quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Para uma Biografia de Natália Correia


O Reino dos Transparentes


Entre os manuscritos de Natália Correia que a sua amizade me dispensou, existem dois que gostaria de partilhar publicamente, não tanto para exibir essa amizade que o destino forjou em circunstâncias tão excepcionais mas para tentar explicar uma faceta do seu génio tão sublime como paradoxal e em vida só compreendido por uns poucos como é costume entre nós.

E foram de facto excepcionais esses tempos de fim do Império e do Estado Novo que ela abominava e que eu respeitava, o que deu à nossa amizade um tom ainda mais invulgar, não desfazendo no pigmeu que eu era perto da sua figura gigantesca.

Natália era o espírito mais livre que conheci, guiado apenas por uma estética que tuteava e por uma intuição (ou lá o que era ) que a elevava acima dos mortais conhecidos. Servida por uma cultura que parecia sem fim nem começo, as suas palavras, ditas ou escritas, foram néctar e manjar de deuses e ela divina sacerdotisa da coragem de ser e de dizer o que lhe ordenava o pensamento sem respeitos humanos de que desdenhava e sem temores reverenciais que desconhecia.

No mundo do seu universo mental havia um lugar muito particular para o esoterismo que ela cultivava quase ocultamente, como é dado às coisas encobertas que a fascinavam profundamente e é eloquentemente demonstrado por uma das suas obras mais conhecidas.

Voltemos ao manuscrito. Escreveu ela em 2 de Março de 1982, nesta querida cidade de Ponta Delgada, ao dedicar-me os Erros meus, Má Fortuna, Amor Ardente:” Para o meu querido amigo e leitor eleito C Melo Bento, em nome do Espírito que nestas Ilhas desponta para implantar o Reino dos Transparentes. ...”.

Por ora não quero falar do porque me chamou ela de “leitor eleito” que um dia se os fados me favorecerem, hei-de tentar explicar. Mas o Reino dos Transparentes merece dar entrada neste In Memoriam pois é uma expressão esteticamente tão perfeita que a sua beleza choca e convida a uma reflexão aprofundada.

Natália sentia que era chegada a era do Espírito, que deveria seguir-se à do Pai e à do Filho. Natália não era católica mas não desdenhava da religião pois escreveu num dos seus mais belos poemas (“Quando me derem por morta/De lágrimas nem uma pinga/Um trevo de quatro folhas/Tenho debaixo da língua”) que não desdenhava duma missa rezada por sua alma. Aliás, sempre me pareceu que o seu culto do esotérico era uma janela aberta onde buscou sem parar o mundo espiritual e tentou encontrar sempre as suas fontes últimas buscando a religião perfeita.

Ela viu no nosso movimento quando, ao som do hino do Espírito, tentámos e conseguimos unir todos os açorianos dispersos pelo planeta, uma chamada para si própria e acudiu-nos sempre que foi chamada. Mas ela sonhava com um mundo sem esconderijos, sem reservas, sem medos, sem perseguições, sem intolerância, onde se ouvia o “Cântico Novo” que ela escreveu e que tão esquecido anda, apesar de tocado todos os dias mais duma vez.

Quando me dedicou o “Dilúvio e a Pomba” ela escreveu que se achava identificada comigo “nos ritmos que aprendi nesta nossa Ilha do Arcanjo” e subscreveu assim;” Com toda a Amizade e no Espírito Santo”.

Não é fácil separar estas palavras da época em que elas foram escritas pois o ambiente político social era arrebatador e não é possível descrever a eufórica alegria que nos enchia a todos nas manifestações colectivas, como foi o caso do encontro maravilhoso que tive a sorte de proporcionar entre ela e o grande Vitorino Nemésio, no Ilhéu da Vila, em que se falou de tudo menos de presidências que para mim já estavam definidas há muito tempo.

Mas vi-a, espantado, tratá-lo por Mestre e escutá-lo respeitosamente, postura que nunca teve com mais ninguém, fosse Príncipe ou Presidente.

Sei que o seu desaparecimento foi um dos golpes mais rudes e injustos que a nossa causa sofreu e de que dificilmente se recuperará pois os génios, como dizia Marcello Caetano, só surgem com intervalo de séculos. Mas a sua mensagem é imortal e crescerá de intensidade à medida que as pessoas se esqueçam da sua postura irreverente, iconoclasta e perturbadora e compreendam sem preconceitos a beleza sem par da sua poesia.

Sousa de Oliveira, que também participou no encontro do Ilhéu (que aliás estimulou), considerava-a a maior poetiza de língua portuguesa no século XX.

Quanto a mim que temo não conseguir alcançar a transparência da Poetiza, resta-me incensar o altar da deusa com os perfumes duma admiração que se esfuma dos turíbulos dos seus versos imortais.

Carlos Melo Bento

16 de Julho de 2004



terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Soou a Hora!

6 de Junho de 1975
6 de Junho de 1976

Bruno Carreiro à minha esquerda,

José de Almeida à direita.

À nossa frente muita gente.
Estamos no campo sagrado de S. Joaquim, em Ponta Delgada. O presente e o passado, ali, conjugam-se sem dificuldade. O que eu digo por sobre as bandeiras é um grito d' alma. O que as flores pretendem dizer é a voz da natureza. O silêncio sepulcral é o sussurro da História.

À MINHA TERRA À MINHA PÁTRIA

AÇOREANOS!

Soou a hora derradeira para a nossa escravidão.

A libertação está próxima e já o seu suave encanto brilha em nossas almas.

Temos de expulsar o demónio da cobardia, para sempre, das nossas vidas.

Que nunca mais, para nunca ser, o nosso Povo torne a sofrer impunemente a ignomínia da grilheta do condenado.

Inconformemo-nos com a nossa sorte e condição. O tempo dos servos tem de acabar também para nós.

Substituíram o chicote pela lei iníqua e a escravatura pela exploração insidiosa.

Erguei-vos porém e, de cabeça levantada, havemos de tornar-nos homens livres, para que seja santa a nossa solidão de eternos cavaleiros do mar; para que seja solene o nosso silêncio contemplativo; para que seja sagrado o nosso imparável espírito de aventura.

Na ordem e na liberdade construiremos um mundo novo num País novo.

1.Estão neste Campo Sagrado as cinzas dos primeiros operários da obra que nos está agora confiada.

Onde está a honra dos que vacilam em segui-los?

Onde está a coragem dos que se envergonham de imitá-los?

Onde está a lealdade dos que se ufanam em atraiçoá-los?

Mães açorianas que me escutais, que os vossos filhos possam dormir neste chão fatal com a glória de terem servido o POVO AÇOREANO!

Jovem açoriano põe o teu braço ao serviço da tua Pátria. Não o deixes vergar em tempo algum e em nenhuma parte.

Onde estiver um açoriano aí está a ditosa Pátria nossa amada, filha de Portugal, Mãe Pátria, que t a n t a s vezes nos não quer compreender.

Portugal, acorda! Emancipaste os teus outros filhos. Desfizeste a tua casa. Agora liberta este que de ti herdou o orgulho de ser livre.

Não o faças teu escravo que nós somos sangue do teu sangue, carne da tua carne.

Não ouves o choro plangente que sai do nosso peito? Não acodes à súplica pacífica que ordeiramente te fazemos?

Porque haveríamos de sujar as nossas mãos com gestos parricidas e sacrílegos se nós te amamos afinal?

Que mais preferes: um escravo obediente ou um filho livre e amigo?

Liberta-nos Portugal!

Não mandes mais ninguém de tão longe para nos governar. Para que havemos de sofrer os arbítrios de ambiciosos ou as prepotências de oportunistas?

Que ganhas com isso Mãe - Pátria?

Para que queres que os teus algozes cobardemente e pela calada da noite nos prendam nas nossas próprias casas?

