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terça-feira, 26 de abril de 2011

Na tempestade

Suponho que a nossa maior preocupação será, agora, o que vai ser dos açorianos, face às actuais reviravoltas políticas. Temos um chefe de governo no auge da experiência política e com vasto relacionamento com o poder central e um governo na mesma situação, pelo que não estamos fragilizados quanto às pessoas. Em relação à crise financeira privada e aí não há autonomia que nos valha, esperaremos pela pancada que será, presumo, igual para todos. Sabida como é a dependência do nosso tecido empresarial da banca, é de supor que será esta a ditar o ritmo, e pela montra, há que rezar muito a Santa Europa para que a trate bem e não nos consuma, livrando-nos dos nossos inimigos, entre os quais não tenho a certeza se o FMI se conta. Talvez que sim. Postas as coisas neste pé, estarão bem os que nada devam (ou pouco) e o mal de muitos é por vezes o bem de outros. Em 1977, Mota Amaral tinha um ano de experiência governativa. Safou-se e bem, apesar da tormenta. Em 83, levava 7 anos de governação… O actual governo é apanhado com muito mais experiência governativa e com eleições regionais só para o ano que vem. Veremos como sairá da tempestade e tudo vai depender do tamanho das ondas, da força dos ventos e da robustez da embarcação que construíram. E nós, os mortais eleitores, como deveríamos comportar-nos? Como são eleições nacionais, certamente que o incauto local irá votar a favor deste e contra aquele ou no eleito do seu coração, dependendo de ser ou racionalista ou crente. Àqueles que não têm fixações obtusas caberá o desempate, de acordo com o interesse colectivo açórico e mais nada. Isto se obviamente não for dado por quem de direito o brado de Pátria em perigo, caso em que teremos de ser todos por um e um por todos. Até às eleições, há que estudar e meditar para tomarmos sozinhos a decisão correcta de levar o barco a bom porto.
Carlos Melo Bento
2001

terça-feira, 19 de abril de 2011

Boa sorte!

Quando soube que Augusto B. Cymbron (o da Toca, da ANAREC, da Azória) se candidatava a deputado ao Círculo Fora da Europa, pensei tratar-se duma boa aposta e dum esplêndido deputado. Não conheço ninguém mais sério em política e mais coerente como católico. Nem pessoa mais educada e capaz de ajudar o seu próximo como ele. Conheço-o há muitos e muitos anos, hélas!. Nunca desiludiu. Nunca lhe achei falta de coragem nas atitudes nem nos gestos e sempre o soube na linha da frente dos grandes combates. Colaborou comigo quando dirigi e enquanto existiu o CDS Açoriano. Nunca compreendi onde vai buscar tempo para o tanto que faz. Se bem o conheço, uma vez eleito, não parará, visitando (até a família o intimar), as comunidades do Canadá, da América da Bermuda, do Brasil, da Venezuela e da África do Sul, gerando consensos e amizades e intervindo junto de quem de direito, sempre cumprimentando (como Bernardino Machado mas sem chapéu) e sempre insistindo até conseguir levar a água ao seu moinho. Perguntará o leitor: como é que sendo filiado no Partido Democrático do Atlântico posso apoiá-lo? Apesar do PDA não concorrer por aquele círculo, faço-o sem esforço, porque deve apoiar-se quem melhor desempenhe o cargo em causa. No tempo da censura, aprendíamos a ler nas entrelinhas. Agora que a censura é ilegal mas existe na mesma, continuo a tentá-lo para perceber o que se passa de verdade e não ir no balão dos tolos. Os sábios do regime (e não me refiro necessariamente ao político) podem dizer o que quiserem mas “só irei por onde me levarem os meus passos”. Sei que esta minha opinião não lhe dará nenhum voto mas ainda assim formulo-a porque ao menos satisfaço a minha consciência de açoriano e de cidadão do Mundo. Se ele não ganhar merecerá o louvor do soldado que nunca abandonou o seu posto!
Carlos Melo Bento
2011-04-19




