terça-feira, 12 de julho de 2011

Dignidades

Ouvi na rádio uma senhora bem intencionada e boa cristã, sobre os sem abrigo que por aí andam deitados nas ruas, dormindo à porta deste e daquele e ali fazendo as necessidades, descompondo-se diante de crianças e velhos e de todos os outros, tudo acompanhado dos palavrões que a rica língua de Camões conhece e aplica. Dizia aquela boa alma que a dignidade deles estava acima dos seus vícios! Bom e já agora eu diria os direitos (certamente constitucionais) e a nossa obrigação de tolerar aquilo tudo e de lhes pagar uma pensão (não fiquem eles com sede), cama, mesa e roupa lavada e trocos para gastos que me abstenho de especificar. Será que a nossa dignidade está abaixo da deles e dos seus vícios? Será que teremos de engolir todos esses desaforos, gemendo e calando em nome não sei bem de quê? Mas então se o que viola a lei penal tem fica sem o direito à liberdade quem assim procede não pode ser obrigado a tratar-se quer queira quer não? Não é esta uma terra de turismo que dá pão a milhares e justificou o investimento de milhões? Não terão os pais e mães de direito de andarem pelas ruas da sua terra sem terem de ver e ouvir esse triste espectáculo do homem e da mulher degradados até à expressão mais elevada? E não terão as autoridades políticas e administrativas a obrigação de tomar medidas adequadas para que esse espectáculo acabe duma vez? Este laxismo é que não pode continuar. Bem sei que remover aquela gente para um hospital psiquiátrico ou outra instituição adequada não dá tanto lucro como as multas de trânsito mas convenhamos que o espectáculo a que assistimos enojados há tempo de mais é uma triste imagem dos que exercem o poder e que têm a obrigação de zelar pelos interesses colectivos. O direito a uma convivência sã, o direito à existência normal e decente não é privilégio de direita ou de esquerda ou (já agora) do centro mas um direito que foi conquistado pelas sociedades verdadeiramente civilizadas.

Lixo São Eles

Vasco Garcia dixit: as Moodis e companhia nem sonharam com a bolha do mercado imobiliário que lhes rebentou nas mãos (salpicando-nos a todos, digo eu). Desconheceram completamente a questão da Lehman Brothers que levou à cadeia um dos homens mais ricos do mundo (prisão perpétua, seja lá o que isso significa na América) e à ruína de milhares de pessoas que acreditaram nesses energúmenos. Depois, cantaram loas aos bancos islandeses, um dia antes deles irem à vida completamente falidos. Para esses “honestos” trabalhadores do capitalismo selvagem e imoral, é ignorância a mais mas a suficiente para que o País possa descansar na firmeza de acertar as contas, colocando as despesas ao nível das receitas e ir pagando o passivo que um calculismo criminoso de credores desonestos criou com o beneplácito de todos (ninguém conseguiu recusar as benesses do estado social ainda que os mais prudentes vissem logo que era muito queijo por um escudo). Vieram aqueles desgraçados classificar-nos de lixo. Bom, lixo é a tiazinha deles e talvez a mãe que o pai certamente não sabem quem é. Como sempre defendi, os nossos governos não têm poder contra as manigâncias internacionais e são mais vítimas que autores duma situação que não é tão má como a pintam pois a superprodução continua e há mais bens que pessoas; a situação é apenas de distribuição de riqueza e não de crise económica. Como disse alguém, isto é terrorismo financeiro que deixa cair uma bomba aqui (Grécia) ou ali (Portugal), a ver se pega alguma bancarrota e, como não pegou, aguenta-te Itália que já lá vamos. Se a dívida não for reestruturada e perdoada em parte, como tem de ser, porque o que é roubado não é lucrado (e os juros criminosos merecem é castigo pesado), isto continua. Senão, tirem o velho Marx da gaveta porque o colapso do capitalismo está aí, ao voltar da esquina e então vai tudo ao ar.

