quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Roteiro do 6 de Junho de 1975 - A Vitória dum Povo



Crónica das cobardes prisões feitas a civis desarmados, alta noite, por militares, fortemente armados, na tentativa vã de pararem o movimento de emancipação açoriano.

Ao comemorarem‑se os 25 anos da grande Manifestação de 6 de Junho de 1975, em Ponta Delgada, sugeriu João Pacheco de Melo que fosse feito um roteiro das casas dos que expiaram essa viragem na nossa História Política, com a ignóbil prisão feita a civis desarmados, pela calada da noite, por aqueles a quem o cumprimento da lei estava confiado...

Noite de angústia, não pela luta que não temeríamos se tivesse sido leal mas pela cobardia de se atacar, com armas de guerra, civis desarmados e indefesos, ao abrigo duma farda até então honrada e respeitada.

Recordemos pois os nomes e as moradas desses açorianos por ordem alfabética:


1.‑ O Dr. Abel da Câmara Carreiro
1916-2006
Era na altura um advogado já sexagenário, doente mas no activo até falecer com 90 anos. A casa onde o prenderam de madrugada situa‑se na Rua Dr. Armando Cortes Rodrigues, n.º 17, da cidade de Ponta Delgada. 0 seu "crime" foi ser jurista e fundador do Movimento de Autodeterminação do Povo Açoriano (M.A.P.A.) e ter participado, no Palácio da Conceição, com o general Altino, nas negociações destinadas a evitar que a Manifestação de 6 de Junho fosse reprimida violentamente ou gerasse ela própria alguma violência.

O Dr. Abel era compadre do Comodoro Ricou que fez parte da comissão de inquérito mas não teve coragem de interrogar o avô dos seus netos quando chegou à vez daquele causídico depor, no Palácio dos Capitães Generais, de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, onde os "presos" foram enfiados na cadeia local, sob insultos de arruaceiros contratados, como vulgares criminosos, guardados por soldados armados até aos dentes.

2.‑ Aguinaldo da Silva Almeida Carneiro
26.VI.1951 ‑ 15.III.1999

Foi preso às 3H‑30M da madrugada, por militares, alguns seus antigos instruendos, na sua casa na Rua Teófilo Braga, n.º 63‑A, em Ponta Delgada, quando sua mulher esperava o 1º filho ( Sara Beatriz). Atendendo ao estado desta, propôs aos que o prenderam que o esperassem na Rua da Vila Nova de Baixo enquanto de carro a foi levar a casa do sogro. Jovem que aparentava uma saúde de ferro, tinha sido militar em Tavira, no Porto e na Bateria de Costa de Ponta Delgada e, como Furriel Miliciano, deu instrução ao antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros e Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama. Participou na Revolta das Caldas. 0 25 de Abril apanhou‑o ainda militar no activo mas passou à disponibilidade em Janeiro de 1975. Fora Jornalista e mantivera um programa radiofónico de cariz emancipalista intitulado "Paralelo 38". Foi activo organizador e manifestante em 6 de Junho de 1975, sendo dos que entrou no Palácio da Conceição, assomando à varanda com o general e o governador civil quando este anunciou que se demetia. A sua morte repentina foi um rude golpe para quantos o conheciam e estimavam.

3.‑ Álvaro Pereira Branco Moreira,

Foi preso de madrugada na casa em que morava à Rua dos Prestes de Baixo n.º 9. A sua prisão foi manifesto engano, provocado por informação errada que os seus deram do nome de seu irmão Rui, esse profundamente envolvído na manifestação e membro activo do braço armado e operacional da FLA, mas que conveio afastar por então ser militar.

4.‑ António Brum de Sousa Dourado,

De família monárquica e anticomunista, foi preso de madrugada na sua casa da Rua Carvalho Araújo n.º 56, em Ponta Delgada. Foi organizador da manifestação em que teve intervenção activa. Fundador do M.A.P.A (Movimento para a Autodeterminação do Povo Açoriano) cujo Manifesto imprimiu e divulgou. Fez parte do grupo do Royal. Seu filho mais velho, pintado de preto, improvisou uma fogueira em frente ao Quartel General, como provocação preparatória do 6 de Junho.

5.‑ Eng.º Antônio Clemente Pereira da Costa Santos,

Cônsul de França. Foi preso de madrugada na sua casa da Rua Dr. Bruno Carreiro, nº. 51, de Ponta Delgada, por soldados armados de metralhadoras, na presença de sua mulher enquanto os filhos crianças dormiam. Os militares seguiram o casal dentro de casa até ao quarto de banho. Um deles aconselhou‑o a trazer uma muda de roupa.

Herdeiro duma grande fortuna, foi odiado por isso pelas forças repressoras. A sua intervenção aparente na manifestação fora aparentemente muito modesta.

Foi dos primeiros a ser libertado depois de 8 dias de cativeiro; durante a sua prisão um navio de guerra francês acostou a Ponta Delgada mas, ao estranhar que o seu Cônsul não estivesse a esperá‑lo e ao saber do ocorrido, fez‑se ao largo, até que Costa Santos foi libertado.

6.‑ António José do Amaral,

Foi preso pelas duas da madrugada na sua casa da Rua do Diário dos Açores n.º 18, por um sargento e um guarda da polícia de segurança pública. Membro do M.A.P.A que divulgava, fora contactado muito antes da Manifestação por Rainer Daehnart negociante de arte e activo apoiante das forças anticomunistas. Por esse facto foi interrogado no quartel general de Ponta Delgada, várias vezes; participou na manifestação. Por esse tempo, estava em Ponta Delgada o Tenente Lima Dias, comandante da Guarda Fiscal, ligado ao CopCon. Como o António José, ele também era coleccionador de armas antigas e porque estava sozinho na ilha com a mulher (que, veio a saber‑se mais tarde, pertencia ao MDP/CDE ), foi convidado, pelo Natal, a jantar em sua casa. Com eles estavam também Luís Franco, José Nuno de Almeida e Sousa e António Manuel Gomes Menezes. Luís Franco durante o repasto fez as brincadeiras do costume ‑ ameaçando com guerra feia os oponentes e divagando sobre a independência dos Açores. Tanto bastou para serem denunciados pelo casal Dias. Depois da prisão de António Amaral sob pretexto de ir prestar declarações, Graça Costa Santos telefonou chorosa à mulher, pois o marido tinha acabado de ser preso, pedindo‑lhes para ir com os filhos ( então de doze e nove anos) para sua casa, o que aconteceu, só então se apercebendo que o marido da amiga também tinha sido preso.

7.‑ Engº. António Manuel Gomes de Menezes,

Foi preso de madrugada na sua casa da Rua Dr. Armando Narciso n.º 6, ao Bairro da Vitória, por um pelotão completo de 12 soldados armados de G3 e muito nervosos, capitaneados por um sargento da marinha, genro de Floriberto Rodrigues e que se tinham feito transportar numa viatura Unimog. Em casa, apenas entrou o sargento; António Manuel e a mulher estavam ainda acordados, pois haviam regressado dum jantar em casa de António Costa Santos. Os filhos ainda crianças, um casal, estavam dormindo. 0 esbirro aconselhou‑o a levar a máquina de barbear, tendo então percebido que estava a ser preso. António Menezes, participou na manifestação, era membro do M.A.P.A e da FLA, e poucos dias antes da manifestação acompanhou o comandante Eduardo Pavão a distribuir panfletos independentistas ( muitos quilos de papel impresso na Papelaria Lusitânia ), sobre a cidade de Ponta Delgada, de bordo do pequeno avião do Aeroclube de S. Miguel.

