sexta-feira, 3 de março de 2017



Introspeção


Numa conversa sobre a criação da Casa dos Açores do Canadá, alguns açorianos das ilhas do grupo central, disseram uns para os outros, ”Melhor será que nos afastemos dos micaelenses porque eles estão sempre a brigar uns com os outros e com eles não vamos a parte nenhuma” A conversa magoa e muito. Principalmente porque é verdade. Nós micaelenses somos um povo com grandes qualidades a nível de indivíduos mas quando toca à união em busca dum objetivo comum, de nível superior importante, brigamos como ninguém e normalmente em voz pouco baixa. Depois, em vez de raciocinarmos sobre o assunto posto em cima da mesa, insultamos o outro, porque ele é isto, aquilo e aquele outro. E o outro responde na mesma moeda chamando-nos os mesmos nomes e, por vezes, estendendo-os à família mais próxima e por aí fora. Há exceções, é verdade, e quando aparece um Mota Amaral, um José de Almeida, um Carlos César ou um Aristides da Mota, somos solidários e, consequentemente, invencíveis. Por outro lado, depois duma discussão feia, ficamos todos mal uns com os outros…para sempre! Isto é, até à próxima festa em que todos falam como se nada fosse e ficamos prontos para a mesma discussão e assim sucessivamente. Por isso, às vezes, não somos levados a sério e, por isso, também, é tão fácil uma pessoa de fora ter mais influência sobre nós do que um dos nossos. Basta perceber o esquema, ser esperto quanto baste e, quando damos por isso, estamos a emigrar para qualquer lado, que os lugares estão todos ocupados pelos de fora, e o pior nem sempre são melhores que nós. Por isso, nos tempos históricos da FLA, alguém gostava de dizer que o melhor dos outros é sempre pior que o pior dos nossos. Mas, enfim, a vida continua e se tivermos de começar outra vez do princípio, não é o fim do mundo. Já não seria a primeira vez…

28 de novembro de 2016   
Os melhores de 2016


E pronto, chegou a altura de, mais uma vez, olhar para o ano que agora acaba e escolher os que mais se salientaram nos diversos ramos de atividade. Começo pelo desportista e escolhi o micaelense Clemente Ventura, jogador do Santa Clara pela terceira época consecutiva, recordista dos marcadores do seu clube em competições profissionais (36), o segundo melhor mercador da Taça de Portugal (21 golos) e o símbolo da nossa garra e dedicação à Terra onde nasceu e pela qual luta. No jornalismo, vejo em Teresa Nóbrega com toda uma carreira devotada à profissão, o exemplo de que o profissionalismo não conhece barreiras e pode atingir a perfeição em qualquer azimute, quando esta é procurada obstinadamente com dignidade em cada ato que se pratica no seu exercício. Como cientista do ano, opto por Rui César pela sua obstinada ação no sentido de usar os seus conhecimentos científicos para melhorar a saúde do seu semelhante, sem desfalecimentos mesmo quando os diretos beneficiários da sua obra não colaboram completamente com os constantes esforços para os convencer da bondade dos conselhos e dos perigos da doença que persegue sem desfalecimentos há longos anos. Quanto ao livro do ano vou escolher 2 ex aequo: Macau, na Era Napoleónica, início dos Tempos Gloriosos do Ouvidor Arriaga, de António Alves-Caetano e Uma Aventura Corvina, de José Carlos Magalhães Cymbron. Aquele, porque o irmão de Marcello Caetano elegeu o grande faialense Miguel de Arriaga que salvou a joia do Oriente para Portugal em tempos tão difíceis. E o segundo porque a engenharia militar ao serviço dos Açores é posta no lugar que merece…finalmente! Para artista do ano e pensando na Viola de Dois Corações é inevitável eleger Zeca Medeiros que atinge a perfeição com um trabalho, numa autêntica sinfonia que ele rege a partir dos melhores em cada instrumento, com mestria e elevação. Insuperável. Bom Natal.