Pensarás talvez que tão grande e inulta afronta ficará impune? Que nos deixaremos ficar enxovalhados e algemados sem nos revoltarmos?

Pensas que esquecemos que somos de estirpe de gente livre e que livres pretendemos viver?

2. E aos estrangeiros que se acoitam no nosso território para dele fazerem poiso para voos guerreiros contra povos que não são nossos inimigos queremos dizer-lhes que basta. Que ganhamos nós com isso? Quem nos compensa pelo grave risco que os seus interesses egoístas nos fazem correr? E para quê corrê-los? Acaso alguma vez nos ajudaram? Houve algum gesto? Alguma voz sequer se levantou a interceder por nós, quando o governo de Lisboa inspirado de leste nos fazia sofrer por nos julgar comprometidos com esses falsos amigos?

Se na adversidade se conhecem aqueles que de facto estão por nós, agora sabemos pelo menos com quem não contamos.

E se assim é, limpem-nos a casa que a queremos só para nós. Vão-se embora que aliados desses podemos muito bem passar sem eles.

Aliás nunca nos enganaram não julguem.

Os nossos emigrantes, esses sim, são nossos irmãos de carne e de ideal. Vivem connosco, na nostalgia do afastamento, o ritmo da Pátria que nesta hora histórica eles ajudam a construir.

Nós não ignoraremos os sacrifícios sem conto que padeceram para buscar um conforto material e uma dignidade que em casa não tem sido possível conseguir.

Nós não olhamos para eles como quem vê fábricas de dinheiro para gastar. Se nos ajudarem, muito bem, mas se, atentas as desconsiderações que sofreram e os vexames a que sistematicamente os votam, compreendemos perfeitamente que suspendam essa ajuda até saberem quem é que estão ajudando e até que possam ter a certeza que em sua terra também têm voz activa. Tanto quanto os outros ou mais. Porque aquilo é o seu trabalho, o seu ganho e o seu sacrifício. Ninguém os poderá usurpar.

3.Mas há aqueles também que não queremos deixar sem resposta que pretendem amarrar-nos a conceitos abstractos de integridades tardias,

Íntegro era o Império; grande era o Mundo Lusíada e esse sim, é imorta1, por maiores heresias que sofra por parte de pseudo patriotas que, tendo falhado na espada contra o inimigo, querem cobardemente vingar-se nos filhos indefesos.

Parecem D. Sebastião que tivesse sobrevivido ao mais desgraçado Alcácer Quibir da história dos Lusitanos e quisesse esconder o amargo da derrota no castigo de inocentes. Hipócritas! Como podeis agora pronunciar a palavra Pátria sem corar? De vergonha! Como podeis falar de integridade real se vos falta a integridade moral?

4.Qual é o nosso futuro? Que vida nos espera?

Primeiro temos de conciliar a Família Açoriana; qualquer açoriano de qualquer credo, esteja onde estiver, é nosso irmão.

Os nossos adversários não descansam e por isso é natural que lancem campanhas para nos desunir.

Eles atiram o rico contra o pobre, o micaelense contra o terceirense, o trabalhador desta arte contra o daquela outra. O residente contra o emigrante, o socialista contra o social-democrata, este contra o democrata cristão.

Eles infiltram-se entre nós, escutam as nossas conversas, usam-nas contra nós.

Publicam jornais e subsidiam jornalistas aqui e na América e no Canadá para que escrevam contra figuras conhecidas dos nossos movimentos, para os enfraquecer.

Eles fazem ameaças veladas, eles prometem este mundo e o outro e tudo para nos manter divididos para que reinem e nos explorem descansadamente.

Eles mentem sobre as nossas possibilidades. Depois de deixarem a nossa administração no caos em que ela se encontra, acusam-nos de nos não sabermos governar.

Mas isto não é terra de incultos que se enganem com patranhas e ameaças. Aqui não têm guerra a fazer ou ocupação a organizar.
E, não obstante, é por tudo isso que compreendo que haja açorianos bem intencionados que durante algum tempo militem contra os Açores.

Mas a nossa persistência e o mantermo-nos sempre dentro da razão, há-de mostrar-lhes o verdadeiro caminho. Quem tem razão tem muita força e quem a usa em sua casa é invencível.

É preciso congraçar a família açoriana; não mais irmãos contra irmãos, ou pais contra filhos. Unidos venceremos.

5. Eu compreendo aqueles que juraram solenemente servir o Portugal-Maior. Mas é tempo de verem que o Império que os nossos avós construíam já acabou, e talvez não tenha sido nossa a culpa.

Se temos que viver o presente, sem atraiçoar o passado e preparando o futuro, então temos que fazer uma análise serena e objectiva da nossa presente situação.

Um Estado é um Povo, um território e um governo.

Nós somos um Estado.

Os Estados não têm sentimentos, como as pessoas; eles têm interesses. Se temos interesses há que defendê-los, pois se o não fizermos alguém o fará por nós, mas contra nós, provavelmente.

E qual é o nosso interesse como Estado em potência? O interesse é o bem-estar e progresso social. Como consegui-lo? Para tanto há que fazer terminar toda e qualquer situação de exploração e colonialismo.

Há que purificar as instituições e torná-las em meros instrumentos da nossa vontade colectiva.

Só quando nós açorianos conseguirmos ser os únicos donos do que é nosso, só então nos poderemos considerar livres.

E não seremos livres enquanto nos ocuparem vasos de guerra em missão de soberania. Pois não nos venham dizer que eles estão aí para levar medicamentos a ilhas isoladas ou para defender os nossos mares de pescadores furtivos, já que conhecemos meios muito mais baratos e mais eficazes de conseguir uma coisa e outra.

Esses canhões flutuantes farão mais falta postados nas costas do Algarve ou do Minho do que aqui. A não ser que a sua verdadeira missão seja a de ameaça aos açorianos, tipo fiscais de impostos que nós pagamos sem contrapartida. Nessa altura a nossa resposta será outra completamente diferente, pois me não parece conciliável uma declaração de igualdade seguida de tratamento desigual. E, não obstante, nós somos diferentes e temos capacidade de permanecer diferentes.

Unidos os açorianos por uma consciencialização profunda e duradoura e pela extirpação de elementos exógenos que perturbam o nosso equilíbrio sócio económico, haveremos de dar um passo mais em frente. Refiro-me à purificação e libertação das instituições.

Na verdade os partidos continentais portugueses não servem os açorianos nem servem para os açorianos.

E a nossa vivência democrática está globalmente comprometida se a nossa actividade política tiver de fazer-se através do filtro dos partidos portugueses

Como o estará também se apenas um partido com sede aqui puder ter (se tiver) existência.

As leis fizeram-se para servir os homens, e não estes para servir as leis. E quer-me parecer que a constituição socialista que nos foi imposta, ao proibir apressada e acintosamente os partidos regionais (que a liberal Inglaterra permite, por exemplo), quis evitar que nos manifestássemos livremente, o que, penso, não poderá ser fonte de paz e de sossego.

Só quando os políticos açorianos puderem apresentar-se livremente ao eleitorado através de partidos seus é que consideraremos legítimas as autoridades nascidas de eleições nossas.

E só então serão legítimas as medidas económicas por elas tomadas.

Até lá, tudo o que for decidido em economia e noutros sectores vitais é da exclusiva competência e responsabilidade de quem abusivamente se diz nosso representante.

Se politicamente aspiramos a uma democracia livre, não orientada para duvidosos socialismos e, consequentemente, pura e genuína, no campo económico também aspiramos à liberdade.

Se ao Estado vier a competir o zelo dos interesses gerais, como comunicações, saúde básica, etc., no mais, a iniciativa privada deve ter o seu natural desenvolvimento para não cairmos no regime das mediocridades sociais.

