Mostrar mensagens com a etiqueta Açoriano Oriental 2010. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Açoriano Oriental 2010. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Dez mais de 2010, segunda parte


Vejamos agora no campo da ciência quem se destacou este ano. Muitos são os ecos que nos chegaram da excelência do trabalho efectuado no Departamento de Oceanografia e Pescas da nossa Universidade, pólo da Horta que Frederico Machado ajudou a fundar. E, de facto, o seu mais alto responsável, Ricardo Serrão dos Santos, em razão do trabalho desse departamento universitário que dirige, foi convidado para integrar o prestigiado Conselho Científico do Instituto Oceanográfico de Paris juntamente com os outros nove cientistas europeus que o compõem. Justa consagração para quem elevou bem alto o nome dos Açores em terreno de tanta complexidade e debate. Na pessoa de Serrão dos Santos (lembrando os seus notáveis colaboradores), é justo colocar o título de cientista do ano. Como contista sublime, escolho Daniel de Sá, cuja escrita atingiu a perfeição da simplicidade (o seu último conto de Natal é uma obra prima), a beleza dum estilo inimitável e a medida universal do açorianismo, esse sim, património da Humanidade. Para político do ano, a escolha não é fácil porque Carlos César apenas cumpriu, corajosamente é certo, mas o que era a obrigação do seu alto cargo. Sérgio Ávila, porém, ergueu-se, sem descurar a sua postura como terceirense, a um patamar de mentor do ritmo seguro da política açoriana, que fundamentou (sempre que teve de falar no Parlamento) com lógica e equilíbrio, uma opção divergente porque indispensável à defesa dos nossos legítimos interesses colectivos. É para ele, portanto, a palma de melhor político de 2010. O acontecimento do ano não pode deixar de ser a deliberação dos grupos parlamentares do PS, CDS/PP, BE (cuja líder continua a marcar pontos) e do PCP, pela confirmação (não obstante as pressões políticas em contrário) do vetado Orçamento de 2011. Bom Ano.
Carlos Melo Bento
2010-12-28

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Dez mais de 2010

Há sempre entre nós pessoas que se distinguem de forma a deverem ser apontados como exemplo a seguir, se quisermos melhorar o nosso viver. Vislumbrá-los entre o dilúvio de críticas que todos os anos chovem contra nós, não é fácil mas não é impossível. O melhor jornalista de opinião, de belo estilo, contundência, coragem e verdade no amor à Terra dos nossos pais foi sem dúvida Jorge do Nascimento Cabral cuja morte em plena idade da sabedoria ainda o elevou mais pelo tremendo vazio que deixou. Dos artistas, saliento o fotógrafo José António Rodrigues por trabalhos como as Sete Maravilhas, de Almeida Mello e Dos Vulcões dos Açores, de Victor Hugo Forjaz e Zilda França. Empresário apontaremos os Euromotas como exemplo de dinamismo e profissionalismo, traduzido num grande investimento na Ribeira Grande em plena época de recessão, exemplo de coragem e confiança no futuro de todos nós. O livro mais belo que se publicou este ano foi o Minha Ilha, Minha Casa, do florentino Alfredo Luís 1902-1977, (traduzido do inglês Home is an Island, publicado na América, em 1951, como Alfred Lewis), grito de alma dum açoriano genial, forjado na Ilha das Flores, romancista, contista e dramaturgo. Patrícia Carreiro, Emanuel Botelho e Álamo de Oliveira, também produziram obras de vulto, no romance (aquela) e na poesia (estes) mas fiquei-me pelo Alfredo Luís pois a sua leitura tem muito da violência telúrica que fabrica o nosso espírito, nele acossado pela diáspora açórica. João Ponte continua a ser o autarca que se distingue pelo equilíbrio, isenção e dinamismo e foi ele que em 2010 voltou a merecer a palma. Para desportista do ano proponho o angrense Pedro Bartolomeu que no quadriatlo (natação, cayak, ciclismo e corrida) ficou entre os seis melhores do mundo, praticamente sem apoios oficiais! Dos outros direi para a semana. Bom Natal.
Carlos Melo Bento
2010-12-21

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Água suja

Não sei que sentimento me invadiu quando das declarações de Jorge Miranda, pai biológico da Constituição, sobre a polémica gerada na ajuda à classe média açoriana que o Parlamento decretou. Que ia considerar inconstitucional, era adquirido. Que tivesse a temeridade de o justificar com argumentos jurídicos, parecia impossível. Um professor universitário, em fim de carreira (ele andava na Faculdade um ano ou dois à minha frente e eu já faço este ano o “curioso número”), não vai deixar ir o seu eventual prestígio desaguar no mar dos fanatismos onde tudo é “lixo estruturado”. Enganei-me. Que o princípio da solidariedade e da igualdade tinham sido violados. Pois sim! Então, lá porque um concidadão nosso passa fome, os outros todos têm de ser solidários e passar fome com ele? Que raio de conceito jurídico! Ainda se fosse dar-lhe de comer ainda vai que isso sim é solidariedade. Agora, porque o Jorge Miranda morre de sede no deserto do Sará onde a sua má cabeça o levou sem cantil adequado, eu tenho que morrer de sede aqui, que chove todos os dias como se sabe pela lúcida previsão meteorológica diariamente elaborada de Verão e Inverno. Já a regra da igualdade, aí sua excelência tem toda a razão. É preciso retirar a todos os funcionários da administração central os subsídios que aqui recebem há anos que isso não se faz. Jorge Miranda dixit. E devolver os que receberam desde que concebeu a dita filha biológica (1976!). Ora, valha-me Nossa Senhora, como diz Eduardo de Medeiros quando certo social-democrata lhe manda notas para o Alevá. A igualdade em situações desiguais é coisa diferente de alinhar por baixo. Para que uma rapariga baixa fique na passerelle da altura da mais alta, dá-se-lhe sapatos altos, não se corta os pés à outra. Só que estamos como na fábula do lobo e do cordeiro: se não foste tu foi tua mãe quem sujou a água.
Carlos Melo Bento
2010-12-14

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Firme, Presidente!