18 de dezembro de 2016   
Futilidades

Esta questão da gerigonça teve um inesperado efeito secundário. Transformou o PC e o BE em duas formações civilizadas, moderadas, cautelosas e perigosamente (no meu ponto de vista direitista…) aceitáveis. Aquelas insuportavelmente agressivas intervenções desapareceram, dando lugar a um raciocínio de aparente bom senso. Rainer Daenhart, muito mais à direita que o subscritor destas linhas, no auge da luta que se seguiu ao 25 de abril e até 25 de novembro, dizia que era preciso cuidado com os comunistas porque eles são mesmo comunistas. Dá que pensar, principalmente quando se cantam loas a um ditador sanguinário que a serem verdadeiras as acusações que lhe fazem os próprios cubanos que conseguiram escapar às suas garras, mete num chinelo muitos ditadores de direita, incluindo os nossos. Porém, perante um rei democrata, chefe de estado do país mais vizinho de Portugal, se quedam sentados e quietos depois dum discurso do monarca que é um autêntico hino à amizade dos dois povos. Deselegante é o mínimo que se pode dizer. Sempre gostaria de ver o que fariam se o presidente português fosse a Espanha fazer um discurso do gênero às Cortes e os monárquicos desse país ficassem sentados sem aplaudir, como protesto contra o seu republicanismo! Pode dizer-se que essas picuinhices não têm importância nenhuma e é verdade. Mas envergonham todo um povo que tem direito a ser respeitado. Depois, convidar o rei de Espanha a visitar o país na véspera do dia em que se comemora a data em que os seus correligionários de antanho foram corridos à batatada ou foi uma distração de todo o tamanho ou uma gafe quase tão grande como beijar a mão da rainha da Inglaterra em Inglaterra ou colocar o casaco nas costas da cadeira em jantar de grande gala. São coisas que não devem acontecer ao mais alto nível do estado, porque a esse nível, tudo conta. Mesmo as futilidades.

6 de dezembro de 2016  
José Pracana

Não recordo a primeira vez que o conheci. Ele de certeza que lembrava pois nunca vi uma memória tão prodigiosa. Junto dele não havia tristeza, foi até ao fim um poço de boa disposição com sentido de humor permanente e sem limites. Uma história, uma lembrança nossa que só ele recordava, um episódio político ou social e ríamos como se tivesse acabado de acontecer, criando um bem-estar que caraterizava o mundo à sua volta. Conheci por seu intermédio pessoas poderosas e notáveis, na política, na banca, nas Forças Armadas, nas artes ou na sociedade. Todos o tratavam como um igual, sentimento que se alargava por contágio aos amigos que chamava ao seu convívio. Lembro particularmente, uma noite de fados no Palacete de João Ferreira-Rosa, magnífica festa entre amigos (dele), o jantar na sala onde D. João V tinha sido recebido pelo construtor e, suponho, o primeiro proprietário do magnífico imóvel, e o pequeno fontenário com uma bela escultura, feitos de propósito para que o Monarca pudesse lavar as mãos. Aí convivi nessa noite tão engraçada com um Duque, um Ministro (o que no antigo regime era coisa rara), Amália, Marceneiro e tanta gente famosa e estimada. O Zé era ali uma espécie de traço de união entre todos, e quando chegou ao momento da música, foi um encantamento vê-lo (e ouvi-lo) imitar os grandes artistas presentes que tanto o apreciaram. Depois, quando herdou a casa dos Avós, preparou-a para receber todos os anos, a multidão de amigos que o adoravam e que ele ansiava acolher em S. Miguel. Foi então que a maldita doença o atacou à falsa fé; foi a segunda vez que o vi comover-se; a primeira quando o avô Pracana faleceu e depois, quando me disse desse sonho que a doença destruíra; mesmo assim, lutou com todas as forças, durante anos e até ao seu último suspiro. Bendita a Mulher que o amou até ao fim.  

