Futilidades
Esta questão da gerigonça teve um inesperado efeito
secundário. Transformou o PC e o BE em duas formações civilizadas, moderadas,
cautelosas e perigosamente (no meu ponto de vista direitista…) aceitáveis.
Aquelas insuportavelmente agressivas intervenções desapareceram, dando lugar a
um raciocínio de aparente bom senso. Rainer Daenhart, muito mais à direita que
o subscritor destas linhas, no auge da luta que se seguiu ao 25 de abril e até
25 de novembro, dizia que era preciso cuidado com os comunistas porque eles são
mesmo comunistas. Dá que pensar, principalmente quando se cantam loas a um
ditador sanguinário que a serem verdadeiras as acusações que lhe fazem os
próprios cubanos que conseguiram escapar às suas garras, mete num chinelo
muitos ditadores de direita, incluindo os nossos. Porém, perante um rei
democrata, chefe de estado do país mais vizinho de Portugal, se quedam sentados
e quietos depois dum discurso do monarca que é um autêntico hino à amizade dos
dois povos. Deselegante é o mínimo que se pode dizer. Sempre gostaria de ver o
que fariam se o presidente português fosse a Espanha fazer um discurso do
gênero às Cortes e os monárquicos desse país ficassem sentados sem aplaudir,
como protesto contra o seu republicanismo! Pode dizer-se que essas picuinhices
não têm importância nenhuma e é verdade. Mas envergonham todo um povo que tem
direito a ser respeitado. Depois, convidar o rei de Espanha a visitar o país na
véspera do dia em que se comemora a data em que os seus correligionários de antanho
foram corridos à batatada ou foi uma distração de todo o tamanho ou uma gafe
quase tão grande como beijar a mão da rainha da Inglaterra em Inglaterra ou
colocar o casaco nas costas da cadeira em jantar de grande gala. São coisas que
não devem acontecer ao mais alto nível do estado, porque a esse nível, tudo
conta. Mesmo as futilidades.
6 de dezembro de 2016
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