Uma iniciativa que pague o seu tributo certo ao Estado. Mas uma iniciativa livre como a Pátria que queremos consagrar.

6. AÇORIANOS

Os obreiros do início da emancipação açoriana contemplam-nos do seu mundo misterioso e que maior homenagem pode fazer-lhes do que mostrarmos a nós próprios que essa obra não se encontra parada? Que nós somos dignos de continuá-la e aperfeiçoá-la?

E que homens há que ainda agora tiram devidas ilacções das premissas do passado. Por isso vos peço que olheis para um Homem que hoje e aqui simboliza a nossa luta[1]. Ele foi em nome do ideal levar a Mensagem aos nossos irmãos dispersos pelo Mundo. Ele empolgou-os e deu-lhes uma razão para viver e um sentido à existência.

Pelo ideal perdeu o emprego e arriscou a liberdade e os nossos adversários contra ele assestaram as suas armas.

Lembrando os mortos quero prestar homenagem aos vivos. E esse homem que tudo sacrificou para que as nossas vidas pudessem ter um significado e no nosso futuro possa brilhar a estrela da Esperança, nós diremos : o teu sacrifício não será em vão.

Ergueremos as nossas vozes e oporemos uma barreira invencível para além da qual só existirá Fraternidade, Liberdade e Amizade.

Não nos intimidarão as ameaças venham elas donde vierem. Não vacilará o nosso alento. Não descansaremos enquanto a Vitória não for nossa!

Perante estes túmulos sagrados, face a estas sentinelas eternas da nossa História, eu pergunto-vos:

AÇOREANOS:

- JURAIS DEFENDER ESTA TERRA ATEÉ AO VOSSO ÚLTIMO ALENTO?

- JURAIS OU NÃO PELA ALMA DOS VOSSOS IGREJOS ANTEPASSADOS QUE DAREIS A VOSSA VIDA PELA LIBERTAÇÃO DESTA TERRA?

- JURAIS OU NÃO QUE O VOSSO ESPÍRITO NÃO CONHECERÁ DESCANSO E O VOSSO CORPO NÃO CONHECERÁ CANSAÇO ENQUANTO NÃO FORMOS VERDADEIRAMENTE LIVRES?

Seis de Junho de 1976




[1] O orador referia-se ao Dr. JOSÉ DE ALMEIDA.

Obrigado!

Há pessoas que estando na nossa Terra e nela trabalhando, melhoraram duma forma profunda a nossa qualidade de vida, pela sua superior inteligência, pelo seu imenso saber, pela sua dedicação sem limites e pelos dons com que nasceram, sabendo transformá-los em bênçãos para aqueles que têm a fortuna de beneficiarem dos seu labor.

Bendita a Terra que tais filhos tem. Não são superhomens nem feitos de aço e são de carne e osso como nós. Sofrem as mesmas alegrias e padecem das mesmas dores do comum dos mortais, embora as angústias que o destino lhes reserva os firam com infinita dor, pois o absurdo da tragédia, nos seus espíritos clarividentes, é um punhal pontiagudo que amarra a agonia à alma sofredora tão profundamente como grandes são a angústia e a amargura causadas pelas fatalidades que os atingem.

Tão pouco lhes serve de lenitivo saberem que tantos lhes devem a vida, a saúde ou o saber porque, emersos no turbilhão de tão dolorosas emoções, sentem-se vítimas duma incompreensível injustiça que realmente existe mas para a qual não se conhece cura natural. Não conseguem sequer força para reconhecer que a sua falta poderá fazer perigar vidas ou perdê-las; que todo um trabalho de décadas se esfumará, transformando-se apenas numa grata recordação dos que tiverem consciência do que lhes devem.

Aos que cá ficam, porventura desamparados mas reconhecidos, resta apenas pedir a Deus que tudo pode, um bálsamo imenso que lhes dê ainda tanta felicidade como a que conquistaram para os outros.
Carlos Melo Bento
2008-01-29



domingo, 27 de janeiro de 2008

Manuel Alfredo da Silva Melo Bento

Nasceu meu irmão Manuel em 17 de Novembro de 1940, na cidade de Ponta Delgada, à Rua dos Manaias nº. 21, edifício que, à data pertencia a nosso avô materno, Carlos Augusto da Silva (nascido em 28 de Setembro de 1877 e falecido em 6 de Agosto de 1954), que a emprestara a nossos pais e que dele a herdaram.

Quer do lado de nosso Pai quer de nossa Mãe, descendemos dos primeiros povoadores da Ilha de S. Miguel. Do lado materno[1] seguramente de João Afonso Pimentel, o das Grotas Fundas, filho do terceiro Conde de Benavente, em Leão de Castela, cuja linhagem atira para a formosa Ribeirinha companheira de D. Sancho I de Portugal, que os poetas cantaram e o Rei amou apaixonadamente até morrer. Do lado paterno[2], pelo ramo Melo, descendemos de Pedro Vaz Pacheco, escudeiro da Casa Real, pai do 8º Memposteiro-mor dos cativos de S. Miguel, netos dos Marqueses de Fromista em Castela, vindos para S. Miguel, via Algarve, por causa das guerras das Comunidades, por volta de 1497-1502.

Ainda do lado paterno descende o meu biografado provavelmente de Pero da Ponte, o velho que veio para esta ilha no tempo do seu povoador Rui Gonçalves da Câmara (o filho do descobridor da Ilha da Madeira que governou S.Miguel de 1474 a 1497). Pero da Ponte era bisneto de Rodrigues Annes da Costa, o que fez a Torre da Raposeira no Algarve para acolher os senhores infantes.

Digo provavelmente, porquanto os documentos que o poderiam provar jazem nos escombros de Vila Franca do Campo que um terrível terramoto destruiu em Outubro de 1522. Apesar do nosso último nome ser Bento, a verdade é que o apelido da nossa Família foi durante 5 séculos pelo menos, da Ponte, e no século XIX, Bento da Ponte, até que nosso bisavô António José Bento da Ponte, decidiu que deixássemos de usar o Ponte para não sermos confundidos com um primo homónimo de quem não gostava. Até hoje, tal decisão só não foi acatada por nossa tia avó Maria da Glória Bento da Ponte Pires Coelho que era, como sua Mãe, professora, mas que desde que fugiu de casa para casar com o médico da Povoação, Dr. Tito Pires Coelho, tornou o seu relacionamento impossível.

Eram os Pontes mareantes, em Vila Franca do Campo, embora no século dezanove e princípios deste, ao menos o nosso ramo, dedicava-se com tanto sucesso à marcenaria que o nosso referido bisavô se vangloriava de ser um dos 40 maiores contribuintes da Vila; formou duas filhas professoras e um filho em engenharia electrotécnica, em Lisboa que deu boa conta de si em Portugal onde faleceu com descendência, na Serra da Estrela (Gouveia).

Nosso Avô Manuel foi destinado pelos pais para estudar para sacerdote católico. Em consequência dessa decisão que felizmente não acatou, saiu de casa muito novo, casou com a bonita filha dum rico “brasileiro” (Mariano Jacinto de Mello), montou e fez funcionar a primeira marcenaria eléctrica dos Açores e mandou nosso Pai, Alfredo de Melo Bento (1909-1994) estudar para Lisboa, onde, após longos e bem vividos dez anos, se graduou em engenharia de máquinas pelo Instituto Industrial de Lisboa.

Nosso Pai casou já de 30 anos feitos, com nossa Mãe, Natália Maria Augusta da Silva Melo Bento que tinha menos dez anos que ele e era filha dum dos mais opulentos comerciantes de fazendas de Ponta Delgada (Carlos Augusto da Silva).