26 de dezembro de 2016     
Os são-miguéis

Uma viagem profissional a S. Jorge deu para perceber que anda no ar uma miserável campanha contra S. Miguel. Aos são-miguéis tudo de ruim é atribuído. É atributo cuspido com desprezo e algum ódio como se os micalenses fossem a causa de todos os males que os atormentam. Anteriormente só se ouvia esse insulto vindo da Terceira. Aqui até se percebe por causa dos complexos de inferioridade económicos, inversamente proporcionais aos intelectuais e culturais. Todavia numa ilha como S. Jorge com uma mentalidade política tão conservadora como S. Miguel, empreendedores infatigáveis, produtores do queijo mais famoso do país e certamente um dos melhores do mundo, é incompreensível que nos atribuam culpas que não temos nem defeitos que não são os nossos. Com a campanha eleitoral em curso cheira a qualquer manobra de bastidor destinada a dividir o arquipélago e com ele o nosso Povo em dois grupos: os micalenses por um lado, os maus, e os demais de todas as outras ilhas, os bons. Para além do perigo imenso que este divisionismo provoca, pois a união é a nossa maior força, essa atitude magoa e muito, e nós não merecemos isso! A divisão só beneficia os inimigos do Povo Açoriano e nem é preciso dizer-lhes o nome; a dor vem do sentimento de ingratidão e quem não se sente não é filho de boa gente. Depois é mentira: nós perdemos o banco e a companhia de seguros engolidos na voragem do desenvolvimento harmónico que aceitámos de bom grado; nós temos menos representação parlamentar, tendo em conta que somos mais de metade da população eleitora e temos muito menos de metade de deputados; as nossas fábricas de laticínios (salvo honrosas exceções) deixaram de nos pertencer e não é justo que paguemos por aquilo que os atuais donos fazem em nome dos seus interesses materiais. Acabem com isso já porque ninguém ganha em denegrir o irmão mais forte. A Família é que perde. 
1 de outubro de 2016  

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Discurso proferido na Povoação, aquando da concessão da cidadania honorária a Octávio Medeiros e Carlos César



Senhor Presidente


Senhor Representante da República

Senhor Presidente da Câmara da Povoação

Minhas senhoras e meus senhores



A concessão da cidadania honorária é uma homenagem dum concelho grato por alguém lhe ter proporcionado bem estar ou ter dado um exemplo que se quer sublinhar, como espelho para os seus próprios cidadãos ou para que os dos outros concelhos lhe sigam o exemplo, buscando uma consagração e reconhecimento gerais.

Pode ser o pagamento dum favor político, o que é o menos, ou pessoal, será isso pior, pois cairemos no aviltamento das instituições, e no mau uso de poderes que são concedidos para serem exercidos de forma isenta e altruísta e não para satisfazer apetites sectoriais ou interesses egoístas.

Proponho-vos um exercício de análise, face às duas personalidades que hoje aqui vão ser homenageadas.

Fácil é o caso do Professor Doutor Octávio Henrique Ribeiro de Medeiros, pedagogo e sacerdote católico, hierarca da sua Igreja. Onde a questão se torna mais complexa é quando se homenageia o homem mais poderoso desta Terra porque, duma simples homenagem se pode cair numa imagem, ainda que aparente, de lisonja e subserviência.

E, se assim fosse, a homenagem perderia a sua valia, tornando-se em vitupério que de todo ninguém quereria.

É melhor e, como digo, mais fácil então começarmos por Octávio Medeiros. Duma Família respeitável e respeitada, nasceu o nosso homem numa das Lombas, a do Botão. Estudou nos Seminários dos Açores, ordenou-se em Angola, formou-se em Lisboa na Universidade Católica, e, doutorou-se em Roma na prestigiada Pontifícia Universidade Gregoriana; lecionou até a lei deixar, na Universidade dos Açores. Paroquiou na sua Lomba, nesta Vila e em Água Retorta e aqui promoveu a publicação dos extractos dos Livros Paroquiais, que Vítor Meireles pacientemente copilou e que destaco da imensa produção literária e científica tão imensa e tão importante que parece incrível ter sido conseguida por um homem só. Foi Ouvidor Eclesiástico, foi Vigário Episcopal na maior ilha açoriana e Diretor do Instituto de Cultura Católica.