Desesperos
A presente situação política é no mínimo muito complicada e não é fácil para ninguém tomar posição sobre ela. Mas o diabo é que temos obrigação de decidir o que fazer custe o que custar e a quem custar. Bem sei que a disciplina partidária é o dogma principal duma democracia partidária e, quanto a isso, ela tem funcionado com os principais partidos em sintonia com as direcções nacionais e o que se diz em Lisboa ecoa por estes lados com monótona retumbância. E, enquanto da capital vieram boas notícias (ia a escrever orçamentos), a coisa correu menos-mal. Só que, agora, vieram de fora os senhores dos fundos que ainda não aqueceram o lugar e já estão proclamando que está mal isto e aquilo. Emprestaram-nos e deram-nos dinheiro à tripa forra bem sabendo que o PIB era o que era e, agora, aqui d’el rei que nos deram dinheiro a mais. Mas então, quando é que nos mentiram, antes ou agora? Desconheciam que tínhamos medicina e ensino gratuitos, e rendimentos mínimos e apoios judiciários indiscriminados, e submarinos? E que os milhões de automóveis que aterraram num país tão pequeno e tão pobre iam ser pagos com as laranjas algarvias que são melhores que as importadas mas não se vendem porque nos impingem as deles que são intragáveis? E o combustível desses carros ia ser pago com quê? Com os peixes do nosso mar que nos rapinaram depois de nos terem comprado os alvarás dos barcos a irresistível peso de oiro? Com a carne e o leite das vacas que subsidiaram para as matarmos? Os próprios bancos foram estimulados a emprestar dinheiro a quem sabiam que não tinha hipóteses de pagar nem próprio nem juro? Tudo o que se fez com o dinheiro deles foi em proveito deles. Apetece-me dizer: os ricos que paguem a crise. Os ricos, quero dizer, os países ricos, porque a eles e só a eles cabem os erros que querem sejamos nós a pagar.
Carlos Melo Bento
2011-04-12




Que fazer?
Foram infrutíferas as diligências para conseguir dos Estados Unidos a alteração da lei do repatriamento de açorianos emigrados em criança. Isto, apesar dos americanos possuírem em cá uma importante base militar, pela qual nada recebemos aparentemente. Também não resultou a ideia de se constituir um bom advogado nos próprios Estados Unidos que certamente iria conseguir anular alguns repatriamentos, mesmo sem mudança da lei, e sairia mais barato que o actual sistema de apoio social em que estamos. Também nem sequer foi equacionada no princípio desta repatriação (houve outra no tempo de Roosevelt) a hipótese de reencaminhar os repatriados para países de língua inglesa (Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, etc.) com algum apoio financeiro que lhes permitisse reiniciar uma vida diferente entre gente que falasse a única língua que conhecem bem, pois grande parte deles andou na escola americana. Tudo isso seria indiferente se a actual solução de os juntar em casas aos magotes não estivesse a criar mal-estar na vizinhança e situações ainda mais complicadas que envolvem crimes graves. Não tenho obviamente solução mágica mas como está, isto não vai acabar bem. Nem para eles nem para nós. Suponho que falta um pouco de desporto, de religião e de ensino quando não mesmo algum tratamento compulsivo. A própria imagem açoriana não sai beneficiada com indivíduos completamente embriagados, deitados no chão com garrafas na mão meias vazias, urinando ou vomitando em lugares onde os turistas passam e tudo vêm. Quando não mesmo insultando-se, agredindo-se e aos outros a quem mendigam duma forma insistente ou mesmo ameaçadora. Sei que não é o caso mas a imagem que tudo isso transmite é de indiferença dos responsáveis quer policiais quer políticos. Ou até de impotência, o que é mais grave.
Carlos Melo Bento