Carlos Melo Bento

2011-07-12

sábado, 18 de junho de 2011

Orfeão Edmundo Machado de Oliveira

DISCURSO PROFERIDO NO COLISEU MICAELENSE AQUANDO DOS 25 ANOS DO ORFEÃO EDMUNDO MACHADO DE OLIVEIRA

Senhora Presidente da Câmara
Senhor Director Regional da Cultura
Minhas Senhoras e meus Senhores
Quando há 25 anos um grupo de amantes da música resolveu fundar nesta terra um conjunto coral, nem sonhavam no êxito que a sua iniciativa iria obter nem com o impacto que a sua criação teria no meio musical açoriano, no da sua diáspora e em Portugal todo.
Tinha falecido há escassos 4 anos o mentor e patrono do Orfeão (no meu tempo de estudante IiceaI chamava-se “orfeon”, era mais chic!) e não é fácil saber hoje qual a verdadeira dimensão da sua influência sobre os fundadores, mas é de crer que tivesse sido um contributo decisivo para a iniciativa.
O seu ensino, o seu carisma, a sua cultura, e a capacidade de galvanizar os seus discípulos foi decisivo para que uma mão cheia deles sentisse alegria em batizar o novo ser que o seu entusiasmo gerou com o nome do pai espiritual. E foi na sede da Associação que 13 anos depois colocaram o seu busto eternizando em bronze a figura veneranda do velho mestre que tantas alegrias proporcionou ao espírito dos discípulos que “disciplinou” através da música.
Por outro lado, se José Gabriel ÁviIa preside à primeira direcção com a sua serena discrição, quem vai conduzir a multidão dos cantores que entretanto se reuniu à volta da ideia, é uma figura singular e estranha. Baixo, franzino, com um sorriso irónico permanente, voz de falsete, olhar penetrante, hiperactivo e postura desengonçada na regência, tudo nele fazia prever um inevitável fiasco.
Pois até aí ele enganou o destino. Alguém já disse que a música é a matemática do universo e eu direi sem receio de errar que José Rodrigues é um dos seus divinos cultores.
A sua paixão pela arte de Euterpe fê-lo o cimento que congregou todos os que se deixaram conduzir pela sua batuta através dos caminhos encantados dos sons musicados. Senhor duma poderosa vontade, o Maestro galvanizou os orfeonistas à volta de composições belas e difíceis, empolgando multidões de encantados espectadores que nunca lhe negaram enérgicas e demoradas ovações e inolvidáveis triunfos.
Certo dia, pediu-me que participasse num dos seus lendários ensaios, declamando alguns versos porque entenderam, ele e certamente os seus colaboradores mais próximos, que a minha voz encaixava em certa composição. Achei estranho o convite, pois o meu professor de música no ensino básico me proibira de cantar no coro da Mocidade, tais eram as fífias que dava e provocava nos meninos cantores desses tempos tenebrosos do fascismo cantando e rindo. Pelos vistos eu era melhor rindo do que cantando…
Mas o seu prestígio já era tão grande que aceitei o desafio e lá fui. A Igreja de S. José era o fantástico palco onde se desenrolaram os trabalhos que não foram nada fáceis contrariamente ao que eu esperava.
Saiu a primeira actuação tão perfeita na impecável acústica do nosso maior templo, tão maviosa e tão bela que pensei ir o ensaio durar pouco. Qual quê!? – Não está bom, mas não está nada bom, mesmo!, vociferava o pequeno maestro que na sua fúria se elevava a alturas não sonhadas.
E repetia e mandava repetir. Para os meus pobres ouvidos eram sempre belamente iguais aquelas passagens tantas vezes cantadas. Até que, finalmente, José Rodrigues ficou com a expressão de quem acaba de ter uma visão celestial, cerrando os olhos, sorrindo gozosamente para si próprio, ao passo que, nos bicos dos pés, erguia os braços virados para o céu com as palmas das mãos abertas e tremendo como se aguentasse nelas o firmamento, balbuciava baixinho quase imperceptivelmente: - Agora sim, agora sim!!!, e abraçava-se a si próprio como se envolvesse o orfeão num amplexo amoroso contagiante, ao passo que este o aplaudia como se tivessem descoberto o caminho marítimo para a Índia ao lado de Vasco da Gama.
Não disse nada, mas comentei para os meus botões: - Mas que raio de diferença teria ele ouvido em todas aquelas repetições que me escapara completamente? Por mero acaso, ao ler um prémio Nobel da literatura percebi que havia uma coisa chamada ouvido absoluto.
É que, alguns músicos com ouvido absoluto muito fino são capazes de reconhecer se uma obra está desafinada com respeito à afinação comum a uma distância de poucos savarts. Um Savart é a unidade de afinação, ou seja, a quantidade de desafinação que pode perceber um ouvido. Equivale a 4 cents. Um cent é a centésima parte de um semitom.
