segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A diferença

Natália Correia, a maior poetiza portuguesa do século XX, na opinião abalizada de Sousa de Oliveira (o fundador da arqueologia científica nos Açores) teve um contacto muito intenso e íntimo com o movimento independentista açoriano que surgiu depois da descolonização portuguesa. Face ao espectro político existente, ela dizia alto e bom som (nunca falou doutra maneira) que os independentistas faziam a diferença.
As coisas evoluíram como se sabe, o peso de Mota Amaral arrasou as restantes forças e tudo se diluiu nesta autonomia em permanente crise de crescimento e consolidação com contradições insanáveis que levam os autonomistas a querer avançar por necessidade e os centralistas a fazê-la recuar por interesses inconfessáveis.
A nossa representação parlamentar na Horta ou em Lisboa não é por isso indiferente, visto que temos de ter em conta o que os Açores precisam e não o que os outros querem. Qualquer deputado que não tenha consciência de que só podemos viver bem nestas ilhas com muita luta e com muito esforço não merece ter os nossos votos. Não se vota por amizade nem por interesse pessoal. Deve votar-se por convicção. Convicção é uma espécie de crença. Acredita-se que fulano é bom para conduzir o barco ou não é. Se é, deve votar-se nele mesmo que se não goste da sua maneira de vestir ou do tom de voz. Ninguém procura um médico por ser simpático ou bem cheiroso. Procura-se aquele que dê a cura porque o sabe fazer.
Hoje já ninguém sabe qual é o partido dos ricos e o dos pobres porque não há pobres nas direcções de nenhum deles. Os ricos encostam-se sempre aos que mandam e aos que podem. Os pobres ou têm inteligência para escolher entre eles o que melhor lhes serve ou serão pobres toda a vida. E para se deixar de ser pobre não basta ter uma casa e um subsídio. Há que ter instrução e estudo pois essa é a única riqueza que os impostos não podem tirar a um ser humano. Parece que os chineses é que dizem: não dês o peixe, ensina a pescar. Nem mais.
Carlos Melo Bento
1 de Outubro de 2008

Para cá do Marão...

O Presidente da República enviou ao Tribunal Constitucional o Estatuto Açoriano depois de aprovado por impressionantes unanimidades nas Assembleias legislativas açoriana e portuguesa. Sempre me bati contra a necessidade da sua reapreciação pela Assembleia da República cuja legitimidade democrática para esse efeito é mais do que duvidosa para julgar um diploma que só diz respeito a uma Região cuja autonomia política e administrativa é um facto consumado interna e externamente.
O gesto do Presidente diz-se estribado em pareceres de vários juristas; não é todavia inocente. Não tem a Assembleia açoriana acessoria jurídica suficiente para garantir que o diploma não é inconstitucional? Não tem a Assembleia da República dos melhores juristas do país e não foram eles consultados antes da aprovação unânime dos Pais da Pátria, aqueles mesmo que aprovaram a Constituição? Serão os juristas do Presidente melhores que os da Assembleia, órgão legislativo que o Chefe de Estado não é? Por outro lado, a imagem de imparcialidade do Tribunal Constitucional não é propriamente imaculada. Formado por juízes de nomeação política ele é, sem o ser, um Supremo Tribunal de Justiça. A sua existência, cópia do francês, é um absurdo lógico e jurídico. Primeiro porque não há nada acima do “supremo” ou a gramática é uma batata. E juridicamente, o Supremo Tribunal, desde a sua criação em 1832, é a última instância da ordem jurídica portuguesa para onde têm de dirigir-se todos os recursos. Criar uma instância superior à do Supremo é um erro. Devemos conformar-nos com o que o Constitucional decidir ou, já agora que o Supremo já não é supremo, devemos apelar para as instâncias internacionais se aquele beliscar o unânime Estatuto? A lógica manda esperar para ver, embora se esteja mesmo a ver desde já. O que não quer dizer que, politicamente, se não vá fazendo algumas ondas para que se perceba que para cá do Marão mandam os que cá estão.
8 de Julho de 2008

A Jóia da Coroa

Vila Franca do Campo é a jóia da coroa do turismo açoriano não só em termos de belezas geográficas únicas no Mundo, como pelo seu património arquitectónico sem igual, pela riqueza arqueológica sem paralelo no mundo português, pela etnografia ímpar, pela gastronomia caseira única e manifestações religiosas e populares que serviram de alicerce a tudo o que nesta ilha existe e perdura na diáspora açoriana do Brasil e das Américas em geral.

