terça-feira, 26 de maio de 2009

De que serve?

Serem os marienses os mais inteligentes e espertos, os micaelenses os mais trabalhadores? De que serve carregarem os terceirenses às costas, como o Atlas, a História de Portugal e os jorgenses serem os mais hábeis e engenhosos de todos nós? De que serve serem os graciosenses os mais educados e os picoenses os mais corajosos e diplomatas dos açorianos? De que serve serem os faialenses melhores políticos que os outros, os corvinos os mais bravos e agradecidos de todos nós e os florentinos os mais bondosos... se nós continuamos de costas viradas uns para os outros como se não habitássemos o mesmo Arquipélago, como se não fossemos todos controlados à distância por quem nem a si se sabe controla? Como se as leis votadas e aprovadas, por nós e por eles confirmadas, não fossem desobedecidas por eles próprios, por meros caprichos e birras incompreensíveis que espezinham todo um Povo, negando-lhes até a dignidade de se chamar a si próprio o nome que a História e os seus Maiores escolheram! De que serve isso? Não será que não temos direito a ser felizes também? Não será que esta gente perdida no meio do Mar imenso, há quinhentos anos, não tem o direito de juntar a si os seus pedaços repartidos pelos quatro cantos do mundo, espalhados pelo abandono, desprezo e exploração sem escrúpulos de gerações de senhores sem lei e sem coração? Que raio de Democracia é esta que nos nega com uma mão o que nos dá com a outra? Não me conformo com o só podermos ser gente quando nos expatriamos.
Carlos Melo Bento
2009-05-26

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A Voz

Estas eleições europeias não deixaram aos açorianos qualquer margem de manobra a não ser as de bastidor em que os principais partidos se deleitaram, puxando mais para cima ou mais para baixo os respectivos campeões internos, escolhidos por forma muito pouco transparente. Nada se pode dizer das pessoas em si, estimáveis e certamente prontas a dar o seu melhor se forem eleitas. Só que (parece) que os socialistas e sociais-democratas açorianos pouco tiveram a ver directamente (como era seu direito) com as escolhas decididas em outras esferas e não debatidas publicamente e, ao que sabe (e sabe-se muito pouco), nem privadamente, por aqueles. A sua intervenção vem depois da decisão tomada e não antes, como impõem as boas regras democratas. No tempo do Estado Novo, era de facto assim: os notáveis locais insinuavam dois ou três nomes para Lisboa; Lisboa excluía este ou aquele por insondáveis razões, e os aficionados locais aplaudiam a lista final que vinha da capital pela crença generalizada de que tinha sido benzida por Salazar e, portanto, indiscutível. Mas isso foi na ditadura. O mesmo comportamento em democracia é intolerável. Mas só nos podemos queixar de nós próprios. Porque não impusemos um círculo eleitoral autónomo? Pois…
A voz da saudade calou-se para sempre. Morreu Hermínio Arruda. Quantas lágrimas correram ao som da sua música? São Miguel será sempre a tua terra e, enquanto memória desta vida se consentir, serás sempre lembrado, Amigo, entre aqueles cuja alma saciaste, cantando.
Carlos Melo Bento
2009-05-05

Histerismos

Pode pensar-se que alguma coisa de estranho se passa com os barcos encomendados a Viana do Minho pelo nosso Governo e que, após demoras e rocambolescas manobras, desembocou no rasgar do contrato por nossa parte. Aparentemente porque o produto final, sendo realmente muito bom e muito belo, era lento. Faltava-lhe dois nós de fôlego. E o governante implacável, zangou-se e mandou o prestigiado estaleiro às malgas. Acho estranho. Dois nós?!? Ao que me dizem, numa viagem marítima de passeio entre S. Miguel e a Terceira, tal redundaria num atraso de menos de duas horas. E o que é que isso tem? Não se podia ter renegociado o preço final? Não podia o Governo obter noutro sector vantagens que equilibrassem os escassos nós em falta? Cheira que, por detrás das razões publicadas, haverá outras que expliquem a medida draconiana. Que, não que a oposição é que tem culpa porque levantou o problema na ânsia histérica de criticar o governo e baralhar a opinião pública. O histerismo existiu mas será que alguém acredita que César alguma vez ligou aos histerismos da oposição? Não, aqui há gato e aparentemente de raça traçada, pois não vejo que a salvaguarda dos nossos interesses colectivos e os do Estado estejam a ser defendidos por uma decisão mais que discutível. Sempre se viu renegociar (aluguer, recepção provisória, e sei lá que mais), em matéria tão difícil como a construção dum barco daqueles. Porque razão agora haveria de ser diferente? Haja bom senso e, principalmente, discernimento.
Carlos Melo Bento
2009-05-19

