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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Discurso proferido na Povoação, aquando da concessão da cidadania honorária a Octávio Medeiros e Carlos César



Senhor Presidente


Senhor Representante da República

Senhor Presidente da Câmara da Povoação

Minhas senhoras e meus senhores



A concessão da cidadania honorária é uma homenagem dum concelho grato por alguém lhe ter proporcionado bem estar ou ter dado um exemplo que se quer sublinhar, como espelho para os seus próprios cidadãos ou para que os dos outros concelhos lhe sigam o exemplo, buscando uma consagração e reconhecimento gerais.

Pode ser o pagamento dum favor político, o que é o menos, ou pessoal, será isso pior, pois cairemos no aviltamento das instituições, e no mau uso de poderes que são concedidos para serem exercidos de forma isenta e altruísta e não para satisfazer apetites sectoriais ou interesses egoístas.

Proponho-vos um exercício de análise, face às duas personalidades que hoje aqui vão ser homenageadas.

Fácil é o caso do Professor Doutor Octávio Henrique Ribeiro de Medeiros, pedagogo e sacerdote católico, hierarca da sua Igreja. Onde a questão se torna mais complexa é quando se homenageia o homem mais poderoso desta Terra porque, duma simples homenagem se pode cair numa imagem, ainda que aparente, de lisonja e subserviência.

E, se assim fosse, a homenagem perderia a sua valia, tornando-se em vitupério que de todo ninguém quereria.

É melhor e, como digo, mais fácil então começarmos por Octávio Medeiros. Duma Família respeitável e respeitada, nasceu o nosso homem numa das Lombas, a do Botão. Estudou nos Seminários dos Açores, ordenou-se em Angola, formou-se em Lisboa na Universidade Católica, e, doutorou-se em Roma na prestigiada Pontifícia Universidade Gregoriana; lecionou até a lei deixar, na Universidade dos Açores. Paroquiou na sua Lomba, nesta Vila e em Água Retorta e aqui promoveu a publicação dos extractos dos Livros Paroquiais, que Vítor Meireles pacientemente copilou e que destaco da imensa produção literária e científica tão imensa e tão importante que parece incrível ter sido conseguida por um homem só. Foi Ouvidor Eclesiástico, foi Vigário Episcopal na maior ilha açoriana e Diretor do Instituto de Cultura Católica.

Certamente que o concelho da Povoação não seria o mesmo se ele não tivesse existido.

A palavra e o exemplo conjugam-se nele de forma harmoniosa. Prega o Evangelho e cumpre a lei do amor cristão em toda a dimensão. É um homem bom, exemplo de conduta ética que a Edilidade do nosso berço insular faz bem em apontar aos mais novos. Passada esta geração, os que então pensarem nas coisas sérias da vida hão-de querer saber porque razão ou razões a Câmara de Carlos Ávila quis dar-lhe tão alto galardão e, ou essas razões são válidas e perenes, ou deitar-lhe-ão os cães do esquecimento, que é a pena maior que uma geração futura pode aplicar à do passado.

O Padre Octávio não foi egoísta com o seu saber e transmitiu-o aos outros como sério e hábil pedagogo, inoculando no espírito dos seus alunos e discípulos, o produto do seu imenso labor intelectual e científico. Pregou e praticou a caridade calcorreando montes e vales distribuindo zelosamente os sacramentos por pobres e ricos sem distinção de idades ou de feitios. Na pia baptismal, no altar dos esponsais ou no leito de morte dos seus paroquianos esteve e está sempre que esse dever sublime do sacerdócio o chama. Sem cansaço, sem hesitação e sem vacilar. Que vocação é essa, Santo Deus, que inspiras nos Teus sacerdotes que até parece natural que se sacrifiquem aos teus mandamentos como se fosse normal alguém entregar toda a sua vida ao próximo e nada esperar em troca, a não ser a suprema alegria de agradar-Te. Tirem-lhe as vestes sacerdotais e vejam nele apenas o homem e digam-me se esta Câmara não se honra mais em tê-lo como cidadão honorário do que ele em receber tal galardão?

Peço-te licença, Padre Octávio, para que me deixes aproveitar esta cerimónia solene, para aqui lembrar esse meu e teu amigo, que Deus já lá tem, Joaquim de Aguiar Cabral. Que orgulho incontido não teria ele de ver o primo tão amigo receber, da sua própria Câmara, um tão alto galardão. Para ele, a Família era o mais que tudo, e foi esse ideal, por certo, o que tanto nos uniu, na curta passagem por este mundo. Desculpa molhar com esta lágrima de saudade um dia destinado a alegrias mas antes está a obrigação que a devoção.

2.- Vejamos agora Carlos Manuel do Vale César que do alto dos meus setenta anos recordo, quando ele e seu irmão assistiam, ainda crianças, à Missa do meio-dia, da Matriz de Ponta Delgada, junto ao altar então dedicado à Senhora da Conceição, acompanhados de seus saudosos pais, todos nós rigorosamente aperaltados com os então obrigatórios fatos de ver a Deus.

Segui como então era possível e habitual numa terra onde todos se conheciam, o seu crescimento, o seu ingresso no secundário do velho Liceu, a ida para a Faculdade, sempre me convencendo que seria na barra dos tribunais que nos haveríamos de defrontar. Veio então a deriva política, a “má” influência de Jaime Gama, Medeiros Ferreira e de Mário Soares, a queda do regime que eu ingenuamente acreditava poder evoluir através da primavera marcelista para uma democracia moderada e redentora. Veio a revolução, o Seis de Junho, a autonomia constitucional, os ministros da República, a proibição dos partidos regionais, o regime híbrido de Mota Amaral que apesar da conquista por ele encetada da unidade política do Arquipélago e da gigantesca obra cultural e material que deixou, no seu longo mandato político, ficou ainda longe das grandes metas que temos de alcançar para sermos merecedores da felicidade de vivermos sobre nós próprios.

Não era fácil desafiar Mota Amaral, esse potentado político, apesar do desgaste impiedoso de tantos anos de governação e menos fácil ainda suceder-lhe na mais alta magistratura política dos Açores.

Perante a expetativa geral, Carlos César iniciou o seu primeiro mandato com uma inovação: quase todos os governantes que escolheu dispunham de graus académicos superiores aos seus. Este facto hoje aparentemente despiciendo, não o era então, pois os governos anteriores tinham sido recrutados entre titulares que, ou os não possuíam, ou os tinham abaixo do grau universitário, circunstância que garantia ao presidente de então uma supremacia psicológica, facilitadora da ação política hierarquizada tal como nesse tempo se concebia.

Nesse aspeto, o nosso homenageado começou uma nova era, acabando com amadorismos facilitadores e iniciando um trabalho em que a ciência e a técnica sobrelevariam pela primeira vez aos critérios políticos que, não obstante, não tinham sido obstáculo às irrecusáveis conquistas amaralistas: a unidade açórica e o progresso material acelerado.

Mas César tinha outras tarefas, também difíceis, a enfrentar. É que, durante quase 20 anos, os socialistas viveram num limbo político que atravessou governos centrais de diversas cores, inclusive as deles, sem que isso os beneficiasse localmente, antes foram mantidos numa longa oposição que fazia perigar duas coisas, a democracia e o próprio socialismo.

Duma agressividade inconsequente que em vez de se concentrar na construção dum estado social açoriano necessário ou possível, focava-se na luta contra todos os que se situavam à direita do seu espetro político, com especial destaque para os que defendiam um autonomia progressiva ilimitada ou até mesmo a independência do nosso Povo.

Com essa política, o Partido Socialista afastou da sua possível base de apoio, não só os seus próprios mas desiludidos adversários mas também os socialistas moderados quer do socialismo utópico e romântico de Antero quer o de carácter científico, bem como aqueles que dinamicamente pretendiam uma evolução emancipalista baseada na vontade popular, democraticamente manifestada.

Aqueles que, como eu, pretendíamos uma emancipação significativa do Arquipélago das peias centralistas, locais ou forasteiras, víamos até então nos socialistas um inimigo a abater e nisso fomos acompanhados por aqueles que ansiavam por um estado social mais justo e que, ao mesmo tempo, comungavam dos ideais socialistas mas não se reviam no PS anterior.

Foi, por isso, com grande expetativa e apreensão que assistimos à subida ao poder do novo líder.

Víamos então duas coisas boas: por um lado, o fim dum tipo de governação que se degradava arrastando consigo todas as conquistas conseguidas; por outro lado, o sempre aguardado e desejado funcionamento da alternância democrática que iria permitir aos nossos inimigos arrearem a bandeira de que os radicais açorianos não eram democratas nem acreditavam na própria democracia como regime político.

Foi então consensualizado um total respeito pelos resultados eleitorais e pelas autoridades saídas do sufrágio que foram sempre e desde logo tratados com o respeito devido à soberania, em todos os lugares quer em público quer em privado em que apareciam.

O resultado foi melhor que o desejado. Manteve-se e fortaleceu-se a unidade açoriana, ultrapassou-se as rivalidades mais perniciosas com a feliz designação dum ilustre terceirense para a vice-presidência, a quem foram entregues, com sucesso incontestável, as nossas finanças, até então em difícil situação, conseguindo-se, mercê dum esforço titânico, a relativa segurança duma lei-quadro de finanças regionais autónomas.

E tudo fruto duma ação política carregada de habilidade diplomática em que César soube contar com o espírito superior de António Guterres, esse estadista que o país teve o raro privilégio de escolher para a frente da governação durante algum tempo e de cuja bondade este concelho teve provas em momentos de muita angústia e quase desespero.

Garantida a unidade, constituída uma equipe de trabalho político com pergaminhos culturais até então impensáveis, eis que Carlos César conseguiu trabalhar em paz, rodeado pelo respeito geral, promovendo por vias lentas mas seguras e permanentemente ativas, em todos os setores da atividade humana. um progresso que transformou profundamente o nosso viver.

Não desprezou os projetos da anterior Administração cujo significado era incontestável, como o magnífico Hospital micaelense e a autoestrada Ponta Delgada Lagoa cuja execução promoveu e meteu ombros a uma tarefa que seria impossível descrever aqui, a não ser por amostragem, de que destaco a grandiosidade da estrada do Nordeste que transformou definitivamente a ilha, a imponência das Portas do Mar que virou a nossa maior cidade para o mar e para o novo turismo, os portos de pesca da Ribeira Quente e de Vila Franca do Campo, satisfazendo ambições de séculos até então consideradas impossíveis de alcançar. E só estou a referir-me a S. Miguel.

Foi gigantesca a obra no setor da cultura e da educação. Nunca se tinha visto até ele um tão imenso, planificado e sistemático incremento da nossa educação e da preservação e desenvolvimento dos nossos valores e recursos culturais.

Jamais as classes mais desfavorecidas tiveram um viver tão protegido, tão apoiado, tantas oportunidades de se livrarem da implacável lei da pobreza.

Os hotéis surgiram por todo o lado como cogumelos, abrindo pela primeira vez a possibilidade da nossa diáspora visitar a terra berço dos seus maiores sem os constrangimentos que as gerações anteriores enfrentavam e que os afastavam de vez, perante vergonhas, indignidades e humilhações insuportáveis.

Recebeu reis, poetas, estadistas, soube dignificar a nossa imagem perante o mundo.

Deu um apoio decisivo à agricultura, e mandou promover por toda a parte os seus produtos; salvou lagoas e florestas, pacificou a lavoura cuja capitalização e modernização conseguiu de forma irreversível e notável.

Com o seu discurso contido, bem estruturado, culto, rigoroso, bem informado e hábil gerou largos e duradouros consensos, mobilizando-nos para as grandes tarefas do nosso próprio desenvolvimento.

Fortaleceu em todas as nossas comunidades, no estrangeiro, as suas

mais importantes representações sociais e culturais, dando-lhes meios e a dignidade por que sempre ansiaram e que sempre mereceram. Fez-lhes visitas de estado promovendo duma forma dignificante e até então nunca vista, a nossa imagem como Povo civilizado, por vezes tão aviltantemente segregado e desprezado por falta de apoio daqueles que oficialmente tinham mais que obrigação de o fazer.

Defendeu com vigor o nosso precioso ambiente, estruturou e fortificou todos os organismos de defesa civil, em dimensões nunca vistas.

Alguém mais autorizado que eu disse o que lhe deve em particular o concelho da Povoação, a primeira parcela do nosso território sagrado onde pisaram os nossos primeiros pais.

Mas posso e devo dizer, já que me dão essa privilegiada oportunidade, que todos os açorianos lhe ficam devendo a total entrega ao bem-estar do Povo que o elegeu e, sem descanso, durante estes dezasseis anos, trabalhou afincadamente para que do seu consulado ficasse a marca do progresso material e o indelével desenvolvimento intelectual das nossas gentes.

Claro que ainda é cedo para se saber se essa imensa obra terá ou não o resultado almejado e isso só as gerações futuras, se não estiverem distraídas como até aqui, sobre o seu passado recente, é que hão-de julgar isso.

Para já, não teme a sua obra confronto algum com o que o resto do País fez e conseguiu, mercê de esforços financeiros mais ou menos clandestinos e excessivos que a nós todos estão prejudicando.