Para não haver dúvidas actualmente de que o turismo será o sucessor da agro-pecuária como solução económica para a presente conjuntura e tudo se tem conjugado para que a próxima década pelo menos viva dessa actividade. As baterias governamentais açorianas sob a presidência de Carlos César apontaram com aparente êxito para o sector que cresceu a olhos vistos e vem trazendo alguma riqueza para os nossos quase desanimados operadores económicos.

Mas Vila Franca tem de ser a mola real dum turismo que se quer irresistível em qualidade e durável. De tanto vermos a beleza incomparável do ilhéu, a mais formosa piscina natural do mundo, esquecemo-nos da potencialidade ali concentrada, desde espectáculos de luz e som com narrativas históricas, até ao banho de mar sem paralelo para todas as idades e classes, resguardado do diabólico barulho dos pacóvios apanhados na armadilha dos altos sons duma duvidosa e ruidosa musicalidade que tudo estraga, passando por espectáculos nocturnos de músicas de encantamento que não haverá Caraíbas que as valham.

A espectacular paisagem da Senhora da Paz quer na sua festa pela que a humanidade sofrida tanto aspira quer nos estonteantes dias solarengos de Verão que uma boa empresa de entretenimento seleccionado transformará em inesquecível acontecimento para qualquer mortal.

A arquitectura patente nos vetustos templos de S. Miguel, Santo André, Misericórdia e S. Pedro, ou nos conventos, na Casa dos Padres Mestres, nos recuperáveis Castelos do Tagarete e Taipas, no Palácio do Conde ou nas casas do Capitão Mor ou dos pombalinos Paços do Concelho que marcaram épocas e pessoas e serão percursos sem par.

A arqueologia vinda da primeira vila da expansão portuguesa guardada há 500 anos no subsolo à espera que outro Sousa de Oliveira a traga à luz do dia (para quando Universidade nossa?).

A procissão de S. Miguel única na Europa com as artes e ofícios valentemente sobreviventes das revoluções culturais que assolaram o velho continente e que esperam o estudo dos curiosos do passado comum. O S. João vibrante de alegria e vida, a nossa caldeirada, o pão de milho a cebola curtida a massa sovada, sem comparação possível com nada deste mundo, tudo isso são galões que têm de ser puxados nesta disputa do melhor e mais bem feito para o bem de todos.
Rui Melo, traduzindo uma velha aspiração vila-franquense quer que a Vila seja cidade e tem razão mas há que aproveitar o seu dinamismo e potencial político inegáveis para fazer desta terra, não a velha capital da Ilha mas a nova capital do turismo açoriano e sua jóia mais cara.
Carlos Melo Bento
2008-06-21

Inteiramente

Portugal é um dos mais antigos Estado da Europa, entendendo-se como tal a Nação politicamente organizada. Nervos essenciais do estado são as forças armadas e o sistema económico – financeiro, a tal ponto que, quando um destes sectores entra em crise, o estado periga e, no geral, transforma-se. Nos estados de mercado livre, a economia e as finanças assentam na banca, depositária das poupanças e dínamo dos investimentos. Quando a banca espirra o estado constipa-se. Por aqui se vislumbra o perigo que nós todos corremos na presente situação, emergente duma crise bancária à escala planetária e que embateu com violência inaudita no tal nervo, num impacto que abalou todos os sistemas internos, desde a empresa à moradia, desde o emprego à mesa. Abismados, assistimos ao revelar de indícios de graves tropelias, num sector que deve ser inteligentíssimo mas que tem de ser integérrimo. Parece que, afinal, nem uma coisa nem outra, com a agravante de se pretender agora conspurcar o mais alto órgão de soberania do estado. Nunca ninguém se atrevera a tanto desde D. Carlos I e deu o que deu. Há algo por detrás desta furiosa e estranha tempestade que está mal explicado. O País não devia ser joguete na mão de gente sem escrúpulos nem sujeitar-se a ser defendido por ingénuos passivos, sem coragem para impedir ocorrências gravíssimas que nos podem perder a todos. A Justiça por melhor que seja (e é) não previne nem governa. É altura de se exigir aos que pagamos para isso que cumpram os seus deveres. Inteiramente!
Carlos Melo Bento
2008-11-24