Estima-se que apenas uma em cada 650 pessoas no mundo possuam tal capacidade. E foi então que percebi duas coisas: José Rodrigues ouvia sons que eu nem sabia que existiam (nem tinha hipóteses de vir a saber) e tinha capacidade de pôr os outros a produzir esses sons em harmonia absoluta. Para mim isso valia pouco pois longe da vista longe do coração, para ele isso era tudo.
Passei então a admirá-lo e à sua obra, praguejando aos céus contra o facto de me não ter dado esse dom a mim, pois a música é algo que a minha alma anseia desde que me conheço.
Daí que não fosse surpresa o êxito alcançado pelo Orfeão por esse mundo fora: Portugal, de norte a sul, Brasil, Canadá, América, França. Trata-se duma instituição de altíssima qualidade.
Depois de o ouvir e apreciar, percebi que tinha de lhe pedir para actuar em festa da minha Família pois que as probabilidades duma iniciativa que envolvia tanta gente à volta duma operação amadora, dificilmente duraria tanto tempo, pelo menos com tanta qualidade. Ia enganar-me outra vez.
Na verdade minha mulher deu-me o último filho, a Maria, quando já éramos quarentões e eu temia não ter tempo para lhe fazer o casamento. Pedi então ao Maestro e colega encarecidamente que actuasse no batizado. Com aquela habilidade de advogado ágil, ele convenceu-os a participar e devo dizer-vos que nem os príncipes de Inglaterra tiveram direito a uma Aleluia tão electrizante como nós tivemos numa inesquecível e tão aplaudida actuação na nossa Matriz.
Quem diria que hoje o Orfeão Edmundo Machado de Oliveira, passados 25 anos, ainda estaria activo e bem activo embora sob a batuta de Cristiana Spadaro, a italiana formada em Triestre que se aperfeiçoou em Geneve e em Lisboa, cumprindo os altos padrões melódicos do seu primeiro maestro e demonstrando que os alicerces por este construídos foram fortes e bem feitos.
Com ele, o Orfeão cantou os 500 anos da descoberta do Brasil, inaugurou o Centro Cultural de Belém, ganhou prata com a UNICEF e da própria LAVA FEZ MÚSICA . Só ou acompanhado com prestigiadas instituições similares.
Começou José Rodrigues a advocacia dez anos depois de mim, e, mais esperto que eu (também não era difícil), deixou a advocacia 10 anos antes de mim e, sempre fascinado pela música, fundou o Stella Maris no Canadá, revolucionando ali também o ambiente musical. A sua presença hoje nesta maravilhosa sala de espectáculos, sob obras primas de Canto da Maia e Domingos Rebelo, é motivo de júbilo para todos quantos ele guiou pelos cantos sagrados da matemática universal e dos que tiveram a dita de o ouvir. Bem-haja.
Uma instituição como esta, obviamente que não vive apenas de cantores e maestros. Aqueles que tratam da organização dum tão grande grupo e que cuidam da logística infernal das deslocações e da preparação dos espectáculos para que tudo corra sem incidentes de maior, merecem também a nossa admiração e respeito.
As equipes responsáveis pela realização desses objectivos não devem ser esquecidas. Já falei da que foi presidida por José Gabriel Ávila, mas não posso deixar de falar em Gabriel Moreira da Costa, em José Augusto Borges, em José Oliveira Melo, em Laudalina Rodrigues que com o Maestro partilha a mesma incondicional paixão pela música tudo sacrificando no seu altar sagrado. Falarei também da de José Manuel Aguiar e, neste momento, de Aida Medeiros a cuja equipa devemos estas comemorações e este magnífico espectáculo.
Registe-se que uma instituição como esta não vive sem juventude que garanta a continuidade e a vida duma obra tão complexa. Por isso, não foi descurada a criação do coro infantil juvenil cuja direção musical foi garantida ao longo dos anos por Carlos Sousa, Osvaldo Costa, Carlos Dias, Ana Beatriz Moniz, José Manuel Graça e, nos dias de hoje, por Rita Andrade. Está assim fechado o círculo que garante a perpetuação duma ideia que tem sido realizada com alta qualidade. E, acreditem, só a qualidade, (que não a quantidade como queria Lenine), garante o êxito e a perenidade da obra humana, no incessante esforço de se aproximar do divino.
A nossa terra e o nosso povo não poderão nunca progredir se a alta qualidade não constituir o diapasão das nossas ações em todos os ramos da atividade humana com relevo especial para as do espírito.
Parabéns a todos quantos e longa vida.
Carlos Melo Bento
17.junho 2011