Certamente que o concelho da Povoação não seria o mesmo se ele não tivesse existido.

A palavra e o exemplo conjugam-se nele de forma harmoniosa. Prega o Evangelho e cumpre a lei do amor cristão em toda a dimensão. É um homem bom, exemplo de conduta ética que a Edilidade do nosso berço insular faz bem em apontar aos mais novos. Passada esta geração, os que então pensarem nas coisas sérias da vida hão-de querer saber porque razão ou razões a Câmara de Carlos Ávila quis dar-lhe tão alto galardão e, ou essas razões são válidas e perenes, ou deitar-lhe-ão os cães do esquecimento, que é a pena maior que uma geração futura pode aplicar à do passado.

O Padre Octávio não foi egoísta com o seu saber e transmitiu-o aos outros como sério e hábil pedagogo, inoculando no espírito dos seus alunos e discípulos, o produto do seu imenso labor intelectual e científico. Pregou e praticou a caridade calcorreando montes e vales distribuindo zelosamente os sacramentos por pobres e ricos sem distinção de idades ou de feitios. Na pia baptismal, no altar dos esponsais ou no leito de morte dos seus paroquianos esteve e está sempre que esse dever sublime do sacerdócio o chama. Sem cansaço, sem hesitação e sem vacilar. Que vocação é essa, Santo Deus, que inspiras nos Teus sacerdotes que até parece natural que se sacrifiquem aos teus mandamentos como se fosse normal alguém entregar toda a sua vida ao próximo e nada esperar em troca, a não ser a suprema alegria de agradar-Te. Tirem-lhe as vestes sacerdotais e vejam nele apenas o homem e digam-me se esta Câmara não se honra mais em tê-lo como cidadão honorário do que ele em receber tal galardão?

Peço-te licença, Padre Octávio, para que me deixes aproveitar esta cerimónia solene, para aqui lembrar esse meu e teu amigo, que Deus já lá tem, Joaquim de Aguiar Cabral. Que orgulho incontido não teria ele de ver o primo tão amigo receber, da sua própria Câmara, um tão alto galardão. Para ele, a Família era o mais que tudo, e foi esse ideal, por certo, o que tanto nos uniu, na curta passagem por este mundo. Desculpa molhar com esta lágrima de saudade um dia destinado a alegrias mas antes está a obrigação que a devoção.

2.- Vejamos agora Carlos Manuel do Vale César que do alto dos meus setenta anos recordo, quando ele e seu irmão assistiam, ainda crianças, à Missa do meio-dia, da Matriz de Ponta Delgada, junto ao altar então dedicado à Senhora da Conceição, acompanhados de seus saudosos pais, todos nós rigorosamente aperaltados com os então obrigatórios fatos de ver a Deus.

Segui como então era possível e habitual numa terra onde todos se conheciam, o seu crescimento, o seu ingresso no secundário do velho Liceu, a ida para a Faculdade, sempre me convencendo que seria na barra dos tribunais que nos haveríamos de defrontar. Veio então a deriva política, a “má” influência de Jaime Gama, Medeiros Ferreira e de Mário Soares, a queda do regime que eu ingenuamente acreditava poder evoluir através da primavera marcelista para uma democracia moderada e redentora. Veio a revolução, o Seis de Junho, a autonomia constitucional, os ministros da República, a proibição dos partidos regionais, o regime híbrido de Mota Amaral que apesar da conquista por ele encetada da unidade política do Arquipélago e da gigantesca obra cultural e material que deixou, no seu longo mandato político, ficou ainda longe das grandes metas que temos de alcançar para sermos merecedores da felicidade de vivermos sobre nós próprios.

