sábado, 30 de agosto de 2008

Volúpias

Volúpias

O lançamento de 6 grossos (quase mil páginas cada) volumes das Genealogias de S. Miguel e Santa Maria do rigoroso e profundo Rodrigo Rodrigues, além de cerimónia bonita, foi momento importante nestas coisas do pensamento. Falecido há décadas, o autor foi sempre referido, pois sabiam os entendidos que a obra era imensa e irrepetível. Seu neto, o distinto médico Henrique Aguiar Rodrigues, preparou a espectacular edição, num trabalho colossal, a ponto de se poder dizer que nunca veria a luz do dia se não fosse ele. Há um ano, outra obra de igual fôlego, foi lançada na nossa Terra: Genealogias da Ilha Terceira, dos Drs. António Ornelas Mendes e Jorge Forjaz, em 9 volumes de igual tamanho e valia, fruto duma vida inteira de amor ao nosso Povo e de muito trabalho sem remuneração material. Mas, se eles sentiram com isso a mesma volúpia que sinto ao escrever a História dos Açores, não tenho pena deles, pois ficam a ganhar. Uma coisa é certa, estas obras são monumentos gigantescos e um serviço sem preço prestado ao nosso Povo. Se Ernesto do Canto nos legou o Arquivo dos Açores, delícia dos investigadores em todo o mundo, Rodrigo Rodrigues, Aguiar Rodrigues, Ornelas Mendes e Jorge Forjaz legam-nos amplas varandas sobre as nossas famílias, ricos e pobres, comuns e aristocratas, intelectuais e iletrados e, através delas, podemos ver saltando, durante séculos, de ilha em ilha, a gerar, educar e tecer este querido Povo que tanto amamos. Ditosa Terra que tais filhos tem.
Carlos Melo Bento
2008-08-30

domingo, 27 de julho de 2008

Os trabalhadores

Ao contrário do resto do país, depois de 1974, nos Açores, houve um consenso no sentido de apoiar-se o capital, quando lá fora corria desenfreadamente o ódio aos “ricos”, com ocupação de casas e terras, saneamentos, fugas para o estrangeiro, auto gestão de empresas, expulsão dos patrões e outras tantas loucuras que destruíram a frágil economia lusa quase até à bancarrota. Aqui, calmamente, um modesto empregado, retira da empresa milhares de contos e vai levá-los ao patrão, exilado em França, sem eira nem beira. Outro faz o mesmo e vai ao Brasil levar o seu a seu dono. Era ilegal mas fez-se porque a moral sobrepõe-se às leis desonestas. Tudo com autorização e protecção dos que então dirigiam a FLA que nunca tiveram vergonha de defender a propriedade mesmo à custa de graves riscos. Hoje, o capital está sólido e não precisa de ajuda, ao contrário, precisa de defender-se apenas de si próprio, contra os excessos que sempre comete quando tem o poder. Por isso, parece bastante óbvio que, quem precisa de protecção, são os trabalhadores, principalmente os menos qualificados. A dignidade da pessoa humana, o direito a emprego seguro, a justo salário ( que os rendimentos mínimos não são, pois cheiram a esmola discricionária), a função social da propriedade, são valores que urge promover a primeiras preocupações. Não vá dizer-se, com razão, que os açorianos são um povo de escravos que enriquece uma parte dele, para a outra lhe obedecer até morrer de fome ou emigrar por necessidade.
Carlos Melo Bento
2008-07-27

terça-feira, 15 de julho de 2008

Obras - Primas

Costa Neves na RTP Açores surpreendeu pela positiva. O líder da oposição social-democrata mostrou controlo dos temas e deu a resposta adequada a dois jornalistas que se assanharam, desnecessariamente, perdendo a compostura imparcial que lhes é exigível. Habituados à postura de ataque indiscriminado ao poder, isso deu dele uma imagem inadequada à função de alternância potencial. A coisa foi agora diferente e desenhou-se uma estatura à altura dos altos cargos que exerceu. Não é provável que chegue a tempo de ofuscar o prestígio do actual chefe do governo mas coloca a fasquia num nível muito superior ao que estava. Outra entrevista surpreendente, foi a do 1º Ministro que conseguiu, literalmente, encurralar os entrevistadores, forçados a fugir das questões que os levaram a becos sem saída, com manifesta vantagem para o entrevistado. Quero crer que Sócrates gerou uma obra-prima de oratória política com conteúdo e contundência quanto baste, emitindo uma mensagem de esperança e optimismo de que o país carece e quer, em contraste com as profecias da desgraça que sopram da oposição. Por outro lado, as Portas do Mar foram um tremendo sucesso. Nunca se vira nesta Terra tanta gente junta e…feliz. Virou-se uma página na nossa História: planificou-se e fez-se. Mostrou-se que onde há uma vontade de ferro ao serviço dos açorianos, não há obstáculos invencíveis. Mesmo os que venham de muito alto. O tempo nunca volta para trás e, mesmo quando os cães ladram muito, a caravana não pode parar.
Carlos Melo Bento
2008-07-07