Sai Carlos César com a satisfação do dever cumprido e eu, que nada lhe devo pessoalmente, para além do respeito com que sempre me tratou e que tentei retribuir, orgulho-me de ter sido testemunha privilegiada desta época de ouro da nossa História.

Bem-haja a Povoação por reconhecê-lo como estadista e parabéns ao Presidente de todos nós por haver quem o reconheça ainda em sua vida.

Carlos Melo Bento

Povoação 7.7 2012

segunda-feira, 26 de março de 2012

Apresentação de Outros Sóis, de Fernanda Cabral poetisa de Espinho

Senhor Presidente da Câmara Municipal de Espinho, Dr. Pinto Moreira


Permita-me V. Exa. que saúde duma forma particular a senhora Vereadora da Cultura Dr.ª. Leonor Cristina Matos Lêdo da Fonseca que por motivos ponderosos não conseguiu estar presente nesta sessão de lançamento do livro Outros Sóis da poetisa de Espinho Fernanda Cabral. O apoio que ela dispensou a esta iniciativa e a vossa grata presença aqui, são simbólicos do valor que a sua Administração dá à cultura, único valor perene da nossa civilização. Bem-hajam por isso.

Minhas Senhoras e Meus Senhores

Paulo Bonfim, o príncipe dos poetas brasileiros, descendente dos Botelho Arruda, dos primeiros povoadores do Arquipélago dos Açores, disse, numa das suas frequentes visitas à Mãe Pátria, que uma pessoa verdadeiramente livre é uma ameaça cósmica. E não há pessoa mais livre que um poeta.
Não quero, meus senhores, com isto significar que a nossa poetisa, Fernanda Cabral, seja uma ameaça e menos ainda cósmica, mas que os seus poemas abalam o espírito no sentido mais positivo desta expressão, disso não tenho dúvidas.
Contatei pessoal e intimamente com três grandes poetas açorianos, dois sobejamente conhecidos em todo o mundo português, Vitorino Nemésio e Natália Correia, endiabrados e insubmissos, belos no seu canto poético, profetas da vida e encantadores de alma.
E conheci bem Armando Cortes Rodrigues, o amigo íntimo de Fernando Pessoa, que depois de o acompanhar no Orfeu com poesia modernista, recolheu a penates e louvou o cântico das fontes e descreveu a vida quando o mar, essa planície inquieta, galgou a terra, fechando-se na sua concha açoriana mas criando os mais esmerados poemas que a terra de Antero de Quental produziu.
Todos eles de feitio dificílimo e ao mesmo tempo fascinante, sem respeitarem nada a não ser eles próprios e as suas obras. Só agora conheci pessoalmente Fernanda Cabral, mas desde que li o seu primeiro poema no facebook, fiquei com a ideia de que ela pertencia por legítimo direito, ao fechado clube dos poetas.
O embaixador Pracana Martins, um dos nossos contemporâneos mais cultos, disse de Fernanda que a sua poesia tinha música, beleza e encanto. É isso mesmo que me transmitiram os seus versos. A doçura dum canto espontâneo que não é pretensioso mas encanta pela sua beleza simples. E a simplicidade é a mais difícil das tarefas para quem escreve.
Depois, são os assuntos que Fernanda cultiva nos seus versos. Coloquei propositadamente no título epigráfico de cada poema, um ou outro naco da poesia de nomes consagrados da nossa literatura pátria que demonstram que ela abordou, ou por intuição, ou por neles ter meditado (sabe-se lá o que vai na cabeça dum poeta!) grande número dos temas que são permanentemente visados por aqueles que se dedicam a essa arte de encantar espíritos e mentes.
Não vale julgá-la com preconceito. Quer ideológico quer mesmo cultural. Sintam-lhe a melodia dos versos quando ela, qual filigranista, tece à volta duma ideia uma rede bem desenhada de contornos floridos e coloridos, que acaba numa joia bordada a preceito.
Esqueçam as metáforas e as rimas entrelaçadas outrora tão obrigatórias e tão enfadonhas e deixem-se levar pela melodia duma poesia que a tem por sumo e essência.
Peço-vos desculpa pelo meu pretensioso prefácio em que usei e abusei da nossa poetisa como alavanca para os poetas açorianos dos nossos dias. Se Portugal é um país de poetas, os Açores são um cantinho privilegiado do mundo lusíada, donde em cada canto surgem os Quentais e os Mesquitas, as Natálias, os Botelhos, os Meireles, os Vitorinos e um nunca mais acabar de génios em ebulição poética.
Os poetas cantam os sonhos da humanidade mas eles próprios são tão pouco cantados. E eu atrevi-me a entrar no campo sagrado da poesia sem ser poeta ou escritor porque penso que que a poesia, se é para comer, como quer Natália Correia, então nós devemos saboreá-la com vagar, mesmo que a não saibamos confeccionar, oferecendo-a como banquete a amigos e convidados.
Os Açores foram descobertos por Gonçalo Velho Cabral, comendador de Almourol, e não há açoriano de S. Miguel que não descenda das suas irmãs, cujos filhos acompanharam o tio nessa aventura épica.
É-me, por isso, muito grato vir de tão longe ajudar a divulgar os poemas desta nossa parente, que pinturas tão sugestivas emolduram com tanta graça. E faço votos para que essas belas poesias vos dêem tanto prazer espiritual como me deram a mim.
Num momento em que a nossa pátria enfrenta perigos imensos e em que a ambição desmedida das potências financeiras do planeta se junta para tentar explorar os menos avisados e menos ricos, tenhamos a coragem de irmos para a batalha com alegria, já que tristezas não pagam dívidas.
Não com a alegria cortesã e inconsciente dos jograis de Alcácer Kibir mas com a alegria de quem sabe de ciência certa que, ainda que o mundo acabasse, os versos que se escreveram na nossa amada língua, hão-de perdurar para todo o sempre.
Parabéns Fernanda por ter tido a coragem de tornar públicos os seus belos versos, e por ter aceite a ideia da Fundação Sousa d’Oliveira de os reunir em livro.
Manuel Sousa d’Oliveira foi um açoriano nascido na América para onde seus pais emigraram. Regressado aos Açores, estudou, formou-se em Coimbra, ensinou, dirigiu museus, e bibliotecas, introduziu a arqueologia científica na terra de seus pais, e cultivou-a aqui em Portugal, onde criou clubes de história e inúmeros discípulos em cuja memória permanece. Salvou da destruição e do esquecimento, milhares de objetos antigos e documentos sem preço. Fez palestras cá e no estrangeiro sobre a ciência que cultivou como ninguém.
Criou uma fundação para guardar a sua imensa biblioteca de dezenas de milhares de títulos e os objetos arqueológicos preciosos para a ciência que nos legou, para que a sua obra continuasse depois dele.
Tenho a certeza que esta cerimónia lhe agradaria porque realiza o seu ideal de que só com cultura, espírito crítico e sentido estético da vida há libertação.
Deixem-me acabar, lendo-vos dois poemas da poetisa Fernanda Cabral:
“Olhos azuis radiantes
Tal e qual mil brilhantes
São centelhas a faiscar.
São topázios diamantes,
São histórias de encantar.
Estes olhos fascinantes
Embarcam no meu bergantim,
Levam-me a navegar
Cavalgando sobre o mar
Envolta em lençóis de cetim.
Atravesso lagos e rios
Mares e oceanos
Guardo pérolas em fios
Esmeraldas em panos.
Vejo sombras de navios
Refletidas nas águas,
Vejo estrelas cadentes
Que passam por mim sorridentes.
Estes olhos tão azuis,
Tão claros, transparentes
Vão-me deixar a sonhar…
Neste sonho cor de mar.”
E ainda este outro poema:

“Olho através da vidraça
E vejo a gente que passa.
O vento que uiva,
A chuva que cai
Está frio lá fora!
Ouço passos…
Passos apressados
Passos corridos,
Passos doridos,
Passos cansados,
Passos que passam.
Olho através da vidraça,
E, vejo gente na praça”.

Muito obrigado.

Espinho, 17 de março de 2012

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Quatro Vultos da História do Santa Clara

Discurso proferido no Centro Cultural de Santa Clara no dia 6 de Outubro de 2011.