Não era fácil desafiar Mota Amaral, esse potentado político, apesar do desgaste impiedoso de tantos anos de governação e menos fácil ainda suceder-lhe na mais alta magistratura política dos Açores.

Perante a expetativa geral, Carlos César iniciou o seu primeiro mandato com uma inovação: quase todos os governantes que escolheu dispunham de graus académicos superiores aos seus. Este facto hoje aparentemente despiciendo, não o era então, pois os governos anteriores tinham sido recrutados entre titulares que, ou os não possuíam, ou os tinham abaixo do grau universitário, circunstância que garantia ao presidente de então uma supremacia psicológica, facilitadora da ação política hierarquizada tal como nesse tempo se concebia.

Nesse aspeto, o nosso homenageado começou uma nova era, acabando com amadorismos facilitadores e iniciando um trabalho em que a ciência e a técnica sobrelevariam pela primeira vez aos critérios políticos que, não obstante, não tinham sido obstáculo às irrecusáveis conquistas amaralistas: a unidade açórica e o progresso material acelerado.

Mas César tinha outras tarefas, também difíceis, a enfrentar. É que, durante quase 20 anos, os socialistas viveram num limbo político que atravessou governos centrais de diversas cores, inclusive as deles, sem que isso os beneficiasse localmente, antes foram mantidos numa longa oposição que fazia perigar duas coisas, a democracia e o próprio socialismo.

Duma agressividade inconsequente que em vez de se concentrar na construção dum estado social açoriano necessário ou possível, focava-se na luta contra todos os que se situavam à direita do seu espetro político, com especial destaque para os que defendiam um autonomia progressiva ilimitada ou até mesmo a independência do nosso Povo.

Com essa política, o Partido Socialista afastou da sua possível base de apoio, não só os seus próprios mas desiludidos adversários mas também os socialistas moderados quer do socialismo utópico e romântico de Antero quer o de carácter científico, bem como aqueles que dinamicamente pretendiam uma evolução emancipalista baseada na vontade popular, democraticamente manifestada.

Aqueles que, como eu, pretendíamos uma emancipação significativa do Arquipélago das peias centralistas, locais ou forasteiras, víamos até então nos socialistas um inimigo a abater e nisso fomos acompanhados por aqueles que ansiavam por um estado social mais justo e que, ao mesmo tempo, comungavam dos ideais socialistas mas não se reviam no PS anterior.

Foi, por isso, com grande expetativa e apreensão que assistimos à subida ao poder do novo líder.

Víamos então duas coisas boas: por um lado, o fim dum tipo de governação que se degradava arrastando consigo todas as conquistas conseguidas; por outro lado, o sempre aguardado e desejado funcionamento da alternância democrática que iria permitir aos nossos inimigos arrearem a bandeira de que os radicais açorianos não eram democratas nem acreditavam na própria democracia como regime político.

Foi então consensualizado um total respeito pelos resultados eleitorais e pelas autoridades saídas do sufrágio que foram sempre e desde logo tratados com o respeito devido à soberania, em todos os lugares quer em público quer em privado em que apareciam.

O resultado foi melhor que o desejado. Manteve-se e fortaleceu-se a unidade açoriana, ultrapassou-se as rivalidades mais perniciosas com a feliz designação dum ilustre terceirense para a vice-presidência, a quem foram entregues, com sucesso incontestável, as nossas finanças, até então em difícil situação, conseguindo-se, mercê dum esforço titânico, a relativa segurança duma lei-quadro de finanças regionais autónomas.

E tudo fruto duma ação política carregada de habilidade diplomática em que César soube contar com o espírito superior de António Guterres, esse estadista que o país teve o raro privilégio de escolher para a frente da governação durante algum tempo e de cuja bondade este concelho teve provas em momentos de muita angústia e quase desespero.