Entretantos

Alguma coisa está errada nesta nossa democracia que a torna ridícula. Vêm entendendo os seus autores que fazê-la é dar sempre razão aos seus e tirá-la aos alheios. Quer estes a tenham ou não. Uns por inconsciência derivada das suas limitadas faculdades de raciocínio ou por cegueira que a paixão provoca, imortalizada esta na fábula da águia e da coruja. Outros por calculada táctica, na esperança de que o adversário não perceba que está a ser enrolado ou que, ao menos os amigos dele, caiam no engodo e o abandonem, sabido como é que, sem número, não há vitórias. Mas a verdade é que se é sempre possível enganar alguns, algumas vezes, não é porém possível enganar todos, todas as vezes. E o resultado final é que todos perdemos com a falta de lucidez que resulta nos entretantos, ou seja, enquanto o engano perdura e os outros ganham ou, como dizia o antigo, enquanto o pau vai e vem folgam as costas. Não percebem estes pobres que podem de facto folgar enquanto o pau vai e vem, do que não se livram é de levar com ele, quando ele bate. Pelo caminho ficarão reputações e empregos, empresas e justas ilusões mas, no fim, triunfam sempre os que se agarram à razão lógica e não se deixam embalar em cantigas. Quem me dera assistir, em minha vida, ao triunfo duma ideia justa e verdadeira para a nossa Terra, sem que os interesses alheios vençam com a mentira e o engodo. Dar razão ao adversário, quando ele a tem, é o mais nobre dos exercícios intelectuais duma pessoa de bem.
Carlos Melo Bento
2008-07-15

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Era de Esperar

Foi com espanto que o País assistiu à agressão física a um juiz em pleno tribunal. Quando em Ponta Delgada, numa mesma noite, foram assaltados e vandalizados vários escritórios de advogados, logo suspeitei que, a seguir, iriam os juízes sofrer a mesma desconsideração, pois se quem os defende não é respeitado muito menos será quem os condena. Ninguém pareceu ligar a mínima importância a essa preocupação mas a verdade é que se tem vindo a degradar a imagem da justiça aos olhos das pessoas, perante uma campanha pouco inocente, que faz dos seus operadores uma cambada de malandros que nada fazem, ganhando em compensação uma data de massa. É-lhes indiferente que aqueles trabalhem horas a fio, pela noite dentro, sem férias nem feriados nem sábados nem Domingos e que resolvam bem e atempadamente mais de 90% dos processos. Julgam-nos pelas excepções e, como de costume, paga o justo pelo pecador. Basta um erro num processo ou a demora noutro para toda a justiça não prestar. Esquecem-se os incautos que não há países sem justiça, nem ordem sem lei, nem progresso sem ordem. Uma sociedade injustiçada pode ser um bando de malfeitores, sociedade onde valha a pena viver é que não é. O estado tem de ser forte para não ser violento e é o medo que guarda a vinha que não o vinhateiro. Perdido o medo, o malfeitor nem a parra deixa. Veremos agora se o agressor do juiz não apanha alguma pena suspensa, pois, como dizia o outro, haja moralidade ou comem todos. Até quando?
Carlos Melo Bento
2008-07-01

segunda-feira, 23 de junho de 2008

César

Feita a definição no PSD, local e nacional, raciocinemos sobre as regionais, apenas com duas fidelidades absolutas: aos Açores e aos açorianos. Da principal oposição não parece emergir candidatura capaz de ocupar o poder numa eventual alternância ao governo socialista. Sem Berta Cabral os sociais-democratas estão praticamente decapitados, pois nem Costa Neves representa uma solução unificadora do antigo e poderoso eleitorado laranja, nem tem obra governativa ou candidatos que aconselhem ou permitam a referida alternância. A restante oposição corre o risco de desaparecer ou de não aparecer, pese embora a nova lei eleitoral que vai exigir um mínimo de 3.700 votos para poderem passar na malha apertada da lei de Hondt. Só o PC se aproximou desse número e não parece que tenha subido na intenção de voto. Dos outros, o PP é apenas a incógnita terceirense (ou anti-S. Miguel). PPM é tremida esperança corvina; BE só pode subir à custa do PC e a margem aí é curta; o PDA só se recuperar e aumentar as votações Costa Matos/Fraga; o PNB inexiste.
César apresenta-se por seu lado com um currículo forte de realizações (sendo que as culturais não têm paralelo), com o partido coeso, com dirigentes prestigiados e dinamizados; só um cataclismo poderia impedir a sua reeleição. É verdade que 5 anos no poder são demais mas, quando as alternativas são piores, não costuma haver mudanças. A César portanto o mandato. O último, se a oposição tiver juízo.
Carlos Melo bento
2008-06-23

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Estatuto dos Indígenas

Em 1954 foi aprovado para a Guiné, Angola e Moçambique o Estatuto do Indígena que vigorou até aos anos sessenta. Qualquer semelhança com o estatuto que agora nos querem impor não parece coincidência, antes um resquício do espírito que deu o Brasil sem guerra e aqueles países, depois duma sangrenta e de todo inútil carnificina para os dois lados. Com um denominador comum: os que aprovaram esses estatutos têm sempre razão, força e poder na altura em que os fazem. O Estatuto do Indigenato regulava a vida dos actuais povos soberanos daqueles países duma forma perfeitamente legal e sempre incomparavelmente sábia… Claro que não se reconhecia a esses povos qualquer direito de opinião sobre o dito estatuto, até que as Nações Unidas (ou os Estados Unidos, vai lá saber-se) o puseram fora de moda. Eram todos portugueses (do Minho a Timor, lembram-se?) e não havia cá povos deste ou daquele lugar. Deu no que deu. Agora somos nós. Ao arrepio das regras democráticas, não é o povo destas ilhas que manda. São eles. Os açorianos por unanimidade querem branco? Que se lixem pois Lisboa é que manda neles e preto é que há-de ser. E os assimilados (em África eram os que falavam português, cá devem ser os que falam à moda…)? Chamar democracia a esse regime é uma impropriedade. Aguardemos a vinda da Constituição da Região Autónoma dos Açores, aprovada unicamente pela nossa Assembleia. Visionada pelo Presidente da República. E já é muito.
Carlos Melo Bento
2008-06-16