segunda-feira, 13 de junho de 2011

6 de Junho

Faz hoje precisamente 36 anos que um bando de indivíduos armados com metralhadoras me entrou de madrugada em casa, tendo uma delas exibido um papel que me intimava a comparecer no quartel general. Entraram no quarto de cama onde se encontravam deitados minha mulher e meus filhos, então crianças de 4 a 10 anos de idade. Levaram-me numa viatura militar não para o quartel-general mas para um navio faroleiro, repleto de homens armados e tão assustados como eu (que estava desarmado). Em casa, cortaram o telefone para que minha mulher não telefonasse a ninguém a pedir ajuda, enquanto uns tantos irresponsáveis a ameaçavam com uma pistola da casa em frente. O barco carregou 30 pessoas presas da mesma maneira, ilegal e arbitrária, e levaram-nos para a Terceira onde era suposto ficarmos presos políticos no quartel de Angra. Mas como eram mentirosos, levaram-nos para a cadeia civil, de onde tiraram os presos de delito comum e nos enfiaram nas mesmas celas e camas com as sujas roupas dos seus espantados inquilinos que foram não sei para onde. Após um simulacro de interrogatórios e outras palhaçadas, fomos libertados depois de 8, 15 e 30 dias de miserável reclusão que o povo já estava a revoltar-se, principalmente na ilha de S. Miguel. Uma vez fora, deu-se o vice-versa e aqueles que cometeram esse atentado contra a nossa dignidade foram castigados, física e/ou psicologicamente. Já lhes perdoei a afronta (porque Deus assim o quis) mas não a esqueci. Ponto é saber se o povo em cujo seio foi feita esta monstruosidade também já esqueceu as causas deste dislate, porque isto, no social, as mesmas causas provocam sempre os mesmo efeitos. Da nossa reacção contra a violência nasceu esta autonomia, não tudo o que precisávamos mas deu paz mais de 30 anos. Oxalá que os de costume não se esqueçam que este povo parece mole mas só o é até o porem contra a parede.