O 6 de Junho da esquerda democrática era esperado. É que, estando a esquerda no poder, haveria de chegar o momento em que os interesses dos Açores teriam de conflituar com os do resto do País e, então, os nossos esquerdistas teriam que decidir o que tivesse de ser decidido e os outros haveriam de fazer os escarcéu do costume, com as habituais consequências. Até aqui, a esquerda centralista (!) não admitia que os Açores retirassem aos trabalhadores um cêntimo, pois que os separatistas (nome porque lá fora são conhecidos os açorianos que gostam de administrar isto sem terem de pedir licença) eram uns terratenentes fascistoides que exploravam sem consciência os trabalhadores e os mais desfavorecidos para irem depois dançar e jogar a dinheiro para o clube. A coisa virou, a esquerda subiu ao poder (e bem, diga-se) e eis que os governantes começaram a tomar as medidas que têm que ser tomadas para vivermos um pouco melhor e, apesar do muito que foi feito no social, ainda longe da média nacional. Preocupados com a previsível fuga de cérebros da classe média, chaga que sempre nos atormentou desde que somos gente, os nossos deputados criaram uma compensação para aqueles dessa classe que iriam sofrer com as diminuições salariais tornadas necessárias pela construção de mil milhões de euros em estádios de futebol e outras tolices de novos ricos que por lá se fizeram. Sérgio Ávila arrecadou algumas poupanças e chegou a altura de jogar pelo seguro e manter aqui os que mais falta nos fazem. Ardeu Troia. Que esse dinheiro era deles! Que a solidariedade etc. etc. O dinheiro não é deles, é nosso: 600 milhões das Misericórdias, 1832; 250 milhões da moeda de ouro virada papel, 1898; 50 milhões da moeda fraca em 1931; a Base etc.; o pouco que deram (vindo da Europa) nem dá para o juro. Deixem-nos governar o que é nosso. Aprendam connosco a não fazer asneiras e bico calado.
Carlos Melo Bento
2010-12-07

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Dependência

O sucesso espectacular e indiscutível da reunião da NATO em Lisboa, elevou o prestígio internacional de José Sócrates e de Portugal a um tal nível que só um ódio irracional impede certas pessoas de o reconhecer. Eis porém que as negociações sobre Lages ficam congeladas. Sabendo-se que os USA se encontram em grave crise financeira, até se percebe que eles não queiram conversas pois é de admitir que Lisboa esteja interessada em dinheiro. Só que, nós, Povo Açoriano, o único que corre o risco da existência da Base, não queremos dinheiro. Queremos outras coisas. Queremos que recebam e integrem com a dupla cidadania a que por direito natural têm direito, os repatriados que injustamente nos enviaram depois de deixarem estragar a gente sã que receberam. Queremos que nos enviem professores que ensinem aos futuros emigrantes a língua, o direito, a economia e os costumes da terra para onde continuarão a ir. Queremos que os esperem nos aeroportos os oficiais da emigração americana, para os encaminhar para os lugares certos, para que não fiquem ali apavorados em terra estranha, vítimas fáceis dos escroques que os levam a trabalhar sem seguros, sem direitos e sem defesa para sabe-se lá onde são explorados durante tempos sem fim até que percebam o que lhes está a acontecer. Queremos que legalizem automaticamente todos os açorianos ilegais há mais de 5 anos, permitindo-lhes existência legal, deixando de ser foragidos na terra da promissão, no terror de que os oficiais da emigração os descubram e os livrem de sequestradores sem escrúpulos que os chantageiam e exploram. Somos dependentes porque os outros usam a nossa independência (José de Almeida) mas exigimos justiça que entre os nossos “tutores” pode haver alguém clarividente que nos dê razão com medo do juízo da história.
Carlos Melo Bento
24XI2010

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Golpe de estado

Vivemos num clima que se aproxima do golpe de estado continuado. Dum golpe de estado financeiro-fiscal. Parece que os estrangeiros (que, como se sabe, são todos boas pessoas) olham para Portugal como uma mina, cheia de mineiros pouco espertos, a quem se pode impunemente tirar o ouro sem grandes dificuldades. Levantam-se umas dúvidas, compara-se com a Grécia, assusta-se o pagode e vão daí mais de 7% de juros da dívida pública (ou como se diz agora que perdemos parte da soberania, da dívida soberana). O estado social, criado desde Marcello Caetano, teve impulso com Cavaco Silva, Guterres e Sócrates (estes últimos duma forma mais ambiciosa já que o erário, a Europa, a banca e os mercados o permitiam). Passámos a viver muito acima das nossas posses, principalmente as classes pobres que saltaram para a antiga classe média, com casa, carro, viagens e, em certos casos, com o rendimento mínimo ou lá como isso se chama e porventura com uma piscina, para não falar nos telemóveis (mínimo 2), internet, TVCabo, jogos e o mais que antes os ricos tinham, que o sol quando nasce é para todos. Até a droga passou a fazer parte da dieta dos pobres e, quando o preço dela subiu nos insondáveis mercados onde circula, o estado passou a fornecer metadona não fossem tais cidadãos padecer da respectiva carência. As cadeias encheram-se, o crime contra o património disparou e por aí fora. Tudo corria bem no reino da Dinamarca mas, eis senão quando, um banqueiro americano borrou a pintura por causa dum roubozito que baralhou as contas e pôs a careca à mostra de certa banca nacional sempre seguidista do que de melhor se faz lá fora. Face à tragédia, uniram-se os cérebros do país em busca da salvação em mar revolto? Qual quê! Começaram a brigar como cães. Que os de fora nos ataquem, é de esperar. Que as baratas tontas comecem a disparatar, é que era mais difícil de prever e suportar.
Carlos Melo Bento
2010-11-16

