domingo, 7 de junho de 2009

Craig C. de Mello, prémio Nobel


Discurso de apresentação do livro de Almeida Mello, no Castelo de S. Brás em Ponta Delgada, sobre a genealogia de Craig C. de Mello, cuja Família é originária da Maia, Ilha de S. Miguel, Açores
Senhor General Cameira Martins, Comandante da Zona Militar dos Açores
Senhor Vereador, Engenheiro José de Medeiros
Senhora Professora Doutora Graça Castanho, em representação da Família de Craig C. de Mello
Amigo Dr. Almeida Mello
Minhas senhoras e meus senhores
O livro de Almeida Mello, Craig C. de Mello, História e Genealogia que o destino quis dar-me a honra de apresentar-vos, nesta “inexpugnável fortaleza de grossa e furiosa artilharia”, outrora terror de piratas, corsários e inimigos estrangeiros e a cuja existência muitos de nós devemos o facto de estarmos neste mundo, é um trabalho de abnegação, amor à terra e devotado espírito de servir. Lê-se de um só fôlego, com prazer e deleite. Sentimos o espírito e, com ele, a imaginação mergulhar na máquina do tempo, empurrados pelo autor, trepando pela árvore genealógica duma das mentes mais brilhantes que a nossa raça gerou.
Entramos na intimidade da Família Mello, vemos o bailado da nossa juventude de freguesia em freguesia, de lugar em lugar, puxada por essa corda que nos amarra aos amores duns olhos que alimentam o fogo que arde sem se ver, impondo, através dos tempos e das gerações, a lei da vida aos preconceitos e às classes sociais, ao ritmo das festas e dos santos padroeiros. Corda que era assim que os romanos chamavam ao coração, do sursum corda da velha missa em latim.
Ao ler o livro, guiados por Almeida Mello, subimos ao trono da Escócia e dali descemos ao lugar que a vigorosa Inês da Maia fundou, depois de sua homónima deixar o nome gravado na Ilha de Santa Maria como assento e prova de registo imortal de que, também do norte de Portugal, vieram os primeiros açorianos.
A Maia que se chama assim porque a principiou e primeiramente morou nela uma mulher chamada Inês Maia, é um lugar bem assombrado situado todo em uma ponta de terra como fajã, com suas bem compassadas e começadas ruas de casas telhadas, por se fazer nela telha.

De fronte do seu porto, tem um baixo grande de pedra, ao longo do qual varam bateis, em um bem assombrado porto, de mediana baía, acompanhado atrás por rocha, ao nível do mar, de muito marisco e frescas fontes de água doce como as há também no caminho por cima de terra
, diz assim o cronista na sua linguagem pitoresca e fascinante.

Credo em cruz, quantos namoros e quantas paixões se escondem por detrás das frias linhas genealógicas? Quanta dor por detrás dos assentos de óbito e quantas lágrimas acompanharam as partidas dos emigrantes lançados ao desamparo dos governos nas garras aduncas dos abutres que fizeram fortuna à custa da nossa melhor juventude que não sabia língua, nem costumes, por vezes tratada como besta de carga, de muito esforço e pouco custo. Mas depois vem a redenção, nos filhos e netos alcandorados aos píncaros da fama e da ventura, quando a fortuna lhes sorri, sem os repatriar na terra que os viu nascer, deserta de familiares e amigos, que de amável mãe se volve então em insuportável madrasta dos sonhos perdidos.
Paremos porém a carruagem destes cavalos alados da imaginação, senão o livro que nos trouxe aqui não chega a ser apresentado. Pondo os pés no chão vejo, ao abri-lo, um prefácio de Daniel de Sá. Convém que se saiba que a palavra prefácio significa algo que se faz antes do livro mas que geralmente é escrita depois do dito, mentirinha enganosa em que todo o leitor finge acreditar e que às vezes até é a única coisa que se lê, nestes tempos de prodigiosa produção literária onde o que mais abunda é a falta de tempo para fazer o que nos dá prazer.
Há que dizer que Daniel de Sá é porventura o mais belo escritor açoriano vivo. Verdadeiro ourives da palavra escrita, onde em cada uma esconde um pensamento saboroso, pelo que tem de ser lido de vagar e por vezes muito devagar, mastigando e tornando a mastigar os doces acepipes que a sua mente prodigiosa nos oferece sempre em bandeja de prata.
Durante anos o li, disfarçado de pseudónimo, na imprensa local e só há pouco descobri o embuçado, comparando estilos e gozando o prazer que só um escritor com a sua força consegue forjar, a partir do quase nada em que se inspira. Leiam o Pastor das Casas Mortas e saberão do que estou a falar mas não se admirem, quando terminarem a leitura, de terem de lavar o espírito com lágrimas de solidão, à beira duma qualquer aldeia portuguesa perdida entre montes, sentados numa pedra com um pobre pastor de olhar vago e do escritor absorto já na próxima armadilha armada para a caça às almas perdidas no mar alto da boa literatura.