Muito jovens ainda fomos os dois para a Escola Infantil das senhoras Mirandas que se situava ao canto em cima da nossa rua, na esquina nascente da Rua da Boavista e, quando ele ia fazer sete anos e eu seis, fomos os dois para a escola Normal de Ponta Delgada que nessa altura estava instalada num solar perto do mercado da Graça. Era ali professora a D. Mariana Bento (da Ponte) Carreiro, prima irmã de meu Pai. Fomos alunos dela durante 4 anos. Meu irmão foi o melhor aluno da classe e eu arrastei-me penosamente com muitas deficiências que a minha alta miopia só agravava, de parceria com a teimosia de meu Pai que só me deixou usar óculos na 4ª. classe, convencido que estava de que eu via muito bem!

Durante esses anos meu irmão foi uma espécie de protector, chegando até a entrar em brigas por minha causa, deixando o adversário de tal maneira maltratado, que houve necessidade de desculpas públicas e reconciliação oficial, diante de pais e parentes.

O destino porém, por vezes, prega-nos partidas cruéis. No exame de admissão aos liceus, nesse tempo obrigatório, meu irmão apanhou, em professor de ditado, o Dr. Armando Cortes Rodrigues que, escrevendo divinamente, falava um micaelense cerrado e nervoso, pouco mais que ininteligível. Chumbou meu irmão por erros no ditado, facto que o traumatizou de tal forma que jamais se recuperou da injustiça perturbadora de toda a sua vida académica.

Munido dum sentido de humor muito agudo, Mélito sobreviveu (tal foi o diminutivo que nossa Mãe lhe atribuiu, o meu foi Cálito). Mas sempre que lhe saía na rifa o Dr. Armando o caldo entornava-se, facto que lhe atrasou a formatura universitária. Desorientado por um ensino autocrático com o qual nunca fez as pazes, o seu percurso de adolescente iria levá-lo à América e Canadá, de onde o frio o expulsou rapidamente. Depois, vê-lo-emos trabalhar como apontador na ponte sobre o Tejo (a primeira, que foi baptizada com o nome de Salazar e depois crismada com o de 25 de Abril). Daí foi posto na rua pela Madrugada com quem nunca se deu bem. A venda de imóveis levou-o para França, e o Cadastro Geográfico para Coimbra e Lisboa onde, já casado, resolveu tirar um curso superior, o que fez em tempo surpreendentemente curto.

Ainda na Faculdade de Letras de Lisboa, apanha-o a Revolução dos Cravos cuja turbulência o arremessa para as plagas açorianas de S. Miguel, em plena convulsão independentista. O seu espírito inquieto onde porventura a minha prisão pelos pseudo revolucionários dos Açores gerou revolta, impele-o para acção directa em defesa da lavoura micaelense então completamente desorganizada e explorada, mas acaba por ser preso e julgado, liberto e amnistiado.

É neste período complexo de luta entre os autonomistas, centralistas e independentistas que a sua produção literária e artística se desenvolve com virulência.

Entre artigos para os jornais e os diálogos que tomam a direcção da comédia ou tragédia conforme a sua vontade criadora, ele usa a língua portuguesa com mestria e à vontade para obrigar o leitor a pensar criticamente o tema proposto embora lhe seja indiferente a opinião daquele, que despreza e ama simultaneamente.

A carga psicológica é porém indisfarçável. Partindo dum motor egocêntrico em que a introspecção chega a parecer violenta nos seus efeitos, ele descreve um mundo em que se de gladiam complexos, culturas, feitios, traumas, passado pessoal e político, formação académica e algum autodidatismo. Tenta a síntese. E, por vezes, atinge-a genialmente. Com ele abriu-se um novo capítulo na literatura escrita nos Açores. Desta vez sem a bênção dos poderes mas com a indiferença dum mundo oficial divorciado de valores reais e essenciais que ele cultiva com soberano desprezo pela opinião dos sábios da nomenclatura e da inteligentzia consagrada.

Do período que vai de 1975 a 2001 gostaria de destacar na sua obra literária os seguintes trabalhos. A Filoflá, No Reino dos Apedeutas, Os Esquerdistas e Os Memoráveis. Penso que são as suas obras primas, inspiradas pelo momento histórico da revolução abrilista, do fim do império português e a restauração da democracia que geraram no seu espírito os retratos geniais de figuras reais mas simbólicas de posicionamentos sociais e políticos diversificados. A universalidade desses tipos psicológicos, arvoram tal obra a uma altura até aqui inatingida na literatura açoriana.

Além destes trabalhos produzidos sob a forma de dramatologia, escreveu diversos diálogos em que aprofunda, à maneira socrática, temas que o atormentaram. Amargura, Caderno do Olhar, Desatino, Diálogo, Mente em Pó, Na Servidão do Desejo, O Biteísta.

Da pintura, só deve falar quem sabe. Por isso e bem vistas as coisas eu devia ficar mudo. Não sou nenhum Francisco de Holanda nem sequer vejo muito bem. Mas a verdade é que a pintura de meu irmão não me deixa indiferente.

Aliás, desde muito novo que ele mostrava queda para o desenho e trabalhos manuais. Julgo que eu tinha doze anos quando ele desenhou a minha cara a carvão, que nosso pai achou tão bem feita que decidiu logo que ele tinha que tirar o curso de dentista, devido à notória habilidade de mãos!

Penso, no entanto que a pintura de Mandala (um dos pseudónimos que adoptou já entrado nos entas) ainda se aproxima perigosamente da verdade quando ele pinta o retrato. Verdade psicológica e por vezes cruel como uma caricatura e que nossa irmã Maria da Graça vem salvando pacientemente da destruição. Licenciada em História, ela tem a noção do valor estético a preservar e observa a obra de nosso irmão pela verosimilhança e pela beleza.

Confesso que as primeiras obras que me ofereceu não me puseram eufórico, talvez porque nessa altura a pintura nada me dizia e nunca tinha visto na minha frente uma História de Arte.

Depois que ele atingiu a idade da sabedoria e à medida em que as pessoas que retractou se vêm tornando, com a idade, cada vez mais parecidas com a obra que inspiraram, esta torna-se profética e de alguma maneira denuncia o génio que estava oculto às mentes vulgares do nosso ainda mesquinho meio semi-medieval da cultura.

A paisagem e as flores, o nu e o abstracto são duma sofisticação e dum intimismo que denunciam uma alma tímida com a educação dum príncipe romântico. Sofisticação patente na harmonia das suas cores. Intimismo manifesto na solidão dos temas que se diriam concebidos numa torre de marfim onde os tumultos da plebe não sobem.

Possuo quatro estudos em que meu irmão tentou exprimir o mar, o homem e o domínio deste sobre aquele. Há diferenças subtis e quase imperceptíveis entre os quatro trabalhos mas que são suficientemente explícitos para demonstrar a busca sistemática e persistente dum objectivo quiçá não atingido.

Resta por fim o auto-retrato de que se já disse ser aquela obra onde o artista não se deixa iludir pelo modelo. Serenidade, perspicácia e perplexidade, eis o que me parece que o artista viu.