O meu inimigo de estimação, antigo e brilhante aluno de História, João Pacheco de Melo, hoje um muito escrupuloso investigador da nossa vida desportiva, e um açoriano saudavelmente radical, desafiou-me a falar sobre quatro dirigentes do Clube Desportivo Santa Clara que ajudaram a conduzir as direcções desta mundialmente conhecida instituição, entre 1927 e 1946.
Não me compete, porque não sei, historiar o glorioso e popular clube a que meu Tio e Padrinho, Cristóvão da Estrela Augusto da Silva, presidiu com tanta paixão e alegria. O único clube açoriano a militar, até hoje, na primeira divisão, primeira Liga ou Liga qualquer coisa, (que a imaginação desportiva não tem limites conhecidos), e que vem merecendo especial atenção dos que, entre nós, vivenciam o desporto rei.
Em 1927, a ditadura militar instaurada pela Revolução Nacional de 28 de Maio, governava com mão de ferro desde o ano anterior, o império português a partir de Lisboa, extinguira o Parlamento ou Congresso, nascido com a Constituição de 1911, proibira os partidos e instaurara a censura prévia à imprensa. Parecia presidir ao Estado o General Gomes da Costa que em breve seria exilado para esta ilha, depois dum golpe de estado palaciano atribuído ao General Carmona.
Aqui, governava o distrito autónomo de Ponta Delgada, o Major Abel de Abreu Sottomayor, e, enquanto os deportados da contra revolução democrática desse ano iam sendo encaminhados para os Açores, o terceirense, capitão Eduardo Reis Rebelo, dirigia-se à Assembleia Geral constituinte do Santa Clara, vindo em passo cadenciado da Lombinha dos Cães, ali ao Jardim António Borges, onde morava, para o lugar em que os entusiastas do que viria a ser o desporto rei se reuniram, à Rua do Brum, para criar o agora nosso mais importante clube desportivo. Saiu o nosso bondoso capitão da reunião, eleito por aclamação como presidente da direcção interina que se encarregou de formalizar a nova instituição, dando-lhe o impulso que a elevaria ao trono que hoje ocupa.
A aclamação era uma forma de eleição unanimista muito em moda depois, e durante o Estado Novo quando quase ninguém se atrevia a contrariar as orientações superiores. Em 1927, era porém uma forma espontânea de manifestar o acordo de todos.
O brilhante advogado e professor e escritor Agnelo Casimiro e o sempre devotado Solicitador Inácio de Sousa foram encarregados de elaborar os estatutos.
Longe vinham os tempos em que, com 27 anos, viera Reis Rebelo da sua Angra natal para a maior cidade açoriana. Aqui encontrou o venerando Deão da Sé de Angra, o Dr. Reis Fisher que fora deportado para S. Miguel, no auge da luta anti religiosa dirigida ferozmente por Afonso Costa.
Da Lombinha dos Cães mudaria a sua residência para a 2.ª Rua do Conde, hoje, denominada João Jacinto de Sousa, o militar que governou o nosso Distrito e que haveria de morrer em África, em combate, no início da primeira guerra mundial, para consternação do nosso Distrito.
Nesta rua, Eduardo Reis, em 1952, nos alvores da radiosa primavera micaelense, acabaria os seus dias, rodeado de imponente cerimónia militar, em que as suas condecorações e espada de aparato, depois de expostas em bandeja de prata, sobre almofada de brocado de seda, foram solenemente entregues ao afilhado e parente mais chegado Jorge Reis que nos deu a honra da sua presença aqui, hoje. Pelo meio, além da intensa dedicação ao Santa Clara, ficavam os verões na sua reconfortante casa das Furnas, que só não foi solitária porque além da mulher e fiel companheira, este afilhado e praticamente filho adotivo, a preencheu com o calor humano, agindo quase mais que um avô, o nascimento da filha daquele. Jorge Reis foi desde muito novo a mascote do clube a que o padrinho emprestou dignidade e ordem.
Seria Eduardo Reis Rebelo durante 8 anos, a máxima autoridade do clube, função que abandonou, acabada que foram as obras de adaptação da actual sede do Clube, em 1935.
Nesse ano trocou a presidência da Direcção pela da Assembleia-geral durante um mandato anual, e depois transitou para o Conselho Fiscal até rebentar a segunda guerra mundial. Nos anos da guerra ou seja de 1939 a 1945, fica afastado das lides desportivas, regressando ao órgão de fiscalização do Clube em 46 e 47, aqui terminando a sua acção como responsável no Santa Clara.
A sua gestão não foi isenta de conflitos porque nenhuma é. Afastou-se em 1939 já que o gasto de 20 contos, o equivalente a 100 euros de hoje mas valor muito elevado para a época, foi considerado por alguns como excessivo. Ele porém, entendia que o Santa Clara merecia o melhor.
Coincidentemente com o seu afastamento provisório, rebentou, como disse, a segunda Grande Guerra. Durante esta pavorosa catástrofe humana, Reis Rebelo, por razões que desconhecemos, não estaria em Angola no Corpo Expedicionário Açoriano, sob o alto comando de Moniz da Ponte, ali defendendo a soberania portuguesa. Ao mesmo tempo que Salazar afastava os militares açorianos dos Açores, outros tantos 20.000 continentais nos impediam aqui do que ele suspeitava (aliás sem razão) de veleidades emancipalistas pró americanas.
Mas se Reis Rebelo não foi em missão bélica para África, na 2.ª Guerra, tinha estado vinte anos antes como tenente na 1.ª, ligado à Administração Militar, onde recebeu lisonjeiro louvor pela “grande actividade e são critério” com que desempenhou essas complexas funções, na horrorosa e fatal frente da Flandres. Foi homem integérrimo e sem medo, não vacilou em denunciar a situação ilegal em que se mantinha o então poderoso Comandante da Polícia, Magro Romão, que cumulava o vencimento desse comando com o de oficial de exército que também era. Daí à transferência do rigoroso colega foi um passo.
Como presidente do Clube Desportivo do nosso Bairro operário, pois em Santa Clara sempre teve as suas mais robustas raízes, presidiu Reis Rebelo ao início da mudança do equipamento e do símbolo do leão para uma mestiçagem benfiquista que se haveria de transformar na imitação desnecessária do grande clube português.
Como disse, na ausência duma história do desporto açoriano, não é fácil ainda perceber as razões porque tantos militares se juntam à volta duma iniciativa desportiva deste género mas a verdade é que os políticos sempre as rondaram para, através destas associações, angariarem votos ou simpatia popular. E a existência anterior de outros clubes de futebol sob a invocação da franciscana Santa Clara, a que pertenciam altas figuras do proibido e extinto Partido Democrático, faz pensar que a ditadura militar que dominava agora o País, não se quis deixar de fora do processo desportivo, pelo que, alguns militares disciplinadamente avançaram para os postos desportivos determinados talvez por eventuais ordens superiores.
É ainda interessante lembrar que o Major Reis, posto em que terminou a carreira, pertencia à Maçonaria, mais precisamente à Loja Companheiros da Paz que funcionava em Ponta Delgada, e o nosso homem adoptou ali o pseudónimo de irmão Modesto (famoso pintor de origem espanhola), e nessa organização quase secreta tinha um modesto e mediano grau 14, com a função de “orador”. Maçons da mesma loja eram Dinis José da Silva, o irmão Guerra Junqueiro, e João Joaquim Vicente Jr, o Irmão António José de Almeida, de que falarei a seguir, mas este só três anos depois da inauguração da nova sede seria iniciado nos segredos da irmandade do triângulo do esquadro e do avental. Tratava-se portanto de pessoas que se interessavam pelo bem comum e pelos seus semelhantes.
A outra personalidade que homenageamos hoje, é também militar, o Major João Joaquim Vicente Jr. Fica na nossa história porque preside à Assembleia-geral que decide fundar o clube, e acompanha o Major Reis durante dois anos como seu vice-presidente. O então jovem militar, tem 33 anos, pois nascera em plena campanha para a primeira Autonomia, no seio duma família muito culta e respeitada desta cidade. O seu desporto favorito era precisamente o futebol mas não desdenhava nem a equitação nem a caça.
Como militar foram-lhe conferidas missões delicadas que cumpriu com lisura e eficiência. Em Angola, como alferes, posto em que o colocaram quando ainda frequentava a Escola de Guerra, e, em plena missão expedicionária guerreira, desempenhou-se de tal maneira durante dois longos anos das suas tarefas que, mais tarde, durante o complicado período da 2.ª Grande Guerra, foi o responsável pela então gigantesca Administração Militar nos Açores onde certamente conheceu o Major Reis Rebelo.
Havia mais tarde de frequentar os Altos Estudos Militares mas a morte levou-o quando esperava a justa promoção a Coronel, posto que, por isso, não chegaria a atingir, partindo até sem saber que tinha sido aprovado com distinção no concurso.
A sua cidade natal, ficar-lhe-ia a dever a entrega voluntária ao Asilo de Infância Desvalida que tão assinaláveis serviços prestou a esta terra com quase nenhuns apoios do Estado. Também a Cruz Vermelha de Ponta Delgada beneficiou do seu valioso contributo para o bem-estar dos seus concidadãos, numa época em que a iniciativa particular sustentava praticamente sozinha a obra da assistência social.
Pessoa muito prudente, ficou célebre a forma como se desempenhou na intervenção militar que comandou aquando dos distúrbios na Povoação, ao tempo ainda o celeiro da ilha que, aparentemente estaria vazio, pois casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. Mostrou autoridade e ao mesmo tempo compreensão, debelando os distúrbios sem ter que usar a força, fenómeno raro numa época de autoritarismo exacerbado que neste país à beira mar plantado raramente se fazem as coisas com equilíbrio.
A sua vida familiar correspondeu aos padrões duma família modelar e feliz da sua época. Tiveram três filhos cuja descendência hoje constitui a melhor sociedade desta terra.
Quando Eduardo Reis abandonou a presidência do Santa Clara, já iam longe os distúrbios que tinham levado à demissão e prisão do Governador Civil, Dr. Jaime do Couto cuja simpatia e prestígio levava à cadeia da Boa Nova a elite social e política da terra, pois o medo a Salazar não foi tanto que impedisse a amizade e admiração por um dos maiores baluartes açorianos contra o centralismo.
Vai então assumir a presidência do nosso melhor Clube uma figura de relevo na advocacia micaelense, Alberto Paula de Oliveira o grande orador forense e político. Magro, elegante, sempre vestido a rigor (que diria ele se me visse aqui hoje sem gravata!), voz sonora, olhar penetrante, jurista de eleição e litigante perfeito. Sempre admirei este vizinho simpático e educado, cuja casa frequentei desde tenra idade e não sei mesmo se também não foi por sua causa que enveredei pela profissão que tenho. Mas, se o imitei na oratória, mal de mim que nunca lhe ganhei uma única causa...Era o primeiro civil que dirigia o Santa Clara fundado e dirigido por militares no activo. Comissário Provincial da Mocidade portuguesa, onde o seu colega de curso, Marcello Caetano, era o mais alto dirigente nacional, digamos que não lhe foi difícil adaptar-se à disciplina reinante no popular clube. Mas durou muito pouco o seu reinado, pois a saída de Reis, criticado por ter ambicionado uma sede luxuosa para o clube que ajudara a criar, não deve ter deixado no espírito sensível de Alberto de Oliveira, uma situação cómoda, que a tumultuosa actividade forense desta cidade não facilitava.
No mesmo ano, retira-se para a presidência da Assembleia-geral do Santa Clara para, 3 anos depois, no início da guerra, dirigir o Conselho Fiscal, retomando a presidência do clube durante 1940 e 1941 de cujo primeiro elenco faz parte.
Depois de ter exercido o cargo de vereador, foi presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada no tempo em que Salazar, em plena 2.ª Grande Guerra Mundial, mandava celebrar os dois centenários mais importantes da história de Portugal, em 1940, o da restauração da independência nacional e em 1943, o da fundação do País. Alberto de Oliveira cumpriu o seu consulado presidencial rodeado de simpatia popular, temperando a dureza policial da época com uma gentileza natural, com convites à população que substituíam os decretos, os despachos e as ordens de serviço tão em voga nesses tempos de autoritarismo institucional.
Teve uma acção administrativa muito afectada pelo plano de urbanização do arquiteto Aguiar que pretendia destruir meia cidade para implantar no burgo quinhentista megalómanas avenidas que obviamente não tiveram futuro mas ainda assim deixaram cicatrizes em Ponta Delgada, para além das demoras que impôs às obras projectadas pelos particulares durante décadas. Soube também dar notável apoio ao Bairro Económico de Santa Clara, de tanta qualidade que hoje alberga uma bem estabelecida classe média.
Politicamente, era defensor do centralismo, por isso suportou com vigor uma pública polémica com o grande defensor da autonomia, José Bruno Carreiro. Alberto de Oliveira era natural do Algarve onde seu pai fora Chefe de Finanças, e nasceu dois meses depois de matarem o Rei e o seu filho primogénito sendo dos poucos políticos açorianos do seu tempo que percebeu a importância do governador do Distrito Autónomo de Ponta Delgada, o capitão Sérgio Vieira, continental a quem Ponta Delgada tanto deve, promovendo a concessão do prestigiado galardão de cidadão honorário da nossa cidade, título que lhe iria ser também concedido pela nossa respeitada edilidade.
A Alberto de Oliveira se ficou a dever a salvação do vetusto edifício da Câmara Municipal, arrebatando-o da sanha demolidora que se instalara aquando da construção da discutida Avenida Marginal, tudo na sequência do alerta levantado pelo grande jornalista Manuel Ferreira.
Íntegro chefe de família, Alberto de Oliveira, sem nunca deixar de advogar, chefiou a Secretaria da Junta Geral do Distrito Autónomo de Ponta Delgada. Isso porém não o impedia de pontificar na famosa tertúlia do Café Nacional na Rua Açoriano Oriental onde se reuniam desde há muito os salazaristas mais notórios da cidade, rodeados por pinturas de Luís Bernardo e João Rebelo, filho do grande Mestre Domingos Rebelo.
Faleceria Alberto de Oliveira aos 74 anos, já em plena democracia em cujo funcionamento perfeito nunca acreditou. Sempre elegante e sempre educado, sem nunca deixar o cigarro que o havia de vitimar quando tanto ainda podia ter dado à advocacia que tanto honrou nesta terra. Deixou larga descendência que honra a cidade em todos os ramos de actividade a que zelosamente se dedica.
Vejamos agora a última personalidade que nos vai ocupar hoje. Político da primeira república, convertido aos novos ventos do Estado Novo, precisamente aquele que vitimado pelos sobreditos distúrbios iria provocar, em 1933, uma repressão duríssima dos militares com o triste saldo de três mortos, enterrados à pressa e dissimuladamente, para fugir aos confrontos que doutra forma seriam inevitáveis. Trata-se de Diniz José da Silva.
Este activo cidadão nasceu no Nordeste já no reinado de D. Carlos e aos 38 anos, viria a substituir o advogado ilustre que conduziu o Clube Desportivo Santa Clara alguns meses depois dos decisivos primeiros anos de Reis Rebelo, o qual como vimos, lhe deixara como herança uma sede social condigna. A melhor sede desportiva de que a ilha do Arcanjo dispunha e, parece-me, ainda hoje dispõe.
Diniz da Silva começa a sua vida profissional como empregado de comércio. A república apanha-o aos 21 anos e a sua aproximação da Maçonaria ir-lhe-ia permitir largos voos. De simples funcionário administrativo e guarda amanuense, parte para Administrador do Concelho da Povoação, Ribeira Grande, culminando a sua carreira política e administrativa como Presidente da Câmara do Nordeste. Ficaria na história do concelho (que nos nossos dias vai despontar para a ilha que sempre o considerou outra ilha), como aquela personalidade que mais se bateu para elevar a velha Fazenda, a primeira que houve em S. Miguel, a freguesia, berço de tanta gente ilustre, de que me permito destacar, o Reitor da Universidade de Matemática da Califórnia!
Jaime Hintze, Governador Civil afonsista e Democrático do distrito oriental fá-lo-ia, nos anos 20, seu secretário.
De Relator Fiscal, no último ano em que o Major Reis Rebelo serviu, ele é erguido, depois da saída de Alberto de Oliveira, ao cargo máximo, embora por apenas um ano. Depois, durante 9 anos presidirá à Assembleia-geral.
Claro que foi durante a sua gestão que o Santa Clara se abriu a outras actividades que não apenas o desporto: música com aulas de dança, teatro onde o grande José Barbosa deu grande impulso, palestras, serões dançantes que tanto encantariam os mais novos das classes menos favorecidas com meios de fortuna mas milionários na alegria e na falta de preconceitos que dominavam como lepra social a fechada e classista sociedade micaelense dos meados do século XX.
Mas iria ser como jornalista que Diniz José da Silva haveria de celebrizar-se, em campanhas contundentes de defesa dos interesses locais. Ficou célebre a sua luta antimurina, sensibilizando gregos e troianos, contra o pequeno roedor que tantos e tão graves prejuízos provoca nas nossas culturas agrícolas. Se o tivessem ouvido, muitos açorianos não teriam sucumbido à leptoespirose e podiam ainda estar vivos.
Foi um dos que teve a honra especial de dirigir o mais antigo jornal português em publicação contínua, O Açoriano Oriental, rodavam os movimentados anos sessenta de dolorosa memória e havia falecido o denodado Ferreira de Almeida que o manteve contra ventos e marés como coisa sua, tudo arriscando para manter vivo, o que afinal era património cultural de todos nós.
Dinis da Silva não era pessoa de meias tintas, tornando-se com o tempo, ainda mais radical na defesa dos seus pontos de vista.
A nossa história vai registar a sua adesão radical ao salazarismo e à igreja tradicionalista. Ficou célebre a polémica que suportou com o Padre Dr. Hermínio Pontes sobre a pessoa e as teorias de Teilhard de Chardin, um dos ícones mundiais do progressismo católico que os mais conservadores consideravam peixinhos vermelhos em pias de água benta.
Dinis da Silva iria tornar-se radical contra a Oposição ao Estado Novo mas isso não impediria que as excursões do Clube Desportivo Santa Clara do seu tempo parassem sempre na Gorreana onde o seu antigo chefe, o Democrático Jaime Hintze, residia.
Embalado o Santa Clara com vitórias que o tornaram campeão de S. Miguel durante sete anos seguidos, o clube mantém a invencibilidade durante o mandato de Dinis José da Silva, no ano desportivo de 1936/1937, quando a Espanha entrava para a mais sangrenta guerra civil da sua conturbada história que haveria de vitimar mais dum milhão de pessoas oriundas de todo o mundo.
Conheci-lhe três filhos. Um foi presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada e dirigiu o Instituto Geográfico Cadastral, com obra científica de alto valor publicada. O outro, açoriano radical a quem esta terra e a presente autonomia tanto devem. Sua filha, casada com um médico ilustre desta terra, também tem descendência que exerce a mesma arte, depois de servir a Pátria em longes e quase esquecidas terras.
Dinis José da Silva viria a falecer a 4 de Maio de 1973, com 84 anos incompletos, em Santa Clara onde morava à Rua José Bensaúde, o cientista micaelense que fundou o Instituto Superior Técnico.
Não sei se consegui, nesta breve aguarela dar uma ideia ainda que pálida destes homens a quem o Santa Clara encarregou de dirigir os seus destinos em tempos tão especiais da nossa história. Foi o que pude recolher no pouco tempo que tive para isso. Falta uma história do desporto açoriano e é bom que alguém lance ombros a tão meritória tarefa para que se não perca o rasto daqueles que tão apaixonadamente vivem o mais encantador dos entretenimentos humanos e um dos pilares da união entre os homens de boa vontade.
Ponta Delgada, 6 de Outubro de 2011
Carlos Melo Bento