Garantida a unidade, constituída uma equipe de trabalho político com pergaminhos culturais até então impensáveis, eis que Carlos César conseguiu trabalhar em paz, rodeado pelo respeito geral, promovendo por vias lentas mas seguras e permanentemente ativas, em todos os setores da atividade humana. um progresso que transformou profundamente o nosso viver.

Não desprezou os projetos da anterior Administração cujo significado era incontestável, como o magnífico Hospital micaelense e a autoestrada Ponta Delgada Lagoa cuja execução promoveu e meteu ombros a uma tarefa que seria impossível descrever aqui, a não ser por amostragem, de que destaco a grandiosidade da estrada do Nordeste que transformou definitivamente a ilha, a imponência das Portas do Mar que virou a nossa maior cidade para o mar e para o novo turismo, os portos de pesca da Ribeira Quente e de Vila Franca do Campo, satisfazendo ambições de séculos até então consideradas impossíveis de alcançar. E só estou a referir-me a S. Miguel.

Foi gigantesca a obra no setor da cultura e da educação. Nunca se tinha visto até ele um tão imenso, planificado e sistemático incremento da nossa educação e da preservação e desenvolvimento dos nossos valores e recursos culturais.

Jamais as classes mais desfavorecidas tiveram um viver tão protegido, tão apoiado, tantas oportunidades de se livrarem da implacável lei da pobreza.

Os hotéis surgiram por todo o lado como cogumelos, abrindo pela primeira vez a possibilidade da nossa diáspora visitar a terra berço dos seus maiores sem os constrangimentos que as gerações anteriores enfrentavam e que os afastavam de vez, perante vergonhas, indignidades e humilhações insuportáveis.

Recebeu reis, poetas, estadistas, soube dignificar a nossa imagem perante o mundo.

Deu um apoio decisivo à agricultura, e mandou promover por toda a parte os seus produtos; salvou lagoas e florestas, pacificou a lavoura cuja capitalização e modernização conseguiu de forma irreversível e notável.

Com o seu discurso contido, bem estruturado, culto, rigoroso, bem informado e hábil gerou largos e duradouros consensos, mobilizando-nos para as grandes tarefas do nosso próprio desenvolvimento.

Fortaleceu em todas as nossas comunidades, no estrangeiro, as suas

mais importantes representações sociais e culturais, dando-lhes meios e a dignidade por que sempre ansiaram e que sempre mereceram. Fez-lhes visitas de estado promovendo duma forma dignificante e até então nunca vista, a nossa imagem como Povo civilizado, por vezes tão aviltantemente segregado e desprezado por falta de apoio daqueles que oficialmente tinham mais que obrigação de o fazer.

Defendeu com vigor o nosso precioso ambiente, estruturou e fortificou todos os organismos de defesa civil, em dimensões nunca vistas.

Alguém mais autorizado que eu disse o que lhe deve em particular o concelho da Povoação, a primeira parcela do nosso território sagrado onde pisaram os nossos primeiros pais.

Mas posso e devo dizer, já que me dão essa privilegiada oportunidade, que todos os açorianos lhe ficam devendo a total entrega ao bem-estar do Povo que o elegeu e, sem descanso, durante estes dezasseis anos, trabalhou afincadamente para que do seu consulado ficasse a marca do progresso material e o indelével desenvolvimento intelectual das nossas gentes.

Claro que ainda é cedo para se saber se essa imensa obra terá ou não o resultado almejado e isso só as gerações futuras, se não estiverem distraídas como até aqui, sobre o seu passado recente, é que hão-de julgar isso.

Para já, não teme a sua obra confronto algum com o que o resto do País fez e conseguiu, mercê de esforços financeiros mais ou menos clandestinos e excessivos que a nós todos estão prejudicando.

Sai Carlos César com a satisfação do dever cumprido e eu, que nada lhe devo pessoalmente, para além do respeito com que sempre me tratou e que tentei retribuir, orgulho-me de ter sido testemunha privilegiada desta época de ouro da nossa História.