8.- Engº. Técnico António Nuno Alves da Câmara

Jovem açoriano ex‑militar, foi raptado da sua casa na Abelheira, da Fajã de Baixo, de madrugada, por militares armados até aos dentes constando que os recebeu de arma em punho.

Ele e seu pai foram grandes animadores da Manifestação de 6 de Junho. O seu espírito brincalhão tentou sobreviver incólume durante a prisão mas isolou‑se sempre sozinho na sua cela da prisão.

Foi activo militante da Frente de Libertação dos Açores embora o seu espírito independente nunca o deixasse vergar a hierarquias.

9.‑ Armando Guilherme Goyanes Machado.

Foi preso de madrugada na sua casa da Rua de Santana n.º 52 de Ponta Delgada. Homem de direita, visceralmente anticomunista animou entusiasticamente a manifestação, antes, durante e depois. Nunca vergou nem concedeu aos adversários qualquer milímetro do seu espaço político.

10.‑ Bruno Tavares Carreiro,

Filho dum autonomista histórico, foi preso na casa que também fora do seu pai, na Rua com o seu nome ( em homenagem ao avô homónimo, ilustre médico ).

Abertamente independentista, alto dirigente da Frente de Libertação dos Açores foi encarregado por José de Almeida de melindrosa missão internacional, do que se desempenhou escrupulosamente.

Reagiu sempre negativa e altivamente à sua prisão, zurzindo permanentemente os seus altos responsáveis ( general Altino e Comodoro Ricou ) a quem disse das últimas por escrito e pessoalmente. Foi activo organizador da Manifestação em que teve acção de vulto.

11.‑ Carlos Eduardo da Silva Melo Bento,

Advogado então com 33 anos, foi preso depois da 1 hora da madrugada, por vários soldados comandados por um sargento músico dos Ginetes de quem tinha sido "amigo" e correligionário na ANP de Marcello Caetano. Isso não impediu o esbirro de subir com vários soldados de metralhadora engatilhada até ao seu quarto de cama onde estavam a mulher e 4 filhos de tenra idade, do n.º 45 da Rua da Cruz em Ponta Delgada, cujo telefone foi cortado pelos serviços dos Correios que então superintendiam nos telefones. Colocado numa viatura militar foi levado para bordo dum navio faroleiro, onde já se encontravam outros presos, que foram embarcados para a Ilha Terceira. Liberto 15 dias depois devido a pressões populares sobre o General Altino, dedicou‑se durante muitos anos à luta activa pela independência dos Açores tendo feito parte das cúpulas da FLA, durante algum tempo. Não tinha tido qualquer intervenção na organização da Manifestação, embora a apoiasse e a estimulasse sempre que lhe pediam opinião.

12.‑ Comandante Eduardo José Pereira de Almeida Pavão,
30.XI.1946‑7.VII.1999

Era piloto da SATA e fora colega de armas do General Diogo Neto, membro da Junta de Salvação Nacional, que o visitou na casa da Praceta da Pranchinha n.º 8 onde morava. Só foi preso no dia 10 de junho ( tal qual Mont'Alverne e Tomás Caetano ), pelas 13 horas, por um sargento músico e 4 soldados armados. Apesar de terem tentado entrar todos naquela casa, sua mulher, Maria Inês, só deixou entrar o sargento, ficando os outros no Jeep que o conduziu ao Comando da PSP. Foi membro do directório da FLA, quando José d'Almeida assumiu nos Açores a sua presidência e a quem foi fiel até aos últimos dias da sua curta existência. Promoveu a Manifestação que ajudou a organizar. Quase todas as acções clandestinas da FLA tiveram a sua assinatura e gozou de grande prestígio como defensor da independência dos Açores. Ficou célebre a operação conduzida por via aérea de espalhar panfletos nacionalistas a partir dum avião que pessoalmente pilotou. Grande humanista, sempre velou para que nunca fosse derramado sangue inocente.

13.‑ Fernando Manuel Mont'Alverne de Sequeira

Neto do grande autonomista. Residia então na R Lisboa n.º 53/A onde na véspera de madrugada, tivera uma rusga, sendo sua mulher empurrada brutalmente da cama que foi vasculhada por soldados armados. O próprio filho, então uma criança de tenra idade, foi também revistado. A 10 de junho, pelas 14 horas, quando circulava de carro na Matriz, foi conduzido pela tropa para o comando da PSP onde o prenderam juntamente com o comandante Eduardo Pavão.

14.‑ Eng.º Técnico Gualberto Borges Cabral.

Foi grande dinamizador e organizador da Manifestação, membro activo e responsável pela FLA. Monárquico de direita teve, até que adoeceu gravemente em 1997, um papel insubstituível no Movimento Nacionalista Açoriano ( MNA / FLA ).

Durante a prisão nunca deixou de animar os companheiros de cativeiro e nunca expressou ódio nem contra os que o prenderam. Adversário leal de tudo o que era esquerda, combateu‑a até fisicamente.

Foi preso na sua residência da Rua Coronel Chaves, n.º 23. A sua prisão deixou sua mãe, já viúva, em estado de grande desespero, facto que ele nunca perdoou aos que a promoveram.

15.‑ Gustavo Manuel Soares Palhinha Moura,

Jornalista, director do Açoriano Oriental. A sua prisão deveu‑se exclusivamente ao exercício normal da sua profissão de jornalista que soube medir a Manifestação correctamente.

Extremamente contrariado por ter sido preso, ainda por cima de noite, na sua residência na Estrada Regional da Ribeira Grande, n.º 956, Gustavo Moura pôs sempre o jornalismo acima de todas as outras preocupações.

Não teve qualquer acção na manifestação nem na sua preparação e tentou sempre canalizar os seus efeitos para a sua posição quanto ao futuro dos Açores.

16.‑ João Gago da Câmara.

Entusiástico defensor da independência dos Açores, dinamizou a Manifestação, em que teve papel muito activo. Senhor de grande fortuna pessoal nunca se intimidou com os avanços revolucionários da esquerda que combateu por todos os meios.

Foi preso de madrugada na sua casa da Rua do Castilho, n.º 17.

Depois da prisão esteve nos Estados Unidos onde chegou a trabalhar como simples operário.

Regressando a Ponta Delgada chegou a Presidente da Câmara Municipal, cargo que exerceu quase 10 anos sempre rodeado de muita simpatia popular.

17.‑ João Luis Soares Reis índio.

Grande dinamizador da Manifestação com seu pai e seu irmão, os seus contactos com lavradores e madeireiros foram decisivos para o êxito do movimento. No Palácio da Conceição convidou o Governador a anunciar aos manifestantes que se demitia o que este fez com grande coragem.