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Gratidão


Qualquer que tenha sido o motivo de deixarem os órgãos supremos da autonomia açoriana, os que agora saem e exerceram os respectivos cargos com desinteresse material e sacrifício das suas vidas profissionais e familiares só merecem dos açorianos profunda gratidão. Terão acertado, terão errado nas decisões que tomaram, nos planos e opções que em nosso nome adoptaram, não importa tanto como o facto de terem aceite agir em nosso nome por idealismo, por espírito de servir, por ambição de marcar a história com a sua inteligência e acção, por tudo isso temos de ficar-lhes gratos. Não há pior regime do que aquele que é exercido por mercenários sem ideal que não seja encher as barrigas, empregar os filhos e conseguir reforma que lhes garanta um fim de vida sem problemas. E os que saem sem fazerem isso, têm o benefício da dúvida se mais não houver para provar que ali estiveram ao nosso serviço que não do deles próprios. Certamente que alguns não compreenderão porque motivo os seus serviços deixaram de ser necessários, úteis ou oportunos mas esse juízo não lhes compete fazê-lo. Churchill na glória máxima da vitória sobre o Eixo, perdeu as eleições. A mulher para o consolar insinuou que talvez fosse uma graça de Deus. O “Leão inglês”, respondeu: - “Se é, está bem escondida”. Talvez sim e talvez não, o que não pode é ter-se a reacção de Salazar quando viu a grande manifestação a favor de Delgado:- “Ingratos!”. Quem serve não espera gratidão; ou a merece ou não.
Carlos Melo Bento
2008-11-18

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Relíquia

Os Açores são a relíquia dum vasto império que um pequeno povo temerário e heróico fundou nos quatro cantos do mundo, criando nações e estados incrivelmente maiores que ele próprio, onde milhões e milhões de pessoas falam a sua língua, crêem na mesma fé, usam as mesmas leis, amam os mesmos desportistas e se comportam como co-fundadores dessa tarefa gigantesca que nos coloca a todos, sem motivo de vergonha, ao lado dos maiores e mais poderosos. Relíquias, escrevi eu, não jardim zoológico em que uns tantos teimam em ver ridículos laboratórios onde se experimentam teses ou se põe e dispõe como em casa alheia, ao sabor dos caprichos de políticos sem dimensão nem génio. O destino e o viver dos açorianos é, antes de mais, assunto que só a eles interessa e só a eles compete decidir. Não aceitamos tutelas. Podemos ser vítimas de atropelos cobardes mas não vergamos a nossa vontade a ditadores de pacotilha e a Napoleões de cartão. Não embarcamos em cruzeiros de jurisprudências servis. Somos gente. Somos cidadãos de cidadania completa. Somos autónomos não colonos duma qualquer potência novecentista nem pertencemos a roçados mapas cor-de-rosa, cartas de jogar em tabuleiros de duvidosa racionalidade. Quem não se sabe governar não tem legitimidade para querer governar os outros. Quem não manda em sua própria casa não tem boca de falar na casa dos outros. Deixem-nos em paz. Quem quiser fazer melhor que venha viver de vez para cá e, então, será como nós.
Carlos Melo Bento
2008-11-11

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O Tsunami

O momento é incerto e perigoso. O capitalismo que tanta riqueza gerara no mundo ocidental, propagando-se à Ásia como fogo em pólvora, atravessa uma crise que arrasta o sistema que parecia sólido como rocha. O fantasma de Marx e a sua profecia apocalíptica surgem do sótão das coisas esquecidas, fazendo tremer os que julgavam o materialismo dialéctico morto e enterrado. Uma grande abastança abatera-se sobre o mundo capitalista, com casas luxuosas, carros de milhares, cruzeiros de fantasia, saúde gratuita, ensino ao desbarato, comércio a rodos, tanto que, no delírio do consumo, as pessoas nem pensam nas dívidas que durante anos as amarram aos bancos e às suas hipotecas, às empresas de crédito contra incertas declarações de IRS, a troco de computadores, telemóveis, jogos electrónicos, vídeos e aparelhagens de preços e efeitos incríveis, internetes de mirabolantes e imediatas comunicações para qualquer ponto do planeta, GPS de orientação inaudita que até dispensam pilotos ou guias, ginásios que se esfalfam a desfazer as gorduras duma alimentação excessiva e barata que a todos deforma, e tudo o que nem a mais delirante imaginação podia prever. Inesperadamente, a banca, nervo e mola real do sistema, dá um grito de dor e parece submergir no meio duma overdose de lucros e progresso transformados em falências e burlas impensáveis. No aparente remanso do nosso cantinho, porém, vão chegar as ondas do tsunami que abalará a vivência idílica em que despreocupadamente temos vivido. Não duvidem.
Carlos Melo Bento
2008-11-04