Bem-haja a Povoação por reconhecê-lo como estadista e parabéns ao Presidente de todos nós por haver quem o reconheça ainda em sua vida.

Carlos Melo Bento

Povoação 7.7 2012

segunda-feira, 26 de março de 2012

Apresentação de Outros Sóis, de Fernanda Cabral poetisa de Espinho

Senhor Presidente da Câmara Municipal de Espinho, Dr. Pinto Moreira


Permita-me V. Exa. que saúde duma forma particular a senhora Vereadora da Cultura Dr.ª. Leonor Cristina Matos Lêdo da Fonseca que por motivos ponderosos não conseguiu estar presente nesta sessão de lançamento do livro Outros Sóis da poetisa de Espinho Fernanda Cabral. O apoio que ela dispensou a esta iniciativa e a vossa grata presença aqui, são simbólicos do valor que a sua Administração dá à cultura, único valor perene da nossa civilização. Bem-hajam por isso.

Minhas Senhoras e Meus Senhores

Paulo Bonfim, o príncipe dos poetas brasileiros, descendente dos Botelho Arruda, dos primeiros povoadores do Arquipélago dos Açores, disse, numa das suas frequentes visitas à Mãe Pátria, que uma pessoa verdadeiramente livre é uma ameaça cósmica. E não há pessoa mais livre que um poeta.
Não quero, meus senhores, com isto significar que a nossa poetisa, Fernanda Cabral, seja uma ameaça e menos ainda cósmica, mas que os seus poemas abalam o espírito no sentido mais positivo desta expressão, disso não tenho dúvidas.
Contatei pessoal e intimamente com três grandes poetas açorianos, dois sobejamente conhecidos em todo o mundo português, Vitorino Nemésio e Natália Correia, endiabrados e insubmissos, belos no seu canto poético, profetas da vida e encantadores de alma.
E conheci bem Armando Cortes Rodrigues, o amigo íntimo de Fernando Pessoa, que depois de o acompanhar no Orfeu com poesia modernista, recolheu a penates e louvou o cântico das fontes e descreveu a vida quando o mar, essa planície inquieta, galgou a terra, fechando-se na sua concha açoriana mas criando os mais esmerados poemas que a terra de Antero de Quental produziu.
Todos eles de feitio dificílimo e ao mesmo tempo fascinante, sem respeitarem nada a não ser eles próprios e as suas obras. Só agora conheci pessoalmente Fernanda Cabral, mas desde que li o seu primeiro poema no facebook, fiquei com a ideia de que ela pertencia por legítimo direito, ao fechado clube dos poetas.
O embaixador Pracana Martins, um dos nossos contemporâneos mais cultos, disse de Fernanda que a sua poesia tinha música, beleza e encanto. É isso mesmo que me transmitiram os seus versos. A doçura dum canto espontâneo que não é pretensioso mas encanta pela sua beleza simples. E a simplicidade é a mais difícil das tarefas para quem escreve.
Depois, são os assuntos que Fernanda cultiva nos seus versos. Coloquei propositadamente no título epigráfico de cada poema, um ou outro naco da poesia de nomes consagrados da nossa literatura pátria que demonstram que ela abordou, ou por intuição, ou por neles ter meditado (sabe-se lá o que vai na cabeça dum poeta!) grande número dos temas que são permanentemente visados por aqueles que se dedicam a essa arte de encantar espíritos e mentes.
Não vale julgá-la com preconceito. Quer ideológico quer mesmo cultural. Sintam-lhe a melodia dos versos quando ela, qual filigranista, tece à volta duma ideia uma rede bem desenhada de contornos floridos e coloridos, que acaba numa joia bordada a preceito.
Esqueçam as metáforas e as rimas entrelaçadas outrora tão obrigatórias e tão enfadonhas e deixem-se levar pela melodia duma poesia que a tem por sumo e essência.