Ultimamente, resolveu ir para Lisboa, entediado com o marasmo local e ferido por memórias dolorosas, mas com o objectivo de tirar outro curso universitário. E já na antiga capital do Império, designou a sua pintura como “pincelismo”. Juntamente com os maravilhosos quadros que me mandou, dentro desse estilo, e de que se fará exposição oportunamente, enviou-me o seu pensamento sobre esse género de pintura que vos transcrevo:

“O Pincelismo tem por objectivo o limite da ideia. Como esta é fruto das maquinações do cérebro, aquele (limite) distende-se rebeldemente ao sabor da instabilidade. Talvez seja, em certa medida, o espelho dum universo que se digladia (interpretativamente, claro) nas diversas opções da Física Teórica, uma teoria da relatividade generalizada que não encontra resposta no mundo quântico. Mas será o “pincelismo” pintura? Eu penso que não! Pelo menos no sentido clássico, moderno, e mesmo contemporâneo. Não se procura agradar nem tão pouco organizar os pigmentos sistematicamente. Anarquismo, traumatismo pós nascimento das vítimas involuntárias que não pedem para sofrer”? É capaz! Como encarar a crítica? Mandando-a lamber sabão. O que procurei pintar? Quando entrava em casas da velha burguesia, sobretudo a comercial, encontrava em cima das mesas da sala de estar algumas fotos. Fiquei com elas na memória. É que a pose das personagens as tornava patéticas umas vezes, outras empertigadas. Mas sempre vazias e idiotas. Algumas, menos dotadas de fundos, a meu ver, representavam uma caricata hipocrisia no momento em que o fotógrafo os captava. Nem sempre é fácil pintá-los… sobretudo de memória. Pintar, leia-se pincelar! Este texto acompanha a pintura. As figuras têm por detrás um certo tipo de pintura impressionista. É o que eu chamo de incoerência do pincelismo. Nada a fazer…

É uma espécie de queda no abismo, à medida que nos aproximamos da morte vem à lembrança todo um passado de momentos. Esses momentos são parecidos como quando as queremos expressar através da pintura. Fica-se com a sensação de impotência perante eles e “retratá-los”, às vezes, é angustiante. Não temos os modelos presentes, não sabemos desenhar, tão pouco pintar, mas a vontade de os descrever através do pincel torna-nos “pincelistas”.

Terá isto a ver com a escrita pictórica dos primeiros tempos em que o homem a utilizava para contar histórias ou momentos?

Pincelismo ou seja “utilizar a pintura como expressão “escrita” do pensamento. Este até pode ser confuso ou muito confuso”; e isto porque a “caligrafia assim como a pintura têm que ter dono. Quando houver confusão em atribuir-lhes paternidade, a pintura mais que a grafia não singra”. “O pincelismo não respeita as regras dos pigmentos primários. Muitas vezes as pinturas rupestres são consideradas obras de mestres em relação àquele. Não é liberdade nem desvario, é expressão manipulada pelo subjectivismo de cooperação. Um tipo de colectivismo encapotado”.


São palavras de meu irmão Manuel que expressam esta nova maneira de encarar a pintura que parece merecerem meditação.

Guardo para o fim a sua faceta de professor, pedagogo e dirigente pedagógico, campo em que a minha capacidade de análise é ainda mais pobre. Foi o seu grande amigo, o Dr. José de Almeida, quem escreveu a mais acutilante imagem dele que transcrevo. Aliás, nosso Pai que era primo, sobrinho e neto de professores, também ensinou na velha Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada onde deixou rasto que ainda hoje se sente nos seus antigos alunos. Por isso, o ensino foi desde sempre uma opção para nós. Para meu irmão foi o pretexto para demonstrar uma coragem e competência invulgares. Ouçamos o que, neste capítulo diz José de Almeida de cujas Memórias ainda inéditas roubei o seguinte passo:

“Foi professor, director de turma e orientador pedagógico, na Escola Roberto Ivens, em Ponta Delgada e Director de Escola, na cidade da Ribeira Grande.

Envolvido na nova perspectiva de localizar a Escola centrada no aluno, acreditou, estudou e percebeu que esta Escola Nova exigia professores competentes e empenhados. Desenvolve técnicas e realiza actividades que o distinguem como professor e homem, no ensino, com projecto e empenho. Daí as responsabilidades que assumiu.

A sua figura de pedagogo e mestre na área do ensino criou uma corrente de ligações afectivas, culturais e sociais, hoje, ainda, de muito boa memória entre colegas e alunos, testemunhas vivas deste riquíssimo período da sua actividade no ensino”.

Personalidade complexa mas genial. Sensibilidade frágil como um cristal mas camuflada. Inteligência brilhante mas inaproveitada, não me fica bem dizer isto mas meu irmão é uma personalidade excepcional que uma cultura insaciável transforma num ser imprescindível para quem tem a ventura de o conhecer de perto.

Carlos Melo Bento
2008-01-10

[1] Ver, Genealogias Manuscritas de Carlos Machado, na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, descendência de João Afonso, e Enciclopédia Luso Brasileira, com referência ao mesmo nome.
[2] Jorge Forjaz, Genealogias da Ilha Terceira, VI, p.783 e seguintes e Frutuoso, Saudades da Terra, IV, vol. 1º, p.191. Os Marqueses de Fromista, além de outros, usavam os apelidos Pacheco e Benavides que seus descendentes ainda hoje usam nesta ilha. Esta Casa é hoje representada em Espanha pela Duquesa de Plasencia, Elenco de Grandezas y Títulos Nobiliarios Españoles, Madrid, 2001.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

A Rua de Pedro Homem e Coisas Dela


(Subsídios para a História das Ruas da Cidade de Ponta Delgada)