quarta-feira, 30 de março de 2011

O Maremoto

No Daily Tetegraph, Peter Oborne escreveu:"A chantagem de Portugal pode dar cabo do Euro e a Inglaterra deveria proteger-se". Não consigo perceber os meandros do pensamento da nossa mais velha aliada...nesta conjuntura. Pensava-se que o Primeiro-ministro Sócrates mendigava PECs em Bruxelas. Afinal, para os nossos amigos, trata-se de pura chantagem. Confesso perplexidade. O articulista porém não se fica por aí. Cita Hague (lembram-se?): Comparou a adopção do Euro, a estar-se encravado num edifício sem saídas, e a arder. E termina com isto: Estamos a entrar em tempos aterradores e não há necessidade de tomarmos (nós ingleses) riscos desnecessários. O artigo é grande e diz outras coisas também reveladoras. Eles (os ingleses) pintaram a manta, não entrando para o euro, mantendo as suas colónias (domínios) contra o espírito da Europa mas obrigando-nos a largar as nossas; deixaram os irlandeses e os gregos aldrabarem as contas e depositarem o dinheiro dessas aldrabices nos “Off-Shores” ingleses ou seus parentes. E, agora, a culpa é nossa que os chantageámos. O ilustre articulista chega ao desplante de afirmar que Sarkozy e Merkel estão sonhando (sic!) porque estão a lutar contra forças que não podem controlar. É verdade que estão lutando, apoiando-se e sendo apoiados pelos restantes países que adoptaram o Euro. Mas se há luta de forças não controladas pelas maiores potências económicas (e não só) da Europa Continental, quem é que está por detrás dessas forças incontroláveis? Os mesmos que levaram à união anti natura de toda a Oposição portuguesa (tu quoque filii meus comunistae!) para deitar abaixo um Governo que tentava aflitivamente escapar da bancarrota com o apoio daqueles grandes? Se não é, parece. Açorianos, agarremo-nos firmemente ao barco, resguardemos o piloto, que o maremoto vem aí e não é pequeno. Carlos Melo Bento 2011-03-29

segunda-feira, 14 de março de 2011

À Rasca?