Foi preso de madrugada no Pópulo, onde morava e mora na casa de seus pais.

18‑ João Manuel Furtado Rodrigues

Empresário e lavrador, foi grande dinamizador da manifestação que ajudou a organizar.

A ele se ficou a dever o grande entusiasmo e dinamismo do movimento que se prolongou por muitos anos.

Sacrificou-lhe o êxito das suas empresas que entregou no altar da emancipação dos açorianos, o que o forçou a emigrar para o Brasil onde vive.

Foi preso de madrugada na sua casa da Rua do Colégio n.º 73. O seu lugar de reunião e conspiração era no desaparecido café LYS, na Rua Machado dos Santos, que lhe pertencia e cuja clientela ficou famosa por apoiar a FLA..

19.- Engº. Técnico José Joaquim Vaz Monteiro Vasconcelos Franco
1929‑1988


Foi a alma da manifestação com a sua coragem e integridade. De formação conservadora, com grande influência sobre os lavradores que mobilizou e congregou.

Esteve na Origem do M.A.P.A e da FLA.

Foi preso de madrugada na sua casa da Rua dos Mercadores, n.º 90, em Ponta Delgada.

20.‑ José Manuel Duarte Dominques.

Não teve qualquer intervenção aparente na organização da Manifestação. Apanhado pelo 25 de Abril no Ultramar, uma vez chegado a S. Miguel, participou em diversas reuniões clandestinas de cariz independentista, no Cabouco, em casa de Paul de La Bletiére, francês argelino de direita. Foi autor de diversos grafitis independentistas que encheram a ilha de S, Miguel e participou activamente na Manifestação. Representava porém a ala esquerda dos que defenderam a independência dos Açores, foi preso na casa de sua mãe à Rua do Pedro Homem n.º 74 /A.

21.‑ Dr. José Nuno de Almeida e Sousa
1942 – 1980

Jovem e brilhante advogado, já muito doente de cancro na garganta que o haveria de vitimar.

De sóbria formação conservadora e anticomunista, foi jurista do M.A.P.A. o que deve ter sido pretexto ( nunca revelado ) da sua prisão de madrugada, na sua casa à Ladeira de Santa Rita n.º 20, na Fajã de Baixo, feita pela tropa, um oficial e vários soldados armados de metralhadoras, diante da mulher e dos dois filhos então com seis anos, o mais velho e um ano o mais novo. Ainda pediu licença para ir à casa de banho mas essa perigosíssima manobra foi‑lhe proibida pelos valentes militares...

22.‑ Luis Manuel Duarte Domingues,

Como a do seu irmão, a sua prisão, efectuada também na mesma casa da Rua do Pedro Homem, deveu‑se provavelmente ao seu anticomunismo e a ter dirigido a ocupação do Emissor Regional, tendo participado com Luís Franco na redacção do manifesto que fundamentava os objectivos da Manifestação e que teria sido lido por Lourenço de Melo como locutor de serviço daquele Emissor, hoje RDP, embora Jorge do Nascimento Cabral reclame pública e repetidamente, para si essa honra, esclarecendo que, nessa altura " o Luís Cabral, o Eugénio Varela e eu próprio é que aguentamos as espectaculares horas de ocupação do ERA, onde se passaram episódios muito interessantes, como aquele em que o almirante Ricou foi por nós retirado debaixo dos pés dos manifestantes à porta do ERA e seis agentes da polícia marítima rolaram pelas escadas. Foi também um tempo de cobardes e de denunciantes. Que o diga o saudoso Comandante Pavão, por exemplo. Recordo, "à vol d'oiseau", o anúncio da estação que então fiz: "Emissor Regional dos Açores: estimados ouvintes, a partir de agora e até final da nossa programação, vamos transmitir apenas música popular açoriana". Nada de "aqui Portugal" nem de "Emisora Nacional", como era obrigatório na altura. Luís Domingues terá desaconselhado o general Altino a proceder como desastradamente fez.­

23.‑ Luis Maria Duarte Moreira
1920 ‑ 1996

Anticomunista exaltado, foi preso de madrugada na sua casa à Rua dos Manaias, n.º 15, apesar de continental e português de gema, defendeu a independência dos Açores até que teve de emigrar para os Estados Unidos da América onde esteve largos anos. Fazia parte do grupo do Royal.

24.‑ Luis Octávio dos Reis Índio.

Grande dinamizador e organizador da manifestação juntamente com seu pai e irmão. Foi preso na sua casa do Borralho ao Pópulo também de madrugada. Fez parte do grupo que ocupou o Emissor. Foi um dos signatários do citado Manifesto do Emissor. Pertenceu ao grupo do LYS.
25.‑ Luis dos Reis índio
1918‑1994

Grande organizador e dinamizador da manifestação com seus dois filhos aqui referidos, foi dos que entrou no Palácio da Conceição pressionando o Governador a demitir‑se. Participou nas negociações com o General Altino no Quartel General no Castelo de S. Brás. Foi preso na sua casa do Borralho ao Pópulo, por um sargento e soldados armados.

26.‑ Luís Ricardo Vaz Monteiro Vasconcelos Franco.

Com seu irmão foi dos mais activos e empreendedores organizadores e condutores da manifestação. Acérrimo defensor da Independência dos Açores, arriscou tudo pelo seu ideal. Foi co‑autor do Manifesto do Emissor e seu signatário. Esteve no Palácio da Conceição a cuja varanda assumou.

Foi preso na Atalhada onde então morava na Canada das Mercês, pelas quatro horas da madrugada, depois duma força da marinha, fortemente armada lhe cercar a casa e tentar, em vão, matar‑lhe dois barulhentos cães de ... caça!

27.- Manuel Oliveira da Ponte.

Activo organizador da manifestação, foi preso de madrugada na sua casa na Rua Ilha Terceira n.º 8, Bairros Novos, Ponta Delgada. Defensor da independência dos Açores, galvanizou imensos participantes que se incorporaram activamente na Manifestação. Esteve na origem desta. Foi o elemento de ligação entre José de Almeida e Paul de La Bletiére.
28.‑ Manuel da Ponte Tavares Brum.
1924 ‑ 1989

Lavrador, comerciante, madeireiro, foi um activo participante na Manifestação que dinamizou. Foi preso de madrugada na sua casa da Rua Bernardo Manuel da Silveira Estrela n.º. 55, Ribeira Seca da Ribeira Grande, onde morava. Participou do grupo que ocupou o Aeroporto.

29.‑ Eng. Técnico Valdemar de Lima Oliveira.

Preso na sua casa da Estrada Nacional do Pópulo n.º 129, foi organizador activo da Manifestação que dinamizou. Esteve na ocupação do Emissor. Participou nas negociações com o General Altino. Defendeu a independência dos Açores, fazendo parte das cúpulas do M.A.P.A. e da FLA.

30.‑ Tomaz Faria Caetano.

