terça-feira, 15 de abril de 2008

Gozo

Pode ter dado vontade de rir a história dos polícias roubados à porta da esquadra de onde o larápio lhes levou a viatura de serviço. Mas, infelizmente, o caso não é para rir. Quando os gatunos não respeitam os tribunais que assaltam, os escritórios dos advogados que são obrigados a defendê-los e que, agora, nem os próprios agentes armados da autoridade, podemos dizer que a questão da segurança bateu no fundo e é urgente que alguém tome uma atitude sensata de acabar com isto. O velho ditado de esquerda de que toda a propriedade é um roubo levou a que o crime contra o património perdesse importância, sendo tratado por vezes como bagatela penal. Disto resultaram leis permissivas na investigação e punição criminais que amarram os tribunais a decisões que, pelos vistos, não produzem os efeitos das penas que era suposto produzir: o medo da reincidência, o respeito pela autoridade e os seus agentes. Em consequência, os meliantes gozam com eles; permitem-se rir dos agentes quando, com uma noite perdida para os apanhar, são obrigados a esperar horas pela sua própria inquirição, nos seus dias de folga!, e assistem à libertação do escroque com ou sem apresentações periódicas, e que passam por eles literalmente no gozo. Se não houvesse meios de acabar com isto, paciência. Mas há. Já não era tempo de curar os complexos de esquerda e corrigir as patetices legais a que conduziram? É que já vão aparecendo mortos jovens marginais que escapam às malhas desta lei mas não à fúria popular.
Carlos Melo Bento
2008-04-15

sábado, 5 de abril de 2008

Mãe

Quando as coisas neste País tinham alguma lógica e coerência, este dia era um dos mais festejados no calendário nacional. Celebrava-se a Mãe de Jesus no momento em que, convencionalmente, o Salvador fora concebido.

Mistério religioso cuja sacralidade era transmitida à Mãe do Céu e, por via dela, às nossas Mães. Mãe era, então, uma pessoa imaculada, o alicerce inabalável da Família, célula base de qualquer sociedade civilizada. Mãe era a Mulher do Pai, companheira fiel e inseparável, conjugados sem tibiezas na educação dos filhos.

Nesse dia tão lembrado na escola, no lar, na Igreja e em toda a parte, quem não recorda as ofertas que fazíamos por nossas mãos e as quadras que inventávamos e nervosamente escrevíamos com canetas de pluma e tinta de tão difícil manejo.

E com que excitação, mal raiava o dia, as levávamos quarto dentro à Mãe querida cujo sorriso de satisfação apagava, em segundos, inquietações e medos, dores e queixumes.

E pela vida fora que bom era carregar a doce recordação desses momentos felizes em que o mundo e o tempo paravam para nós sermos felizes também. Era o tempo das meias solas e dos fatos virados mas havia objectivos e valores, e educação e respeito.

A Família era então um lugar em que o amor se tinha por garantido. Os Pais abdicavam dos egoísmos da realização pessoal e das emancipações serôdias face ao interesse dos filhos. Buscava-se a felicidade e encontrava-se alguma.

Havia excepções, ninguém o nega mas eram excepções que não se ousaria tornar em regra.

Não se incensava a Mãe solteira, fonte de infortúnios inevitáveis e de tristezas sem conta, numa sociedade sem valores e sem rumo. Não se advogava o divórcio como panaceia automática para as discussões e os problemas que todos os casais têm. Não se transformava a mulher e Mãe numa simples fonte de rendimento mensal para cobrir as prestações da casa, do carro, dos cigarros e do preservativo. Não se legalizava o consumo da droga flagelo demoníaco que nos há-de destruir a todos. Não se defendia o aborto como forma de controlar a natalidade, fonte de abjecções sem nome e indignidades sem conto.

Divinizava-se a Mãe e pedia-se-lhe a benção.

