras de vulto, no romance (aquela) e na poesia (estes) mas fiquei-me pelo Alfredo Luís pois a sua leitura tem muito da violência telúrica que fabrica o nosso espírito, nele acossado pela diáspora açórica. João Ponte continua a ser o autarca que se distingue pelo equilíbrio, isenção e dinamismo e foi ele que em 2010 voltou a merecer a palma. Para desportista do ano proponho o angrense Pedro Bartolomeu que no quadriatlo (natação, cayak, ciclismo e corrida) ficou entre os seis melhores do mundo, praticamente sem apoios oficiais! Dos outros direi para a semana. Bom Natal.
Carlos Melo Bento
2010-12-21

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Água suja

Não sei que sentimento me invadiu quando das declarações de Jorge Miranda, pai biológico da Constituição, sobre a polémica gerada na ajuda à classe média açoriana que o Parlamento decretou. Que ia considerar inconstitucional, era adquirido. Que tivesse a temeridade de o justificar com argumentos jurídicos, parecia impossível. Um professor universitário, em fim de carreira (ele andava na Faculdade um ano ou dois à minha frente e eu já faço este ano o “curioso número”), não vai deixar ir o seu eventual prestígio desaguar no mar dos fanatismos onde tudo é “lixo estruturado”. Enganei-me. Que o princípio da solidariedade e da igualdade tinham sido violados. Pois sim! Então, lá porque um concidadão nosso passa fome, os outros todos têm de ser solidários e passar fome com ele? Que raio de conceito jurídico! Ainda se fosse dar-lhe de comer ainda vai que isso sim é solidariedade. Agora, porque o Jorge Miranda morre de sede no deserto do Sará onde a sua má cabeça o levou sem cantil adequado, eu tenho que morrer de sede aqui, que chove todos os dias como se sabe pela lúcida previsão meteorológica diariamente elaborada de Verão e Inverno. Já a regra da igualdade, aí sua excelência tem toda a razão. É preciso retirar a todos os funcionários da administração central os subsídios que aqui recebem há anos que isso não se faz. Jorge Miranda dixit. E devolver os que receberam desde que concebeu a dita filha biológica (1976!). Ora, valha-me Nossa Senhora, como diz Eduardo de Medeiros quando certo social-democrata lhe manda notas para o Alevá. A igualdade em situações desiguais é coisa diferente de alinhar por baixo. Para que uma rapariga baixa fique na passerelle da altura da mais alta, dá-se-lhe sapatos altos, não se corta os pés à outra. Só que estamos como na fábula do lobo e do cordeiro: se não foste tu foi tua mãe quem sujou a água.
Carlos Melo Bento
2010-12-14

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Firme, Presidente!

O 6 de Junho da esquerda democrática era esperado. É que, estando a esquerda no poder, haveria de chegar o momento em que os interesses dos Açores teriam de conflituar com os do resto do País e, então, os nossos esquerdistas teriam que decidir o que tivesse de ser decidido e os outros haveriam de fazer os escarcéu do costume, com as habituais consequências. Até aqui, a esquerda centralista (!) não admitia que os Açores retirassem aos trabalhadores um cêntimo, pois que os separatistas (nome porque lá fora são conhecidos os açorianos que gostam de administrar isto sem terem de pedir licença) eram uns terratenentes fascistoides que exploravam sem consciência os trabalhadores e os mais desfavorecidos para irem depois dançar e jogar a dinheiro para o clube. A coisa virou, a esquerda subiu ao poder (e bem, diga-se) e eis que os governantes começaram a tomar as medidas que têm que ser tomadas para vivermos um pouco melhor e, apesar do muito que foi feito no social, ainda longe da média nacional. Preocupados com a previsível fuga de cérebros da classe média, chaga que sempre nos atormentou desde que somos gente, os nossos deputados criaram uma compensação para aqueles dessa classe que iriam sofrer com as diminuições salariais tornadas necessárias pela construção de mil milhões de euros em estádios de futebol e outras tolices de novos ricos que por lá se fizeram. Sérgio Ávila arrecadou algumas poupanças e chegou a altura de jogar pelo seguro e manter aqui os que mais falta nos fazem. Ardeu Troia. Que esse dinheiro era deles! Que a solidariedade etc. etc. O dinheiro não é deles, é nosso: 600 milhões das Misericórdias, 1832; 250 milhões da moeda de ouro virada papel, 1898; 50 milhões da moeda fraca em 1931; a Base etc.; o pouco que deram (vindo da Europa) nem dá para o juro. Deixem-nos governar o que é nosso. Aprendam connosco a não fazer asneiras e bico calado.
Carlos Melo Bento
2010-12-07