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sentinelas

Sr. António Teixeira:
Hei-de defender este querido Povo, custe o que custar e a quem custar. Apesar dos milhões (da Europa) gastos na educação, existem açorianos, que não conhecem uma letra. Nesta crise serão os primeiros a emigrar e adivinha-se os trabalhos que lhes darão. Somos o melhor Povo do Mundo e não aceito que obriguem os nossos filhos, a degradar-se só porque a sua Terra os não preparou devidamente para sobreviver. Sangra o coração ver repatriados, no chão das ruas, bêbados porque ninguém lhes tratou dos papéis como era obrigação. Receberam os 250 milhões das remessas anuais, mas levam taxas por certidões que devem ser de graça! Corri risco de morte, fui preso, perseguido por ser açoriano e querer o melhor para o Povo a que me orgulho de pertencer. Sou neto de emigrante; só alguém distraído pode pensar que ofenda a quem mais amo! Vi avós chorarem por os netos os não entenderem; nem falando. Senti vergonha dos que mudaram os nomes. Não condeno. Ofendeu-se quando critiquei os que nos atraiçoaram nos anos 70, impedindo a emancipação que nos permitia governar-nos sem dependências aviltantes. Se a maioria nos apoiou, houve os que por ódio político tudo fizeram para que ficássemos dependentes de interesses alheios ao povo então esquecido. Mas a História já está a julgá-los e o quase nada que conseguimos e que tanto bem nos trouxe não foi à custa deles mas dos que a tempo e horas viram o caminho. Divulgo a nossa história em conferências, entrevistas, livros e programas televisivos, e só Deus porá fim, à tarefa de os manter conscientes de si próprios, unidos e com a dignidade a que têm direito mas é mentira que tenha pedido dinheiro para movimentos políticos e, se fui à Bermuda e à Nova Inglaterra falar, fi-lo à minha custa. Devemos evitar que o mal se repita, quando uma crise se aproxima, sem a merecermos. A defesa dos interesses açorianos consegue-se quando os açorianos se governarem e tenho tido a felicidade de o tempo me ir dando razão. Até me condecoraram. Se querer que estudem para quando emigrarem não terem que fazer tarefas humilhantes é ofendê-lo, tenho pena mas quem está errado é o senhor. Por vezes, é preciso usar linguagem rude para acordar as consciências. Somos a sentinela deste Povo. Não temos o direito de adormecer no posto.
Carlos Melo Bento

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Perigo Grave

Estão definidos os candidatos para a presidência, questão da maior importância para os Açores e para todos os açorianos. Não é indiferente para nenhum de nós qual deles apoiar, como repetidamente tenho escrito. A maior responsabilidade incumbe aos partidos na indicação do sentido do voto, tradicionalmente vinculativa para os simpatizantes e militantes, sempre ansiosos por ouvir falar quem por dever de ofício sabe mais que eles. É pois uma responsabilidade acrescida a dos seus dirigentes. O Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva quer recandidatar-se (tem sido sempre assim desde Eanes, Soares e Sampaio, a ponto de alguém já ter dito que os mandatos presidenciais duram dez e não cinco anos). Está no seu direito mas nós é que temos não só o direito mas a obrigação de ponderar se o voto nele tem alguma utilidade ou se, bem pelo contrário, é perigo grave. Como primeiro-ministro a ele se deveu uma política anti açoriana insensata. Enquanto esbanjou no continente da república milhões em demasiadas auto estradas, foi duma sovinice somítica para com o povo que votou nele maioritariamente. Não por ele, obviamente, mas pelo líder do seu partido nos Açores, João Bosco da Mota Amaral cuja obra colossal tinha mudado para melhor a nossa maneira de viver e transformado os Açores num lugar de que se deixou de fugir. Mota Amaral pediu que se votasse nele e votou-se. Cavaco Silva pagou-lhe bem, retirando-lhe dinheiro e fazendo com que o maior político açoriano em 500 anos de história, tivesse que demitir-se, para não quebrar a disciplina partidária a que jurara religiosa fidelidade e por ter ficado sem meios de governar. Salvaram-nos Guterres e Sócrates, chamados à pedra por Carlos César. Mesmo assim, já como presidente, humilhou-nos impedindo-nos de ter nome próprio! Quem se enganar agora pagará mais tarde tão insensata escolha.
Carlos Melo Bento
2010-11-02