Emigrante de sucesso, regressado definitivamente do Canadá, estabeleceu‑se nas Fumas onde construiu no topo dum monte uma bela casa que chamou Mountain Dream. Foi preso no dia seguinte à madrugada das prisões. Foram buscá‑lo às Fumas onde residia no sopé do referido monte num pequeno chalé. Ficou famoso na cadeia porque, sofrendo de claustrofobia, não deixou que lhe fechassem a porta da cela. E quando o aspirantezeco arvorado em carcereiro quis obrigá‑lo, Tomás Caetano puxou‑o para dentro daquela, fechando a porta que depois disso, ficou aberta. Foi dos primeiros a ser libertado por pressões internacionais porque era cidadão canadiano e obrigou os tropas a levarem‑no para as Fumas onde o tinham ido buscar. Foi na Manifestação todo vestido de branco, inclusive o chapéu e os sapatos.

31.‑ Victor do Carmo Cruz.

Era então o mais alto funcionário de nacionalidade portuguesa do consulado americano e nunca escondeu a sua antipatia pelos comunistas que então tentavam dominar o aparelho de estado, cujas cúpulas ocupavam. Apoiou a Manifestação. A sua prisão na Rua Coronel Chaves n.º 6, de madrugada, por tropa armada foi um acto de cobardia, presenciado por seu pai já então octogenário que lhe aconselhou prudência.

Na cadeia, animou os companheiros com um optimismo servido por um sentido de humor impagável que tanto nos ajudou a enfrentar aquele pesadelo.
Na ilha Terceira foram presos quatro amigos (depois da prisão iníqua passamos a tratar-nos todos por "compadres" por sugestão do dr. Abel Carreiro):
José Manuel Rodrigues dos Santos (o da FIAT),
José Silvério Bispo (comerciante e fotógrafo na Praia da Vitória),
Luís Soares Guiod de Castro (aristocrata e comerciante de Angra do Heroismo) e
Paulo Tadeu Mendes Brum Pacheco, o único que conseguiu convencer os carcereiros a sair num fim de semana para servir de padrinho num casamento! mas este roteiro na ilha Terceira tem outro percurso.

Carlos Melo Bento
6 de junho de 2000

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Família Costa de Vila Franca do Campo

Meu saudoso primo António Augusto Correia de Morais eleborou a árvore genealógica duma das Famílias Costa de Vila Franca do Campo, primeira capital da ilha de S. Miguel, do Arquipélago dos Açores. Ao contrário da generalidade dos genealogistas, começou no mais antigo e investigou de casa em casa e, literalmente, de continente em continente até chegar aos nossos dias e fez este trabalho raro e extraordinário que agora aqui se coloca na esperança de algum dos meus primos o ler e querer completar. Sou trisneto de Joaquim da Costa e tenho pena que o António não tenha vivido o suficiente para publicar o seu trabalho. Pouco tempo antes de morrer mandou-me o exemplar computorizado que abaixo transcrevo em sua memória.
António de Moraes foi o primeiro explicador de inglês escolar que meus irmãos e eu tivemos. Foi compositor, maestro e músico de nomeada no Canadá para onde foi viver. Foi escritor rigoroso de coisas do mar, tendo publicado um notável trabalho intitulado “Carregadores Açoreanos e a sua Frota”, edição do Instituto Açoriano de Cultura, 1999. Conhecedor como poucos das coisas do mar, era hábil construtor de miniaturas de navios que oxalá se não tenham perdido, pois são autênticas obras primas da arte náutica de que foi grande cultor. E, enquanto viveu, dedicou um amor especial à sua “Vila” e aos Costas que tanto contribuíram para o seu progresso. Era seu desejo que todos os primos se conhecessem e convivessem e este seu trabalho é o maior contributo para esse bom objectivo.

Como não pude colocar neste blog esta obra, quem estiver interessado em conhecê-la fará o favor de mo dizer para lha mandar por e-mail.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Arqueologia Ribeiragrandense

Entre os inúmeros papeis manuscritos de Sousa de Oliveira que estou tentando pôr em ordem para estudo e publicação sistemática, encontrei esta curiosa nota: “ Como se malograram as escavações arqueológicas na cidade da Ribeira Grande/Meu Projecto: 1) Largo da Ermida de Santo André;/ 2) Terras do Antigo Mosteiro de Jesus; 3) Imediações/ da Igreja Paroquial da Ribeira Seca”, segue-se a sua rubrica.

Não está datado, mas Ribeira Grande já é tratada como cidade e encontro referências a Outubro de 1988 em notas de materiais encontrados no Mosteiro de Jesus onde acabou por fazer escavações científicas e um pedaço do diário de escavações que ele sempre meticulosamente elaborava cujo resto ainda não encontrei.

Não resisto a transcrever .”19 de Setembro de 1988/Bom tempo. Sol Brilhante. Calor e humidade/Entrega de um comunicado da Associação Arqueológica do Arquipélago dos Açores, mencionando a abertura da “Estação Arqueológica das Terras do Mosteiro de Jesus” na cidade da Ribeira Grande./Com alunos do Curso de Iniciação ao estudo das Novas Técnicas Arqueológicas, saí de/ Ponta Delgada, às 10h00, acompanhado pelo Presidente da Câmara Municipal, numa “station” posta à nossa disposição e conduzida pelo próprio Presidente./Fiz a escolha dos utensílios(Picaretas, pás, cestos, sachos, escada) na Repartição de Obras camarárias e dei instruções aos dois trabalhadores que foram destacados hoje para a limpeza do local onde, a partir de amanhã daremos começo à escavação sistemática da zona por mim assinalada no terreno da propriedade pertencente à Misericórdia da Ribeira Grande, a qual fica situada no actual Campo das freiras./Dei indicações ao Dr.Mário Moura, Director da Casa da Cultura da Ribeira Grande,/fiquei a saber que a área do antigo Mosteiro de Jesus se estendia para além da/ área onde ainda se vê a “Roda” no recinto ocupado recentemente por uma /garagem. Na Casa da Cultura da Ribeira Grande (edifício situado na Rua (em branco) está presentemente a fonte e tanques retirados do quintal de uma/ Casa situada no Campo das Freiras./O Sr.José Teixeira Gaipo disse-me que mais ou menos na parte central/da propriedade havia um muro, junto do qual se detectaram ossadas humanas/Na construção degradada (recinto em frente do portão de entrada) decidi mandar abrir uma vala de sondagem, que implicará a quebra de parte/do ci/mento que reveste o chão deste recinto.”

Por este naco de prosa se pode depreender o método e o rigor que Sousa de Oliveira emprestava aos trabalhos que aparecerão em toda a sua extensão quando conseguir publicar a sua obra completa assim me ajudem os deuses deste mundo e do outro.

Reuni em pasta própria todos os manuscritos que encontrei referentes á Ribeira Grande e é deles que vou retirar, em aguarela, um ou outro apontamento para que o leitor possa visualizar a fascinante técnica de trabalho do Mestre.
“Mosteiro de Jesus de Religiosas de Santa Clara, da Regra, e obediência de São Francisco; fundou-o em suas próprias casas Pedro Rodrigues da Câmara com sua mulher D.Maria de Bettencourt no ano de 1545, e depois o aumentou em muito seu filho Henrique Bettencourt e Sá.”