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Dependência

O sucesso espectacular e indiscutível da reunião da NATO em Lisboa, elevou o prestígio internacional de José Sócrates e de Portugal a um tal nível que só um ódio irracional impede certas pessoas de o reconhecer. Eis porém que as negociações sobre Lages ficam congeladas. Sabendo-se que os USA se encontram em grave crise financeira, até se percebe que eles não queiram conversas pois é de admitir que Lisboa esteja interessada em dinheiro. Só que, nós, Povo Açoriano, o único que corre o risco da existência da Base, não queremos dinheiro. Queremos outras coisas. Queremos que recebam e integrem com a dupla cidadania a que por direito natural têm direito, os repatriados que injustamente nos enviaram depois de deixarem estragar a gente sã que receberam. Queremos que nos enviem professores que ensinem aos futuros emigrantes a língua, o direito, a economia e os costumes da terra para onde continuarão a ir. Queremos que os esperem nos aeroportos os oficiais da emigração americana, para os encaminhar para os lugares certos, para que não fiquem ali apavorados em terra estranha, vítimas fáceis dos escroques que os levam a trabalhar sem seguros, sem direitos e sem defesa para sabe-se lá onde são explorados durante tempos sem fim até que percebam o que lhes está a acontecer. Queremos que legalizem automaticamente todos os açorianos ilegais há mais de 5 anos, permitindo-lhes existência legal, deixando de ser foragidos na terra da promissão, no terror de que os oficiais da emigração os descubram e os livrem de sequestradores sem escrúpulos que os chantageiam e exploram. Somos dependentes porque os outros usam a nossa independência (José de Almeida) mas exigimos justiça que entre os nossos “tutores” pode haver alguém clarividente que nos dê razão com medo do juízo da história.
Carlos Melo Bento
24XI2010

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Discurso do Embaixador Manuel Pracana Martins


APRESENTAÇÃO DO IV VOLUME DA «HISTÓRIA DOS AÇORES 1935-1974», DA AUTORIA DE CARLOS MELO BENTO, NO «SOLAR DO CONDE», CAPELAS, SÃO MIGUEL, AÇORES, EM 5 DE OUTUBRO DE 2010.