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Constipações

O deputado comunista Aníbal Pires defendeu que os açorianos não deveriam sofrer os efeitos das medidas decretadas para debelar a grave crise que atormenta o país porque não contribuímos para ela. E tem toda a razão; disseram-no os autonomistas de 1895 pela voz de Mont’Alverne de Sequeira, disse-o este vosso criado na crise de oitenta e di-lo agora o porta-voz dos comunistas açorianos. Tivemos sempre razão. Apesar de irritantes desacertos de que padecem todas as Administrações, que aparecem como nódoas no melhor pano, a verdade é que os governos açorianos têm governado com bom senso e equilíbrio, sem desperdícios, conseguindo que o nível de vida seja incomensuravelmente mais elevado que o dos antigos regimes (monarquia, república e estado novo). Se assim é, afora a Administração centralizada (justiça, defesa etc.), para sermos justos, não devíamos pagar a factura que, bem vistas as coisas, não nos pertence. Claro que para Pires apenas importa os trabalhadores (no que parece não incluir os patrões, vistos por ele como uma corja de mandriões que nada faz senão explorar aqueles). Bem sei que de quando em vez, lá fala nas pequenas e médias empresas com alguma simpatia mas isso só para não alienar os pequeno burgueses que na revolução sempre são de alguma utilidade. Falo na posição de Pires sobre a crise porque parece que é a primeira vez que o seu partido toma uma atitude que toma em conta os açorianos como uma realidade diversa e isto (se ele não for entretanto mandado para a Sibéria!) é um avanço colossal numa mentalidade sempre fechada à nossa realidade histórica e geográfica (por esta ordem). Saúdo pois os ventos da mudança no partido de Lenine pois que, por uma janela aberta num dos extremos da casa pode entrar uma constipação benigna que infecte outros recantos menos extremistas.
Carlos Melo Bento
2010-10-25

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Mudar

Causaram estranheza as notas das nossas escolas quando comparadas com as dos restantes estabelecimentos de ensino do País. Foram humilhantes, inesperadas, embaraçosas. Mas o que correu de errado? Foram os programas? Foram os professores? Foram os alunos? Foi a nossa sociedade laxista e computorizada com os meninos agarrados à Internet de manhã à noite e os pais nas tintas, no afã de darem tudo aos meninos sem nada pedirem em troca? Vai lá saber-se. Mas alguma coisa tem de ser feita de imediato, porque se nós perdermos a juventude, está tudo perdido. Bem podemos arriscar a vida e a liberdade que será tudo em vão, porque se os nossos filhos tiverem piores notas que os filhos dos outros, não tenham dúvidas que vão ser criados destes. Nem vale a pena pensar que a emigração é a escapatória do costume para a nossa impotência, porque ir para o estrangeiro sem instrução é condenarmo-nos a ir limpar as retretes dos outros e mais dois empregos para mandarmos os filhos para a Universidade, de onde saem com vergonha do nosso estatuto social, mudando os nomes para Franks e Rogers e não falando a língua pátria para não haver misturas com os green horns que é a alcunha que dão aos que não se fingem logo americanos ou canadianos. Sejamos justos, ganhar mais com trabalho escravo e estatuto de estrangeiro pouca felicidade dá a quem chora a tristeza do afastamento que nem todo o dinheiro deste mundo compensa. Há que concertar o que está mal no ensino e nas nossas casas. Há que exigir mais de todos: políticos, professores, pais e alunos. Muito mais. De que vale termos instalações escolares modelo, com tudo o que há de mais moderno e pedagógico, se ninguém aprende o suficiente? Somos tão bons ou melhores que os outros. Que rolem cabeças que se imponham sacrifícios de toda a sorte mas que se mude isto que não está nada bem.
Carlos Melo Bento
2010-10-19

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Sublime

Foi muito agradável saber que o PSD de Berta Cabral decidiu finalmente avançar com uma proposta autónoma de revisão constitucional que, por os interesses do Povo Açoriano o imporem, fica a divergir do restante partido. Não deve ter sido coisa fácil mas aí está: a afirmação de que a autonomia não é uma figura de retórica ou um pretexto desonesto para impedir o normal desenvolvimento dum Povo que começou por ser o mesmo mas que, transplantado para território distante, teve e tem um destino diferenciado. A autonomia é isso mesmo, é a manifestação do querer colectivo que garante a sobrevivência do que é autónomo, nos termos em que este achar adequado, oportuno e conveniente. Graves responsabilidades tem esse partido na forma e conteúdo da actual autonomia. E, pese embora que não unanimemente acolhida por todos os açorianos, a verdade é que foi ela a vencedora e que, apesar de tudo, tem feito caminho. E mal era, quando o PS finalmente no poder, percebeu o espartilho em que as suas cúpulas o tinham apertado nos anos setenta, impedindo-o de plena realização agora, e se lança numa saudável iniciativa de colocar as instituições e as leis ao nosso serviço ( e não o contrário ), que o PSD não avançasse rapidamente para o patamar, livre de instituições colonialistas, e de proibições tutelares humilhantes e antidemocráticas que foi a sua pedra de toque primordial. É um passo de gigante e podemos gabar-nos de termos assistido a mais um momento histórico da nossa vida política, em que se abre pela primeira vez a porta para o sonho de Mont’Alverne: a frente imbatível de todos os deputados insulares. É ainda uma lição para o país e para o mundo, de que a política pode ser sublime quando a servem seres de excepção.
Carlos Melo Bento
28.09.2010

