terça-feira, 10 de junho de 2008

Poupar

Uma crise completamente imprevista desencadeou um fenómeno estranho e aparentemente especulativo no mercado do petróleo que ameaça criar o caos político nos sistemas que assentam na aparência que dá votos e poder. Em 1973, a convulsão foi de tal ordem que nem o presidente dos Estados Unidos escapou nem o Estado Novo português se conseguiu manter de pé, para falar apenas nos países que nos dizem mais respeito. Não se sabe donde veio nem quando parou, apenas pudemos ver os efeitos. A crise actual é todavia mais complicada porque, entretanto, mercê da Europa, o nosso nível de vida atingiu níveis impensáveis podendo ruir como castelo de cartas. Endividamentos para além do suportável, planos feitos com base em expectativas agora duvidosas, preços de casas que não se vendem, carros luxuosos que nada valem no mercado existente, desemprego incontrolado, falências escondidas mas implacáveis nos seus efeitos, conjugam-se para uma situação de grave recessão que pode levar tudo no caminho. Como sempre, a classe média vai ser a mais sacrificada, já que os pobres nada tendo nada perdem e os ricos nestas alturas geralmente ficam mais ricos. A solução no tempo de Salazar foi o “produzir e poupar” que o aguentou no poder e salvou muita casa. Neste momento, só um misto de prudência e audácia parece conter a solução. Prudência nos gastos e audácia nas iniciativas, uma espécie de “imaginação ao poder” que públicos e privados, de mãos dadas, exerçam com tenacidade e harmonia. Se não, isto acaba mal.
Carlos Melo Bento
2008-06-09

terça-feira, 3 de junho de 2008

Silva Fraga

Foi indiscutivelmente o maior jurista açoriano do seu tempo. Discípulo de Alberto de Oliveira, ele próprio constituiu escola onde se formaram advogados ilustres como João Silvestre e Pereira Leite, seu discípulo dilecto que continuou o ensino do mestre, hoje formando um grupo de ilustres causídicos com nome importante no Foro açoriano.
O PDA vai homenageá-lo no próximo dia 6, com uma palestra que Pereira Leite irá proferir sobre o homem com quem trabalhou tantos anos e a quem sucedeu legitimamente no lugar cimeiro da nossa Barra. São tão raros os casos em que se honram a memória dos Mestres que é impossível deixar passar esse gesto sem uma referência de apreço com a certeza de que os que o escutarem vão finalmente conhecer o cientista do direito na sua real dimensão.
Lidei com ele em tantos e tão badalados processos que posso dizer ter sido um privilégio viver na sua época. Mas é a sua dimensão política que me deslumbra. Proibidos os partidos regionais, foi preciso um espírito genial para encontrar a solução político - jurídica que deu voz aos açorianos amantes de lutar sozinhos pela sua Terra e pelo seu Povo e a possibilidade de se juntarem debaixo do mesmo tecto político.
Sobre Costa Matos falará Jorge do Nascimento Cabral, jornalista de palavra fácil, precisa e contundente, açoriano de primeira água cujo espírito independente se não dá bem com as amarras partidárias; foi o único que levou à nossa Assembleia a voz da plena liberdade. E basta um.
Carlos Melo Bento
2008-06-03

domingo, 1 de junho de 2008

Costa Matos

Há muitos anos que se não houve falar dele mas isso não lhe retira o mérito de ter sido o percursor do espírito que explodiu após o 25 de Abril e que desaguou na actual autonomia constitucional.

Em vibrantes artigos de imprensa ele criou o ambiente de dignidade e de inconformismo que norteou uma considerável porção de espíritos mais preocupados com a terra e com o seu povo do que em vendetas e conspirações contra os imaginados cúmplices do regime anterior.

Tanto lhe fez interceder junto do responsável local por Jaime Gama quando a PIDE recebeu ordem para o prender como, depois da revolução, encabeçar um Movimento de autodeterminação deste Povo, cuja perseguição e assalto resultou na destruição das sedes dos partidos extremistas de esquerda e, após as prisões do 6 de Junho, em retaliações que nos puseram à beira da guerra civil com perseguições pessoais completamente anárquicas, bombas, incêndios de viaturas, espancamentos a Ministros do Governo Central e a polícias de choque recebidas com granadas e tiros de metralhadora, etc.

Animador e fundador da UDA, mais tarde rebaptizada de PDA, por causa das confusões, retirou-se da vida pública porque as manobras da baixa política não deixaram que o seu partido elegesse deputados para a Regional.

Incompreendido e magoado, desistiu de lutar quando a idade e a doença lhe roubaram a energia de lutador isento e lúcido.

Bem faz o PDA em homenageá-lo no 6 de Junho próximo. Assim ao menos condecoramos os que nos ajudaram a ser gente.
Carlos Melo Bento
2008-05-27