terça-feira, 12 de maio de 2009

Ecce Homo

Contaram-me há anos a história daquela criança ceguinha que assistia, atrás da multidão, à Procissão do Senhor e que pediu ao Avô, com quem estava, que a pusesse às cavalitas. O pobre senhor, na sua ingenuidade e dor, respondeu-lhe: -“Mas para quê se nada podes ver?” – “Não é para eu ver, Avô, é para o Senhor Santo Cristo me ver a mim”. Muito se diz da fé do nosso Povo e muita crítica se ouve por esta e aquela exteriorização dessa fé. O micaelense, que não é o mais delicado dos povos insulares, tem porém uma fé intensa, transmutando-se, perante Deus, duma forma que não faz perante mais ninguém. Na romaria é vê-lo, homem feito, rezando e cantando e caminhando em volta da sua ilha, recolhendo intenções e pedindo com fervor. Veste-se a rigor e marcha respeitoso na Coroação dos Impérios do Divino Espírito, descalça-se e carrega durante horas quilos de cera para pagar favores que no fundo da sua alma aflita acredita Deus lhe fez. Ele é, nessas alturas, a humanidade no que tem de mais sublime. E somos nós. Pode haver e há desvios a essas condutas, condenáveis porventura por Quem tudo pode que não por nós. Alguém lembrou as palavras de João Paulo II em S. Miguel: - “Só Cristo pode preencher essa forma de infinito que existe nos vossos corações”; e o nosso actual Bispo rematou – “A espiritualidade se não se transforma em cultura, é o quê?”. Que viu o Papa no olhar do nosso Ecce Homo que o aturdiu? O escárnio? O poder? O perdão? O amor divino? A mansidão? A humildade? Ou tudo isso?
Carlos Melo Bento
2009-05-12

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Democracia

Em 1974, para quem acreditava em Marcelo Caetano, sábio eminente, inteligência invulgar, professor e mestre respeitado, a revolução era impensável. A guerra do Ultramar com dezenas de milhares de rapazes por cuja segurança rezávamos, um império julgado irrenunciável, implicavam um atraso na restauração da democracia que se esperava do herdeiro de Salazar. Nos anos 50, dizia-se que o afastamento deste conduziria à guerra civil. Marcelo evitou-a e, esperava-se, iria conduzir-nos à democracia. Parece que sobre estimou os salazaristas e não teve azo de afastar Américo Tomás e os radicais de direita. Esse erro levou ao derrube do regime e à restauração da democracia pela força com fuga de cérebros e capitais (para Espanha e Brasil, principalmente), depois dum susto ditatorial comunistóide pelo meio. Mas a democracia foi restaurada e Mário Soares que a realizou empurrando-nos para a Europa com colossais benefícios, transformou-se no campeão do Portugal moderno, rico e progressivo como nunca. Nós, por cá, nunca conseguimos que a democracia atingisse o limite da vontade popular livremente expressa mas, ainda assim, conseguiu-se um ponto de equilíbrio que, se não recuar, certamente nos haverá de conduzir até onde os açorianos quiserem. O facto de poder publicar estas linhas prova porém que esta democracia superou o regime anterior também no campo das liberdades e aí tem de dar-se a mão à palmatória. Os pessimismos são injustificados: regime e Povo têm capacidade de sobreviver. A seu modo.
Carlos Melo Bento
2009-04-27

terça-feira, 7 de abril de 2009

Pai tirano?

A nossa autonomia como realidade e conceito político não é coisa fácil de entender na capital dum país onde a democracia tem poucas e fracas raízes. Servem de prova desta afirmação as posturas do insuspeito Jorge Sampaio cujos conceitos democráticos foram por ele praticados desde tenra idade e que, mesmo assim, acabou por concluir, contra toda a lógica democrática, que o crescimento da nossa autonomia tinha acabado, como se fosse possível a esta distância alguém prever quando é que uma instituição social pára de crescer, estagna ou morre. O presidente Cavaco Silva segue o mesmo raciocínio embora por outras vias, tentando até usar os seus deveres moderadores para pressionar o poder legislativo a desdizer o que disse no que foi a primeira atitude verdadeiramente democrática, em relação a nós que este poder tomou com alguma firmeza e constância desde 1974. O Povo Açoriano o quis, assim o teve. O actual Presidente não entende assim. Mas a autonomia é uma bolsa de liberdade e poder colectivo que a história e a geografia geraram e num corpo maior e que tem de ser respeitada senão a felicidade dos povos periga ou não se realiza. Só que o unitarismo estatal, versão nova do velho centralismo, não o consente e aquele, arrimado ao Tribunal Constitucional com quem mantém uma relação no mínimo estranha para um Tribunal, seduziu o Presidente, talvez esquecido dos que aqui votaram nele. Ou não? Um pai que quisesse manter o filho sempre criança, teria ainda assim direito a ser considerado bom pai?
Carlos Melo Bento
2009-04-07

terça-feira, 24 de março de 2009

Augusto Cymbron

Durante algum tempo soube bem vê-lo e ouvi-lo como representante nacional das gasolineiras, defendendo com rigor os interesses dos representados e, por tabela, os dos consumidores que observam espantados o sobe e baixa dos preços do petróleo nos mercados internacionais e o sobe sobe dos preços da gasolina cujos fornecedores parecem estalinistas, tão rigorosamente levam a preceito o ensinamento do mestre russo: dois passos em frente e um atrás. Perdida a noção de honradez no mundo dos negócios do mercado livre, com os escroques a subirem aos mais altos cargos das companhias e dos bancos (que o décimo primeiro mandamento é o: “não te deixes apanhar”), fica-se com a ideia de que pessoas como o Dr. Augusto Cymbron, são espécie em via de extinção. Não porque a natureza os extinga como aos dinossauros mas porque os caçadores furtivos os abatem sem contemplações, escapando por ora, às malhas da lei. Juntam-se em matilhas de lobos com peles de cordeiro e, invocando os sagrados direitos, usam-nos, não para defender interesses legítimos mas para se empanturrarem à custa do cidadão comum distraído entre as internets e os gameboys e alheio às aldrabices que entretanto são feitas nas suas costas e às suas custas. Bem-haja e, da ínfima parte que me cabe, obrigado. Desceu à última morada, na terra que adoptou, o madeirense Fernando Acciaoli Homem de Gouveia, rocha de amizade e coerência. José de Almeida considerou-o o amigo mais difícil. Ainda assim, Amigo. Grande!
Carlos Melo Bento
2009-03-24