Considero uma honra estar hoje aqui para apresentar o quarto volume da história dos Açores da autoria do Dr. Carlos Melo Bento, a quem me encontro ligado por uma antiga e sólida amizade e por um sentimento de admiração pela sua personalidade multifacetada de jurista, investigador, professor, publicista e cidadão com relevantes serviços prestados à comunidade, que lhe valeram a atribuição pela Assembleia Legislativa Regional dos Açores da medalha de Mérito Cívico por ocasião das celebrações oficiais do Dia da Região Autónoma dos Açores que tiveram lugar este ano.
Para mim, falar de MB é desfiar um rosário de gratas recordações e episódios marcantes que remontam ao início da década de sessenta do século passado e à Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.
Quando ali comecei o meu curso MB estava já no 3°ano e tornara-se notado por ser um bom aluno e por participar activamente nas actividades da Associação Académica a cuja direcção tinha sido candidato.
Aproximei-me logo daquele colega e conterrâneo que me acolheu de braços abertos.
A circunstância de ambos frequentarmos a sala de convívio e a cantina da Cidade Universitária fez com que nos passássemos a encontrar todos os dias à hora das refeições que tomávamos na mesma mesa juntamente com colegas açorianos, madeirenses e ultramarinos, formando um grupo que ficou conhecido pelo «grupo dos açorianos» e em que MB naturalmente pontificava com a sua forte personalidade, o seu dom da palavra e o seu enorme sentido de humor.
À medida que o nosso convívio se intensificou, fui conhecendo outras facetas da personalidade do meu amigo de que salientarei a independência de espírito, a força e a sinceridade das suas convicções, a sua grande vocação para o Direito, para ele indissociável da Justiça e da solidariedade, e a paixão pelos Açores. Não escondia, aliás o desígnio de, uma vez terminado o curso, voltar para os Açores e contribuir para o seu progresso e valorização.
Vale a pena lembrar um caso interessante em que a vocação jurídica e a paixão pelos Açores se conjugaram:
Quando MB estava ainda no 2° ano resolveu apresentar na cadeira de direito administrativo, regida pelo Prof. Marcelo Caetano, um trabalho sobre a organização político-administrativa dos Açores, estimulado pela leitura da conferência sobre autonomia que o Dr. José Bruno Carreiro fizera em 1950.
Note-se que os trabalhos escritos não eram obrigatórios e que muitos estudantes, por comodismo ou desinteresse, se dispensavam de os apresentar.
Recordo que não foi só em Direito Administrativo que MB se empenhou em apresentar trabalhos.
Fê-lo também em Direito Processual Civil, no quarto ano, e o seu trabalho foi comentado e elogiado pelo professor Castro Mendes durante o seu exame oral naquela cadeira a que eu tive o privilégio de assistir.
Ainda no contexto da ciência jurídica, lembro-me do enorme prazer que MB sentia em citar de cor alguns pensamentos do grande filósofo do Direito Francesco Carnelutti que viera a Lisboa proferir uma conferência na Faculdade de Direito quando MB estava no primeiro ano.
O cinquentenário da Faculdade ocorre quando MB frequenta o último ano de Direito.
No âmbito das comemorações, os finalistas decidiram organizar uma sessão de cumprimentos ao director, Prof. Raul Ventura, e MB é escolhido para falar em nome dos colegas.
As palavras que proferiu sobre o espírito universitário e a missão da Faculdade impressionaram o director que, ao discursar pouco depois na sessão solene comemorativa daquela efeméride, fez questão de citar uma das passagens da alocução de MB.
Graças à sua capacidade de trabalho e ao seu espírito metódico e disciplinado, MB teve tempo e energia para se dedicar em Lisboa, paralelamente à vida académica, a outras actividades que representam também um marco importante da sua biografia.
Refiro-me àquelas que desenvolveu como sócio e membro da direcção da Casa dos Açores.
Conseguiu então convencer outros colegas a fazerem-se sócios (eu fui um deles) e com eles formou um núcleo de estudantes, orientando algumas actividades de carácter cultural de que recordo a sessão dedicada a Antero de Quental em 1963.
Nessa altura, MB teve a ideia de convidar para orador oficial o seu antigo professor e ilustre anterianista, Dr. Ruy Galvão de Carvalho que, embora impossibilitado de se deslocar a Lisboa, aceitou o convite e enviou à Casa dos Açores, para ser lida naquela cerimónia, uma valiosa comunicação intitulada «Perfil psíquico de Antero».
Em 1964, uma série de abalos sísmicos causou várias mortes e estragos materiais na ilha de S. Jorge e Casa dos Açores esteve no centro da campanha nacional de auxílio às vítimas da catástrofe.
MB, na qualidade de vogal da direcção, foi incansável na colaboração que prestou a todas as iniciativas então tomadas para minorar o sofrimento dos nossos conterrâneos jorgenses.
É neste mesmo ano que MB conclui o seu curso.
Obtido o diploma de licenciatura, ingressa na Magistratura do Ministério Público e é colocado como Delegado do Procurador da República na comarca da Ribeira Grande.