Carlos Melo Bento

2011-06-07

terça-feira, 31 de maio de 2011

A voz dos Açores

Há alturas em que convém marcar a diferença e nestas eleições isso pode ser indispensável. Ricardo Rodrigues e Mota Amaral são dignos e competentes mas é-lhes impossível, defender interesses diferentes dos que forem impostos pelas suas comissões políticas nacionais. Sempre foi assim e não há razões para crer que esse quadro não continue, pese o contrabalanço de César enquanto exercer o poder.
Mas os açorianos dispõem do seu Partido Democrático do Atlântico. Não eleger um deputado deste partido é um desperdício e um erro. Basta um para fazer diferença. Só a sua presença obrigaria os outros deputados a pôr-se em sentido e a perfilar-se pela predominância dos interesses colectivos açorianos, quaisquer que sejam as posições daquelas comissões políticas. Sem um deputado que só a nós deva contas, os outros ou alinham ou se abstêm, e não passaremos da delicada indefinição vigente. Pode argumentar-se que a prudência manda, face a uma possível coligação com o CDS, que seria oportuno eleger Artur Lima. É um erro, pois a direita nunca deixa de ser centralizadora, que essa é a sua natureza e sendo totalmente centrada em Lisboa, os seus efeitos não podem deixar de ser perniciosos para a autonomia, as finanças e o nosso incipiente estado social. Veja-se o que aconteceu a Mota Amaral com Cavaco, no seu último mandato e terão uma amostra significativa do que nos pode acontecer. Historicamente, Aristides da Mota (1895) e Luís Bettencourt (1925) conseguiram a solução do micaelense partido local. Esquecer a história é recuar, repetindo erros escusados. À beira da bancarrota Portugal imporá tudo. Não irá vender as ilhas como se sugeriu no século XIX, mas imporá sacrifícios que a nossa fragilidade não suporta. É preciso que haja em Lisboa alguém suficientemente descomprometido para lembrar que este povo não aguenta mais sacrifícios.
Carlos Melo Bento

31.5.2011

domingo, 29 de maio de 2011

Balelas

Se fôssemos independentes ou se nos não tivessem proibido os partidos açorianos, estou certo que os nossos eleitores, em vez de se preocuparem com as questões de Lisboa e do seu governo, apenas pensariam nos seus problemas. Isto tem a ver com as eleições ditas nacionais que, para nós, deveriam ser todas menos as autárquicas. Pode parecer de somenos este método de raciocinar mas não o é tanto. O TGV, o aeroporto de Lisboa e outras coisas fundamentais como a falência estatizada do BPN, o disse que não disse deste ou daquele governante de lá é-nos completamente indiferente. Pouco importa que Ricardo Rodrigues pense que o PSD de Passos é bom ou mau, e que Mota Amaral diga de Sócrates o que Maomé disse do toucinho. Importa sim se aquele defendeu zelosamente o que o Povo açoriano precisa que seja defendido, designadamente o que o Governo Açoriano entendeu ser do nosso interesse, ou se Mota Amaral defendeu com independência aqueles que nos criaram condições financeiras para que os Açores sejam bem governados como o são neste momento e possam continuar a sê-lo no futuro (seja por quem for) exigindo a Passos Coelho que, se for eleito, respeite escrupulosamente a Lei das Finanças Regionais (ainda não se ouviu uma palavra da sua boca sobre os Açores), se respeitará o Estatuto, se extinguirá o absurdo e antidemocrático cargo de Representante da República e por aí fora. Chegou a altura de se não votar como nas apostas desportivas: quem acertar no cavalo vencedor ganha senão, não. Votem neste porque ele agora é que vai ganhar em Lisboa, é uma perversão intolerável da boa forma de nos governarmos e que nos pode conduzir a uma tragédia social. Enquanto os Açorianos não decidirem o seu destino político como for do seu interesse exclusivo, a palavra autonomia ou qualquer outra com que a pintem, não passarão duma balela que só enganará os tolos ou os distraído