sábado, 18 de junho de 2011

Orfeão Edmundo Machado de Oliveira

DISCURSO PROFERIDO NO COLISEU MICAELENSE AQUANDO DOS 25 ANOS DO ORFEÃO EDMUNDO MACHADO DE OLIVEIRA

Senhora Presidente da Câmara
Senhor Director Regional da Cultura
Minhas Senhoras e meus Senhores
Quando há 25 anos um grupo de amantes da música resolveu fundar nesta terra um conjunto coral, nem sonhavam no êxito que a sua iniciativa iria obter nem com o impacto que a sua criação teria no meio musical açoriano, no da sua diáspora e em Portugal todo.
Tinha falecido há escassos 4 anos o mentor e patrono do Orfeão (no meu tempo de estudante IiceaI chamava-se “orfeon”, era mais chic!) e não é fácil saber hoje qual a verdadeira dimensão da sua influência sobre os fundadores, mas é de crer que tivesse sido um contributo decisivo para a iniciativa.
O seu ensino, o seu carisma, a sua cultura, e a capacidade de galvanizar os seus discípulos foi decisivo para que uma mão cheia deles sentisse alegria em batizar o novo ser que o seu entusiasmo gerou com o nome do pai espiritual. E foi na sede da Associação que 13 anos depois colocaram o seu busto eternizando em bronze a figura veneranda do velho mestre que tantas alegrias proporcionou ao espírito dos discípulos que “disciplinou” através da música.
Por outro lado, se José Gabriel ÁviIa preside à primeira direcção com a sua serena discrição, quem vai conduzir a multidão dos cantores que entretanto se reuniu à volta da ideia, é uma figura singular e estranha. Baixo, franzino, com um sorriso irónico permanente, voz de falsete, olhar penetrante, hiperactivo e postura desengonçada na regência, tudo nele fazia prever um inevitável fiasco.
Pois até aí ele enganou o destino. Alguém já disse que a música é a matemática do universo e eu direi sem receio de errar que José Rodrigues é um dos seus divinos cultores.
A sua paixão pela arte de Euterpe fê-lo o cimento que congregou todos os que se deixaram conduzir pela sua batuta através dos caminhos encantados dos sons musicados. Senhor duma poderosa vontade, o Maestro galvanizou os orfeonistas à volta de composições belas e difíceis, empolgando multidões de encantados espectadores que nunca lhe negaram enérgicas e demoradas ovações e inolvidáveis triunfos.
Certo dia, pediu-me que participasse num dos seus lendários ensaios, declamando alguns versos porque entenderam, ele e certamente os seus colaboradores mais próximos, que a minha voz encaixava em certa composição. Achei estranho o convite, pois o meu professor de música no ensino básico me proibira de cantar no coro da Mocidade, tais eram as fífias que dava e provocava nos meninos cantores desses tempos tenebrosos do fascismo cantando e rindo. Pelos vistos eu era melhor rindo do que cantando…
Mas o seu prestígio já era tão grande que aceitei o desafio e lá fui. A Igreja de S. José era o fantástico palco onde se desenrolaram os trabalhos que não foram nada fáceis contrariamente ao que eu esperava.
Saiu a primeira actuação tão perfeita na impecável acústica do nosso maior templo, tão maviosa e tão bela que pensei ir o ensaio durar pouco. Qual quê!? – Não está bom, mas não está nada bom, mesmo!, vociferava o pequeno maestro que na sua fúria se elevava a alturas não sonhadas.
E repetia e mandava repetir. Para os meus pobres ouvidos eram sempre belamente iguais aquelas passagens tantas vezes cantadas. Até que, finalmente, José Rodrigues ficou com a expressão de quem acaba de ter uma visão celestial, cerrando os olhos, sorrindo gozosamente para si próprio, ao passo que, nos bicos dos pés, erguia os braços virados para o céu com as palmas das mãos abertas e tremendo como se aguentasse nelas o firmamento, balbuciava baixinho quase imperceptivelmente: - Agora sim, agora sim!!!, e abraçava-se a si próprio como se envolvesse o orfeão num amplexo amoroso contagiante, ao passo que este o aplaudia como se tivessem descoberto o caminho marítimo para a Índia ao lado de Vasco da Gama.
Não disse nada, mas comentei para os meus botões: - Mas que raio de diferença teria ele ouvido em todas aquelas repetições que me escapara completamente? Por mero acaso, ao ler um prémio Nobel da literatura percebi que havia uma coisa chamada ouvido absoluto.
É que, alguns músicos com ouvido absoluto muito fino são capazes de reconhecer se uma obra está desafinada com respeito à afinação comum a uma distância de poucos savarts. Um Savart é a unidade de afinação, ou seja, a quantidade de desafinação que pode perceber um ouvido. Equivale a 4 cents. Um cent é a centésima parte de um semitom.
Estima-se que apenas uma em cada 650 pessoas no mundo possuam tal capacidade. E foi então que percebi duas coisas: José Rodrigues ouvia sons que eu nem sabia que existiam (nem tinha hipóteses de vir a saber) e tinha capacidade de pôr os outros a produzir esses sons em harmonia absoluta. Para mim isso valia pouco pois longe da vista longe do coração, para ele isso era tudo.
Passei então a admirá-lo e à sua obra, praguejando aos céus contra o facto de me não ter dado esse dom a mim, pois a música é algo que a minha alma anseia desde que me conheço.
Daí que não fosse surpresa o êxito alcançado pelo Orfeão por esse mundo fora: Portugal, de norte a sul, Brasil, Canadá, América, França. Trata-se duma instituição de altíssima qualidade.
Depois de o ouvir e apreciar, percebi que tinha de lhe pedir para actuar em festa da minha Família pois que as probabilidades duma iniciativa que envolvia tanta gente à volta duma operação amadora, dificilmente duraria tanto tempo, pelo menos com tanta qualidade. Ia enganar-me outra vez.
Na verdade minha mulher deu-me o último filho, a Maria, quando já éramos quarentões e eu temia não ter tempo para lhe fazer o casamento. Pedi então ao Maestro e colega encarecidamente que actuasse no batizado. Com aquela habilidade de advogado ágil, ele convenceu-os a participar e devo dizer-vos que nem os príncipes de Inglaterra tiveram direito a uma Aleluia tão electrizante como nós tivemos numa inesquecível e tão aplaudida actuação na nossa Matriz.
Quem diria que hoje o Orfeão Edmundo Machado de Oliveira, passados 25 anos, ainda estaria activo e bem activo embora sob a batuta de Cristiana Spadaro, a italiana formada em Triestre que se aperfeiçoou em Geneve e em Lisboa, cumprindo os altos padrões melódicos do seu primeiro maestro e demonstrando que os alicerces por este construídos foram fortes e bem feitos.
Com ele, o Orfeão cantou os 500 anos da descoberta do Brasil, inaugurou o Centro Cultural de Belém, ganhou prata com a UNICEF e da própria LAVA FEZ MÚSICA . Só ou acompanhado com prestigiadas instituições similares.
Começou José Rodrigues a advocacia dez anos depois de mim, e, mais esperto que eu (também não era difícil), deixou a advocacia 10 anos antes de mim e, sempre fascinado pela música, fundou o Stella Maris no Canadá, revolucionando ali também o ambiente musical. A sua presença hoje nesta maravilhosa sala de espectáculos, sob obras primas de Canto da Maia e Domingos Rebelo, é motivo de júbilo para todos quantos ele guiou pelos cantos sagrados da matemática universal e dos que tiveram a dita de o ouvir. Bem-haja.
Uma instituição como esta, obviamente que não vive apenas de cantores e maestros. Aqueles que tratam da organização dum tão grande grupo e que cuidam da logística infernal das deslocações e da preparação dos espectáculos para que tudo corra sem incidentes de maior, merecem também a nossa admiração e respeito.
As equipes responsáveis pela realização desses objectivos não devem ser esquecidas. Já falei da que foi presidida por José Gabriel Ávila, mas não posso deixar de falar em Gabriel Moreira da Costa, em José Augusto Borges, em José Oliveira Melo, em Laudalina Rodrigues que com o Maestro partilha a mesma incondicional paixão pela música tudo sacrificando no seu altar sagrado. Falarei também da de José Manuel Aguiar e, neste momento, de Aida Medeiros a cuja equipa devemos estas comemorações e este magnífico espectáculo.
Registe-se que uma instituição como esta não vive sem juventude que garanta a continuidade e a vida duma obra tão complexa. Por isso, não foi descurada a criação do coro infantil juvenil cuja direção musical foi garantida ao longo dos anos por Carlos Sousa, Osvaldo Costa, Carlos Dias, Ana Beatriz Moniz, José Manuel Graça e, nos dias de hoje, por Rita Andrade. Está assim fechado o círculo que garante a perpetuação duma ideia que tem sido realizada com alta qualidade. E, acreditem, só a qualidade, (que não a quantidade como queria Lenine), garante o êxito e a perenidade da obra humana, no incessante esforço de se aproximar do divino.
A nossa terra e o nosso povo não poderão nunca progredir se a alta qualidade não constituir o diapasão das nossas ações em todos os ramos da atividade humana com relevo especial para as do espírito.
Parabéns a todos quantos e longa vida.
Carlos Melo Bento
17.junho 2011




domingo, 6 de fevereiro de 2011

No lançamento da Biografia de Victor Cruz

Senhor Secretário
Senhora Presidente
Senhor Dr. João Figueiredo
Amigo, Primo, Compadre e senhor Gustavo Moura
Meu bom amigo e compadre Victor Cruz
Minhas senhoras e meus senhores

Hoje realizo um sonho que acalentei durante muitos anos. Prestar uma homenagem ao Amigo que sempre admirei e estimo, publicando uma narrativa sobre a sua fascinante vida de artista, de empresário e de açoriano.

Não consegui fazer a estátua com a dimensão que o modelo merecia mas faltou-me o talento e fôlego para este tipo de obra que Victor Cruz bem merecia e merece, pelo que a pequena biografia que desenhei ficará aí como um ensaio que oxalá inspire outro com melhor capacidade, pois o personagem e a sua vivência bem merecem um mais aprofundado estudo, tão importante foi para moldar a imaginação, a cultura e porque não dizê-lo, a felicidade de tanta gente que teve a dita de o conhecer e conviver com uma das personalidades mais fascinantes da nossa Terra.

Senhor Secretário, Professor Dr. José Contente, gostaria de agradecer a gentileza do gesto que o Governo Regional quis ter a bondade de fazer, através da sua presença no lançamento desta pequena e despretensiosa biografia, que certamente se deve mais à importância do biografado que àquela, mas não deixa de ser significativo que quem tem tanto que fazer no seu alto cargo, possa roubar algum tempo para nos acompanhar em momento tão particular para a vida do meu Biografado e para mim. Creia que me sensibilizou muito e não o esquecerei.

À senhora Presidente da Câmara continuo agradecido e agradecendo pois que sempre quis dar-me a honra de participar nas minhas iniciativas culturais, emprestando-lhe o brilho que doutra forma nunca teriam tido. Sabe bem ver que a primeira magistrada da cidade e do Concelho onde nasci protege e estimula as iniciativas que podem contribuir para aumentar o nosso conhecimento. Por outro lado, Vossa Excelência nunca escondeu a admiração por Victor Cruz, daí que ambos de algum modo merecíamos a sua importante e significativa presença.