Antes, ninguém tinha carro e as estradas raras; hoje, há muitos milhares, quase tantos como as famílias e tantas estradas que é mistério. Antes, quando o médico alemão saía em viagem de “estudo” (os médicos não tinham direito a férias), logo as almas caridosas rezavam, não fosse ficar por lá ou demorar muito e que o Senhor Santo Cristo nos livrasse de ser precisa alguma operação de emergência, tão poucos os operadores dum hospital com enfermarias medievais e quartos de pensão antiga. Todos juntavam dinheiro para doença, remédios e doutor. Hoje, briga-se no vasto, moderno e bem equipado hospital porque: “aquela passou à minha frente e não há direito!”, e a gaveta dos remédios está tão cheia que é pena ter que os pôr pró lixo. Antes, a cidade tinha 1 juiz e 1500 processos, um tribunal de trabalho com escassa meia dúzia de pendências e contavam-se pelos dedos da mão direita os do apoio judiciário. Hoje, há 5 juízes, 2 presidentes, 1 tribunal administrativo, um de contas, o de trabalho e mais de 20.000 processos (e estão sempre a entrar mais!). O Ministério Público tinha 1 magistrado, hoje anda pela dezena e os processos são 20 vezes mais. Consultas de graça aos milhares e processos apoiados outros tantos. Antes, havia meia dúzia de escolas, e uma e meia do secundário, e professores efectivos não chegavam a uma dúzia no Liceu e na Escola Industrial. Hoje, há tantas escolas (algumas com piscina aquecida) e Universidade e até já se fecham algumas por desnecessárias e os quadros têm professores com habilitação própria e dezenas de milhar de alunos com transportes subsidiados. Antes, havia raros telefones e ai de quem fizesse uma chamada para Lisboa que havia molho. Hoje, até as crianças têm 2 telefones cada, os pobres rendimento de reinserção, subsídio de desemprego prolongado e trocos para a droga que o que é preciso é viver agora. À rasca? Con certezamente.
Carlos Melo Bento
2011-03-14
Absurdos
Um preso, condenado a vários anos por crimes de natureza não divulgada, recusa-se a limpar a cela que, conspurcada com dejectos de toda a espécie, causa nojo aos companheiros de desdita, que reagem com greves de fome e quejandos. O director ouviu a psiquiatria que informou tratar-se de pessoa psiquicamente normal. Face a este parecer técnico, a autoridade prisional usou o regulamento e mandou empregar a força. Por causa das coisas, mandou filmar a operação, não fossem acusá-lo de ter violado a lei. Tudo certo e tudo errado. Para já, como pode ser normal um indivíduo que reage daquela maneira à prisão? Que tipo de psiquiatria temos que, perante uma anomalia gravíssima do comportamento humano, se atreve a considerar normal o que a comete? Que raio de medo o da autoridade prisional, que tem à sua guarda centenas de outros reclusos com comportamento normal, e não se insurge indignadamente contra um parecer pericial manifestamente incompetente e absurdo? Depois, porque usar a força bruta dos choques eléctricos contra um indivíduo que não se pode defender, quando uma boa mangueirada resolvia boa parte do problema? Que raio de medo legalista invadiu o país que um indivíduo fica morto em casa meses a fio porque quem deveria ter autoridade e coragem não tem um pingo de bravura para rebentar a porta e tentar ajudar um ser humano que pode estar em perigo e pode ser salvo? Nem os parentes? Custa a crer que foi este povo que se bateu em Aljubarrota e descobriu a Índia, depois de séculos de cobardia do resto da humanidade. Agora, um pobre miúdo que estuda numa secundária desta cidade, chora de pavor com medo de ir à escola para não ser espancado pelos que deviam ser seus amigos, tornando a escola no melhor tempo da sua vida? Um inquérito? Psicólogos? Reuniões? Isto precisa é de acção e daquilo que distingue os homens, dos do sexo oposto.
Carlos Melo Bento
2011-03-07