1. A palavra Rua deriva do latim "rugam", que deu também "ruga" com um significado aparentado com caminho público entre filas de casa ou muros. Aplica-se essa palavra neste sentido quer se trate da cidade, vila ou freguesia ou, mesmo, lugar. Também se dá o nome de rua ao espaço entre renques de plantas nos jardins. Em sentido figurado pode significar os próprios moradores: "rua de gente fina". E como uma interjeição usa-se no sentido de: fora daqui. É no primeiro sentido obviamente que vamos usar a palavra. Os nomes das ruas têm sido ao longo dos tempos um termómetro interessante da cultura de um povo, exprimindo melhor que nada a sua mentalidade. Ou são poéticos como ' "Da Alegria" "Do Valle-Verde" ou "Da Boavista", ou são tétricos como "Rua da Cruz", associado a morte e crime, ou estão ligados a templos como a do Desterro, S. Joaquim e Santana, ou a profissões como a dos Mercadores, ou a direitos reais como a dos "Foros" e os "Forais", ou a calamidades como a do Lameiro e a d' Água (lamas e chuvas diluvianas). Há nomes derivados de factos como a do "Saco" (ou saque); outros derivam de algum estabelecimento importante como a da Misericórdia. Sem querer esgotar as fontes toponímicas das ruas, direi que talvez o mais frequente seja a do nome de pessoa ou de cargo por ela exercido, porque eram conhecidas (caso das Ruas do Contador e a do Provedor).
Ultimamente as Câmaras Municipais optaram no geral por atribuir às Ruas o nome dum cidadão que consideram notável. Mas, na nossa cidade, há nomes de ruas ligadas a cidadãos que se impuseram por si. Viveram lá tantos anos, exercendo funções importantes, normalmente de carácter público que acabaram por ver o seu nome associado indelével e definitivamente à Rua. Normalmente, o nome desses cidadãos é fácil de dizer e de reter. Veja-se os casos das Ruas do Brum, do Gaspar, por exemplo. O que nos vai ocupar hoje é o de Pedro Homem e vamos começar exactamente por ele.
Segundo Frutuoso, Pedro Homem foi escrivão do Ouvidor do Donatário de S. Miguei. Viveu por meados do século XVI. Os Ouvidores eram juízes do crime ou do cível e podiam ser nomeados pelo Rei ou pelos Senhores. Neste caso tratava-se do Ouvidor do Senhor da ilha, cujo mandato (renovável) durava 3 anos, findo os quais e a ser substituído, teria de ficar necessariamente com o sucessor um mês ou dois num sítio central da sua comarca, esperando as queixas que pudessem ser levantadas contra ele. O escrivão, como o nosso primeiro historiador refere, era "perpétuo", isto é, o seu cargo era vitalício.
O Escrivão tinha a seu cargo os processos (como ainda hoje) cabendo-lhe, praticamente, o funcionamento do Tribunal. Frutuoso refere que o Ouvidor tinha Escrivão e Meirinho, sendo aquele, como vimos, Pedro Homem e este Vasco Caldeira.
O Meirinho corresponde ao oficial de diligências, figura hoje desaparecida mas que é o funcionário encarregado das citações, notificações, chamamento de testemunhas ou partes durante os actos processuais públicos ou privados. O lugar do escrivão era e é muito importante nos tribunais e, consequentemente, na sociedade a eles sujeita.
Um ditado que chegou aos nossos dias é este: "Se fores à caça e caçares um perdigão, mostra-o ao juiz e oferece-o ao escrivão". Por lei, nesse tempo, este era obrigado a ter couraça, capacete ou casco, uma adarga (ou escudo redondo ou cordial de couro), uma lança, "para quando cumprir nas cousas de seus ofícios, e por bem da justiça com as ditas armas servirem, o poderem fazer, ou em qualquer outra coisa em que por Nosso serviço lho mandarmos " (Ordenações Manuelinas, título CV do Livro Quinto).
Para nos situarmos agora bem no terreno, teremos que recuar uns bons quinhentos anos.
Quem viesse de Vila Franca, por mar (que por terra era difícil), dobrando a Ponta do Galé ou Galera, entre a da Caloura e a de Água de Pau e, ao aproximar-se da que é hoje a maior cidade açoriana, via apenas um “solitário ermo, um saudoso lugar e uma pobre aldeia de uns poucos pescadores”, talvez com uns casebres de palha na Calheta, em S. Pedro, no Cais da Sardinha ou em Santa Clara. Mas se esse mesmo cidadão de Vila Franca se dispusesse a visitar esse mesmo lugar, 20 anos depois, veria espantado uma vila pequena, sem ribeiros nem fontes é certo, mas com diversos poços de onde uma operosas população tirava o precioso líquido com que a humanidade sobrevive, mas já nobre e populosa, com célebres e generosos moradores, e comerciantes de grandes tratos.
Alguns anos depois, porém, esse mesmo viajante já nos seus 80 anos, abria a boca de pasmo ao ver, no princípio da agora cidade por graça de El - Rei D. João III (sem que ninguém lho pedisse), a magnífica casa de Baltazar Rebelo a que se seguia uma longa rua com 3, 4, 5 e 6 atravessadas de norte a sul, em largura, com mais de 16 notáveis ruas, afora muitas azinhagas (palavra de origem árabe que significa caminho estreito entre muros ou sebes) becos, e outras ruas menos principais.
Nessas ruas via casas sumptuosas e ricas, sobradadas e muito altas, mas poucas de dois sobrados. Via paços de fidalgos e homens poderosos, bem lavradas (com pedra de lavoura) fora ainda os Paços que o Conde de Vila Franca estava a construir julgo que por volta de 1583 onde será hoje, mais ou menos, a Escola Antero de Quental, palácio da Fonte Bela. Paço onde despachou o Rei D. Pedro IV, 1º Imperador do Brasil e regente do reino de Portugal em nome de sua filha D. Maria II. A Rua a norte deste palácio ainda tem o nome vulgar de Rua do Conde.
Ponta Delgada, assim chamada devido a uma ponta rasa com o mar com esse nome (mas hoje aterrada) e também de Santa Clara devido a uma ermida que existia entre a que é hoje a Praça Gonçalo Velho Cabral e a Avenida do Tribunal (Conselheiro Luís Bettencourt). Esta ermida nada tem a ver com a Igreja Paroquial de Santa Clara, fronteira poente da cidade.
De qualquer dos modos, vindo do poente, o viajante topava com o forte de S. Pedro, que existia em frente da igreja do mesmo nome e foi destruído este século XX para a construção da marginal, forte esse que era ligado à poderosa Fortaleza de S. Braz por muro ou muralha (ainda visível por detrás da Rua dos Mercadores) onde se abriam várias portas, algumas ainda existentes como a do Laguim, a do Arco e as da Cidade, embora estas em moldes diferentes do que se apresentam hoje.
Da porta que existia em S. Pedro, a principal, diz Frutuoso, donde se vêm os barcos à vela e toda a cidade; existiam para poente, pelo menos duas portas em Santa Clara, uma junto das casas do "generoso e em tudo grandioso Francisco d ' Arruda da Costa", cercada de muro e cubelos (ou torreão próprio e fortificações). Estas casas situavam-se em frente duma pequena baía de areia que se segue a um baixo existente em frente da ponta dos Algares (do Carvão).
A outra porta, e pegada a esta, a de Santa Clara, por "estar ali a Igreja Paroquial desta Santa, onde se acaba a principal costa da cidade que ainda chega a outra porta de Baltazar Roiz". Esta cidade de Ponta Delgada era "tão fortificada com fortaleza, baluartes e cubelos; tão acrescentada com custosos edifícios e casario; tão religiosa com sumptuosos templos e mosteiros; tão visitada e acompanhada de navios e infinita gente forasteira, em todo o tempo".
No de Pedro Homem era "grande, rica, forte e tão afamada cidade, quase furtando a bênção a Vila Franca primaz e por ocultos juízos da Divina Providência herdando o seu morgado; e a que dantes era sujeita e sufragânea a outra vila, é ao presente feita senhora a que vão obedecer todas as vilas e lugares de toda a ilha”.
É curioso referir como subiu Ponta Delgada a concelho em I499, isto é, faz daqui a um ano 500 anos. Os nobres, fidalgos e Homens Bons de Ponta Delgada eram obrigados a ir a Vila Franca, sob pena de multa, na procissão do Corpo de Deus, a mais importante manifestação religiosa da Igreja, nesse tempo. Foram lá os principais, de que a história registou Nuno Gonçalves Botelho, Fernão Gonçalves "o Matoso" (que significa terreno coberto de mato), Rui Lopes da Silva, Pêro de Teve, Fernão do Quental, Francisco Dias Caiado, João da Castanheira, Pêro Jorge, João Gonçalves "o Tangedor", Álvaro Pires "o Procurador" (advogado), João Álvares do Olho, Fernão de Lima e outros muitos.
Durante a procissão, pingaram o fato de Pêro Jorge com cera; este, julgando-se ofendido de propósito, puxa da espada, e perante o reboliço, fogem às espadeiradas, nos três barcos em que vieram. O irmão de Pêro Jorge, Fernão Jorge é então mandado imediatamente a Lisboa em missão secreta e regressa um mês depois com Alvará escrito em papel, em que o Rei Dom Manuel I faz concelho daquele pobre lugar.
Pêro Roiz da Câmara é chamado à pressa da Ribeira Grande, de onde governava S. Miguel por seu irmão; são feitas eleições de que saem eleitos Nuno Gonçalves Botelho, João da Castanheira, como juízes; João Gonçalves o Tangedor e Pêro Afonso Castelhano, como vereadores, João Dias Caridade, como Provedor do concelho. A primeira acta foi redigida por Pêro de Teve. Os embargos que os vilafranquenses deduziram perante o substituto do donatário são julgados improcedentes, porque os novos edis já estão de varas “alevantadas...”
E quando a nova de que Ponta Delgada foi feita cidade em 2 de Abril de 1546 correu, começaram os seus moradores "a negociar a cavalo em que pareciam bem pelas ruas e praças, e se fizeram muitas festas, agradecendo a el-rei a mercê que lhes fizera".