Ali o visitei em 1965 e pude aperceber-me do elevado profissionalismo com que exercia aquelas funções e o prestígio e simpatia de que gozava entre as autoridades e a população.
Um dia tive oportunidade de o acompanhar numa visita à cadeia comarca, de que ele era director por inerência de funções, e testemunhar a especial atenção que dedicava aos reclusos, interessando-se pela história de cada um, pelos trabalhos que executavam na cadeia e providenciando para que lhes fossem asseguradas condições dignas de alojamento e alimentação.
Concluído o período de serviço necessário para se apresentar ao concurso para delegado efectivo, MB é aprovado neste concurso, o que lhe permite inscrever-se na Ordem dos Advogados com dispensa de estágio.
Começa então uma brilhante carreira profissional em que depressa se distingue entre os seus pares.
Em reconhecimento do mérito do seu trabalho na advocacia e dos serviços prestados à Ordem dos Advogados, onde exerceu vários e honrosos cargos, esta distinguiu-o este ano com a Medalha de Honra.
Mas a sua actividade não vai circunscrever-se ao escritório de advogado e às salas dos tribunais.
Com efeito, o interesse pelos problemas políticos e administrativos da sua terra que, como atrás referi, já se tinham manifestado nos seus tempos de estudante levam-no a iniciar uma intervenção cívica que se prolonga até aos dias de hoje, na imprensa, na administração pública (como vereador da câmara municipal de Ponta Delgada), no ensino (como professor na Escola Industrial e Comercial) e como militante e dirigente político.
Interessado em conhecer os EE.UU, o modo de funcionamento das suas instituições e a diáspora açoriana na América, MB visita pela primeira vez aquele país e as nossas comunidades na Nova Inglaterra no final da década de sessenta, conhecendo diversas personalidades luso-americanas em destaque naquela região, onde é entrevistado por alguns órgãos de comunicação social.
Mas em 1967 dá-se um acontecimento importante e decisivo que é a causa remota de nos encontrarmos hoje aqui reunidos.
É nesse ano que volta aos Açores, de que há muito tempo se encontrava afastado, o Dr. Manuel Sousa de Oliveira, professor, investigador e arqueólogo, a quem fora concedida pela Fundação Calouste Gulbenkian uma bolsa para proceder à recolha de peças do teatro popular açoriano e para efectuar prospecções arqueológicas em Vila Franca do Campo, vila a que MB se encontra especialmente ligado por vínculos familiares e profissionais.
Como os bons espíritos se encontram, Manuel Sousa de Oliveira, ao formar a equipa com a qual montou e dinamizou a Estação Arqueológica de Vila Franca do Campo, teve a sorte de encontrar em MB um dos seus principais e entusiásticos colaboradores.
E é interessante registar como duas personalidades com posições ideológicas tão diferentes e até antagónicas, e por isso aparentemente inconciliáveis, se deram as mãos e sentiram profundamente ligados por um objectivo comum: servir a cultura e os Açores.
Foi a amizade com Sousa de Oliveira e o convívio com este, preenchido com debates constantes e discussões por vezes acaloradas mas sempre afectuosas e frutuosas, que trouxeram à superfície e estimularam uma outra vocação de MB- a vocação para a história - e o levaram a lançar-se na grande e arriscada aventura de escrever uma História dos Açores, baseando-se em ensinamentos e orientações recebidas daquele seu amigo em quem também reconhecia um verdadeiro mestre e cujo legado se empenhou em preservar através da Fundação Sousa de Oliveira que foi criada graças à acção benemérita e eficaz de MB que, cuidadosa e pacientemente, nela tem vindo a reunir e a classificar o espólio do Mestre, grande parte do qual que se encontrava disperso por Viana do Castelo, Caldas da Rainha e Lisboa.
Ao falar de MB e de Sousa de Oliveira tenho necessária e gostosamente de evocar Natália Correia porque foi através de Sousa de Oliveira que MB conheceu e se relacionou com a grande poetisa nossa conterrânea e porque os laços de admiração e amizade que com ela manteve lhe proporcionaram um convívio extraordinariamente enriquecedor com uma das personalidades mais fascinantes da nossa cultura, admirada aquém e além-fronteiras.
Devo acrescentar que Natália Correia, por sua vez, não escondia a amizade e a consideração que tinha por MB.
Estou a ouvi-la exclamar no fim de uma discussão que teve com ele no célebre botequim e durante a qual as posições se extremaram e não houve entendimento entre ambos: «Mas eu gosto muito do MB!».
E é MB quem toma a iniciativa de apresentar à comissão municipal de toponímia a proposta para que seja dado o nome de Natália Correia a uma das novas avenidas da cidade de Ponta Delgada.
Como remate de trinta anos de investigação, surge agora o quarto volume da sua História dos Açores, que é também o último, uma vez que MB prefere incluir em livro de memórias o relato dos acontecimentos posteriores à Revolução de 25 de Abril de 1974.