terça-feira, 1 de março de 2011

Alma mater

A nossa mais importante instituição é, sem dúvida, a Universidade, privilégio que, gerado no antigo regime, o actual concretizou em toda a plenitude. Com defeitos e virtudes como tudo o que é humano, ela transformou o nosso viver, melhorando-o de sobremaneira, forjando cérebros para a administração pública e privada, rasgando horizontes, abrindo a porta aos que, por razões económicas ou sociais, não podiam ir estudar para fora, emagrecendo o corpo dos que, com capacidade intelectual para se formarem, jaziam revoltados e frustrados na ilha ou na diáspora e para esta foram empurrados por incontáveis necessidades. Tudo mudou em virtude dessa Alma Mater da açorianidade coeva, fortalecendo e robustecendo o pensamento colectivo deste querido Povo. Penso que nem os seus fundadores primeiros, com José Enes por guia, assessorado por Ricardo Ferreira, Carlos Medeiros e tantos outros devotados sacerdotes de Minerva (passe o romantismo) que contra ventos e marés levaram a bom porto a barca do nosso saber, imaginaram o imenso impacto positivo que provoca. Magníficos Reitores temos tido e a eles se vai ficando a dever um labor titânico de robustecer o prestígio sempre crescente dessa casa: além de Enes, Machado Pires, Vasco Garcia e Avelino Menezes. Como termina agora o mandato deste, seria salutar que a escolha do próximo Reitor fosse criteriosa, cautelosa e muito inteligente. Não pode depender apenas de critérios políticos ou de equilíbrios pessoais ou de grupos. Até agora, houve um certo unanimismo na escolha e, embora tudo permita debate, se calhar, vai continuar como até aqui, e não há mal nisso. Oxalá, porém, que se decidam por alguém que, para além de possuir, obviamente, os predicados académicos e intelectuais e culturais que se exigem para tão alto cargo, seja irremediavelmente nosso e sem alternativa de poder ser outra coisa.
Carlos Melo Bento
2011-02-22
Abismo
Um engenheiro agrónomo de meia-idade, com a jovem neta ao colo, mata a sangue frio e a tiro de pistola, o pai da menina, advogado, seu genro. A mãe da criança é uma Juíza. Trata-se dum crime passional, entre gente da alta sociedade cultural do País, pelo que, como pode ver-se, as paixões, o amor e o ódio, não escolhem nem classes, nem idades. Tudo começa quando se elevou o divórcio ao altar das soluções corriqueiras para os grandes problemas humanos. A vida passou a ser um incidente de nenhuma importância perante os interesses materiais imediatos. Os vínculos naturais passaram a ser tratados pela lei como acidentes de percurso. A filiação natural pode ser substituída pela adopção, a gravidez inoportuna pode ser resolvida com o aborto, as questões conjugais podem ser suprimidas pelo divórcio que passou a ser mais fácil que o próprio casamento. Esqueceram-se estes crânios que a natureza das coisas não pode ser alterada por decreto e o instinto é algo de insondável que não sei se a própria natureza pode alterar, muito menos o homem. Como advogado, tenho chamado insistentemente a atenção para os dramas que esta bandalheira moral está a causar numa sociedade em que só a Igreja (honra lhe seja) tem defendido, durante séculos e sem tergiversar, a lei natural e a vida. Fora da vida e da sua transmissão nada mais é tão sagrado. Entre o estado social e a vida, esta é a escolha necessária e única. O namoro (que prepara a dita transmissão da vida) é das actividades humanas da maior importância e é normalmente enfrentado com frivolidade e tratado levianamente como brincadeira, por uma geração que julga que sabe tudo! Os nossos legisladores têm de parar para pensar já que os eleitores não param nem pensam. Por este caminho, isto não vai acabar bem. Vai morrer mais gente sem querer e vai nascer menos por banalizarmos o viver.
Carlos Melo Bento
2011-03-01

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Borges Coutinho

Não é fácil julgar um político com a dimensão de Borges Coutinho. Dediquei-lhe um capítulo na minha História dos Açores porque no Estado Novo, ele personificou quase sozinho, a luta pela democracia, arriscando o que tinha e a própria liberdade pelo ideal de luta pelos mais desfavorecidas, não obstante pertencer ele próprio à classe dominante, há séculos. Revendo o passado, descobri atitudes corajosas e sempre direccionadas à realização desse ideal. Antes de 1974, para os que, como eu, não eram oposicionistas, quem não estava com o governo era comunista e foi com essa imagem que, depois da restauração da democracia, ele surge no mais importante cargo político: o de Governador do Distrito Autónomo de Ponta Delgada. Branco Camacho, Secretário-geral do Governo Civil, aquando da posse de Borges Coutinho, afirmou a alguém que indagara quem assistira à cerimónia, que tinham lá estado todos os que antes frequentavam essas posses mais todos os que ali nunca punham os pés. E esse facto traduz o que se passava: estavam todos com o Dr. Borges Coutinho, que era assim a esperança duma passagem pacífica para o novo regime. Infelizmente, como lhe disse então Gomes de Menezes, ele esquecia-se que já não precisava de conspirar pois estava no poder. Desviado da governação há tempo demais, o líder da Oposição Democrática acabou por virar contra si toda a direita, o centro e os que dependiam dum bom poder para que as empresas funcionassem normalmente. Todos viram nele não a solução mas o problema. No Seis de Junho de 1974, que uma democracia verdadeira tinha de respeitar, o ambicioso comandante militar, sacrificou-o para subir ao trono, confundindo os espíritos com uma contra informação e violência que chamou violência. Só depois se poderá fazer justiça a esse homem corajoso e idealista cujas cinzas ontem foram colocadas no jazigo duma das nossas mais ilustres famílias.
Carlos Melo Bento
2011-02-15