terça-feira, 20 de maio de 2008

Povos


O território de Portugal era povoado por cantabros a norte (de Barcelos a Barcelona), celtiberos ao centro (com capital em Mérida) e turdetanos a sul (de Sevilha ao cabo sagrado, hoje Sagres, onde enterravam os seus mortos importantes). Passaram-se os anos, Afonso Henriques e o Infante e deu-se Portugal emancipado de outros impérios para ser ele próprio e descobrir o Mundo. Por sua vez, gerou nesse Mundo que descobriu e povoou, o povo do Brasil, o de Cabo Verde, o da Madeira e o dos Açores e mais. Uns independentes outros não, se bem que autónomos. Com a mesma cultura e língua mas diferenciados nas trajectórias geográficas e históricas, condicionantes duma maneira de ser e dum estado de espírito diferenciados e irreversíveis. Rebeldes todos à tutela odiosa da matriz inicial quando esta quer manter manu militare ou por via legislativa o comando político e económico no seu proveito exclusivo. Aconteceu no Brasil em que o Parlamento português apressou a independência por ter alterado o novo estatuto que o Tira-dentes anunciara anos antes à custa da própria vida. Aconteceu na Grécia e na Grande Grécia e em todo o mundo em que os Povos se expandiram para fora do seu território inicial. Porque seria que havia de ser diferente aqui, a dois mil quilómetros e a 5 séculos de distância? Carlos César tem razão. Aqui, vive o Povo Açoriano. O resto são moratórias artificiosas que o tempo e a circunstância se hão-de encarregar de afastar.
Carlos Melo Bento
2008-05-20

domingo, 18 de maio de 2008

Condecoração


Não precisava prender ninguém porque era, então, o único que tinha armas e soldados. Prendeu 35 civis desarmados. Podia tê-los chamado ou prendido de dia. Prendeu-os de noite, porque além de desarmados, dormiam. Podia tê-los enclausurado nesta ilha perto das famílias. Desterrou-os para lugar incerto como qualquer raptor vulgar. Podia ter dito para onde os mandava. Preferiu dizer à socapa aos da sua laia para que os recebessem com insultos à chegada do navio. Podia ter deixado os telefones de suas casas ligados para que as mulheres indefesas chamassem a família para as socorrer. Desligou-os. Podia tê-los prendido com dignidade num quartel. Retirou os presos da cadeia e fê-los dormir nas roupas emporcalhadas daqueles. Podia-os ter deixado falar uns com os outros. Preferiu obrigá-los ao silêncio, mandando chamar-lhes “cães”. Podia ter mandado apagar as lâmpadas das celas durante a noite. Teve-as sempre acesas para os atormentar. Podia ter mandado limpar a cadeia. Preferiu deixá-la com lixo para as moscas e o cheiro nauseabundo humilharem os seus prisioneiros. Podia ter autorizado as suas vítimas a falarem com as famílias para as descansar. Preferiu que só o fizessem depois de receberem dinheiro para pagar as chamadas. Podia dizer aos libertados para onde iam. Preferiu que eles descobrissem por si quando chegaram, atormentados, ao destino. Perante toda esta elegância moral só mesmo uma condecoração.
Carlos Melo Bento

quinta-feira, 8 de maio de 2008

A Junta

A Junta Governativa que antecedeu o actual regime constitucional autonómico, e que o professor Vítor Forjaz costumava apelidar de “junta recreativa”, talvez sem razão, foi um abcesso antidemocrático cravado no corpo social açoriano, sem que os eleitores destas ilhas fossem tidos ou achados na sua criação ou no seu funcionamento. Nunca quis julgá-la em público porque nunca perdoei ao seu “presidente”, ditador em democracia, o ter-me mandado prender contra as leis, à força das armas, cobardemente invadindo a minha casa de madrugada, com homens armados, diante de minha mulher e de meus filhos então crianças de tenra idade, sabendo-me indefeso. Não julguei a “junta” porque temo não ser isento ao fazê-lo e porque a participação crime que fiz contra Altino Magalhães foi mandada arquivar apesar de ele ser comprovadamente réu de delito comum e essa injustiça ainda hoje me ferir dolorosamente. Como cristão tentei perdoar-lhe intima e repetidamente mas não consegui até agora. Quando quero fazê-lo, vem-me à memória a imagem de meu Pai, quando me foi buscar à Nordela depois de libertado, com lágrimas nos olhos, as únicas que lhe vi em toda a minha vida. Não sei que utilidade teve esse grupo de indivíduos nomeados arbitrariamente por ele para fingirem de governo durante meses em que tentou apagar os seus próprios crimes. Mas certamente que não foram eles quem ergueu esta autonomia. Antes, o que de mau ainda hoje tentamos limpar se lhe deve por inteiro. Mas, se calhar, o injusto sou eu.
Carlos Melo Bento
2008-05-06

domingo, 4 de maio de 2008

União verdadeira


Espanta e é de louvar a actividade da SATA na sua expansão por esse mundo fora, cumprindo a velha tradição micaelense de comunicar com todo o mundo que possa ser comerciável connosco. Inglaterra, França, Canárias e sei lá que mais passam a estar ligados aos Açores e praza a Deus que sejam mais os que vêm do que os que vão, pois de turistas se vem alimentando com notável sucesso uma indústria que durante tantos anos engatinhou sem nunca se erguer como agora. Mas parece ser razoável que os lucros que eventualmente emirjam dessas novas rotas possam ser transformados, não em investimentos colaterais para a obtenção de mais lucros materiais mas num sentido que se torna óbvio ser uma carência desta e das anteriores governações. Mota Amaral (e agora César) demonstraram à evidência que os açorianos são governáveis por um governo central contra as profecias agoirentas que nos diziam divididos para sempre. União política açoriana é um facto incontornável. Mas e a união geográfica? É mais fácil ir a Lisboa do que ir a outra ilha. Não será imperativo que as viagens inter ilhas se processem a preços de unidade açoriana e não a custos reais? E não deverão os lucros internacionais da SATA ser obrigatoriamente vinculados a esta nossa necessária unidade material e geográfica? Mais ligações inter ilhas para açorianos e (muito) mais baratas, eis o desafio desta geração que temos de vencer custe o que custar. Não aconteça perder-se como o banco que foi nosso e foi-se e só depois de ir é que deu lucros.
Carlos Melo Bento
2008-04-29