“Propriedade: Convento de Jesus. 222 ares e 64 centiares (vinte e três alqueires de terra com casas altas e baixas, telhadas na frente e uma torre, com suas pertenças, com água dentro e ares e mais encanamentos que a conduzem, livre, sita no Campo das Freiras, da vila da Ribeira grande. Venda feita com toda a pedra existente no mesmo prédio”

Continuarei.
Ponta Delgada 24 de Outubro de 2002
Carlos Melo Bento

MANUEL JACINTO DA PONTE, pedagogo, republicano e autonomista

Conferência proferida nas I Jornadas de Toponímia
De Ponta Delgada, integrada no Painel III, Autonomia e Autonomistas na Toponímia, em 18 de Janeiro de 2005, no Centro Municipal de Cultura


O cortejo saiu da Rua Ernesto do Canto. O clima era de festa. A Câmara Nova estava então instalada no Palácio Canto, hoje Tribunal de Contas, e tratava-se de prestar homenagem a um dos autonomistas de 1895, há um ano falecido.

À frente, iam os Bombeiros, seguidos pelos meninos das escolas oficiais e particulares. Depois, iam os professores e alunos da Escola de Desenho Industrial; logo depois os professores da Escola Normal Primária e os da Escola Primária Superior. De seguida, os do Liceu e acompanhados da Academia com o seu estandarte. Aparecia então a Imprensa de Ponta Delgada que antecedia Sua Excelência o Senhor Governador do Distrito, Dr. Horácio Franco, o homem de Afonso Costa do Partido Democrático, no poder em Lisboa.

Aparecia então o Comandante militar da Ilha, acompanhado da oficialidade das unidades militares aqui estacionadas. E depois o Senhor Administrador do Concelho que se salientava entre os altos funcionários da Administração Pública. Seguia-se-lhes o Povo que em grande número quis associar-se à homenagem. Na cauda os Senhores Vereadores da senhora Câmara, encerrando o cortejo a Banda União Fraternal tocando o hino escolar.

Dirigiu o cortejo nem mais nem menos que o professor de dança e ginástica rítmica, formado em Paris, senhor Manuel Joaquim de Matos que o manteve ordeiramente organizado através da Rua Ernesto do Canto, Largo de Camões, Rua João Chagas, hoje novamente dos Mercadores, Largo da Matriz, Nascente e Norte subindo a Rua António José de Almeida, Machado dos Santos, chegando a horas ao pequeno Largo norte da Rua da Fonte Velha prestes a mudar de nome. Ali, estava construída uma tribuna de madeira engalanada de flores onde se podia ver uma bem trabalhada pedra de mármore com os dizeres - Rua Manoel Jacinto da Ponte -.

Aguardava o cortejo o senhor Albano da Ponte, filho do homenageado e a restante Família. Acomodada toda a gente, usaram então da palavra o vice presidente da Câmara Municipal em exercício, o Dr. Horácio Pinheiro, seguido pelo Inspector Escolar Senhor Manuel Moniz Morgado e finalmente o Governador Civil que descerrou a placa até aí coberta pela bandeira nacional ao som do Hino Nacional que a União executou na perfeição.

Referiram-se os oradores ao Mestre e ao Amigo na Rua onde este ensinara tantas e tantas gerações de micaelenses. Foi isto num Domingo dia 17 de Dezembro de 1922.

Quem é este Homem a quem Ponta Delgada concedeu a subida honra de atribuir o nome a uma das ruas mais centrais da sua multissecular cidade?

Nascera no século anterior na freguesia da Maia e definia-se a si próprio como “cristão, nessa fé tenho vivido e sob ela morrerei; fervoroso discípulo de Jesus, admirador e amante das dulcíssimas lições do cristianismo, onde reside a felicidade do homem e da Família e o bem estar de todos os povos do mundo”.

Mas, segundo ele próprio, não era um homem público, era um mestre escolar. “Soldado raso tenho sido sou e serei. Não tenho antepassados ilustres nem ilustríssimos. Sou menos ignorante que eles o foram mas tão obscuro como eles.”

Era republicano ainda do tempo do regime monárquico, pois que colaborou no República Federal com João Oliveira Raposo e foi Presidente da Comissão Executiva do Partido Republicano Liberal. E bastantes problemas sofreu por isso; professor do ensino particular, perdeu alunos e amizades por causa das suas ideias.

Não obstante, até o Visconde da Praia o quis contratar com avultada avença que teve de rejeitar para poder manter a liberdade de pensamento. A mesma que o levou a militar activamente no Movimento Autonomista de 93/95, ombreando com Aristides da Mota, Fonte Bela, Pereira Ataíde e Mont’Alverne. Depois da vitória, foi eleito para a primeira Junta Geral Autónoma, como Procurador de Ponta Delgada.

Ele foi a prova viva de que aquele Movimento não constituiu uma manifestação da classe dominante mas a expressão mais profunda do sentimento das pessoas inteligentes e cultas da Nossa Terra que não aceitam tutelas seja de quem for.

Deixou um legado para se fazer um Hospital na Maia e a Comissão encarregada de concretizar esse desejo mandou realizar naquela freguesia solenes exéquias por sua morte.

A Câmara Municipal de Ponta Delgada em 3 de Abril de 1922 deliberou “Deferindo um pedido que lhe fora feito por grande número de Munícipes , resolveu associar-se aquela homenagem dando à Rua da Fonte Velha o nome do prestante cidadão senhor Manuel Jacinto da Ponte, devendo comunicar-se esta sua resolução à sua viúva e filho”.

Essa Rua conhecida popularmente por Rua da Loiça e antes por Rua da Fonte Velha, excepto a parte sul que se chamava Travessa do Tanque, foi escolhida por ali ter tido ele a sua prestigiada Escola mas eu não resisto a lembrar um velho ditado popular desta Terra que se dizia quando aparecia algum emproado forasteiro de pêlo na venta, a querer mandar em nós: ”Este ainda não bebeu água da Fonte Velha...” o que, bem entendido, queria dizer que quando ele a bebia, perdia a proa e entrava nos varais. Alguém saberá onde pára essa Fonte?...
Carlos Melo Bento
2005-01-18

Os Dez Mais de 2007

Dez mais 2007

O jornalista de opinião que se destaca pela coragem, estilo contundente e temas importantes foi Jorge do Nascimento Cabral. Sem esquecer Carlos Tomé nem Daniel de Sá, a escritora, é Paula Lima com a Crónica dos Senhores do Lenho, pela serena beleza que captou da alma e da Terra. Na política, Ricardo Rodrigues cujo profícuo trabalho incessante, e de qualidade, o alçou ao lugar de influente político. Como empresários, é justo escolher, ex aequo, Primitivo Marques e a Casa Bensaúde, pelas iniciativas corajosas e poderosas, admiráveis pela imagem positivamente dinâmica que dão do nosso mercado. Como cientista, voto na doutora Luísa Mota Vieira, cujo trabalho rigoroso e valioso na histologia e na química ocupam um espaço de admiração e respeito, tão raro. Isto sem esquecer o doutor João Paulo Barreiros, no campo da biologia marinha cuja obra inovadora prestigia a ciência. Nas artes, elejo, Luís de Bettencourt, autor, compositor e intérprete cuja obra se impôs, quase sem discussão. No desporto, homenageio Dinarte do Couto, que aos 47 anos, em plena prova de atletismo, terminou a carreira e perdeu a saúde para sempre. O acontecimento do ano é a publicação do Vulcão dos Capelinhos-Memórias 1957-2007, monumento que espanta pela dimensão e qualidade. O autarca foi Rui Melo que colocou a Vila acima da sua carreira. A figura do ano é o general Rui Mendonça que disciplinada e diplomaticamente vem unindo as pessoas à volta de ideais superiores.
Carlos Melo Bento
2007-12-18