sábado, 28 de agosto de 2010

MALES, BARULHOS ESTIVAIS E PRISÕES

MALES

Começaram as hostilidades para a presidência da República. Desde o liberalismo que, oficialmente, o chefe do estado apenas exerce uma função moderadora. Dá um puxão de orelhas aqui, chama um nome ali, um empurrão acolá... Oficialmente, porque, na prática, é o mais importante cargo político. D. Maria II impediu que certo político fosse nomeado primeiro-ministro que falara mal do pai, D. Carlos dissolveu Cortes, nomeou ditadores, até lhe darem cabo da vida e do regime. Américo Thomaz impediu Marcello Caetano de evoluir para a democracia e deu cabo do regime, o que era o menos; e do país, o que foi o pior. Depois da Revolução, são sem conta as intervenções do poder moderador que tudo alteraram. O de hoje não é diferente, já que as suas intervenções fazem funcionar mecanismos, de duvidosa legitimidade democrática mas eficazes. Por isso, não nos é indiferente a pessoa escolhida para o cargo. Basta uma sentença, irrecorrível (que país este em que meros juízes nomeados por critérios políticos de ocasião mandam mais que o próprio poder legislativo!), para que os açorianos não possam reconhecer-se como povo que efectivamente são? Cínica autonomia esta que dá com uma mão e tira com a outra. Os açorianos votantes ainda constituem um corpo eleitoral de respeito se votarem num só sentido. Divididos como se fizessem parte do mesmo campeonato (e não fazem, por mais que isso lhes doa) o seu peso é inócuo que o mesmo é dizer, não conta para nada. Por isso, chegou, penso eu, a altura de revermos a nossa postura se quisermos aspirar a alguma felicidade na nossa própria terra, deixando de ser aqueles que todos enganam e de que se riem, por detrás das costas; temos de escolher o candidato que nos sirva, mesmo que não vamos com a cara dele. Cunhal não mandou tapar a cara de Soares, para que Freitas não fosse eleito? É que, no meio da desgraça, um mal menor é melhor.
Carlos Melo Bento
2010.08.23
BARULHOS ESTIVAIS

Ruidoso saneamento de zona balnear, em Agosto, é descuido imprudente para não dizer pior. 12 meses tem o ano, e logo se escolhe o que toda a gente tem de gozar férias para dar cabo do silêncio das 8 da matina até às 5 da tarde? A culpa não foi da autarquia nem do empreiteiro mas do Tribunal de Contas. Do Tribunal de Contas! Esta justiça não tem remédio. O Tribunal de Contas encontrou uma coisinha e, essa coisinha levou dois meses a reparar. Esta justiça não acerta nem quando está parada nem quando anda! Claro que os dois meses foram até rápidos demais, conhecida como é a velocidade da burocracia nacional. Mas, Agosto!?! Vamos a ver se, entre o barulho da betoneira, o arranque e trabalho da Caterpillar (ou catrapilha, como cá se diz) e o trabalhar da estridente serra de pedra, se consigo falar doutra coisa que me atazana o miolo há tempos. Isto se o homem do cilindro parar um bocadinho a infernal máquina. Trata-se do Campo de S. Francisco, durante décadas chamado da República (o que agora seria mais apropriado). Quis o Bispo D. Manuel consagrar aquele espaço como Santuário, tal a devoção com que o nosso Povo o frequentava, todo o ano e, em especial, durante as grandiosas Festas do Senhor. Por ali, rios de lágrimas e algum sangue derramaram almas piedosas em cumprimento de promessas ou em penitência, na esperança que Antero não teve. É a todos os títulos um lugar sagrado. Mais do que a concorrência desleal, atentado ao ambiente (as bebedeiras imorais, vómitos nojentos) e o ensurdecedor batuque da pseudo música que por ali se toca até desoras, parece que a falta de respeito por um lugar dedicado por tantos de nós à oração e penitência, obriga à revisão oportuna do destino que lhe foi dado. Admiro e respeito muito a nossa Presidente da Câmara mas parece errado. Numa cidade tão grande, certamente haverá lugar mais adequado para animar os que gostam daquilo.
Carlos Melo Bento
17.08.2010
PRISÕES

As estatísticas dizem que mais de dois mil portugueses estão presos no estrangeiro. Quantos desses desgraçados serão açorianos é o que ainda se não sabe. Mas era bom que o Ministério dos Negócios Estrangeiros nos dissesse se há algum que necessite dos nossos cuidados. “Somos um Povo que quer ser respeitado”, gritou-se então, e, para isso, é preciso que em primeiro lugar nos demos ao respeito. Somos, como os portugueses de antanho, aventureiros dos sete mares, corre-nos nas veias o sangue dos Dias, dos Cabrais e dos Gamas e muitos de nós só sentem prazer e realização pessoal com as viagens por terra e mar. Em suma, gostamos de nos meter em sarilhos. Daí que é fácil calcular que, dos presos em terra estranha, estejam alguns dos nossos. Inocentes ou culpados, tanto faz pois que são do nosso sangue e compete-nos olhar por todos os que, sendo nossos, de nós precisem. Se não contarem connosco não podem contar com mais ninguém. Por aqui vem outra questão que venho levantando há trinta anos. Trata-se das relações directas com o estrangeiro, no nosso interesse exclusivo. Quando Natalino de Viveiros era Secretário, houve uma tímida tentativa de controlar o comércio externo e, durante alguns meses, a coisa funcionou até que os “intermediários” do costume se intrometeram e lá fomos proibidos de governar esse nosso importante factor de desenvolvimento, pela odiosa tutela centralista. Importações directas é coisa impensável (para eles) pois, como os bens têm de circular livremente no País, Lisboa perdia o controlo e, portanto, não. Resultado, uma boa parte da riqueza que poderíamos gerar deixou de o ser. Assim, a autonomia, tal como está, é mais colete do que alavanca do progresso. Outra questão é a Base e ainda outra a Diáspora. Nada nem ninguém se deve poder intrometer entre nós e tais assuntos. Senão, a autonomia não passa duma farsa.
Carlos Melo Bento
2010-08-10