Não tenho formação na área das ciências históricas, pelo que o meu depoimento sobre esta obra é o de um simples leitor interessado em conhecer a História dos Açores sem pretensões a uma análise académica para a qual evidentemente não estou habilitado. Este quarto volume, bastante maior do que os antecedentes, cobre um período de 39 anos, muito rico em acontecimentos nos planos regional, nacional e internacional. No plano internacional, o período em análise abrange a guerra civil de Espanha, a segunda guerra mundial, a nova ordem mundial subsequente a este conflito, a guerra-fria, a criação da NATO e o movimento de integração europeia.
No plano nacional, é o período de crescimento, apogeu e declínio do Estado Novo, abrangendo portanto os trinta e seis anos de governo salazarista e os seis anos finais de governo marcelista.
É durante ele que Portugal concede facilidades nos Açores aos ingleses e aos americanos em luta contra as potências do Eixo, entra em 1949 na Aliança Atlântica devido à importância estratégica dos Açores, ingressa em 1955 na ONU e é confrontado com o movimento de emancipação dos territórios coloniais que atinge sucessivamente o Estado da Índia, Angola, Guiné e Moçambique.
MB traça um panorama geral da vida açoriana durante aquele período e aponta alguns dos condicionamentos que lhe são impostos pela política do governo da República e pela evolução da conjuntura internacional.
Julgo que nenhum sector de actividade escapou à sua atenção e deixou de ser mencionado nesta obra: agricultura, pecuária, pescas, indústria, energia, turismo, saúde, assistência social, emigração, ensino, obras públicas, transportes e comunicações, portos e aeroportos, justiça, cultura, desporto, actividade religiosa, segurança pública e defesa militar, administração pública e actividades políticas.
Gostaria de salientar e de transcrever passagens de alguns capítulos que respeitam ao Congresso Açoriano de 1938, às Semanas de Estudos realizadas na década de sessenta e ao início do planeamento regional na mesma década.
Escolhi-os, entre a vasta gama de matérias tratadas pelo nosso autor, por estarmos perante iniciativas e movimentos precursores da actual autonomia na medida em que contribuíram significativamente para ultrapassar as limitações da visão distrital dos problemas dos Açores e para a sua abordagem numa perspectiva regional.
Escreve MB quanto ao Congresso de 1938:
«Os mais lúcidos atribuíam à nossa falta de união as dificuldades que enfrentávamos perante o poderoso poder central.
Por isso germinava há muito a ideia de um congresso que unisse todos os açorianos válidos para discutirem os problemas comuns e proporem, a partir de posições unânimes, as respectivas soluções.
Armando Narciso, pedagogo e médico, é a alma da iniciativa que vai decorrer com êxito na Sociedade de Geografia e no Grémio Açoriano.
Hoje parece absurdo que os Açorianos, para se reunirem, tivessem que viajar até à capital.
As comunicações apresentadas foram reunidas num livro editado em 1940 pela Casa dos Açores, em Lisboa, e reeditado em 1995 pelo Jornal de Cultura, em Ponta Delgada pela mão do Professor Medeiros Ferreira.». Fim de citação.
No segundo texto que seleccionei, respeitante às Semanas de Estudos, MB comenta nos seguintes termos essa iniciativa:
«Em Abril de 1961, vai assistir-se nos Açores a um acontecimento cultural que marcou um ponto de viragem e progresso da até aí desorganizada intelectualidade açoriana.
Ao Instituto Açoriano de Cultura coube a glória de iniciar um movimento que haveria de gerar incomensuráveis benefícios para o povo destas ilhas.
Tratou-se das famosas Semanas de Estudo cujo sucesso foi de tal ordem que se repetiram dez vezes através dos anos e sempre com mais prestígio e êxito; quando a última se realizou em 1966 já tudo era diferente».
E mais adiante acrescenta:
«Começa a germinar a unidade açoriana e atacam-se as taxas alfandegárias no comércio inter-ilhas.
Aproveita-se o espírito da unidade açoriana gerado pela II Semana de Estudos e proclama-se que essa unidade só se conseguirá pela união dos interesses açorianos com o livre-trânsito das mercadorias». Fim de citação.
E é nessa década que se inicia o planeamento regional a que, diz o nosso autor, está indissociavelmente ligado o nome de Deodato Magalhães de Sousa. Escreve a este respeito:
«Deodato de Magalhães vai ser o precursor da unidade açoriana promovendo em 1965 uma reunião das nossas Juntas Gerais (até aí viradas de costas umas para as outras quando não se hostilizavam) para preparar pela primeira vez na nossa história o planeamento regional açoriano, tornando-se o verdadeiro criador da Região Autónoma dos Açores consagrada oficialmente pela Constituição de 1976». Fim de citação. Ao concluir este quarto volume da História dos Açores, que tem uma sentida dedicatória a sua mulher, Maria de Fátima, julgo que MB tem a sensação de ter realizado a grande obra da sua vida.
Diz que a fez com gosto e dela obteve um prazer inexplicável e faz votos para que os seus leitores o tenham também.
Felicito-o e presto-lhe homenagem por tê-la realizado contra ventos e marés e associo-me de alma e coração aos votos que formulou. Muito obrigado pela vossa atenção.
5 de Outubro de 2010.
Manuel Pracana Martins