Os Dez Mais de 2007

O jornalista de opinião que se destaca pela coragem, estilo contundente e temas importantes foi Jorge do Nascimento Cabral. Sem esquecer Carlos Tomé nem Daniel de Sá, a escritora, é Paula Lima com a Crónica dos Senhores do Lenho, pela serena beleza que captou da alma e da Terra. Na política, Ricardo Rodrigues cujo profícuo trabalho incessante, e de qualidade, o alçou ao lugar de influente político. Como empresários, é justo escolher, ex aequo, Primitivo Marques e a Casa Bensaúde, pelas iniciativas corajosas e poderosas, admiráveis pela imagem positivamente dinâmica que dão do nosso mercado. Como cientista, voto na doutora Luísa Mota Vieira, cujo trabalho rigoroso e valioso na histologia e na química ocupam um espaço de admiração e respeito, tão raro. Isto sem esquecer o doutor João Paulo Barreiros, no campo da biologia marinha cuja obra inovadora prestigia a ciência. Nas artes, elejo, Luís de Bettencourt, autor, compositor e intérprete cuja obra se impôs, quase sem discussão. No desporto, homenageio Dinarte do Couto, que aos 47 anos, em plena prova de atletismo, terminou a carreira e perdeu a saúde para sempre. O acontecimento do ano é a publicação do Vulcão dos Capelinhos-Memórias 1957-2007, monumento que espanta pela dimensão e qualidade. O autarca foi Rui Melo que colocou a Vila acima da sua carreira. A figura do ano é o general Rui Mendonça que disciplinada e diplomaticamente vem unindo as pessoas à volta de ideais superiores.
Carlos Melo Bento
2007-12-18

domingo, 30 de dezembro de 2007

O Maestro Francisco José Dias

Quase um ano antes de assassinarem no Terreiro do Paço, em Lisboa, el-rei D. Carlos e o príncipe real D. Luís Filipe, nasceu Francisco José Dias numa proeminente família da soalheira freguesia dos Mosteiros, a mais ocidental da ilha de S. Miguel, nos Açores, lugar maioritariamente de pescadores e camponeses.

Seu avô materno, Manuel Arruda Simões, era ali professor do ensino básico, regente de filarmónicas
e organista apreciado, enquanto que seu pai, Manuel José Dias regressara do Brasil alguns anos antes, ainda a tempo de assistir à histórica e deslumbrante visita daquele rei e de sua mulher a rainha D. Amélia, às nossas ilhas, e partilhar com os irmãos a vasta propriedade rústica que lhe coube por inteiro em partilhas e lhe transformou a vida para sempre.

Manuel José fora clandestinamente para terras de Santa Cruz com 18 anos de idade e lá esteve dez anos. Regressado aos Açores, nos Mosteiros, enamora-se e casa com a filha do professor Simões, Maria da Conceição, de quem terá quatro filhos: a mais velha, Carolina, casaria com o sargento Luís dos Reis, jovem que, apesar de possuir o curso dos liceus completo, como muitos outros micaelenses, nunca quis sair da sua terra pelo que não chegou a oficial do exército, embora seu filho Diamantino viesse a ser mais tarde, professor dos Pupilos do Exército.

O ambiente familiar em que cresce e vive é de todo ligado à música. O irmão de sua mãe, Manuel Arruda Dias, fundaria nos Estados Unidos a famosa e importante banda de Santo António de Fall River que o nosso maestro vai apoiar em 1975, aquando da sua digressão a esta ilha pelas Festas do Senhor. O tio Manuel tinha 6 filhos, todos músicos, e as filhas cantavam e tocavam viola, sendo que os serões em casa do avô, numa terra sem electricidade e sem rádio, eram o fascínio de todos, marcando-os com o seu irresistível encantamento.

O segundo filho, foi Francisco José de que vamos falar hoje; o terceiro teve o nome do pai e nasceu um ano antes de rebentar a Grande Guerra. O quarto, Basílio, nasceu um ano depois daquela catástrofe e hoje felizmente vivo, guardião e defensor dos tesouros culturais da família, a cuja amizade devo as principais informações que permitiram esta despretensiosa exposição.

A família Dias, viveu nos Mosteiros até 1926, ano em que se instalam todos na Rua do Amorim, em Ponta Delgada e aqui deram conta da Revolução Nacional que em 28 de Maio iria instalar a Ditadura Militar de cujo seio brotou o Estado Novo, em 1933 e que duraria até 25 de Abril de 1974. O Marechal Gomes da Costa que chefiou de Braga o golpe militar, e foi depois exilado para esta ilha onde residiu alguns anos, certamente se cruzou nas ruas da cidade com os Dias, pois aquele herói da Flandres foi estimado entre nós.

Filho de seu pai, Francisco José, à volta dos 18 anos, tentou fugir clandestinamente para o Brasil. Com efeito, nessa altura, ele estudava em Ponta Delgada na Escola Normal Superior, onde forjou a ideia aventureira que já havia inspirado o progenitor. Todavia, Manuel Dias contava com bons amigos que denunciaram o intento do seu rapaz mais velho e veio a mata cavalos buscá-lo à cidade pela orelha, mal sabendo que esse puxão iria mudar para sempre a história da música açoriana.

Naquela Escola, Francisco José foi aluno do jurista Francisco Luís Tavares, o primeiro Governador Civil da República, pelo partido de António José de Almeida e é naquela prestigiada instituição, então de ensino médio, que o nosso biografado vai sentir a irresistível vocação para a música.

Contrariado nos seus intentos e não se sentindo inclinado a seguir a carreira do avô materno, como mestre escola, Francisco, num daqueles arrebatamentos que sempre o caracterizaram, e convencido por seu primo, o Sargento Simão Inácio da Costa,[1] apresenta-se como voluntário no quartel de Infantaria 26, a S. João, onde é hoje o Teatro Micaelense e antes fora, durante séculos, o Convento daquela invocação que os liberais extinguiram no século XIX.

Seu pai, contrariado embora, teve que ceder. Francisco tem nessa altura 19 anos, pois estamos no ano de 1926…o mesmo ano em que saíram dos Mosteiros, instalando-se os Dias na cidade[2]. Francisco José inicia nessa altura a sua carreira musical naquela que era então a mais importante escola musical dos Açores, a Banda Regimental.

Devido às suas habilitações e habilidade, rapidamente chega a Sub Chefe dessa Banda do Exército e a sua carreira como militar músico apresenta-se muito promissora. Na verdade, no fim de 1926, é 2.° Sargento músico de 3.ª classe, nos instrumentos de flauta e flautim, passando em 1928, a 2° sargento de 2.ª classe, e é colocado em Pinhel, onde começa a compor as suas primeiras obras.