terça-feira, 10 de agosto de 2010

Prisões

As estatísticas dizem que mais de dois mil portugueses estão presos no estrangeiro. Quantos desses desgraçados serão açorianos é o que ainda se não sabe. Mas era bom que o Ministério dos Negócios Estrangeiros nos dissesse se há algum que necessite dos nossos cuidados. “Somos um Povo que quer ser respeitado”, gritou-se então, e, para isso, é preciso que em primeiro lugar nos demos ao respeito. Somos, como os portugueses de antanho, aventureiros dos sete mares, corre-nos nas veias o sangue dos Dias, dos Cabrais e dos Gamas e muitos de nós só sentem prazer e realização pessoal com as viagens por terra e mar. Em suma, gostamos de nos meter em sarilhos. Daí que é fácil calcular que, dos presos em terra estranha, estejam alguns dos nossos. Inocentes ou culpados, tanto faz pois que são do nosso sangue e compete-nos olhar por todos os que, sendo nossos, de nós precisem. Se não contarem connosco não podem contar com mais ninguém. Por aqui vem outra questão que venho levantando há trinta anos. Trata-se das relações directas com o estrangeiro, no nosso interesse exclusivo. Quando Natalino de Viveiros era Secretário, houve uma tímida tentativa de controlar o comércio externo e, durante alguns meses, a coisa funcionou até que os “intermediários” do costume se intrometeram e lá fomos proibidos de governar esse nosso importante factor de desenvolvimento, pela odiosa tutela centralista. Importações directas é coisa impensável (para eles) pois, como os bens têm de circular livremente no País, Lisboa perdia o controlo e, portanto, não. Resultado, uma boa parte da riqueza que poderíamos gerar deixou de o ser. Assim, a autonomia, tal como está, é mais colete do que alavanca do progresso. Outra questão é a Base e ainda outra a Diáspora. Nada nem ninguém se deve poder intrometer entre nós e tais assuntos. Senão, a autonomia não passa duma farsa.
Carlos Melo Bento
2010-08-10

sábado, 31 de julho de 2010

Common Law

O Supremo Tribunal Federal americano é dos mais prestigiados tribunais do mundo, pela forma como é constituído, porque os seus Juízes são nomeados vitaliciamente pelo Presidente de entre os mais conceituados juristas e confirmados pelo Congresso, e ainda porque o sistema judicial parte dos tribunais para os professores das universidades e não o contrário como acontece connosco. Cá, os professores estudam nas suas torres de marfim e, depois, debitam o seu saber sobre os estudantes que, feitos legisladores, juízes ou advogados, os transformam em leis, sentenças ou pareceres. Lá, os Juízes estudam os casos, procuram os princípios de direito que lhes permitem julgar com justiça e, é dessa aplicação que a família jurídica retira os ensinamentos. Daí uma figura que entre nós não existe que é o precedente. Se um tribunal superior julgou de determinada forma, é muito difícil, de futuro, alterar essa orientação, o que empresta ao sistema uma segurança de que nenhum outro goza. Não vou tirar partido por um ou outro dos sistemas porque isso é uma discussão sem fim mas gostaria de partilhar a questão dos repatriados, já que o Supremo americano decidiu que não era correcto repatriar um emigrante legal por delitos menores mesmo que a sua condenação envolva droga. Nunca esperei outra coisa desse areópago prestigiado. Mas, é preciso quanto antes tirar daí as consequências devidas. Estamos com mil desgraçados que, sem raízes vivem num inferno e fazem outro da nossa vida. Como defendi desde sempre, temos que manter advogados criminais nos Estados Unidos preparados para lutar contra esses repatriamentos que são anti naturais, injustos e impróprios duma sociedade civilizada. Nem é preciso lembrar aos americanos que aqueles que lhes permitem aqui uma base militar não solicitada, têm o direito de ser tratados com mais favor do que os que se limitam a saltar-lhes a fronteira.
Carlos Melo Bento
2010-07-27
É Portugal, estúpido!
Um grande editorialista que escreve todos os dias num dos maiores diários portugueses, tentou interpretar a expressão usada pelo presidente Lula, de que certa empresa continuaria brasileira da Silva, como sendo de facto, brasileira. Infelizmente, os portugueses não percebem nada de si próprios. A expressão usada em todo o vasto Mundo Português, tem um significado único que não pode ser traduzido para qualquer outra língua. Estranho é que os portugueses da península precisem de a interpretar. Não perceberam nada da gigantesca obra dum pequeno Povo, genial, que descobriu metade do Mundo e para lá mudou parte de si próprio, com armas e bagagens e genes. Esse operário que se fez a si chefe do estado da maior colónia de portugueses (são cerca de dois milhões), limitou-se a ser português, que ali se chama, porque nós assim o quisemos, Brasil. Não mudou a essência. Mudou o nome. Mas continuou da Silva. Como os Açores são da Silva e a Madeira, e Cabo Verde, e Moçambique e Angola e Guiné, e Goa, e Timor. Como a metade do Mundo que descobrimos e repovoamos é um tudochinho grande, fomos-lhe dando diversos nomes para nossa orientação geográfica. Portugal ali chama-se Brasil e aqui, Açores, mas é tudo da Silva. Goste-se ou não. Eu gosto! Um Povo minúsculo que leva a efeito na História do planeta uma epopeia tão gigantesca que multiplica centenas de vezes o seu próprio tamanho é obra! Que o Zé da esquina o não perceba, tudo bem. Mas um dos maiores editorialistas? Ainda por cima vindo dum desses bocados repartidos!?! Mas não admira, as luminárias que mandaram regressar D. Pedro do Brasil, porque não tinha nada que lá estar a defender fantasias de auto governo, que nós em Lisboa é que sabemos, apressou o inevitável, com a agravante de ter atrasado décadas o entendimento dos vários membros do mesmo corpo.
Carlos Melo Bento
2010-07-31