Ao meu Amigo, compadre e primo Gustavo Moura agradeço a pronta anuência ao convite para apresentar o trabalho aqui lançado. Com problemas de saúde pessoais e familiares arreliantes, sei que não foi tarefa fácil. Mas se o conheço bem (e julgo que sim, pois desde tenra idade me habituei a contactar com ele que namorou de muito novo a minha prima mais velha e mais bonita e continua a namorar com ela até hoje!), conseguiu levar a água ao seu moinho. Marido, pai, avô e bisavô exemplar, ele é um dos pilares do nosso jornalismo. Estrutural e cansativamente honesto, conseguiu colocar o Açoriano Oriental que dirigiu como ninguém durante décadas, no pódio do mais lido e respeitado jornal dos Açores.
Nos seus artigos de opinião, pode-se não concordar, não se pode é deixar de lê-lo, pois o bom senso serve de alicerce e guia para a sua tomada de posições, e é sempre bom ter-se alguém com os pés no chão quando a imaginação nos impele a construir castelos no ar.
Bem hajas, querido amigo, por teres dito o que disseste sobre este trabalho. Ao escrever isto, não sabia o que irias dizer mas certamente foi mais uma das tuas e nunca me escapou nenhuma. Por outro lado a tua amizade e admiração pelo compadre Victor Cruz não é segredo para ninguém, por isso, mesmo que quisesses escapulir-te a este primo inoportuno, sempre o mais brilhante talento da nossa geração haveria de seduzir-te e impelir a que cumprisses mais esta doce obrigação.

Por último, meu Compadre Victor Cruz (Somos compadres desde que o saudoso Dr. Abel Carreiro, quando estávamos presos, sugeriu que assim nos tratássemos, para nos distinguirmos dos camaradas e companheiros de outras latitudes). Desculpa-me ter feito obra tão pouca quando merecias muito mais. Apesar do apoio de D. Sara e das miríades de fotografias que vocês disponibilizaram, as varinhas mágicas de José António Rodrigues, esse fotógrafo de eleição que a Ilha seduziu, e de Orlando Medeiros que tudo compôs com mestria, conseguiram um trabalho de impressão notável que muito agradeço.
À Publiçor aqui dignamente representada pelo Dr. João Figueiredo, mariense, que às Relações Públicas açorianas tem dedicado muito do seu precioso tempo e a quem já tanto devem, o meu agradecimento sincero pelo cuidado e zelo na preparação desta cerimónia que não teria atingido esta qualidade sem a sua intervenção ainda por cima apoiada pela imprescindível Maria Joaquina Calado cujo sereno cuidado tanto nos tem ajudado.

A todos Vossas Excelências um obrigado sentido pela vossa presença e, boa leitura.

Carlos Melo bentoSolar da Graça, em Ponta Delgada, 3 de Fevereiro de 2011

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

No Lançamento do Livro de Victor Lima Meireles

Reverendíssimo Vigário Episcopal
Senhora Presidente da Junta de Freguesia de Água Retorta
Senhor Administrador da Fundação Sousa d’Oliveira, Dr. António Pracana Martins
Senhor Secretário-geral da Fundação Sousa d’Oliveira, Dr. José d’Almeida Mello
Minhas senhoras e meus senhores
Amigo Victor Meireles
O livro que aí está, laborioso e precioso trabalho que reúne os Extractos dos Livros dos Óbitos da Freguesia de Nossa Senhora da Penha de França de Água Retorta, de 1835 a 1905, encerra o ciclo que o poeta e escritor micaelense Victor Meireles se propôs realizar, após a publicação dos Extractos dos Casamentos (1835-1905) e dos Baptismos (1768-1905), já praticamente esgotados.
Os nossos livros paroquiais, a seguir a uma campanha publica que Sousa d’Oliveira encetou na primeira metade do século XX, “Salvemos os nossos Arquivos”, foram arrecadados na Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Ponta Delgada e, a partir deles, Victor Meireles extraiu práticos e cómodos extractos, agora postos à disposição dos interessados.
Aproveitou o autor para, em adenda, publicar os extractos dos Baptismos do ano de 1874 que não foram inseridos no lugar próprio.
Na sessão pública, de lançamento da nova obra, nesta acolhedora Casa do Povo de Água Retorta quero expressar ao Professor Doutor Octávio Henrique Ribeiro de Medeiros, Vigário Episcopal da Ilha de S. Miguel e Pároco de Nossa Senhora da Penha de França, o profundo agradecimento da Fundação Sousa d’Oliveira, pelo estímulo e apoio que Vossa Excelência Reverendíssima deu à obra de que aqui venho falar, pois é sabido que sem esse empenho não seria possível tão útil publicação. Se cada povo se mede pelas obras culturais que produz, Água Retorta está de parabéns pelo exemplo que dá aos outros povos desta Terra.
Vejamos vários aspectos da vida dos nossos avós que transpiram destes extractos que Meireles pacientemente extraiu dos registos paroquiais, facilitando-nos uma tarefa que sem ele seria quase impossível. Comecemos pelos apelidos de família que o passado nos envia, vestígios arqueológicos duma história que só por si prova a nossa existência.
Achadinha
Abelha
Aguiar
Albergaria
Algarvia
Algarvio
Almeida
Amaral
Amaro
Amorim
Arcénio
Arruda
Baganha
Bande/Bondé
Barbeiro
Bento
Bernardo
Bettencourt
Bocheixa
Boliana
Bom
Bondé/Bande
Borges
Botelho
Branco
Cabaça
Cabral
Caetano
Caldeira
Calmeiro
Câmara
Carepa
Carreiro
Carrelas
Carvalho
Chicharro (com Pimentel)
Charamba
Chicharro (com Pimentel)
Corrêa
Costa
Cruz
Dâmaso
Diogo
Esteireiro
Estrela
Farias
Ferias
Ferreira
França
Franco
Frias
Furtado
Furtado
Gamboa
Garalha
Garrafa
Géna
Gonçalo
Gonçalves
Gueiro
Henrique
Jácome
Leandro
Leite
Lopes
Luiz
Macedo
Machado
Mancebo
Marcellino
Marques
Matias
Maurício
Medeiros
Melo
Mendonça
Michael
Milho (um deles Grão de)
Moleiro
Moniz
Mouro
Neves
Nogueira
Pacheco
Pachequinho
Pampoulas com Resendes
Papoula com Resendes
Patacho
Pequenino
Pequeno
Pergil/Pergile
Pimentel
Piorra
Plácido
Ponte
Quarta (com Pacheco)
Ralhão
Ramos
Rapa
Rapinha
Raposo com Branco
Rebelo
Redondo com Pacheco
Rego
Resendes
Rezendes
Ribeiro
Sanglart
Sangrador
Santos
Sardinha
Senra
Silva
Simas
Singular
Soares
Soldado
Sousa
Tabicas
Tacão
Tavares
Teixeira
Tomaz com Cabral
Torres
Valério
Vicente
Vieira
Todo um trabalho de pesquisa espera pelos curiosos nesta coisa do passado de cada família, explicação do que nós somos e, quem sabe, rumo indicado do que seremos.
Mas que fazia esta gente. Vejamos pois as suas
PROFISSÕES
Alfaiate (do Nordeste)
Barbeiro
Cabouqueiro
Cabreiro
Caixeiro
Capitão
Campóneo
Carpinteiro
Castrador
Emigrantes na América do Norte
Esteireiro
Frei (José Boa Viagem)
Frade Leigo
Igresso
Igresso Franciscano
Lavrador
Moleiro
Negociante
Padre
Padre Cura
Pastor
Pedreiro, oficial
Proprietário
Sapateiro
Taberneiro
Telheiro
Trabalhador
Sacristão
Sangrador
Sem profissão
Tecedeira
Vendeiro
Vendilhão
Mas, para além das profissões que já permitem um mundo de conclusões, é também importante verificar o lugar onde as coisas ocorreram, para se ter uma ideia mais precisa da Água Retorta de hoje, pois que esta risonha freguesia não nasceu do nada nem foi a presente geração que a construiu ou a denominou. Chama-se toponímia a ciência que estuda o nome dos lugares, de topos que quer dizer isto mesmo. Os sacerdotes eram muito cuidadosos ao descrever os lugares onde ministravam os sacramentos, com excepção daqueles que não levavam a sério os deveres canónicos, por isso o Ouvidor de Vila Franca lhes puxou as orelhas vezes sem conta. Não que eles parecessem ligar muito a isso, pois continuaram lazeiras até se reformarem, mas que a coisa ficou escrita, não haja dúvidas. Vejamos então a
TOPONÍMIA
Calvo de Santo António, lugar do Nordestinho
Caminho Direito da Lomba da Terra Chã
Caminho do Pico
Canada do Estanqueiro
Canada do Caminho Direito da Lomba da Terra Chã
Canada do Nordeste da Lomba da Cruz
Canada do Poço
Cemitério Público
Espigão, lugar do
Grota da Lomba das Fagundas
Labaçal
Lomba da Cruz (da vila do Nordeste?)
Lomba das Fagundas
Lomba da Terra Chã
Lombo da Terra Chã
Lugar do Mamado da Rocha do Pico
Poços da Terra Chã
Poções da Terra Chã
Ribeira da Lomba das Fagundas
Rocha do Sanguinal onde apareceu morto Manuel Raposo de 21 anos
Rua das Covas
Rua Direita
Rua do Estanqueiro
Rua das Fagundas
Rua da Igreja
Rua do Lombo da Terra Chã
Rua do Marco
Rua do Nordeste
Rua Nova
Rua do Outeiro
Rua do Poço
Rua dos Poções
Terra Chã
Curiosa é também a referência feita à roupagem com que eram vestidos os que partiam. Não tenho a certeza de que isso tinha alguma coisa a ver com o estatuto social daqueles mas a verdade é que dá de pensar a cor e a qualidade do tecido. Ora vejamos
HÁBITOS
Branco
Chita
Linho
Preto
Roxo (para a filha do Capitão)
A par das mortalhas com que as pessoas orientadas pela igreja ou limitadas pelas posses usavam, é curioso referir os trabalhos que os sacerdotes tinham em cumprir o seu dever de registar os últimos momentos dos que partiam deste mundo. Algumas vezes desaparecia o bilhete em que era escrito o acontecimento, outras, era a doença súbita ou o desastre ou acidente que não permitia ministrar mais que a Santa Unção. Outras, a confissão ou penitência era arrancada interpretativamente, quando o estado de saúde do crente só permitia a sinalética corporal.
Por outro lado são referidas várias doenças que vão referidas como as diagnosticaram os bons párocos, um tanto afastados dos rigores científicos da medicina académica.
DOENÇAS
Afonia
Apoplexia
Doença
Escarlatina
Em copos
Evadida pelas ondas do mar onde esteve 2 dias
Febre
Morte repentina/esmagamento/afogamento/queda na rocha
Parlesia (sic)
Parvoíce
Vómitos
Muito interessante é ver que Água Retorta era um microcosmos do país, onde vivia a sua nobreza, que existia e era tratada diferentemente do resto da população, pois apesar do liberalismo ter extinto as diferenças perante a lei, nem os costumes nem a Igreja deixaram de lhes dar um estatuto diferente. Pelo dinheiro, perlo poder ou pela influência, não sabemos. Mas que era diferente não tenhamos dúvidas. Vejamos então
A NOBREZA
D. Antónia Maurícia, mulher de José Francisco Soares d’Albergaria
D. Antónia Maurícia Gago da Câmara casada com Francisco Medeiros Albergaria, e filha de Henrique da Câmara e de D. Maria Isabel da Câmara, da Ribeira Grande
Francisco Soares Gamboa, viúvo de D. Júlia de Medeiros Gamboa, filho de José Francisco Medeiros Gamboa e de D. Antónia Maurício do Rego Câmara
Francisco Teixeira Nogueira casado com D. Maria Josefina do Singular que o sacerdote refere como “não pôde dar matéria de confissão”.
Jaime Soares Gamboa, proprietário, casado com D. Maria Luciana Medeiros Gamboa, natural da Povoação
D. Maria do Carmo Gamboa Albergaria
José Furtado de Almeida casado com D. Isabel Soares Gamboa, proprietário, filho de pai incógnito e de Angelina d’Almeida
D. Maria Henriqueta, 22 anos, mulher de Amâncio Inácio Machado, cujo enterro foi acompanhado de muitos padres e com certidões tiradas em 1870, 83 e 97.
D. Rosa, filha do Capitão José Medeiros e de D. Flora do Carmo, da Lomba das Fagundas
D. Rosa Augusta de Medeiros casada com Luís Raposo de Medeiros, proprietário, e antes com Procópio Machado, proprietário, ela filha de Duarte Soares Gamboa d’Albergaria, e de D. Maria Querubina de Medeiros, só teve filhos do 1.º matrimónio.
Esta classe social merece todo um estudo com interesse, penso eu, para o conhecimento da história das mentalidades, pois os defeitos dessa época ainda hoje perduram, por vezes até, fora do extracto social a que historicamente pertencem as pessoas que deles padecem.
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LONGEVIDADE
De 1835 a 1905 a esperança de vida em Água Retorta foi de 60 anos, facto que não deixa de impressionar, pois é dos mais altos dos Açores e talvez do mundo. Apesar disso, não resisto a sublinhar alguns casos de longevidade notória, referindo aos apelidos das famílias que o conseguiram, sempre que isso foi possível saber.
85 anos Teixeira Nogueira
85 anos Furtado Tabicas
86 anos, homem, (H) Aguiar
88 anos (H) Resendes
88 anos (H) Lopes da Silva
88 anos, mulher, (M) Resende
89 anos (M) Medeiros, doou todos bens e morreu sem filhos
89 anos Raposo, durante o enterro choveu muita água
89 anos Nogueira
89 anos mulher
90 anos homem
90 anos mulher
90 anos Thomas Cabral
90 anos Fagunda, nada tinha
91- anos em 1838
91 anos Raposo Carreiro
91 anos Torres
93 (H) Sousa
93 anos, mulher Correia Medeiros
94 anos, (M) Raposo, faleceu de vómitos
97 anos, v.ª de J Teixeira Nogueira, sapateiro
97 anos, Manuel Furtado Sardinha deixa a terça dos seus bens por sua alma
100 anos Maria de Jesus, de repente!
100 anos João Cabral
Entre 1835 e 1905 faleceram 528 pessoas de 16 anos até aos 100, e 870 crianças desde um dia de vida até aos 15 anos. Entre estas, as expostas e as de pai ou pais desconhecidos formam uma história secreta que vive entre nós e que os estudiosos talvez devessem desvendar antes que o ADN as revele…
Os expostos recebiam do Estado, depois da reforma de Mouzinho, um subsídio que o povo transformou em abono de família em que as autarquias gastavam mais do que em obras públicas. A República acabou com eles mas em Água Retorta, desde 1883 desapareceram.
Na cidade de Ponta Delgada, a casa dos expostos era na rua dos Manaias. Em Água Retorta ponham-nos à porta deste ou daquele, ignorando-se ainda o porquê da escolha. A verdade é que, em Ponta Delgada tinham número e descrição pormenorizada dos pertences.
É curioso que em 1836 morreu apenas uma pessoa em Água Retorta, o mesmo acontecendo em 1863. Naquele ano, houve a Revolução de Setembro em Portugal com a esquerda a subir ao poder, a Rainha casou segunda vez, a Carta foi suspensa, houve uma tentativa de golpe de estado, criaram-se os liceus, e Alexandre Herculano publica a Voz do Profeta. Entre nós foi criada uma escola médica, e promoveram-se as bibliotecas públicas. O que se terá passado de tão interessante em Água Retorta que ninguém sabe? É questão que deixo à curiosidade dos nossos investigadores…
Em 1863, talvez a coisa tenha mais lógica. Camilo publica o Amor de Perdição, os morgadios são extintos de vez, ardem o Banco de Portugal e a Câmara de Lisboa. Aparentemente, ninguém quis perder o relato de tais espectáculos.
Entre nós porém a coisa é mais séria, pois recomeçam os trabalhos da doca de Ponta Delgada, com emprego para milhares, o povo revolta-se contra os novos impostos que vinham a seguir a uma das maiores crises económicas de que havia memória…
E é tudo o que consegui extrair dos extractos de Victor Meireles a quem agradeço mais este serviço prestado à sua terra.
Carlos Melo Bento
Agosto de 2010