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Camões falido

Causou estranheza o anúncio não desmentido ainda, do colapso científico e técnico (se é que é legítimo separar estas duas vertentes) e financeiro do projecto geotérmico da Terceira. A energia geotérmica é um privilégio de terras como a nossa, contrabalançado pelas catástrofes que o vulcanismo segrega. O projecto micaelense passou por diversas fases, algumas delas impostas pela natureza experimental da indústria que então dava os primeiros passos mesmo a nível mundial, a despeito de já ter anos de experiências nem sempre felizes. Tivemos então ocasião de ganhar conhecimentos preciosos que permitiram, depois dos balanços do costume, obter um sucesso muito apreciável que até trouxe a esta ilha ilustres visitantes, nomes sonantes das ciências geológicas de renome mundial e não só. Tudo aconteceu, até um miserável processo crime, que não obstante o desgaste psicológico e físico que provocou nos injustamente visados pela inveja e pela ganância (de quem conseguiu safar-se impune!), a verdade é que conhecimentos sem preço vieram à tona, para satisfação dos incrédulos e pesar dos cínicos. Depois, foi um rosário de tolices duns tontos que iam dando com aquilo tudo em pantanas, não fosse a lucidez de outros (poucos) de engolirem o orgulho e a vaidade e irem buscar a única pessoa com saber para salvar o projecto e os milhões enterrados. Uma vez salvos, porém (e o escorpião nunca deixa de o ser), arejaram-no e o resultado está à vista. É preciso nos convencermos que o segredo é a alma do negócio e que as pessoas superiormente inteligentes nunca ensinam tudo o que sabem, até porque há coisas que não se ensinam. Ou se nasce sabendo ou morre-se sem elas. Isto em qualquer campo: ciência, política, etc. os povos discretos, aproveitam os seus génios enquanto vivos. Camões morreu pedindo esmola como um sem abrigo, em Lisboa, capital do comércio…
Carlos Melo Bento
2011-02-08

domingo, 6 de fevereiro de 2011

36.122 contentes!

Estamos, portanto, na mesma situação que estávamos antes das eleições, só que agora o Presidente pode falar em nosso nome com toda a legitimidade democrática. É indiferente que tenham votado nele apenas 16% do eleitorado açoriano. Dos que votaram validamente, 52,88% apoiaram a reeleição de quem nos tratou como nenhum açoriano tem o direito de ignorar. Ficaram em casa 139.066 eleitores! Votaram em branco 3.711 votantes! Outros anularam 791 votos. A verdade é que toda essa gente (143.568 inscritos ou sejam, 64,8% dos eleitores açorianos) nada vale perante os 36.122 votantes do Presidente! Quem não vota, quem vota branco quem vota nulo, pura e simplesmente não conta. Quem manda neles, politicamente, entenda-se, é a maioria da minoria que fez a coisa como deve ser. Quem sabe consola-se. Podem os analistas esfalfarem-se a explicar que os votos nulos e inválidos e a abstenção são um protesto surdo de todos esses açorianos. Surdo pode ser, agora que provocam sonoras gargalhadas num sítio que eu cá sei, isso provocam. Resultado, ficamos na mesma. Por cá César, por lá Cavaco. Alguns mais expeditos tentaram colar César a esta derrota para fins regionais mas isso era o mesmo que dizer que a culpa do Porto estar à frente do campeonato é das derrotas do Santa Clara. São campeonatos diferentes, jogos diferentes e campos diferentes. O Santa Clara é simpatizante e apoiante do Benfica mas isso será um tanto indiferente para o que se passa nos relvados continentais da primeira liga. Mesmo que o Santa Clara ganhasse (como lhe competia) todos os jogos da sua, isso em nada melhoraria a posição do seu apoiado. A César deve Alegre 2.773 votos a mais do que teve em 2006. Talvez seja pouco mas será um sinal de que ele, mesmo com um candidato não ideal, ainda tem influência positiva no eleitorado açórico.
Carlos Melo Bento
2011-01-25