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Golpe de estado

Vivemos num clima que se aproxima do golpe de estado continuado. Dum golpe de estado financeiro-fiscal. Parece que os estrangeiros (que, como se sabe, são todos boas pessoas) olham para Portugal como uma mina, cheia de mineiros pouco espertos, a quem se pode impunemente tirar o ouro sem grandes dificuldades. Levantam-se umas dúvidas, compara-se com a Grécia, assusta-se o pagode e vão daí mais de 7% de juros da dívida pública (ou como se diz agora que perdemos parte da soberania, da dívida soberana). O estado social, criado desde Marcello Caetano, teve impulso com Cavaco Silva, Guterres e Sócrates (estes últimos duma forma mais ambiciosa já que o erário, a Europa, a banca e os mercados o permitiam). Passámos a viver muito acima das nossas posses, principalmente as classes pobres que saltaram para a antiga classe média, com casa, carro, viagens e, em certos casos, com o rendimento mínimo ou lá como isso se chama e porventura com uma piscina, para não falar nos telemóveis (mínimo 2), internet, TVCabo, jogos e o mais que antes os ricos tinham, que o sol quando nasce é para todos. Até a droga passou a fazer parte da dieta dos pobres e, quando o preço dela subiu nos insondáveis mercados onde circula, o estado passou a fornecer metadona não fossem tais cidadãos padecer da respectiva carência. As cadeias encheram-se, o crime contra o património disparou e por aí fora. Tudo corria bem no reino da Dinamarca mas, eis senão quando, um banqueiro americano borrou a pintura por causa dum roubozito que baralhou as contas e pôs a careca à mostra de certa banca nacional sempre seguidista do que de melhor se faz lá fora. Face à tragédia, uniram-se os cérebros do país em busca da salvação em mar revolto? Qual quê! Começaram a brigar como cães. Que os de fora nos ataquem, é de esperar. Que as baratas tontas comecem a disparatar, é que era mais difícil de prever e suportar.
Carlos Melo Bento
2010-11-16