sábado, 30 de outubro de 2010

Sobre o centenário da República no Nordeste 1910-2010

Conferência proferida na Escola Secundária do Nordeste
Monarquia é, como se sabe, o governo dum só, por graça de Deus, até à Revolução Francesa e daí para diante por mandado do povo que diz quem manda. Na história, os Monarcas aguentam-se ou não conforme as circunstâncias. O nosso que vinha pelo menos desde 1143, acaba assassinado em 1908 – chamou-se a esse crime: o regicídio. Dois anos depois vêm os republicanos e a última Família Real reinante (com o rei impreparado de 19 anos de idade) foge para sempre.
Durante a monarquia, os açorianos foram muitas vezes chamados a altos cargos. Manuel Pamplona Corte Real matemático da Terceira, general do exército, conde Subserra é primeiro ministro de D. João VI (Ministro assistente ao despacho) à volta de 1821.
António José de Ávila, de filho de modesto sapateiro do Faial, forma-se em filosofia em Coimbra e chega a duque de Ávila e Bolama e primeiro ministro de D. Luís.
Ernesto Hintze Ribeiro (1849-1907), filho dum comerciante de Ponta Delgada, doutora-se em direito e chega a primeiro ministro de D. Carlos em 1893.
Começa a sua vida política parlamentar como deputado pelo Nordeste, em 1878, devido à sua amizade com António Alves de Oliveira 1847-1936, a quem se mostrou sempre grato, dotando o concelho com obras muito importantes (Câmara, Viaduto, Farol, estrada da Tronqueira, etc.).
A decadência da monarquia: o regime monárquico foi-se degradando, a partir de determinada altura. Ditados populares traduzem essa degradação que era manifesta na primeira década do século XX: “Pai rico, filho barão, neto ladrão”. Ou este outro: “Foge cão que te faço Barão; mas para onde se me fazem visconde?”.
Não obstante, os titulares foram sempre escolhidos entre pessoas de valimento quer cultural (Visconde Camilo de Castelo Branco), económico, como o Barão da Fonte Bela, ou político como o Visconde da Palmeira: Manuel Jacinto Lopes nascido nesta Vila do Nordeste, na rua com o seu nome em casa que ofereceu ao Município. Muito jovem parte para a Vila Franca, trabalha no comércio, estabelece-se por sua contra e casa com uma viúva muito rica da alta nobreza micaelense, Maria Carlota Moreira da Câmara, Viúva de Arsénio Botelho de Gusmão de quem não teria filhos. Desenvolve a fortuna, e, no ano em que o amigo de seu amigo Alves de Oliveira (Ernesto Hintze Ribeiro) chega a primeiro ministro, fá-lo Visconde da Palmeira, que era já grande benemérito e lúcido político regenerador. Estava ele como administrador do Concelho de Vila Franca do Campo quando chegou a República pelo telégrafo. Logo dá posse ao académico Mariano Arruda e é também aclamado pelo povo. Aderiu a 12 de Outubro à República tornando-se um dos inumeráveis “adesivos” nome porque ficaram conhecidos os monárquicos que rapidamente aderiram à República.
Todavia, não vai ser nordestense o primeiro cidadão nomeado para governar a décima ilha. Com efeito, João Vaz Pacheco de Castro, é o primeiro líder republicano no Nordeste para onde fora há pouco nomeado notário. Francisco Luís Tavares, o novo governador, talentoso advogado do partido Regionalista Micaelense, do grupo de António José de Almeida, encarrega-o de organizar o novo regime neste concelho. Político ousado – caudilho temido, Castro vai chamar para junto de si Horácio Moniz de Medeiros, Francisco de Medeiros Botelho, António Machado Macedo e Jacinto de Medeiros.
Enquanto Francisco Luís Tavares, com Luís Bernardo e Evaristo Menezes se encarregam, em Ponta Delgada, de expulsar as irmãs de S. José de Clunny que dirigiam os colégios femininos mais importantes da ilha e a Sinagoga da cidade faz uma bênção especial ao Presidente da República e ao governo, presidido por Teófilo de Braga, o micaelense que chegara a professor da Universidade e que se torna assim no quarto açoriano a ocupar esse elevado cargo.
A Câmara Municipal do Nordeste resolve então mudar o nome das ruas, táctica usada em todo o país. A Rua da Vera Cruz passa a 5 de Outubro; a do Prior Pereira passa a Cândido dos Reis, o almirante suicida; a do Capitão-Mor toma o nome de Miguel Bombarda que um louco, seu doente, assassinara naquela altura; a Rua do Capitão Machado muda para Machado dos Santos em homenagem ao herói republicano da Rotunda. A multi secular Praça do Município muda para da República e o Largo da Igreja passa a ter o nome oficial de Largo Teófilo de Braga.
Estão por estudar as consequências políticas da implantação da República no Nordeste mas não foi pacífica, obrigando à intervenção duma força militar que se terá demorado mais tempo que o esperado. Comandou essa força o capitão Alfredo da Câmara que foi alvo de chacota dos jornais humorísticos, como O Direito do Povo. Numa secção que intitulava Os impossíveis, este jornal de Ponta Delgada, considerava impossível saber-se como tem passado pelo Nordeste o capitão Choradinho ou impossível não se dar bem nesta Vila pois já tinha mandado fazer um pátio para as galinhas oferecidas. Como era impossível ser preciso continuar por estes sítios o terrível exército, a não ser por uma questão de veraneio. Mas a questão não é essa. No Nordeste tinha sido muito contestado o Registo Civil obrigatório, que até aí era apenas feito gratuitamente na Igreja, e que passa a ser pago.
Há alusões na imprensa da cidade a facciosismos da Câmara Municipal do Nordeste na publicação dos seus anúncios na imprensa local, no que os outros jornais chamam “o caso do Nordeste”.
Manuel Augusto de Amaral, o poeta de Água de Pau, que morava na Ladeira dos Pinheiros, em Ponta Delgada, publica então um poemeto intitulado Pátria Nova, que a Farmácia Duarte tem à venda nesta Vila.
Os nordestenses não ficam parados tentando lutar contra o seu pior inimigo: o isolamento. E a Junta Geral é obrigada a aprovar uma estrada de rodados para o Nordeste, sendo certo que o concurso do lanço Feteira Achada ficou sem empreiteiro concorrente.
Vejamos agora duas importantes figuras da República que nasceram neste concelho e aqui se criaram mas que se iriam transformar nas personalidades mais em destaque da política da 1.ª República nos Açores. Antiga família da Achada, os Francos, chegam ao século XIX, situados na classe média alta. São figuras proeminentes dessa família, o poeta e malogrado sacerdote, Manuel de Medeiros Franco que iria ter um destino misterioso e trágico, que Almeida Mello divulgou num dos seus saborosos livros, e o professor Júlio de Melo a quem certamente ficaram a dever as primeiras letras. A mãe de António e Horácio Franco destinou-os ao Seminário de Angra onde estiveram alguns anos. Todavia não era a sua vocação, tendo através das irmãs conseguido que a mãe aceitasse outro destino para os filhos. Vieram para o liceu de Ponta Delgada estudar e daqui seguiram para Coimbra onde se formaram os dois em direito. Pediram dinheiro emprestado ao Marquês Jácome Correia que pagaram religiosamente próprio e juro depois de formados. Ajudaram ainda no dote das irmãs. Foram ambos notários e advogados e políticos do Partido Republicado Português que ficou na história como partido democrático de Afonso Costa.
O mais velho deles António de Medeiros Franco, 1882-1959, forma-se em 1911; orador eloquente, poeta inspirado (Quando se acorda de um sonho/Feito de Luz e Esperança/É doce o hino risonho/dos beijos duma criança), grande escritor e músico notável, tendo chegado a reger o Órfeon Académico de Coimbra, em Paris.
Deputado (1915/17), Senador da República 1922-1925 (chega a ser convidado para Ministro, lugar que recusou), consegue ampliar os poderes das Juntas Gerais permitindo-lhes vender bens sem autorização prévia de Lisboa para aquisição de material hospitalar. É nomeado Governador Civil de Ponta Delgada em 1917 quando a revolução de Sidónio Pais o afasta.
A escola da Achada tem o seu nome.
Seu irmão mais novo, Horácio de Medeiros Franco, 1888-1952, é ajudado por ele e, segundo promessa feita no leito de morte de seu Pai, terá o mesmo percurso profissional e político. Foi Governador Civil de 1921-1923. Era maçon iniciado em 1914, com o nome secreto de Augusto Conte, da Loja Companheiros da Paz, de Ponta Delgada, onde teve a categoria de venerável no período mais difícil da existência daquela organização clandestina: 1926-1932. Salazar não lhe perdoou a ousadia e acabou castigando-o através dum processo cujos contornos ainda hoje estão por esclarecer.
Foram tão importantes no seu tempo, estes irmãos Francos que os adversários diziam que a Junta Geral que eles dominavam, valia pouco: - Só dois francos, que ao tempo era a moeda francesa.
Gostava, para acabar, de lhes ler agora um decreto forjado pelo jornal humorístico Direito do Povo, que mostra bem o clima da época, na altura em que se deu o contra ataque dos monárquicos e em que tudo parecia incerto, nas hostes republicanas:
D E C R E T O
Considerando, quão funesta foi a monarchia, demolida em 5 de outubro de 1910; e considerando que o novo regimen precisa de uma vez para sempre ficar ficar implantado em Portugal e nas ilhas adjacentes…
Considerando que, para tanto é preciso eliminar tudo o quanto recorde o antigo regímen
“O Direito do Povo, jornal de maior circulação em S. Miguel faz saber que de accordo com o Governo Provisório da Republica Portuguesa, decreta para valer como lei o seguinte:
Art.º 1 – É abolido para todo o sempre a realidade dos factos…
ART.º 2 – O adverbio realmente, passando-se provisoriamente a dizer: democraticamente.
ART.º 3 – Nas escolas fica banido o ensino da prova real…
ART.º 4 – Nos jogos de cartas não podem figurar os Reis, sendo em S. Miguel substituidos pelos democratas: Martins – az de paus, Pedro – de espadas, Amâncio – de ouros, - e Cláudio – de copas…
ART.º 5 – É abolido o real d’agua e todos os Corte Real…
ART.º 6 – Não são válidos desde o presente decreto os nomes Luiz dos Reis, Germano S. dos Reis, Anthero dos Reis e outros, podendo ser substituidos por nomes de revolucionarios.
ART.º 7 – Nas propagandas republicanas não se pode dar vidas ao Sr. Capitão Reis, podendo dizer-se Viva o Sr. Germano Republicano.
ART.º 8 – São abolidas as corôas e os 500 reis passando em S. Miguel a valer 500 Franciscos, Brunos etc…
ART.º 9 – Pelo preceituado no art.º anterior os padres passarão a abrir em vez da dita um R grande quer dizer republica (que diz só Custodi).
ART.º 10 – Pela mesma razão são abolidas as coroas funerárias.
ART.º 11 - Fica proibido d’hoje para o futuro fazer-se corte seja a quem for…
ART.º 12 - As bandas fanfarras tunas, deixarão de ter regentes…
ART.º 13 - Fica banida a epocha do Carnaval por ser o tempo da Reinação.
ART.º 14 – A agua das Lombadas passará a chamar-se em vez da Rainha das aguas a cidadã agua do Salazar.
ART.º 15 – É proscripto para todo o sempre as palavras Deus… santo… e reino dos ceus. Assumindo aquela presidência o Evaristo com a língua de fora.
ART.º 16 – Nos jornaes não se dirá: amanhã realisa… uma conferencia F… mas amanhã Francisca-se… Germanisa-se…Martinisa-se etc.
ART.º 17 –Fica revogada a legislação em contrario.
Que todas as auctoridades façam imprimir, publicar aos jornaes em circulares e fixar nos logares públicos.
Dado na Rua do Gaspar na presença da policia toda, aos 13 de maio de 1911. Pelo Governo Provisorio
O Jornal O Direito do Povo
E agora a sério, transcrevo um anúncio importante do Diário dos Açores de Outubro de 1910:
Aos bons republicanos: vinho de cheiro do melhor só na rua da Louça!”
Tenham um bom centenário.
Carlos Melo Bento - 4 de Outubro de 2010