A Rua de Pedro Homem

2.- Ora, uma das tais ruas que parte a rua direita é precisamente a Rua de Pedro Homem de que convém nos aproximemos senão nunca mais acabamos esta nossa digressão.
A nossa Rua fica enquadrada por outras duas: a sul, a velha rua do Garcia e a norte a de Santana. À rua do Garcia deu o vulgo o nome de Rua do Frade mais tarde oficialmente designada (depois da autonomia de 1895) rua Conselheiro Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro, por lá ter nascido este famoso primeiro ministro do tempo do Rei D. Carlos, na casa onde hoje se situa o edifício da sociedade Corretora.
A Rua do Pedro Homem tem hoje 54 casas com estilos que vão desde o séc. XVI, com as ombreiras das portas em suta, de alto a baixo, até ao séc. XX, rectilíneas e algumas de duvidosa beleza, embora de indiscutível funcionalidade e higiene.
Suponho que todos os séculos estão ali representados desde os "papos de pomba" abrasileirados até às portas e janelas de grandes dimensões à moda de Abel Coutinho, passando por um barroco-chão do séc. XVII, em imitação do vizinho colégio dos Jesuítas e seus complementos, sem esquecer a mais pequena casa dos Açores, mimosa e bela no seu encanto de moradia de gente pobre e de trabalho.
Nesta rua moram hoje pessoas importantes e de reconhecido mérito. Gostaria de salientar entre eles, o Dr. Ricardo Ferreira, pedagogo cujo nome está ligado à fundação da Universidade dos Açores, que a ele, em boa parte, deve a existência e que o torna o mais ilustre dos seus habitantes.
Aqui trabalha um ilustre advogado, Eduardo Medeiros, um distinto médico dentista, Dr. Ricardo Viveiros Cabral, e o único mestre organeiro dos Açores, Dinarte Machado, habilíssimo artista a quem se deve a restauração dos nossos preciosos órgãos, e também nela reside e mantém oficina.
E aqui nesta casa onde estamos trabalha o João Pacheco de Melo que a seguir a 25 Abril de 1974 optou pela emancipação dos Açores, até hoje sem desvanecer o seu nobre propósito como aqui e agora se vê. Fui seu professor e sei da sua inteligência e cultura.
Muito novo ainda ganhou um prémio com a poesia que vos passo a ler para amenizar a fala,

Carta de saudade

Estou bem
Mas...
não sei que fazer
sinto que estou longe d' alguém
alguém que me viu nascer
Oh que saudade eu sinto
da minha terra amada
isto é puro; eu não minto
anseio a minha chegada
à terra que tanto amo
e que trago comigo,
que para mim é o ramo
onde o meu ninho foi erguido.
Oh terra minha d' além
que por ti sinto vaidade;
não direi a mais ninguém
a não ser a ti; só a ti
que de ti, sinto saudade.


Pedro Homem e as perdizes do Senhor Capitão

3. Rua de Pedro Homem é pois uma rua muito antiga e que mantém, desde há muitos séculos, o mesmo nome. E a história regista algumas pessoas que nela viveram. O primeiro é o próprio Pedro Homem que nós já sabemos ser escrivão do Ouvidor.
D. João III ordenara a Manuel da Câmara que viesse para S. Miguel governar pessoalmente a sua casa e construir a fortaleza de S. Braz. Habituado a uma vida da corte opulenta e rica, o donatário rodeava-se dos requintes próprios desses meios.
Mandou vir de Londres cisnes, açores e falcões. E perdizes de Portugal, em 1561. É curioso que estas aves, que seu pai já tentara introduzir entre nós para poder caçá-Ias, foram espalhadas pelo próprio ouvidor, Dr. Francisco Picão e pelo nosso escrivão, Pedro Homem que as deitaram acima da cidade, na Fajã de Gaspar Ferreira que não sei se terá alguma ligação com o que deu nome ao charco do Ferreira.
Por certo que, tanto o capitão como o Juiz por ele nomeado e por tabela o nosso escrivão, deveriam ter na caça a paixão que então dominava as classes elevadas, senão ficava por compreender a que cargas de água ia um escrivão de direito espalhar cinco casais de perdizes por conta do donatário a quem não faltavam criados e escravos que disso se encarregassem.
Se essas perdizes, nobres antepassados das que ainda por aí voam baixo, estiveram ou não nesta rua é talvez coisa que nunca saberemos ao certo, mas não custará a acreditar nisso.

A Tenebrosa Inquisição

4. A mais antiga referência a esta rua é porém, segundo Hugo Moreira, aquela que existe no arquivo da Inquisição na Torre do Tombo, a respeito de Belchior Rodrigues e de sua mulher que pretenderam ser familiares do Santo Oficio e para tal tiveram que o pedir por escrito a esse areópago amaldiçoado, indicando que residiam na rua de Pedro Homem, ao mesmo tempo que apresentam imensos testemunhos das suas qualidades sociais e pessoais.
Os familiares do Santo Ofício são auxiliares dos juízes e funcionários da Inquisição. Tinham rendimentos próprios, embora recebessem uma espécie de ajuda de custo; realizavam prisões, davam informações, tinham hábito ou farda só usada em serviço, gozando de privilégios que lhes davam uma excelente posição social; sendo as suas causas julgadas pela Inquisição; estavam isentos de impostos e de cargos municipais; tinham o direito de andar armados; a sua limpeza de sangue era incontestável e o seu número era limitado. Podiam ser Familiares do Santo Ofício pessoas de várias classes: nobres, burgueses e oficiais mecânicos; tinham carta própria (espécie de diploma profissional) e um estatuto social muito importante.