Carlos Melo Bento
2003-12-08

Figura do Ano de 2004

Elejo a Associação de Pais e Amigos de Crianças Deficientes do Arquipélago dos Açores para a figura do ano 2004. Nela gostaria de englobar, simbolicamente, todos os que dedicam aos deficientes o seu tempo, o seu saber e a sua alma. Nascido nesta terra há mais de sessenta anos, pude assistir à evolução da forma como lidámos com essa gravíssima e angustiante realidade humana. Desde o abandono total e a chacota que os lançavam na mais deplorável mendicidade e marginalidade, perante uma indiferença que raiava o crime colectivo e dava de nós a falsa imagem dum povo sem conhecimentos e sem piedade. Vi, depois de tomarmos parte do nosso destino nas nossas mãos, surgir a Escola Especial que trouxe luz e dignidade ao sector e às vítimas da glória de Deus. Vi professores e técnicos por essas ruas ensinando invisuais a caminhar sozinhos perante a alegre satisfação dos cidadãos. Não foi sem preocupação que soube da integração dessas crianças nas escolas gerais pois sempre me pareceu e parece que só especialistas podem lidar eficientemente com especiais. Não haverá um meio termo? A Associação de Pais e Amigos, porém, sobreleva a todos, pois concentra em si a tremenda energia dum amor cego e a cruciante dor do que não tem compreensão. Pelas lágrimas sem fim dum destino cruel contra o que alucinadamente lutam sem descanso, tentando roubar tempo ao tempo, merecem bem que nos curvemos respeitosos e agradecidos pela dádiva desse labor insano e da sua estóica e angustiada existência.
2004-12-28
Carlos Melo Bento

Padre José Joaquim Rebelo

Cumpre-se este ano o primeiro centenário do nascimento do Padre José Joaquim Rebelo. Professor de Moral e Educação no antigo Liceu Nacional de Ponta Delgada de gerações e gerações de estudantes, ele foi o obreiro das almas e das mentes daqueles que souberam e quiseram perceber as suas saudosas lições. Culto e generoso, o Padre Rebelo foi antes de mais uma pessoa do seu tempo que não quis guardar só para si o estudo constante a que se dedicava das coisas do espírito e doutras mais prosaicas. Nessa medida, não tinha medo nem vergonha de ser sacerdote e católico e de levar o seu ensino às últimas consequências lógicas. Vocação tardia, só muito tarde ingressou no Seminário, abandonando o lugar de tesoureiro da Fábrica de Tabaco Estrela, para obter em Angra do Heroísmo a sua ordenação sacerdotal. Cumpriu com escrúpulo o seu magistério transmitindo aos alunos uma sólida formação intelectual sectorizada, é certo, na perspectiva católica. Mas ao menos essa nós tínhamos que saber, concordando ou não. Hoje, com a preocupação de não tomar partido, acaba por se correr o risco de não se transmitir coisa nenhuma aos estudantes, retirando-lhes uma base de partida, um termo de comparação que conduza a um juízo de valor positivo ou negativo quando atingida a idade adulta. Foi José Joaquim Rebelo um ardente defensor da ordem e da hierarquia, embora o seu espírito crítico alertasse sempre para o perigo da ordem e a hierarquia caírem em mãos erradas, subvertendo os valores e destruindo por dentro o que não conseguiam obter no combate leal. Admirador de Alexis Carrel, tinha n’ ”O Homem, esse Desconhecido”, a pedra do toque das suas mais significativas citações. Podia-se não gostar dele e do seu ensino. Não era fácil era permanecer-lhes indiferente. Publicou um livro “A Eucaristia”, cujo tema só por si não esgota nem o resultado das suas investigações nem o núcleo das suas preocupações. Mas valeu a pena conhecê-lo e tê-lo como professor. Apostado em fazer-nos melhores, ele cultivava a vontade esclarecida como instrumento do progresso humano, que era no fundo a pedra angular da sua lição. Ao cumprirem-se os 100 anos do seu nascimento, ele merecia que os nossos edis lhe dedicassem algo mais que o desleixado esquecimento.
Ponta Delgada, 24 de Junho de 2000.
Carlos Melo Bento

Unanimidades

A reaprovação do nosso Estatuto pela AR por unanimidade nada significa. Primeiro porque há 30 anos essa mesma assembleia aprovou por unanimidade num dia o que desaprovou por unanimidade no outro, se não me engana a memória, por causa duma dolorosa e inútil questão de bandeiras que ia dando um sarilho grande e que hoje é letra morta.