2011-05-24

Ingratidão

A discussão sobre a presente crise está desfocada. Não por não ter nitidez mas porque não foca o essencial. Contrariamente às acusações que fazem ao governo socialista de Guterres/Sócrates, o estado social em que vivemos não é mau. O que ele peca é por se não autosustentar. Hospitais gratuitos (ou que pouco se paga e a minha geração soube o que isso era que só se tratava quem tinha muito dinheiro ou médico de graça), escolas quanto baste até à Universidade praticamente gratuitas, tribunais com acesso ilimitado (naquele tempo quem tinha uma quarta de terra no seu nome já não era apoiado). Aos idosos vão levar comida a casa duas vezes por dia, lavam-nos e tratam-nos de graça! (antigamente eram internados nos Asilos para morrer quase à míngua). Aos mais carentes (e não só) dão-lhes um subsídio mensal proporcional (antes mendigavam, emigravam ou estavam presos por roubar). Pagam parte do juro das milhares e milhares de casas que se constroem por todo o lado, ao ponto dos jovens casais com mais juízo as comprarem sem ter que arranjar mais fianças que os próprios empregos (naquele tempo para se levantar 5 contos-25 euros - do banco era preciso uma fiança e dois avalistas!) e por aí fora. Contado lá fora, ninguém acredita, nem nos países socialistas europeus. E a nossa Terra que era de fome e emigração tornou-se num paraíso para mais de 5.000 imigrantes estrangeiros! Portanto insisto: o que está mal não é este estado social mas sim a sua sustentabilidade. E quando se gasta mais do que se pode, há que cortar nas despesas, trabalhar em mais dum emprego ou fazer horas extraordinárias. Lamentar o estado da dívida? Não vale a pena, pois, como já escrevi aqui, todos fomos culpados que aceitámos esse dinheiro sem reservas. E os que em oposição criticam a situação não podem ser absolvidos de hipocrisia política. Aceitam a esmola mas batem em quem lha deu porque ficou pobre. Ingratidão?

2011-05-17

À deriva

Preocupemo-nos com o que se está a passar aqui. Como o segredo é a alma do negócio ninguém fala a verdade e todos mentem. Entretanto, a crise alastra como peste medieva porque o factor psicológico impele as pessoas para atitudes que são contrárias aos seus próprios interesses. Pedia-se que o estado social emagrecesse um pouco e parece-me que o que está acontecendo é que as pessoas se confundem com o estado social e não o são. Quando alguém tira o seu dinheiro do banco, quando, sem necessidade, diminui o consumo, já de si escasso, isso fragiliza o banco e o comércio. Quando alguém para economizar compra mais barato onde todos sabemos e deixa de comprar o que aqui se produz porque é mais caro, está a dar um tiro no próprio pé, pois os que cá receberem menos dinheiro menos terão para gastar e por aí adiante. É uma espécie de pescadinha com o rabo na boca. Quando se compra laranjas espanholas porque são mais brilhantes e porque os supermercados estão cheias delas quando as do nosso quintal apodrecem no chão. Há também os que fazem tudo isso para fingir economizar e inglês ver mas que depois vão a cruzeiros de luxo onde ninguém os conhece, divertir-se à grande e à francesa. Acho que nestas coisas da economia (como aliás em tudo o mais) a nossa maior preocupação deve ser não mentirmos a nós próprios. E, com espírito crítico quanto baste, tomarmos as opções mais sensatas no meio desta tempestade financeira que vai deixar vítimas pelo caminho, não hajam dúvidas. Mas o estado tem de emagrecer. 5%? Talvez. Aumentar a receita 5%? Provavelmente. Mas então porque é esse reboliço todo de aumentar a carga três ou quatro vezes mais do que é preciso oficialmente? E reduzir tudo muito mais do que anunciam? Bom, talvez porque aí continuam todos a mentir e a procurar apenas uma coisa: os que estão no poder, mantê-lo. Os que estão na oposição, obtê-lo. Enquanto isso, a barca parece à deriva. Estará?