Mas e José de Mello, quem é esse que não pára de produzir livros de divulgação, batendo em temas interessantes? Bom, intelectualmente ele é filho da nossa Universidade onde se formou em História e se especializou em Património e Museologia. Depois, juntou amigos em genealogias e fez uma associação que animou as hostes dos nossos pesquisadores de raízes familiares. Neste livro está uma pequena amostra do imenso trabalho desenvolvido nesse sector. Embora o seu labor literário se tenha estendido por áreas tão diferentes como bruxas, cantadores, festas, santas, ruas, freguesias, bandas de música, poetas, emigração, património, cientistas e sinagogas, presépios e Papas, a verdade é que o que nos ocupa hoje é esta pequena genealogia que é um minúsculo retalho na manta social açoriana que certamente o nosso prémio Nobel apreciará e nós com ele que isto o sangue puxa para o sangue quer se queira quer não.
Uma coisa é certa: vieram para a nossa ilha, em quatrocentos, vinte famílias de quem nós todos descendemos. Feliz terra que tem o privilégio de saber quem foram os seus Adão e Eva. E já que o nosso cientista é Mello, vejamos o que significa esse nome. Ou melhor, vejamos como se formam os nossos nomes.
Nós portugueses damos ou transmitimos aos nossos filhos apelidos, por várias vias. A patronímica, como Rodrigues por ser filho de Rodrigo ou Marques por ser filho de Marco, ou damos nomes de rios, como Sousa ou Homem, ou de árvores, como Nogueira ou Pinheiro ou Cogumbreiro, ou de feitios como Mansinho ou Pimentel ou Melo, ou de lugares como da Maia ou também de Mello.

Melo é uma pequena vila na encosta norte da Serra da Estrela, perto de Gouveia e de Linhares. Costuma usar-se antes destes nomes a preposição de, pois tratando-se dum lugar a pessoa é conhecida por ser daí. Fulano de tal de Vila Franca, ou da Ribeira Grande ou de Melo. Ficou esta gente da Serra da Estrela famosa porque enfrentou os romanos com tal fúria e sucesso que os conquistadores do mundo acabaram por concluir que os desgraçados lusitanos não se governavam mas também não se deixavam governar. Parece que seriam celtiberos que se distinguiam dos cantábricos a norte (de Barcelos a Barcelona) onde um não é um nom e um pão um pom e assim por diante. E também se distinguem dos Turdetanos do Guadiana e do Guadalquivir, cujo altar mais sagrado era Sagres, onde enterravam em longas e demoradas procissões, os seus mortos importantes, cujo nome deriva mesmo de sacro por o ser para tal povo. Aí, um não, é nem, e pão, é pem e assim por diante. Para os celtiberos, pão é pão e não é não, sendo o único povo que, ainda hoje consegue distinguir a diferença de pronunciar uma palavra de dois esses e uma de cê cedilhado…
São pois os Melos celtiberos, beirões teimosos e ambiciosos, e aventureiros com fama de não terem medo de ninguém cuja coragem tantas vezes se confunde com temeridade. É pois natural que a aventura açoriana seduzisse essa numerosa família cujo apelido estava ligado desde a família real através dos Braganças até ao mais humilde servo da gleba e começara por nascer do feitio do primeiro que a usou, Soeiro Reimondes, chefe de linhagem dos de Riba de Vizela e dos “da Maia” (curiosa coincidência), famílias mais antigas que o Portugal de Afonso Henriques.
Chamaram a este Soeiro, o Melro, passarão astuto e ele, vaidoso, fundou a vila com esse nome que depois perdeu o “erre”, ali mesmo ao lado de Gouveia que também foi dele. Os seus descendentes, largaram então o apelido Reimondes (ou filho de Reimondo) e passaram a usar o de Melo, mais sonante e menos tribal. Ficou famosa a chegada um tanto atrasada dos Melos da Beira à Batalha de Aljubarrota que apesar de alegrar o futuro Rei de Boa Memória, este não deixou de dizer para quem o quis ouvir: “- Já pensava que não vinham!”. Mas vieram e ainda deram cabo de alguns dos castelhanos fugitivos.