Um Médico Inglês em Bolandas

5. Nesta referência naturalmente resumida da historieta desta rua, apenas assinalo uns poucos de factos que um dia, se calhar, irei aumentando se tiver tempo, paciência e oportunidade. Daí que vamos dar um salto de dois séculos e vejamos o que aconteceu em 1820 que obrigou um médico Inglês a vir viver para a Rua de Pedro Homem, a toque de caixa, e duas horas depois de ter recebido ordens para despejar a casa que tinha na Matriz.
Mas comecemos do princípio. Os Açores eram governados da ilha Terceira pelo Capitão General Francisco António de Araújo Azevedo, desde 1816. Com receio da ameaça espanhola, resolveu ele vir a S. Miguel em 1820, pelo que, 2 anos antes começaram os trabalhos preparatórios desse acontecimento. De Angra pediu-se à Câmara de Ponta Delgada que arranjasse alojamento para o governante. A Senhora Câmara oficiou aos grandes da terra, possuidores de faustosas residências: Vicente e João Soares de Albergaria (tio e sobrinho), coronel Nicolau Maria Raposo, coronel Chaves e Melo, Luís da Câmara Coutinho Carreiro, José do Canto e Jacinto Inácio da Silveira. Estes ou disseram que não ou nem se dignaram responder.
Vai daí, a Câmara resolve alojar sua Excelência nos Paços do Concelho que foram arranjados para esse efeito. Só que, prontas as obras, o General a chegar, e lembraram-se que faltava lugar para a vasta Secretaria da Secretaria
Geral dos Açores. Em frente à praça da Câmara, morava um médico cirurgião Inglês, chamado Sanderson Walker, cuja casa foi considerada adequada àqueles serviços; por isso o eminente clínico recebeu ordem para sair de lá em poucas horas.
Acontece que, na rua de Pedro Homem, a D. Jacinta de Medeiros tinha umas casas que se achavam por habitar. Deve ter-se assustado a nobre senhora ao ver entrar os esbirros do general talvez acompanhados do Meirinho do tribunal, por sua casa, a pedir as chaves das da Rua de Pedro Homem, tudo sob pena "de prisão não acontecendo assim e havendo desobediência a intimação se procedesse pela justiça em termos hábeis e competentes".
Não é difícil imaginar a indignação do súbdito de sua Majestade Britânica perante a ameaça oficial e a consternação com que fez a mudança, perante o pasmo do populacho e o tilintar das tesouras e do bisturi entre o trotar das mulas e o chiar das rodas da carroça na calcada...
Os Liberais
6. Passados alguns anos, porém, a Rua de Pedro Homem viveu momentos de glória, esses então de impacto nacional e indelével. É que também viveu nesta rua o grande José Xavier Mouzinho da Silveira, o jurista, membro da Regência do reino por D. Maria II, e nesta rua escreveu os célebres decretos de 16 de Maio de 1832 que mudaram a administração pública em Portugal e seus domínios, destruindo uma estrutura de séculos. A 17 e a 18 desse mês deu ele cabo da maioria dos conventos, atirando para a privatização, dispersão e desaparecimento um património artístico e cultural sem preço.
A casa onde ele escreveu ou fez os últimos retoques a esses decretos com a colaboração de Almeida Garrett, ficava "logo à entrada, lado direito”. O último habitante dela antes de ser reconstruída ou feita de novo, como há tempos se achou, foi o proprietário dela, António Xavier de Sousa, geralmente conhecido pelo Xavier Bambas, era gracejador de chocarrices, mas perfeito calígrafo. Isto lhe dava meio de vida, empregando-se em escriturações comerciais designadamente na casa Bensaúde que o sustentou na doença cancerosa de que morreu.
Nesta casa, em frente da que nós estamos[1] consta a lápide de que nela funcionou o governo liberal em 1832. Esse governo ficou designado como "Regência" e era constituído pelo Marquês de Palmela, liberal moderado, o Conde de Vila – Flor e nosso Mouzinho da Silveira.
Vila - Flor residiu na casa que é hoje a Secretaria Regional da Economia, a norte do Teatro Micaelense e seria mais tarde promovido a Duque da Terceira pois a ele se deveu militarmente grande parte do êxito das forcas liberais.
Quando D. Pedro chegou à Terceira, esse governo foi remodelado, saiu Vila – Flor e entrou José Freire. É certo que nessa altura o governo liberal apenas "mandava" nas nove ilhas dos Açores, mas em Maio de 1934 já dominava todo o País, e a verdade é que desta rua saíram as leis que haviam de mudar por completo o modo de viver de todos os portugueses.
Não é difícil imaginar o vai e vem da tropa, cavalos e coches que por aqui andaram, os militares, as fardas e as continências, gente á janela, o rapazio e bulício duma terra que de um momento para o outro se via com 8.212 pessoas a mais.
As nossas ruas não eram como agora, limpas, asseadas e iluminadas, que a noite parece dia. Luz Soriano diz que essas ruas eram “bastante espaçosas e o nosso comércio de bastante consideração. O que mais se viam eram burros que chamam asnos, que era o exclusivo transporte de pessoas e mercadorias pelo que empaxavam praças, largos e algumas ruas em que os prendem a argolas”.
As pessoas achavam estranho que nessas ruas houvesse canastras de louça, caixões de queijo, pipas de vinho, cartolas de açúcar fora das portas das lojas, colocadas nos ladrilhos, ramos nas tavernas, degraus em algumas casas, ratazanas mortas, especialmente junto aos granéis, cães a regarem as calças aos transeuntes ou a irem lhes ás canelas, porquinhos, cabras nas canadas e dentro da cidade, obreiros de carpina limpando tabuado e aparas nas testadas.
Leite em odres, pão de trigo com metade de farinha de milho, manteiga de porco pesando menos, pão, queijo e linguiça nas tavernas servindo de pousada ás moscas e couros de rezes a secarem pelas ruas.
É evidente que não acabou com o liberalismo a história da Rua de Pedro Homem (ou do Pedro Homem como se vê na placa toponímia da travessa?) o escrivão de direito que tanta importância teve que lhe foi dispensado um anel d'água, com a condição de o botar fora (depois de 1593, em que se deu um ao Conde, e 1599, em que se concedeu outro à freguesia de S. Pedro para correr na Pranchinha ou Panchina).
Antes tinham dado a S Francisco, Esperança (na condição de a darem ao povo), aos Jesuítas aqui perto e a Santo André aqui ao lado.
O Conde Dom Rodrigo, aquele que se perdeu por amar de mais e sem conta, tinha obrigação "de a botar fora, de noite, só a recolherá 3 horas no tanque, das 11 até ás 2 depois da meia-noite". Numa cidade sem ribeiras em que o povo tinha sido fintado para ter água, só as pessoas mais importantes tinham esse direito. Quem terá sido este Pedro Homem em cujo rua, 300 anos depois dele, viveu o músico Carregal do continente, mestre de música militar com duas filhas de não vulgar formosura e em que nuns viveiros para canários havia preciosíssimos azulejos que tinham sido da capela mor da Matriz, quando a moda mandou cobri-la de gesso?

[1] Esta conferência foi proferida a 6 de Junho de , no nº 49.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Carlos Carreiro


Foi com surpresa e dor que recebi a notícia da sua inesperada morte. Aquele coração de bom açoriano sempre pronto a servir qual vulcão de amizade em erupção permanente, deixou de bater, quando tanto ainda queria e podia dar à sua Terra e ao seu Povo. Vida atribulada de quem nasceu na Calheta e dali emigrou na adolescência; Fall River viu-o amadurecer, desde sempre ligado a esta ilha por um cordão umbilical de aço e emoção. A ela voltou sempre que pôde e aqui estava como se de cá nunca tivesse saído. Amigo de seu amigo não olhava a meios para os servir com a devoção dos apóstolos. E foi como apóstolo e discípulo que seguiu e serviu com José de Almeida na grande luta dos tempos heróicos da emancipação açoriana. Aqui deu ânimo e saber aos que nada sabiam de lutas políticas e granjeou ainda mais amizades. Quando foi preciso veio com armas e bagagens e família, e tudo deu sem nada pedir em troca, durante todo o tempo julgado necessário. Regressado à América serviu sempre os Açores, independentemente de quem o governava, pois pôs o interesse da Terra acima das suas convicções políticas, e se as tinha! Ficou bem à Câmara da Lagoa invocar agora a sua alma benfazeja. Felizmente, porém, não foram só os lagoenses que lhe ficaram em dívida. Toda esta Terra chora quando um dos seus bons filhos morre. As lágrimas hão-de adubá-la como as que salgaram o mar que para aqui nos trouxe.
Carlos Melo Bento
2008-01-22

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Quem ganha?

Quem ganha?
O Tribunal Constitucional resolveu cumprir a lei dos partidos, notificando todos, grandes e , para fazerem prova de que têm pelo menos 5000 filiados. Tudo bem que as leis fizeram-se para ser cumpridas e ninguém está acima delas. Mas, como dizia o Senhor Daniel chefe de Secretaria do antigo Sindicato dos Estivadores “-Há casos que podem mais do que as leis”. É que há leis e leis e como nem todas são feitas pela mesma pessoa, há umas que dizem umas coisas e outras que mandam outras. No nosso caso, há uma lei que diz que os dados pessoais dos membros duma associação legal, são confidenciais e só um tribunal, por razões legais pode mandar levantar pontualmente e em casos concretos essa confidencialidade. Os grandes partidos, usando e abusando do poder passageiro que o favor popular lhes deu, resolveram encurralar os outros mais pequenos, acabando, na prática, por proibi-los. Salazar também os proibiu. Com excepção do seu. Bom, mas a questão açoriana não é essa. Se os açorianos tivessem querido e entendessem que lhes era vantajoso ter um partido seu, em que fossem só eles a mandar, o que aí está servia-lhes perfeitamente. Não quiseram por esta ou por aquela razão que se não discute. Terão porém de compreender que, sem o estímulo do seu apoio eleitoral, não há direcção partidária que resista à erosão. Perde esta, certamente porque não levou a carta a Garcia. Mas eles perdem mais porque ficam totalmente na mão dos de fora e não sei quem é que perde mais.
Carlos Melo Bento
2008-01-15