De regresso aos Açores, em 1933, é promovido a 1º sargento e colocado em Angra do Heroísmo, onde estuda Harmonia e outras disciplinas com o capitão António Piedade Vaz e o famoso padre Tomás Borba, aqui compondo, em 1935, o seu Andante Religioso que dedicou a António Costa. É na ilha de Jesus Cristo, já casado com Maria Ilídia Fernandes Dias, que lhes nasce o primeiro filho, Francisco José Dias Júnior, que mais tarde emigraria para os Estados Unidos onde deixou geração. O seu segundo filho, Alcides, seria militar como ele e faleceria como coronel já neste século deixando duas filhas e um filho, que não vivem nos Açores.

Em 1935, é promovido a sargento-ajudante subchefe de banda e colocado em Ponta Delgada[3], e em 1936/37 frequenta o curso superior de música em Portalegre. É desta cidade alentejana a composição que intitula Lied e que dedica ao que considera o seu querido mestre, Capitão José Maria Cordeiro.

Eis senão quando, os fados lhe vão ser contrários. É que, as nuvens e os tambores da guerra desciam e rufavam sobre a Europa, e a Espanha debatia-se na mais sangrenta guerra civil da sua História. Em Portugal, alguém (parece que Humberto Delgado) convenceu o governo que “eram precisos mais canhões e menos trombones” e as 32 bandas regimentais do país ficaram reduzidas a 8!

Essa extinção de bandas militares, em 1937, contrariaria o seu objectivo pessoal – a promoção a oficial chefe de banda -, patamar que só consegue alcançar em 1958, o que vai constituir o maior desgosto da sua carreira.

Não ficou porém quieto nem indiferente à sua Terra bem amada [4], e na São Miguel natal, em 1943 compõe Alma Minha Gentil, Que Te Partiste e Pátria Nova, para orfeão, faz parte da comissão para a reabertura da Academia Musical de Ponta Delgada, promove, nas festas do 4º centenário da cidade de Ponta Delgada, em 1946, a reunião de mais de mil músicos no Campo de S. Francisco, que rege na execução do hino do Senhor Santo Cristo, obra imortal desse genial compositor que foi Manuel José Candeias, terceirense que, segundo ensina o Maestro Dias, foi regente das Bandas de Caçadores 11 em 1869, neste cidade e da de Caçadores 10 em Angra do Heroísmo, em 1901. Isto para além do hino do Senhor Espírito Santo, e outras composições. Organiza uma orquestra sinfónica, e em 31 de Março de 1951 dirige o concerto de ópera com que se inaugurou o novo Teatro Micaelense com coro misto e orquestra da Academia Musical e uma grande parada de 26 filarmónicas, com cerca de 1.500 executantes.

Em 1959 é colocado no Funchal onde esteve sem a família, como Chefe da Banda Militar, desempenhando também as funções de professor na Escola do Magistério Primário e Liceu Jaime Moniz. Ensaiou e regeu vários grupos corais, colaborou com o Orfeão Madeirense e foi chefe da Banda-Filarmónica Municipal do Funchal, deixando grandes marchas de homenagem ao grupos por onde passava[5].

Em 1961 regressa de novo a S. Miguel, dando continuidade a concertos culturais e às suas composições, levando-as a todas as ilhas, e ensinando Educação Musical no Liceu Antero de Quental, onde ficaram famosos os coros que reunia e regia.

Em 1967, parte para os Estados Unidos, para junto do filho mais velho e aqui permanece até 1972, exercendo várias funções artísticas: funda a Banda de Nossa Senhora do Rosário em Fox- Point, subúrbios de Providence, é professor, é maestro de diversas filarmónicas e orquestras, que interpretam e executam várias obras da sua autoria. É deste período (1969) que compõe em Providence, Sapateando n.1. e vê uma das suas composições, A Saudade, interpretada em Nova York no Guggenheim Memorial Concerts, sob a direcção de Richard Goldman, corria o ano de 1967, havendo outras bandas daquele país, que incluíram nos seus programas, obras da sua autoria. Depois da Goldman Band, e da Leihigh University Band, de Bethlehem (Pensylvannia) esta sob a regência do Maestro Jonathan Elkus, tem-se visto o compositor açoriano incluído, nalgumas das suas mais notáveis criações, como «números de honra» e em programas especiais. Com os Maestros Albertus Meyers e Keith Wilson, assistiu Francisco José Dias, no Broughel Junior High School Auditorium, em Bethlehem, à apresentação do seu poema sinfónico «Saudade», dirigido por David Hughes. Algumas das suas composições encontram-se registadas pela Library of Congress Copyright Office, dos Estados Unidos da América em cujos meios musicais é muito conhecido.


Aliás, a sua música tem sido executada por outras bandas militares e orquestras portuguesas e estrangeiras, de que se destaca a música gravada em disco, interpretada pela Banda da Força Aérea Portuguesa com marchas militares e poemas sinfónicos da sua autoria.

Do vasto reportório escrito para coro, piano, orquestra de câmara, orquestra sinfónica e bandas, sobrelevam os poemas sinfónicos "Pôr-do-Sol", poema sinfónico para orquestra, "É Crime se Não Voltares", “Momento Trágico" também poemas sinfónicos, “Capricho Sinfónico", e a "Saudade" que compôs para orfeão a 6 vozes.

Como escritor, são dele várias críticas musicais em jornais açorianos e, em livro, uma das suas conferências, "Música - Um Mistério Divino" interessante sinopse da história da música[6] e as famosas "Cantigas do Povo dos Açores", um monumental trabalho de recolha do folclore açoriano, livro póstumo, editado em 1981, pelo Instituto Açoriano de Cultura, em homenagem ao seu destacado sócio, e que constituem um trabalho exaustivo de recolha do folclore açoriano, esforço individual, sem auxílio de ninguém, como também aconteceu no decurso de toda a sua vida profissional e artística, lutando sozinho contra os efeitos da insularidade. Durante mais de 40 anos reuniu 185 canções populares, escritas e comentadas no relacionamento dos povoadores e suas origens com a população actual.

Recentemente, aquele prestigiado Instituto criou um extraordinário CD-ROM com esta obra onde além da leitura do texto se podem ouvir 191 músicas e consultar as partituras musicais e um estudo ilustrado sobre a viola da terra, todo um trabalho de grande qualidade coordenado e dirigido por Paulus Bruno e João Paulo Constâncio com a colaboração da Universidade Federal de Santa Catarina do Brasil coordenada pelo Arquitecto Roberto Tonera, num trabalho que honra o nosso povo e está à altura do devotado açoriano que foi Francisco José Dias.