Peço-vos desculpa pelo meu pretensioso prefácio em que usei e abusei da nossa poetisa como alavanca para os poetas açorianos dos nossos dias. Se Portugal é um país de poetas, os Açores são um cantinho privilegiado do mundo lusíada, donde em cada canto surgem os Quentais e os Mesquitas, as Natálias, os Botelhos, os Meireles, os Vitorinos e um nunca mais acabar de génios em ebulição poética.
Os poetas cantam os sonhos da humanidade mas eles próprios são tão pouco cantados. E eu atrevi-me a entrar no campo sagrado da poesia sem ser poeta ou escritor porque penso que que a poesia, se é para comer, como quer Natália Correia, então nós devemos saboreá-la com vagar, mesmo que a não saibamos confeccionar, oferecendo-a como banquete a amigos e convidados.
Os Açores foram descobertos por Gonçalo Velho Cabral, comendador de Almourol, e não há açoriano de S. Miguel que não descenda das suas irmãs, cujos filhos acompanharam o tio nessa aventura épica.
É-me, por isso, muito grato vir de tão longe ajudar a divulgar os poemas desta nossa parente, que pinturas tão sugestivas emolduram com tanta graça. E faço votos para que essas belas poesias vos dêem tanto prazer espiritual como me deram a mim.
Num momento em que a nossa pátria enfrenta perigos imensos e em que a ambição desmedida das potências financeiras do planeta se junta para tentar explorar os menos avisados e menos ricos, tenhamos a coragem de irmos para a batalha com alegria, já que tristezas não pagam dívidas.
Não com a alegria cortesã e inconsciente dos jograis de Alcácer Kibir mas com a alegria de quem sabe de ciência certa que, ainda que o mundo acabasse, os versos que se escreveram na nossa amada língua, hão-de perdurar para todo o sempre.
Parabéns Fernanda por ter tido a coragem de tornar públicos os seus belos versos, e por ter aceite a ideia da Fundação Sousa d’Oliveira de os reunir em livro.
Manuel Sousa d’Oliveira foi um açoriano nascido na América para onde seus pais emigraram. Regressado aos Açores, estudou, formou-se em Coimbra, ensinou, dirigiu museus, e bibliotecas, introduziu a arqueologia científica na terra de seus pais, e cultivou-a aqui em Portugal, onde criou clubes de história e inúmeros discípulos em cuja memória permanece. Salvou da destruição e do esquecimento, milhares de objetos antigos e documentos sem preço. Fez palestras cá e no estrangeiro sobre a ciência que cultivou como ninguém.
Criou uma fundação para guardar a sua imensa biblioteca de dezenas de milhares de títulos e os objetos arqueológicos preciosos para a ciência que nos legou, para que a sua obra continuasse depois dele.
Tenho a certeza que esta cerimónia lhe agradaria porque realiza o seu ideal de que só com cultura, espírito crítico e sentido estético da vida há libertação.
Deixem-me acabar, lendo-vos dois poemas da poetisa Fernanda Cabral:
“Olhos azuis radiantes
Tal e qual mil brilhantes
São centelhas a faiscar.
São topázios diamantes,
São histórias de encantar.
Estes olhos fascinantes
Embarcam no meu bergantim,
Levam-me a navegar
Cavalgando sobre o mar
Envolta em lençóis de cetim.
Atravesso lagos e rios
Mares e oceanos
Guardo pérolas em fios
Esmeraldas em panos.
Vejo sombras de navios
Refletidas nas águas,
Vejo estrelas cadentes
Que passam por mim sorridentes.
Estes olhos tão azuis,
Tão claros, transparentes
Vão-me deixar a sonhar…
Neste sonho cor de mar.”
E ainda este outro poema:

“Olho através da vidraça
E vejo a gente que passa.
O vento que uiva,
A chuva que cai
Está frio lá fora!
Ouço passos…
Passos apressados
Passos corridos,
Passos doridos,
Passos cansados,
Passos que passam.
Olho através da vidraça,
E, vejo gente na praça”.

Muito obrigado.

Espinho, 17 de março de 2012