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Luís Filipe da Cota Moniz

Discurso proferido na festa de despedida do Dr. Luís Filipe da Cota Moniz por Carlos Melo Bento, Angra do Heroísmo, 17 de Abril de 2010.


Começo por agradecer à D. Margarida Andrade a honra do convite para esta bonita e bem organizada festa e o privilégio de poder falar-vos sobre uma pessoa a quem me ligam os indestrutíveis laços da amizade.

Amigos

Já lá vão tantos anos que nem sei quantos são os que passaram sobre o nosso primeiro encontro. Bem mais novos éramos certamente que nem cabelos brancos tínhamos. Tratava-se de erguer o primeiro Conselho Distrital dos Açores da Ordem dos Advogados Portugueses.

Os colegas de Ponta Delgada haviam-me encarregado de os representar na constituição dessa primeira equipa que iria ressuscitar o velho Conselho, extinto nos tempos super económicos do salazarismo. Timidamente, contactei o velho tribuno terceirense com quem há pouco me enrolara em acesas disputas políticas televisivas. Álvaro Monjardino, dez anos mais velho do que eu, mas com uma aparência pelo menos uma década mais jovem; indicou-me dois nomes para esta aventura forense não remunerada mas com altas exigências morais e deontológicas: António Fantasia e Luís Filipe da Cota Moniz.

Aceite o inusitado convite, começou uma colaboração que haveria de desaguar numa amizade sólida, até hoje. Lembro-me com emoção do primeiro cartão que me mandou e que guardo com o desvelo das coisas boas da vida. Lá vamos, dizia ele, servir então estes Açores, “cemitério das nossas ilusões”.

Ao princípio, a frase chocou-me porque os Açores para mim foram desde sempre uma divindade em altar incensado, templo de irmãos de história e geografia, aventura infinita de portugueses antigos para aqui mandados para continuar Portugal, nos confins do mar tenebroso que ajudámos a desvendar.

Abandonados, explorados e ignorados durante mais de cinco séculos, tínhamos seguido de perto as situações na Mãe Pátria a ponto de, por diversas vezes, termos corrigido rumos e ditado soluções ao país inteiro. Sempre esquecidos depois de precisarem de nós, foi preciso arranjarmos uma solução que nos permitisse resolver sozinhos os problemas. E não temos dado má conta do recado. Por isso, ao responder-lhe àquele grito de desânimo apelei aos nossos valores que nos têm mantido amigos desde então.

E foi com esse espírito de servir os açorianos que andámos de ilha em ilha, algumas vezes adiantando do nosso bolso as despesas de deslocação e estadia, reunindo, deliberando, erguendo a advocacia, a mais mal tratada da profissões, mas a mais nobre delas todas, ao patamar a que tem direito entre o concerto das profissões humanas.

Quantos dramas pudemos apreciar e julgar! Quantas soluções arranjámos para situações difíceis e complicadas! Quantas lágrimas enxugámos e quantos gritos de alegria despertámos com bom senso e prudência! É que, aos advogados se pede que emprestem a voz aos que dela não sabem fazer uso. E, muitas vezes, fazem de nós os bodes expiatórios da maldade dos que nem sempre se sabem conduzir dentro das regras do bom comportamento humano e nos usam para a defesa dos seus interesses inconfessáveis.

Não quero com isto dizer que sejamos todos anjos que todas as profissões têm as suas ovelhas negras. Mas há entre a maioria dos advogados, felizmente, gente séria e respeitável, embora nem sempre as pessoas tenham consciência dos trabalhos e das agonias que passamos para lhes defender os direitos e as causas. Quantas noites sem dormir pensando nos problemas dos outros? Quanta canseira e tormentos passamos à espera duma sentença ou dum despacho que teima em não chegar apesar dos esforços? Quantas derrotas inesperadas quando tudo parecia indicar que tínhamos levado a bom porto a causa que com tanta esperança depositaram nas nossas mãos, confiados no nosso saber jurídico e na experiência da barra dos tribunais? Quantas desilusões e decepções nos ofereceram o tempo e as pessoas?

Mas, cansados e esgotados, quanta alegria trouxemos a quem tivemos a sorte de conseguir ganho de causa. E são esses momentos em que conseguimos com o nosso modesto esforço que se faça justiça que nos compensam a espinhosa missão de advogar. E compensam plenamente.

Mas estava eu a falar-vos das nossas reuniões por esse Arquipélago de Deus. Foram tantas as ilhas que calcorreámos em inolvidáveis companhias de colegas que recordo com tanta saudade. O Dr. Manuel Linhares de Andrade, velho tribuno da Horta, príncipe entre os príncipes de educação cuja narrativa empolgante extasiava sem cansaço. Era vê-lo no seu Pico deslumbrante, cicerone documentado de novas e velhas histórias, congregar reuniões magnas com gastronomias de mestres consabidos e tocadores de guitarras encantadores que mitigavam a aridez dos casos que trazíamos entre mãos.

Eduardo de Oliveira, hoje tão doente, sempre preocupado com o dia a dia duma enorme família.

António Fantasia com a sua inteligência viva e permanente preocupação jurídica dos que fazem do direito e apenas dele a sua razão de viver.

Foi a festiva inauguração da nossa sede de Angra com a excitação de quem cumpre uma etapa importante na evolução duma instituição. E paro aqui um pouco para falar se me permitem, nos terceirenses, aqueles que marcaram a fogo a nossa história com tomadas de posição únicas no país cujo destino traçaram a partir deste torrão sagrado. Isso deu aos terceirenses uma tão interessante maneira de ser que não resisto a prestar dela o meu testemunho, tão entranhada ela está no nosso homenageado que me parece servir-lhe como boa luva.

Os terceirenses são o músculo da coragem e audácia da nossa inteligência e cultura colectivas. E têm sempre presente o que nos momentos cruciais fizeram; ora nos tempos sanguinários do Prior do Crato em que a nossa capital histórica foi passada à espada por ter tido a ousadia de permanecer portuguesa quando o resto do País se vendeu ao Castelhano.

Ou nos tempos da revolução liberal em que o País inteiro aclamou o usurpador e Agapito Pamplona, proclamou que, se ele estava ali proclamado, não o estava na ilha Terceira. E o País foi obrigado por essa vontade inquebrantável a banir os que se opunham ao progresso e às luzes do entendimento.

Por isso, Cota Moniz sempre tomou em público ou em privado postura de corajosa frontalidade jamais recuando perante obstáculos que pareciam intransponíveis. Sei que enfrentou aqui a velha questão da rivalidade entre as nossas duas ilhas. Em S. Miguel batia em nós de caras e sem medo. Na Terceira defendia-nos quando tínhamos razão.

E é esta sua postura que me faz permanecer a seu lado quaisquer que sejam as circunstâncias que nos afectem. A unidade dos açorianos é um bem sem preço que todos devemos proteger porque se não estivermos unidos de nada valeremos perante os inimigos poderosos e numerosos que nem precisam estar juntos para serem mais e mais fortes que nós.

Isto não quer dizer que não defendamos os nossos interesses particulares, puxando para a nossa ilha tudo a que ela tiver direito. Mas as nossas divergências devem conhecer tréguas quando o interesse geral estiver em perigo.

Frontalidade, coragem, honradez e lealdade, eis as qualidades do nosso homenageado que o transformaram em objecto de veneração, como homem, como colega e como servidor do estado que o foi sempre com o mais alto espírito de escravo das leis cujo cumprimento porém tem temperado com os meios que a cultura e o bom senso põem ao serviço do homem, pois que as leis se fizeram para os homens e não os homens para as leis, sob pena de se criarem regimes desumanos e implacáveis que não servem de nada nem a ninguém.

Como advogado, temos um jurista competente e um orador inspirado, com a palavra fácil e adequada à descrição rigorosa dos factos e à explanação científica do direito aplicável, tudo servido por um espírito independente insusceptível de subserviências ou lisonjas vãs.

Crítico quanto baste de ideias e de pessoas, sem que isso jamais o tenha levado ao desrespeito por colegas ou magistrados ou funcionários. Mereceu sempre, por isso o respeito geral.

Exigente que sem isso somos empurrados alegremente para um laxismo suicida e tolo. Não é por se facilitar o estudo das questões ou por se aligeirar as soluções encontradas que alcançamos o sucesso. As gerações mais novas têm a natural tendência para achar as exigências de rigor e eficácia como rabugices dos velhos mas acreditem que, se pode haver exageros condenáveis, a total ausência de exigências de qualidade não nos levam a bom caminho, apenas facilitarão a vida aos nossos inimigos que a vida, hoje em dia, mais que nunca, não é vivida no jardim do paraíso, mas é uma luta feroz, numa selva de interesses onde só sobreviverão os mais fortes.

E para que os vencedores não sejam apenas os que sabem fazer uso da força bruta, é preciso reconhecer nos homens, como Luís Filipe da Cota Moniz, que exigem tanto dos outros, como exigem de si próprios, o espaço que merecem as pessoas de bem, portadoras de inteligência viva e de robusta cultura.

Terceirense ilustre, açoriano dos quatro costados, colega leal, amigo precioso, bem-haja pelo seu exemplo, pela sua amizade e por ter enriquecido as nossas vidas com a sua maneira de ser.

Angra do Heroísmo 2010-04-17
Carlos Melo Bento

domingo, 17 de outubro de 2010

Homenagem à Soprano Açoriana Eulália Mendes

Senhora Presidente da Câmara Municipal, Dr.ª Berta Cabral
Senhor Vereador para a Cultura José Andrade
Senhor Secretário-geral da Fundação Sousa d’Oliveira, Dr Almeida Mello

Senhoras e Senhores

Eulália Maria Arruda Arraial Bettencourt Mendes nasceu na Praia da Vitória, a então risonha vila da nortenha da celebrada Ilha Terceira de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Seu pai Manuel Arraial, aqui presente com uma saúde de ferro nas suas quase 99 Primaveras e apaixonado músico micaelense de Vila Franca do Campo, onde foi inesquecível maestro da gloriosa Banda União Progressista, iniciou a filha querida na arte de Euterpe, uma das nove musas filhas de Zeus, o rei dos deuses e de Mnemósine, aquelas mesmas que presidiam às artes liberais.
A jovem Eulália receberia mais tarde aulas de piano da professora Maria Letícia Mourato. A partir daí, o belo canto falou mais alto e, no Conservatório Regional de Angra do Heroísmo, entrou Eulália na Classe de Canto da professora Luísa Alcobia Leal. Em 1990, após vários anos de apurado labor, prestará provas de exame no Curso Superior daquela prestigiada instituição e obtém a elevada classificação de 19 valores na licenciatura.

A sua preparação musical não parou pois vai então trabalhar com as consagradas professoras Helena Pina Manique, Joana Silva, Cristina Castro e Liliana Bizinech ao passo que frequenta a Master Class dirigida pela internacionalmente famosa Ileana Cotrubas.

Os Açores são então o seu palco privilegiado, participando em todas as ilhas em concertos e recitais e, como solista, colabora com vários agrupamentos corais e instrumentais.