terça-feira, 20 de julho de 2010

Vão Bugiar

Duas estranhas coisas ocorreram esta semana. Recebi um email dum ilustre desconhecido que quer à viva força conceder-nos a independência, devido aos altos custos e prejuízos que os Açores provocam a Portugal e o remetente está farto de nos pagar a paparoca. A outra foi uma notícia publicada nos nossos periódicos, pela qual se ficou a saber que a nossa Universidade dá um prejuízo enorme aos cofres do Estado. É até a universidade que mais prejuízo dá aos ditos, de entre todas as outras escolas superiores. Para a coisa parecer ainda mais feia, não dizem qual é o prejuízo total (porque isso daria vontade de rir se comparado), apenas revelam o que percentualmente gasta cada aluno. E pensar que o juro do dinheiro que nos gamaram da venda dos bens das Misericórdias, com que montaram lá o caminho-de-ferro, ainda rendia o suficiente para justificar o que a base das Lages não lhes dá em brinquedos bélicos e alcavalas, e o mercado paralelo, e os invisíveis, e o jogo, e outras coisinhas que o melhor é estar calado, vêm agora os do ensino sangrar-se em saúde contra os esbanjadores açorianos que querem ser gente como eles. Não têm dinheiro não estudam! Não têm posses para tirar um curso universitário, vão trabalhar para a universidade da vida que sempre sai mais barato e ainda são capazes de render algum. Estas notícias que com irritante e pouco inocente regularidade são enviadas para os nossos jornais e religiosamente publicadas sem qualquer crítica ou desmentido, destinam-se a criar em nós a ideia peregrina de que somos uns pobretanas que só vivemos como vivemos porque os perdulários centralistas nos dão dinheiro para sobreviver e, quando a fonte secar, vamos todos para a miséria pedir esmolas à porta da Sé de Lisboa. Vão mas é bugiar que se faz tarde e o calor aperta.
Carlos Melo Bento
2010-07-20

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Mulheres

A primeira-dama açoriana, Luísa César, foi ao Canadá em viagem política participar em evento que envolveu açorianos naquele ponto da Diáspora. Berta Cabral a primeira e mais importante autarca desta terra, foi Mordomo nas maiores festas da açorianidade. Por razões diversas foram criticadas. Sem razão, diga-se, pois tudo o que é feito em nome da unidade açoriana é imperativo categórico. Em 1976, proclamei no Teatro Micaelense, perante o delírio apoteótico duma multidão de bons açorianos que quem atentasse contra a nossa unidade cometia crime de alta traição. E quem faz o contrário contribui para o fortalecimento dos laços que nos unem. Somos um Povo que a história do centralismo vesgo obrigou a viajar qual judeu errante. Enquanto este tinha a sua Bíblia para identificar-se, nós temos os nossos dirigentes e a nossa religião, no Culto do Divino em que cremos intensamente, que nos une no Brasil, no Canadá, na América e na Califórnia (que se distingue não sei bem porquê) e seja onde for. As cidades gregas guerreavam-se constantemente, mas ligavam-nas os jogos, a religião e a língua. A nós liga-nos esta imensa alma açórica que se exprime na literatura, que se sente no fervor religioso à volta da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade que um costume indestrutível nos arregimenta em todo o lado, se pratica na maioria dos lares da Nação Açoriana aqui e nos quatro cantos do mundo onde pulsa um coração açoriano, e se manifesta na profunda solidariedade que nos une contra ventos e marés, contra tudo e contra todos. Luísa César respondeu à chamada de açorianas emigradas. Berta Cabral mantém aqui a chama imortal dum culto que somos nós mesmos na sua essência humana e divina. Isso não tem preço e o seu custo é o da nossa sobrevivência como Povo que quer ser gente.
Carlos Melo Bento
2010-07-12

domingo, 11 de julho de 2010

Treinadores

Na juventude dirigi o Micaelense Futebol Club, única equipa desportiva a que pertenci desde que me conheço. Tive então a honra de ter como jogador o pai do Pedro Pauleta, atleta tão bom como o filho mas sem as possibilidades internacionais que este conseguiu. Quando o Pedro se tornou famoso quis conhecê-lo e foi na casa daquele que nos encontrámos. Depois das apresentações protocolares do costume, disparei três perguntas que havia preparado. A primeira era saber que língua usavam os árbitros internacionais e como se entendiam. Disse-me que era o inglês e que às vezes percebiam outras não e, neste caso, eles ficavam para ali a falar enquanto os jogadores iam fazer pela vida em campo. A segunda, o que é que os treinadores lhes diziam no intervalo quando recolhiam às cabines. A resposta do nosso mais famoso atleta não se fez esperar. Bom, eles dizem, deves fazer assim e assado, mais pela direita ou pela esquerda, ou mais depressa ou mais devagar consoante os casos. E vocês fazem tudo o que eles dizem? Às vezes, senão não éramos nós que jogávamos, eram eles. Depois indaguei quem era para ele o melhor jogador do mundo. Respondeu-me que era o Figo, porque quando chegava ao fim do jogo estava tão fresco como se acabasse de entrar em campo. A partir dessa conversa nunca mais vi o desporto rei da mesma maneira. Os treinadores são como os maestros ou como os chefes políticos: eles é que têm a batuta, escolhem os colaboradores e decidem da sua continuação no cargo mas quem joga, toca e governa é o jogador, o músico intérprete e o político nomeado. É certo que o bode expiatório do resultado é sempre o treinador entendido nas várias vertentes em que esse nome pode ser usado. Mas o responsável pelo desastre nem sempre é só ele. 
Carlos Melo Bento
2010.7.7