A prata da casa

O Partido Democrático do Atlântico que ajudei a criar já lá vão mais de trinta anos, concorre às próximas eleições legislativas, por isso, ninguém estranhará que o defenda. É seu cabeça de lista o meu colega Manuel Costa. Depois de uma carreira profissional de 28 anos de serviço como bancário em que ascendeu à gerência da Caixa Geral na sua Ribeira Grande natal, decidiu, aos 50 anos de idade concretizar o sonho de continuar os estudos interrompidos pelo serviço militar. Cinco anos depois, conclui em Lisboa a Licenciatura em Direito com honrosa classificação e regressa aos Açores para exercer advocacia. Este é o homem que o partido açoriano propõe para nos representar no Parlamento de Lisboa. Na actual conjuntura política, os açorianos precisariam duma voz liberta de outras disciplinas partidárias que, tendo algumas vantagens, padecem de inconvenientes nem sempre compatíveis com as nossas aspirações, objectivos e anseios. Se a convergência partidária tem trazido alguma folga financeira, as nuvens no horizonte pressagiam a necessidade de podermos falar fora daquela ou mesmo apesar daquela. Ninguém sabe quem vai ficar em S. Bento depois do 5 de Junho mas, por estes lados, a falta de renovação das listas do PSD, pode levar a alguma deriva imprevisível que só Deus sabe a que destino nos conduzirá. A eventual subida eleitoral do partido de Paulo Portas pode não trazer benefícios directos aos Açores e até pode ser contraproducente se ele continuar na oposição. A História açoriana ensina que, nestas conjunturas, nós nos voltámos para nós próprios, fazendo das tripas coração e do bom senso e coragem as armas mais úteis. Será que desta vez vão querer usar a prata da casa? Se quiserem ela está limpa e a brilhar. Desde há 30 anos, sem descanso, sem rancor e sem mágoa.

2011-05-03

Na tempestade

Suponho que a nossa maior preocupação será, agora, o que vai ser dos açorianos, face às actuais reviravoltas políticas. Temos um chefe de governo no auge da experiência política e com vasto relacionamento com o poder central e um governo na mesma situação, pelo que não estamos fragilizados quanto às pessoas. Em relação à crise financeira privada e aí não há autonomia que nos valha, esperaremos pela pancada que será, presumo, igual para todos. Sabida como é a dependência do nosso tecido empresarial da banca, é de supor que será esta a ditar o ritmo, e pela montra, há que rezar muito a Santa Europa para que a trate bem e não nos consuma, livrando-nos dos nossos inimigos, entre os quais não tenho a certeza se o FMI se conta. Talvez que sim. Postas as coisas neste pé, estarão bem os que nada devam (ou pouco) e o mal de muitos é por vezes o bem de outros. Em 1977, Mota Amaral tinha um ano de experiência governativa. Safou-se e bem, apesar da tormenta. Em 83, levava 7 anos de governação… O actual governo é apanhado com muito mais experiência governativa e com eleições regionais só para o ano que vem. Veremos como sairá da tempestade e tudo vai depender do tamanho das ondas, da força dos ventos e da robustez da embarcação que construíram. E nós, os mortais eleitores, como deveríamos comportar-nos? Como são eleições nacionais, certamente que o incauto local irá votar a favor deste e contra aquele ou no eleito do seu coração, dependendo de ser ou racionalista ou crente. Àqueles que não têm fixações obtusas caberá o desempate, de acordo com o interesse colectivo açórico e mais nada. Isto se obviamente não for dado por quem de direito o brado de Pátria em perigo, caso em que teremos de ser todos por um e um por todos. Até às eleições, há que estudar e meditar para tomarmos sozinhos a decisão correcta de levar o barco a bom porto.

Carlos Melo Bento

2011