Em 1992 realizou, em Lisboa e Porto, os recitais de lançamento do livro do grande mestre da música portuguesa, Lopes Graça. Não foi por acaso que Eulália Mendes foi a escolhida para abrilhantar essas cerimónias com a sua inimitável interpretação da “Lira Açoriana”.

Foi muito aplaudida a sua actuação no concerto integrado nas cerimónias de comemoração do 25º aniversário da geminação de Angra do Heroísmo com Tulare, na Califórnia, em que Eulália Mendes, foi acompanhada pela Orquestra Sinfónica daquele condado americano, em que cantou as “Trovas”, êxito que foi repetido em Visalia, com a mesma orquestra.

Ficou também na história da música açoriana a sua participação nas I Jornadas Musicais sobre Francisco de Lacerda, no 1º. Ciclo do Órgão dos Açores e na série “Concertos no Palácio” na sede do Governo Açoriano em Santana.

A sua carreira atingiu um dos pontos mais altos quando integrou a representação açoriana à EXPO98 realizando, acompanhada pela consagrada pianista açoriana Ana Paula Andrade, no Dia dos Açores, em que realizaram um recital de canto e piano integralmente preenchido com obras de poetas e compositores açorianos.

Como solista, interpretou a “Missa de Santa Cecília” de Charles Gounod, dos “Stabat Mater” de Gioachino Rossini e Giovani Battista Pergolesi, do “Requiem pro defunctis” de Domenico Cimarosa, da “Missa brevis em Sol maior” KV140 de Wolfgang Amadeus Mozart e do “Oratorio de Noël” de Camille Saint-Saëns.

Nos concertos e recitais que efectuou foi acompanhada por Ana Paula Andrade, Antoine Sibertin-Blanc, António Duarte, António Teves, Cristiana Spadaro, Dora Vidack, Duarte Rosa, Galina Bolkovitinova, Gustaaf Van Mannen, Jannen Hoffman, Les Bundy, Lúcio Medeiros, Luís Loura, Margarida Magalhães de Sousa, Maria João Carreira e Svetlana Pascoal.

Actuou ainda, em diferentes projectos musicais, com as Orquestras de Câmara, da Academia Musical da Ilha Terceira, da Câmara Municipal de Ponta Delgada e Horta Camerata, da Orquestra Clássica da Madeira, Tulare County Shymphony e Banda Militar dos Açores e com os Coros Padre Tomás de Borba da Academia Musical da Ilha Terceira, dos Conservatórios de Angra do Heroísmo e Ponta Delgada, Coral de S. José e da Associação Musical Edmundo Machado Oliveira e First Baptista Chorus, da Califórnia.

Por deliberação de 2 de Junho de 1999 a Câmara Municipal da sua cidade natal agraciou-a com a medalha de Valor Cultural e espero bem que não tenha sido a última, pois senhora Presidente, a cidade que escolheu para viver pode bem conceder-lhe o galardão que o seu enorme talento artístico merece.

Depois de, entre 1985 e 1990, exercer funções de animadora pedagógica de Música na Secretaria de Educação e Cultura, leccionou durante 5 anos Expressão Musical no Departamento de Ciências da Educação da Universidade dos Açores.

Tenho por Eulália Mendes a admiração devida à mais maviosa voz açoriana do seu tempo. Mulher encantadora cantou e encantou nas cerimónias religiosas dos casamentos dos meus filhos em 1995, na histórica Igreja de Santo André de Vila Franca do Campo, em 1996 na reconstruída ermida da Mãe de Deus de Ponta Delgada e, em 1999, na Capela Real de S. Pedro desta cidade, e mais tarde no baptizado do meu neto mais velho, meu homónimo, nesta mesma Capela. Já em 2009, quando celebrámos o centenário de meu Pai, Alfredo de Melo Bento, foi a sua voz que se ergueu na Matriz de Vila Franca do Campo, a Igreja dos nossos antepassados (dos dela e dos meus) enchendo as nossas almas da alegria que só o belo canto transmite. A divina voz desta soprano maravilhosa transformou, simples cerimónias religiosas, em momentos altos das nossas vidas em que todos nos sentimos mais perto do criador em momentos cruciais das nossas breves existências.

É certo que os artistas que a acompanharam em tais actuações partilharão naturalmente dos louros alcançados mas a ela se ficou a dever a mais alta expressão musical atingida pelo trabalho dessas harmoniosas equipas.

Ainda se não me apagaram da memória as lágrimas que choramos, aquando da missa de requiem por um colega advogado faialense que desapareceu tragicamente no desastre aéreo de S. Jorge, tal foi o sentimento e a perfeição que a sua voz magoada atingiu em tão triste ocasião. Nunca se tinha ouvido nada assim e temo mesmo que nestas ilhas nunca mais se torne a ouvir coisa tão comovedora.
Por último, queria dizer que a Fundação Sousa d’Oliveira se orgulha de conceder ao soprano Eulália Maria Arruda Arraial Bettencourt Mendes o diploma de membro de honra, da sua classe das artes, cujo diploma gostaria que lhe fosse entregue nesta cerimónia pela senhora Presidente da Câmara já que quis com a sua presença premiar a maior cantora açoriana.
Obrigado a todos.
Carlos Melo Bento
2010-10-15

terça-feira, 20 de julho de 2010

A Escritora Cândida Arruda Botelho

Senhor vice-Presidente da Câmara
Escritora Cândida Arruda Botelho
Minhas Senhoras e meus senhores

Gostaria de começar por sublinhar a presença do senhor vice presidente nesta cerimónia e o significado que temos de retirar desse facto, pois que os poderes públicos raramente dão o seu apoio a iniciativas culturais desta natureza. Apraz-me registar a postura diferente da Câmara de Ponta Delgada que vem acarinhando com cuidado e atenção tudo o que diz respeito à nossa preciosa cultura, o único bem verdadeiramente valioso que a humanidade conquistou à natureza, e faço votos para que a promessa da Senhora Presidente, Dr.ª Berta Cabral, de conseguir para esta Biblioteca uma estrutura física que satisfaça melhor as imensas iniciativas que aqui têm tido lugar, tenha a sua concretização a breve trecho.
Agradeço ao Dr. José de Almeida Mello, digno e dinâmico director desta Biblioteca Municipal, a gentileza deste convite para apresentação do livro de Cândida de Arruda Botelho, D. Pedro I Navegando Pelos Açores, oportunidade que aproveito para falar dum problema histórico ligado à Família da escritora, nesta ilha, onde, por volta dos anos 40 do século XV chegou o primeiro e mais ilustre dos Botelhos açorianos, que Canto da Maia esculpiu em bronze e que o grande benemérito Visconde Botelho, José Honorato, ofertou à primeira capital de S. Miguel.
Com efeito, Gonçalo Vaz Botelho, o Grande, por o ser de corpo e alma, era filho de Pero Botelho, Comendador-mor da Ordem de Cristo. Convém aqui esclarecer que a Ordem de Cristo, em Portugal herdeira da Ordem dos Templários que o Papa extinguiu, era a mais importante, rica e poderosa das Ordens Militares portuguesas, à qual presidia o Infante em pessoa. As outras Ordens eram as de Avis, Santiago de Espada e Crato (esta apenas um priorado teoricamente dependente da sua congénere espanhola) que, obrigadas a manter cada uma pelo menos cem cavaleiros combatentes, e seus cavalos de batalha, constituíram no Alentejo uma formidável e imbatível muralha humana no tempo da reconquista. Os Mestres e Priores destas Ordens foram sempre poderosas figuras geralmente da Família Real.
Ora, o Chanceler mor da Ordem de Cristo era uma espécie de general e certamente o mais poderoso deles. Num tempo em que isso era decisivo, ser-se filho dele não era coisa de pouca monta e por isso, o Infante, Mestre da Ordem, o enviou a povoar S. Miguel, ilha que por ter sido descoberta por Gonçalo Velho lhe foi dada e aos seus sucessores.
Gonçalo Vaz Botelho, por ser tão abalizado fidalgo e muito favorecido na casa do infante D. Henrique, recebeu esse encargo (com outros fidalgos) para o fazer, de sua nobre geração. Aqui onde chegou dez anos depois do descobrimento, trazia consigo sua mulher já grávida do primeiro micaelense, e dela teve pelo menos mais quatro filhos.
De todos os primeiros habitantes que desembarcaram na Povoação ele era o mais velho e tinha muita autoridade entre eles.
Assim, não há dúvida portanto que Gonçalo Vaz Botelho, que era Fidalgo de “marca”, foi um dos principais povoadores desta ilha de S. Miguel, e foi tão feliz aqui que chegou a ter duzentos moios de renda. Dos cinco filhos homens (porque das filhas nada diz Frutuoso), o quarto chamava-se João Gonçalves Botelho, foi casado com Isabel Dias da Costa, de que houve os filhos seguintes, João de Arruda da Costa, morador em Vila Franca, homem muito principal e rico, nesta ilha, o qual casou com Catarina Favela, natural da ilha da Madeira, irmã de Margarida Mendes, da cidade da Ponta Delgada; se calhar é deste filho que descende a nossa escritora, pois os outros filhos, Pero da Costa, deitou-se ao mar para sustentar Arzila e a filha, Maria Roiz, casou com Rui Martins Furtado, de que houve dois filhos, grandes de corpo, muito valentes, discretos, músicos e bons cavaleiros. Os Arrudas da Costa foram uma das mais poderosas famílias açorianas e mesmo assim não escaparam ao destino brasileiro que arrastou para a sua infinita imensidão milhares de açorianos, ora à busca de ouro ora de aventura.
As armas, dos Botelhos, símbolo que distinguia, nesse tempo, as famílias mais importantes umas das outras, foi portanto e também o dos seus descendentes, têm o seu brasão, e são as seguintes: um escudo com o campo de ouro e quatro bandas de vermelho; elmo de prata aberto, guarnecido de ouro; paquife de ouro e de vermelho; e por timbre um meio leão de ouro, banda de vermelho, e alguns têm por diferença uma merleta de prata. Os primeiros descendentes dos primeiros povoadores foram homens poderosos, ricos e abastados, e tiveram grandes casas, vivendo à lei de nobreza, com cavalos, criados e escravos, e grande família.
O problema que sujeito à vossa consideração, consiste nas relações entre Gonçalo Vaz Botelho e o Capitão do Donatário.
O primeiro Botelho não chegou aqui sozinho; com ele vieram outros fidalgos, dos quais, refiro, Gonçalo de Teve Paym, filho Gonçalo Dornelas Paim, que veio para esta ilha mandado pelo Infante, a cuja casa pertencia, que lhe deu grandes poderes para repartir e dar terras, e com o cargo de almoxarife (uma espécie de Director de Finanças), que foi o primeiro a desempenhar; portanto foi este Paim e não outro com o Capitão, em nome do Rei, quem fazia as dadas das terras e a repartição delas.

Gonçalo Botelho, portanto, apesar de ser o mais importante dos povoadores e a ele ter sido concedido um rendimento enorme, não aparece com o importante cargo de dar terras e apenas (o que não era pouco) com o de ouvidor do capitão da ilha. Com poderes para dar terras só o Paim e o capitão do donatário, ou seja, Gonçalo Velho, até perto da morte do infante em 1460, João Soares de Albergaria, dessa data até 1474, e Rui da Câmara, outro grande povoador, a partir dessa data em que compra a ilha ao Albergaria. Só com a chegada do Câmara terão surgido problemas, pois os poderes do capitão do donatário eram imensos e só os direitos adquiridos dos primeiros fundadores poderiam, de certo modo, opor-se ao novo senhor da ilha que foi o único deles que passou a residir nela e a mandar de facto. É toda uma questão que está por desvendar e que espero os investigadores universitários esclareçam para se poder perceber o relacionamento destas duas grandes famílias cujo destino não foi o mesmo.

Quanto à autora propriamente dita, a Professora Cândida Arruda Botelho, sabemos pela pena do embaixador Sérgio Telles, que é escritora consagrada, pesquisadora competente, olhar sensível, talentosa reconstrutora de ambientes e de personagens a que dá vida e lugares a que dá cor. Intérprete profundamente brasileira do nosso D. Pedro, o Homem que terminou definitivamente com a escravatura nos Açores, que libertou o Corvo da servidão, que nos deu o Tribunal da Relação, e semeou a autonomia com que caminhamos para a emancipação açórica.

Do livro direi que é uma recolha interessante de informações importantes da estadia do Imperador entre nós e da obra que ele estimulou e aprovou. Eu próprio já tinha percorrido os caminhos da investigadora brasileira, na esteira dos do rei, da sua corte e das suas leis revolucionárias e posso testemunhar os difíceis obstáculos que Cândida Botelho ultrapassou para nos dar uma visão mais completa do homem do fico e da independência ou morte, o último e único brasileiro que governou dois impérios e que empurrou à força os portugueses para a frente, retirando-os duma apagada e vil tristeza em que viveram tempo de mais.

Dou os parabéns à escritora, e dou-lhe as boas vindas à terra dos seus maiores, porque aqui, está sempre em sua casa.
Ponta Delgada 14 de Julho de 2010
Carlos Melo Bento