Sublinho ainda a sua faceta de pedagogo, pois aproveitou sempre as oportunidades que lhe deram para falar em público, para ensinar ou explicar a música ou o mundo harmonioso aspiradp pela arte de Beethoven. Veja-se por exemplo o seu “Incitamento”, palestra dedicada aos atletas da Águia Azul, em que defende a “ordem, paz e progresso[7]. Nas suas ainda infelizmente inéditas mas preciosas, Breves Anotações Sobre Bandas Militares, despretensioso trabalho, diz ele, feito a pedido da Secção Cultural do Comando da Zona Militar dos Açores, colhi este ensinamento em que devemos meditar: deve-se às bandas militares a popularidade que tomou a música em S. Miguel, elas criaram no Povo o apreço da música evoluída, por meio de concertos semanais, regulados pela cuidadosa selecção dos programas... marchando à frente dos soldados, ensinaram as filarmónicas a acompanharem as procissões e outros actos que requeriam animação. Esta importante obra do Maestro Dias, precisa urgentemente de ser publicada, pois contem uma preciosa e insubstituível achega para a história cultural do nosso povo.

Como vimos, depois de completar os seus estudos de Harmonia, Instrumentação, Acústica, História da Música, Contraponto e Fuga, dedicou-se à composição, tendo escrito diversas obras do género ligeiro e sinfónico, para Banda e Orquestra, por tudo isso há hoje quem o considere, a par de Francisco Lacerda e Tomás Borba, um dos grandes compositores de música erudita açoriana.

A sua obra de composição que consta de 42 trabalhos para banda e orquestra, 23 para coro, 38 de música de Câmara e 6 de piano, tem sido executada por bandas militares portuguesas e estrangeiras e incluídas no reportório da Banda da Guarda Nacional Republicana e da Banda da Força Aérea Portuguesa que, sob a regência do Capitão Silvério de Campos, como já disse, gravou em disco marchas militares e poemas sinfónicos da sua autoria que precisam ser trazidos para o mundo digital para que os mais jovens conheçam directamente um dos maiores valores culturais açorianos.

Quase todas as suas composições estão registadas na Sociedade de Autores e Compositores Portugueses, destacando-se os poemas Sinfónicos «Pôr-do-Sol», «É crime se Não Voltares», «Momento Trágico», «Capricho Sinfónico», «Saudade», como números de maior profundidade, a par de composições ligeiras, Lieds ou canções.

Francisco José Dias musicou também numerosos poemas da autoria de poetas açorianos e, inspirando-se em temas populares, compôs algumas das suas apreciadas obras. Contam-se, neste caso, os poemas sinfónicos «Olhos Pretos», «Meu Bem», «Saudade», etc., para piano e para orquestra.

Tirei das suas ideias, três frases com que quero terminar a invocação do grande compositor açoriano que me parecem tão actuais:

“O canto conjunto incendeia as almas”

“A boa música constitui um baluarte defensivo que muito importa para a formação do espírito”.

“A música é um dos meios para a elevação espiritual do homem,


meio seguro para atingir-se o aperfeiçoamento da sociedade. Não pode nunca a música servir a baixa moral destruidora de virtudes, mas sim ajudar a purificar as almas”[8].

A morte surpreendeu-o em Lisboa, no Hospital Militar da Estrela, em 27 de Novembro de 1980, e o seu corpo, por sua vontade expressa, foi trasladado para a ilha de S. Miguel, e sepultado no cemitério da freguesia de Mosteiros[9] de onde contempla (se é verdade que a alma não morre), os mais belos pôr de sóis que Deus proporcionou ao Homem.

Temos ouvido aqui hoje a bela música que a Banda Militar dos Açores executa sob a segura direcção do Maestro e Compositor Lopes Coelho cuja carreira académica e militar honra os pergaminhos do mais prestigiado corpo musical do arquipélago e o solista Marco Torre que desde tenra idade se dedica à arte que encantou Francisco José Dias e cujas capacidade e juventude nos permitem augurar uma sólida contribuição para o progresso da música no nosso País marcada que está já a sua presença entre nós por inegável virtuosismo.

A maior homenagem que se pode prestar a um compositor é ouvir-lhe a obra. Faço votos para que estas minhas fracas palavras tenham o condão de vos fazer saborear com enlevo a obra do mestre.
Carlos Melo Bento
Ponta Delgada, 28 de Abril de 2007

Bibliografia do Maestro Francisco José Dias

-Filarmónicas da Ilha de São Miguel- J. M. Cabral[10]
-Cantigas do Povo dos Açores - Ten F. J. Dias
-Apontamentos sobre Bandas Militares nos Açores - Ten F.J.Dias -História dos Açores (Coletânea de documentos) SREC 1979 -Sr. Basílio José Dias
-Sr. Dr Luís Rodrigues
Tenente Francisco José Dias> compositor> professor> crítico musical> coralista> etc, foi Subchefe em 1935/37, 1939/42> 1950/54> 1957/58 e Chefe em 1958/59 e 1961/67.
[1] Que chegaria a capitão e a comandar a PSP em Macau.
[2] Primeiro na Rua do Amorim, depois no Canto da Fontinha, a seguir na Rua Coronel Miranda e finalmente na Rua de Lisboa e só nesta última se separou da Família paterna. Os verões passava -os nos Mosteiros, ou na casa do sogro, na Banda de Além ou na do pai, à Igreja.
[3] Aqui é-lhe sugerido pelo Comandante Weekes, da Marinha Mercante americana e que o viu reger com mestria, no Campo de S. Francisco, a Banda Militar, a ida para a América, onde lhe augurava futuro e fama, possibilidade que não se concretizou por várias razões.
[4] “Ser útil à minha terra que adoro, é o que pretendo”, in Cantigas do Povo dos Açores, p.14.
[5] Esta ida para o Funchal deveu-se a alguma intriga promovida por alguém que pôs em dúvida as suas capacidades de regente e, quando foi a Lisboa fazer parte dum júri de exames para chefes de banda, foi substituído por colega a quem o General Dário de Oliveira preferiu. Regressado da Madeira foi-lhe restituída a regência.
[6] Esta conferência foi proferida no Liceu Nacional de Ponta Delgada, em 22 de Fevereiro de 1967 e, com algumas alterações de pormenor, no Externato da Ribeira Grande em 27 do mês seguinte; a primeira a convite da Associação Católica dirigida pelo Reverendo Padre José Joaquim Rebelo, professor de Moral e Educação Cívica naquele estabelecimento de ensino, e na Ribeira Grande, a convite do professor de música Luís de Melo, apoiado pelo então já democrata Manuel Barbosa, figura de vulto na então vila-cidade, que ali manteve com alto nível, o único estabelecimento de ensino secundário que dirigia, tornando-se responsável pelas carreiras universitárias da juventude que educou e que muito contribuíram mais tarde para o desenvolvimento cultural dos Açores.
[7] Esta palestra, que não está publicada e o original, infelizmente, está incompleto, traduz o espírito nacionalista, predominante na época (Outubro de 1939).
[8] In, Música um Mistério Divino, 1967, p.30.
[9] V. nota biográfica no verso do disco LP vinil “Pôr do Sol” pela Banda da Força Aérea.
[10] Esta obra foi inspirada a Joaquim Maria Cabral, sogro de seu irmão Basílio, pelo Maestro Francisco José Dias, pois aquele e Carlos Pacheco muito ajudaram a União Fraternal, a filarmónica da antiga Rua da Canada, cuja varanda da sede (oferecida por este último) ainda ostenta as primeiras notas do seu hino.