Os utópicos

Monsenhor Weber Machado é um matemático e sacerdote católico, e, se não me engano, homem de esquerda moderada. No tempo do Estado Novo quando a Igreja tradicional era um dos esteios do conservadorismo dominante, alinhou com aqueles que saudavelmente se preocupavam com os desfavorecidos, e lutou pela mudança que sempre desejou com as reticências próprias de quem defende os valores cristãos mesmo na mudança. Agora, a propósito das compensações que a Administração César deu à classe média açoriana, veio de novo à ribalta para discordar, chamando à colação os que ganham menos que os compensados, naturalmente dando um paternal puxão de orelhas ao governo gerado pelas antigas lutas em que militou, julgo que no grupo do saudoso Júlio Quintino, Melo Antunes etc. Como penso à direita, não consigo chegar às mesmas conclusões. Obviamente que a defesa dos mais desprotegidos não está em causa. Esse é um imperativo dos nossos tempos, conquista da civilização de que só por absurdo se pode discordar. Mas a questão é outra: como se consegue ajudar os desprotegidos? Dividindo a riqueza existente por eles ou produzindo mais riqueza para poder ser distribuída por eles? Thatcher disse que socialismo é dividir por todos a riqueza dos outros enquanto ela dura. E depois? César percebeu que a utopia socialista só perdurará se for auto sustentável. Daí que tenha ido buscar à direita a fórmula de apoiar a classe média, a única que pode gerar riqueza e sem a qual o socialismo se torna na miséria em que os falecidos soviéticos a tornaram. Franco percebeu-o (Salazar não, daí o que somos hoje, órfãos políticos duma direita sem objectivos para além do poder pessoal). Mas, infelizmente, nenhum percebeu a lição da História. Em Viseu, retiraram da parede da escola a frase de Salazar: “A escola é a sagrada oficina das almas”. Bem bom que não foi ele a descobrir a lei da relatividade!
Carlos Melo Bento
2011-02-01

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Haja dignidade

Normalmente não exige muita atenção a intrigalhada política continental porque ela nos desvia a atenção dos nossos problemas que, esses sim, precisam que cuidemos deles. Mas, às vezes, não é possível evitá-lo, uma vez que os açorianos não quiseram ser independentes pelo que, agora, há que gerir as dependências o melhor possível, e enquanto for possível. A mais importante delas é a chefia do Estado para cuja eleição nós contámos qualquer coisa como dois por cento se votássemos todos…mas, vota apenas metade. Mesmo assim, os de lá não desprezam essa migalhinha. A partir daqui, vejamos o que está em jogo: o candidato que nos humilhou publicamente cá dentro e lá fora diz que o País não pode aguentar uma crise política em cima duma crise económico financeira. Mas, a verdade é que só se ele vencesse é que a crise política seria inevitável, pois ninguém acredita que Alegre, se ganhar, vá demitir o seu próprio partido do poder. O candidato em causa que não respeitou o nosso Estatuto, votado por unanimidade por todos os representantes do Povo Açoriano, diz que o País não aguenta uma segunda volta eleitoral, mas o que ele quer dizer (e não diz) é que se não ganhar à primeira, já não ganha à segunda contra a esquerda unida. Finalmente, ele acusa os outros da ineficácia financeira do Estado mas esquece-se, apesar de não precisar de reincarnar 2 vezes para ser um pessoa séria, que se estamos na UE há 25 anos, ele ocupou os mais importantes e responsabilizantes cargos do Estado durante 15! Nunca poderá ser absolvido da situação actual, com a agravante de ter herdado parte substancial da pesada herança em ouro que o outro deixou. Agora, ameaça com mais 5 anos de permanência à frente do Estado! Se calhar a culpa da actual crise, na sua cabeça, foi nossa. Por isso, se os açorianos votarem nele, além de cometerem um erro político óbvio, praticam uma indignidade que os nossos antepassados nunca cometeram.
Carlos Melo Bento
18.1.2011

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Ouviram?