O primeiro Melo que veio para S. Miguel foi o próprio descobridor e povoador e comendador desta ilha, Frei Gonçalo Velho de Melo Cabral, por ser neto de D. Catarina Dias de Melo. Mas o primeiro micaelense dessa família a usar o apelido Melo foi seu sobrinho bisneto, Lopo Cabral de Melo, genro de Afonso Anes, o da Maia, e bisneto daquele Diogo Gonçalves de Travassos que está sepultado do lado de fora da Capela dos Reis, no Mosteiro da Batalha por ter sido tão amigo de D. João I, que o de Boa Memória o foi ver pessoalmente a casa quando adoecera gravemente, talvez agradecido por lhe ter salvo a vida na grande batalha que forjou o Portugal de quatrocentos.
Gostaria de lembrar que o apelido Melo se escreveu com dois “éles” até à implantação da República cuja primeira reforma ortográfica varreu as consoantes inúteis. Contou-me um velho professor que no tempo do pai, se dava muita importância a essas consoantes e ai de quem as não pronunciasse bem. Certo dia, o senhor inspector entrou na sala, ávido de sangue. Mas a nobre professora para mostrar que o era com Pê grande, logo chamou o seu aluno mais significativo: - Ignácio de Assumpção Baptista? O aluno levanta-se e responde: - Prompto! E o senhor inspector rematou: - Óptimo! Com o uso dos dois “éles” permaneceram os monárquicos que não foram nas cantigas republicanas e nas suas modernices. Os nossos emigrantes, alheados das reformas e até da língua Pátria, mantiveram todavia ipsis verbis os nomes que daquela trouxeram, homenagem a seus pais que enternece os que cá ficaram e lhes permite, qual vestígio arqueológico, procurar as raízes sãs donde um dia os peregrinos brotaram.
Por fim queria falar-lhes numa curiosidade genealógica intrigante. No tempo em que viveu o Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Mello, muita gente nesta ilha usou esse apelido Mello, não se sabendo ainda a que cargas de água.
A minha família, por exemplo, que somos em Vila Franca do Campo, há muitos séculos, da Ponte, quando em 1745, meu avô Thomé, se casou, passou de Thomé Bento da Ponte para Thomé de Mello. Só seu neto Manuel retomou o apelido tradicional que meu bisavô António, no entanto, deixou cair por questões particulares, o que nos deixou Bentos e isso, pelo menos no nome, ninguém nos pode recusar…
Mas ao desvendar genealogicamente o meu ramo Mello, que devo à mãe de meu pai, topei com esta curiosidade: esse apelido é usado apenas a partir de 1750 por Teresa de Mello, de quem descendo e de quem o uso mas nenhum dos pais dela usa tal apelido que se perde assim na noite dos tempos.
Vejo que o Dr. Almeida Mello deparou com igual dificuldade em relação ao seu biografado. No século XVIII o Mello do nosso Nobel sumiu-se.
Será que o foram buscar ao Mello de algum avô longínquo ligado ao Comendador de Almourol, Senhor de Pias, Bezelga e Cardiga e comendador de Santa Maria e de S. Miguel no mar oceano? Esse mesmo Gonçalo Velho de Mello Cabral que em Évora, no meio duma praça de touros que el-rei D. João I mandou correr, ao atravessar a arena com as sobrinhas e pajens, foi atacado por um touro bravíssimo. Desviando com a mão esquerda as sobrinhas e acompanhantes, tirou a espada com a direita e cortou-lhe a cabeça ao meio, matando-o. Pelo menos foi isso que contava muita vez João da Câmara, capitão desta ilha, por o ouvir na corte do rei que frequentava miudamente. Esse João da Câmara, avô do construtor deste Castelo que nos proporcionou tão agradável encontro. Boa leitura meus senhores e obrigado pela paciência de me ouvirem.
Carlos Melo Bento
2009-06-06






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