Depois, porque a habilidadezinha de aprovar na generalidade para depois tirar na especialidade é coisa para enganar pacóvios, qualidade que talvez haja mais lá do que cá. Se seguirmos o que cada partido fizer agora que o nosso Estatuto “baixou” às comissões, talvez os eleitores atentos possam tirar conclusões sobre a existência ou não de hipocrisia política nas manobras de bastidor, acobertados por um semi anonimato ou por algum parecer com que o doutor Miranda costuma ajudar nestas ocasiões as estafadas teses centralistas.

O novo Estatuto foi um trabalho de fundo feito com alguma coragem (ia escrever arrojo) e com a cautela de ouvir atentamente tudo e todos (até o nosso PDA teve honras de opinar e opinou). Consagra pela primeira vez essa realidade incontornável que é o Povo Açoriano e que só a miopia política de uns tantos teimou em não aceitar até que se tornou cegueira fazê-lo.

Talvez seja politicamente incorrecto ou até prematuro afirmá-lo agora mas já podemos sonhar com as Repúblicas Unidas de Portugal, Açores e Madeira para ver se, duma vez por todas, entendem que somos iguais e irmãos e que em igualdade e fraternidade estamos condenados a viver.
Carlos Melo Bento
2008-04-05


Humilhação

Estranha coisa esta do Estatuto duma região dita autónoma ter de ser reaprovado pela Assembleia da República depois de o ter sido por generosa maioria (senão por unanimidade!) dos que se dizem legítimos representantes do Povo que habita há séculos todo o território agora autónomo. Elevada à categoria de direito constitucional, esta autonomia que nos rege, capa-se a si própria submetendo a sua vontade à vontade, essa sim soberana e autónoma, duma assembleia de que o Povo Açoriano não elege sequer um décimo. Tenho muita consideração pelos Drs. Ricardo Rodrigues, Fagundes Duarte, Mota Amaral, Jaime Gama que se não me engano são açorianos e deputados por aquele Parlamento mas não lhes posso reconhecer nem mais nem melhor representação do que a daqueles que foram eleitos pelo Povo para o seu próprio Parlamento e que é legalmente tão soberano como o de lá. E, assim como não temos que referendar os estatutos que lá façam para outras regiões, não lhes devia ser consentido que, sendo uma minoria em relação aos deputados da nossa Assembleia Legislativa, referendassem o que aqui se aprova com tanto consenso. Eles que são açorianos e eleitos pelo mesmo Povo. Aos restantes deputados ainda menos porque aí caímos numa espécie de colonialismo legislativo fora de uso e que de todo foi expurgado pelos que aprovaram a Constituição que consagrou a dita autonomia. Que o Presidente da República tivesse o poder de mandar fiscalizar a constitucionalidade do Estatuto vá lá. Agora isto é humilhação absurda e desnecessária.
Carlos Melo Bento
2008-04-01

terça-feira, 25 de março de 2008

Tempos Difíceis

Os próximos anos são decisivos para a nossa vida colectiva, não só porque os fundos europeus vão levar uma grande volta, como porque já este ano irão realizar-se eleições decisivas a médio prazo. Duma forma ou doutra, parece evidente que só ganharemos se tivermos à frente das instituições de governo próprio gente prestigiada pelo saber, experiência e bom nome, este sobretudo em termos políticos. Parece questão teórica mas não é pois que, na abundância, não está em jogo a sobrevivência e os erros são até desculpáveis. Em estado de penúria ou mesmo de necessidade, não há margem para erros nem estes se perdoam. Uma das fontes de prestígio tem sido a estabilidade política de certas figuras nos lugares cimeiros. Mota Amaral e Jardim tornaram-se políticos de impacto nacional porque atravessaram diversos governos centrais com quem negociaram com a vantagem de serem sempre os mesmos quando os outros mudaram a uma velocidade ciclónica. Carlos César não teve tanta sorte porque entretanto Lisboa estabilizou ainda que à volta de personagens menores pelo que a sua visibilidade é inferior a nível nacional apesar da sua governação não ficar a dever nada à daqueles dois. Daí que a composição da próxima Assembleia Legislativa seja vital para o nosso destino. Um erro de escolha poderá ser fatal em tempos de mudança ou de crise grave. Figuras apagadas ou estagiários da política à espera de vaga no galarim dos famosos podem dar óptimas fotos nas revistas cor de rosa. De nada servem aos povos em tempos difíceis.
Carlos Melo Bento
2008-03-25