Por incrível que pareça a alguns distraídos, a eleição do Chefe de Estado é mais importante do que a eleição do melhor treinador do mundo. Infelizmente, açorianos há que sabem tudo de futebol e nada sobre política. A nossa vida (incluindo o futebol) depende da forma como formos governados. Certo que o presidente da República não governa, mas é tanta a importância do cargo (antes exercido, e por graça de Deus, só por reis e filhos) que um capricho dele muda tudo. Daí que não pode ser indiferente aos açorianos a pessoa que vai exercer o cargo. Corre-nos nas veias o mesmo sangue, descobrimos e povoámos isto e sempre quisemos pertencer ao conjunto colossal que ajudámos a criar, participando na expansão e na construção do Império. Quando este regrediu, parou à nossa porta. Como já não éramos exactamente iguais, conseguimos autonomia. Esta, até ver, vem servindo para aprendermos a governarmo-nos, mesmo contra vontade de alguns que, no seu interesse, não querem que deixemos de contribuir com o que isto rende para o regabofe nacional. Ora, um dos actuais candidatos, não fez cerimónia em humilhar-nos publicamente como Povo cujos representantes votaram por unanimidade certo Estatuto. Mandou parar o País e toca a desancar-nos. No estrangeiro, contra a palavra solene que dera, criticou-nos como se fossemos lixo. Nem respeitou o voto democrático (ah! se isto fosse uma ilha inglesa!), borrifou-se para a vergonha em que nos colocava perante o País e o Mundo, e, olhando apenas para o umbigo, mandou-nos arrumar tudo na mala e calar. Podia ter chamado os responsáveis, pedido que reconsiderássemos, que havia soluções de compromisso, que evitássemos humilhações, como faria alguém de bom senso e bom feitio. Não senhor. Tirem já isso dali e acabou-se! que quem manda sou eu. E quando houver eleições, votem em mim, ouviram?
Carlos Melo Bento
2011-01-11

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Seguidismo e dignidade

Não haverá centralismo se não houver seguidismo. E a contrária também é verdadeira: só haverá centralismo se houver seguidistas. Seguidismo pode definir-se como a atitude mental que se traduz na obediência cega e acrítica às ordens “superiores” e dos “superiores”. É óptimo e assume importância fundamental na disciplina militar, principalmente em tempo de guerra. Em política, a questão é mais complicada porque a política é uma arte difícil. É aparência, é habilidade, é coragem, é resultado. É conseguir paz e harmonia social. É lutar contra o desemprego, contra a fome, contra a insegurança. É obter progresso na educação e na cultura. É formar homens e mulheres dignas desse nome, capazes de defender os valores supremos da sociedade humana: a vida e a natureza que a sustenta e permite. É criar justiça nas relações sociais, económicas, familiares e penais. Homens e Mulheres, entenda-se, não escravos humildes e submissos. O medo de ser livre faz o orgulho de ser escravo. Os açorianos são seres livres, que saíram do reino de Portugal há 500 anos, por aventura ou enfartamento, enfrentaram o Mar tenebroso, descobriram, povoaram e defenderam, praticamente sozinhos, estes penedos alagados e instáveis neste fim do Mundo. Não precisam de ninguém que os ensine a sobreviver aqui nem que lhes dê ordens do alto dos tronos a que se alcandoraram. Precisam apenas que não lhes tirem nada e, se possível, que lhes devolvam o que lhes roubaram todos esses anos. A nós não nos deram pedaços dum País. Nós é que para aqui viemos descobri-lo e construí-lo. A massa de que somos feitos, a cultura que trouxemos, a vontade que nos sustenta são idênticos às da nossa origem? Sim mas tão autónoma como a matriz de que saímos por vontade própria. Quem nos não trata com dignidade e respeito não deve merecer o nosso apoio. Senão, todo o nosso sofrimento foi em vão.
Carlos Melo Bento
2011-01-04