quinta-feira, 1 de julho de 2010

Prémios

Bárbara Jacob Oliveira concluiu o ano lectivo de 2010, em Filosofia, na Escola Secundária Antero de Quental, com vinte valores. A Fundação Sousa d’Oliveira resolveu atribuir-lhe o prémio anual que por esta época costuma entregar aos melhores alunos, ou de história ou de filosofia. Faz pensar que, numa época em que a mediocridade campeia como coisa boa, ainda este povo produz cérebros e vontades capazes de a ultrapassar elevando-se ao patamar da excelência. Ainda está viva na memória dos da minha geração a ideia de que os alunos deveriam ser classificados apenas de aptos ou inaptos; as excelências eram aberração desprezível. Estamos pagando essa falta de tino de uns tantos políticos que brincam com a vida e com o futuro dos outros, convencidos de que só eles têm razão. Por isso, o ranking das nossas universidades é uma vergonha, por isso é que temos os prémios que temos que poucos compreendem e de que quase ninguém gosta mas, como na história do rei nu, todos fingem apreciar, vendo o que não existe e louvando ficções que burlões sem escrúpulos apresentam a troco de prebendas mais ou menos disfarçadas. O nosso povo, no geral, possui uma cultura bem escassa, a despeito dos grandes valores que desde sempre gerou, e trata sempre com grande animosidade aqueles que conseguem alçar-se a patamares mais elevados. Prefere o curandeiro ao médico, o bruxo ao diplomado, o audaz ao ponderado, aplaude a aparência e despreza a essência das coisas. Por isso estamos sempre em crise e nunca somos senhores do que é nosso. Nem no material nem no espiritual. Mas a esperança não está perdida. Continuamos a geral do melhor que há no mundo. Podem chamar-se Craig Mello ou Bárbara Oliveira mas continuam a sair da forja como produto natural dum povo são. Quem caçara que um dia nos puséssemos conscientemente na mão deles e só deles.
Carlos Melo Bento
2010-06-29

terça-feira, 8 de junho de 2010

O Ciclone dos Açores

Não consigo rever-me nesta selecção que vai defender as Quinas em África. Da última vez se me não engano (ou penúltima, já não sei) tínhamos lá o nosso Pauleta e vibrei tanto que me emocionei com o Ciclone dos Açores como lhe chamou alguém certamente inspirado. Dava arrepios quando ele marcava aqueles golos todos e abria os braços em asa de Açor vitorioso, volteando sobre a presa conquistada. Lembro-me como se fosse hoje dos três golos na Coreia que empolgaram o país em todo o mundo. Acabado o jogo, peguei no meu amigo Edmundo e lá fomos para S. Roque dar um abraço ao pai, ele também um grande jogador do Micaelense Futebol Clube, campeão no tempo a que presidi à direcção. Saudei o pai do ídolo com emoção e ele, envolvido naquela euforia geral, ligou para o filho para a Coreia. É bem de ver que, Pauleta, apesar de ter marcado os três golos, tinha falhado um que quase entrou. Pois sabem os amigos leitores o que é que aquele pai orgulhoso e eufórico disse ao filho no auge da sua glória, que praticamente todo o planeta aplaudia? Pois foi apenas isto: - Aquilo era bola que se falhasse?! Peguei no telefone e transmiti-lhe o orgulho que sentíamos por ele ter conduzido a selecção à vitória e desejei-lhe os maiores êxitos. Os especialistas do futebol (que são a maioria da nossa população activa) que consultei nunca conseguiram dar-me uma explicação satisfatória da razão pela qual o nosso herói desportivo nunca jogou num grande clube português. Sabendo o que sei, julgo conhecer a resposta que aliás para o caso importa pouco. De qualquer dos modos tenho pena que na actual selecção não esteja um açoriano pelo menos que foi um deles que marcou na Taça de Portugal o único golo lusitano. E por isso esta selecção não me empolga. Mas oxalá ganhe. Precisávamos duma vitória que nos tirasse do sufoco actual.
Carlos Melo Bento
2010-06-08

terça-feira, 1 de junho de 2010

Trovoada

A luta política que se desenvolve no continente da República a propósito das eleições para a presidência ou da crise, do desemprego e da reforma fiscal ou sobre os ataques ao primeiro ministro, parecem trovoada no horizonte mas, infelizmente, vai-nos cair em cima. Por mais que a nossa vida tenha sido bem governada, o Dr. Sérgio Ávila tenha vigiado com zelo e cuidado os nossos dinheiros que tenhamos cumprido razoavelmente as obrigações fiscais e que sejamos alheios ao disse que disse ou não disse sobre o Eng. Sócrates (hão-de me dizer qual foi o PM português que não serviu de bode expiatório dos desmandos nacionais), vamos levar pancada da grossa. Se estivermos unidos teremos algumas hipóteses de passar incólumes (vejam o exemplo de Passos Coelho), caso contrário iremos passar as do Algarve. Literalmente. O desprezo pela nossa própria existência vindo do alto, com as consequências que teve, impõe uma resposta digna. Quem nos tratou sempre tão mal não deve poder contar connosco. Direi como Cunhal disse em relação a Mário Soares, tapem-lhe a cara e votem nele, não deixem é o inimigo ganhar. Porque, não tenhamos dúvidas, caso se mantenha o actual Presidente da República, e qualquer que seja a cor do governo açoriano, ele vai tirar-nos o tapete, depois de colocar em S. Bento quem entender. Uma Ferreira Leite qualquer. Pessoa séria, não duvido, mas sem sensibilidade para os nossos problemas e pronta a tirar-nos as almofadas que se têm criado para amortecer a crua insularidade, nosso destino fatal. Objectivamente, há esse risco e não pensem que bajular pode desviá-los das suas convicções. Para eles somos tão culpados do deficit como qualquer esbanjador centralista. Vivemos acima das nossas possibilidades durante muitos anos e é justo que paguemos a factura à Europa. A mais ninguém.
Carlos Melo Bento
2010-06-01